2 de maio de 2008

“Em hum dos dias do mes de Outubro...”


“Em hum dos dias de Outubro” , como se lhe referem as testemunhas, não se lembrando do dia exacto, 1809, o coronel Lecor (ou ‘Licores’, como lhe chama o corregedor Manuel Gomes Ferreira Valente), ao ver recusadas cavalgaduras por parte do mestre-de-portas de Azambuja [na foto, o centro de Azambuja] - puxa “da sua espada, insultando-o ao mesmo tempo de palavras”. De acordo com as informações que o corregedor recolhe das várias testemunhas, “chegou o referido Coronel (Licores) ao excesso de lhe dar huma bofetada”.

Tendo a queixa sido inicialmente feita pelo próprio coronel ‘Licores’, o corregedor Manuel Valente havia-se deslocado à vila de Azambuja, demitira o Mestre-de-Portas, Isidoro José Correia, e ouvira 31 testemunhas. Como resultado da sua inquirição, chegou à conclusão que, de facto, o coronel ‘Licores’ espetou uma 'galheta' ao Sr. Isidoro Correia, não sem antes o ameaçar bradando a espada no ar.
Vale como atenuante ao nosso amigo ‘Licores’ que as testemunhas referiram insistentemente que o Mestre-de-Portas tinha o irritante hábito de não mostrar qualquer respeito pelos vários oficiais do Exército que por ali passavam. Isto é, as poucas que viram algo ou se lembravam efectivamente de ter visto algo acontecer.

Para o coronel ‘Licores’, nosso herói e sujeito do blogue perante vós, o resultado poderia ter sido pior, mas foi mau. Levou, através de D. Miguel Pereira Forjaz, uma piçada real, do Príncipe Regente Dom João, datada de 1 de Fevereiro de 1810:

Constando ao P.R. N. Sr. por Devassa, a que mandara proceder sobre a representação de V. Me. contra o Mestre de Portas da Villa d’Azambuja, que tendo este justamente recusado dar as Cavalgaduras que V. Me. lhe pedira quando por ali transitou em Outubro do ano próximo precedente, visto que se lhe não mostrava titulo que autorizasse huma semelhante requisição, passara V.Me. ao excesso de puxar pela espada em acção de maltratar, insultando-o justamente de palavras injuriosas: He S.A.R. servido mandar estranhar a V.Me. hum tão desagradável e irregular procedimento, esperando que pª o futuro haja de conter-se nos limites da moderação e prudência que sempre devem regular as acções de hum official militar.

Nessa altura, a pressão francesa sobre as fronteiras portuguesas faz-se sentir cada vez mais. O espectro de uma terceira invasão, mais forte que qualquer uma das anteriores está na mente de todos. A batalha de Talavera e consequente retirada para Portugal estava ainda fresca de meses.
O trabalho do Marechal Beresford de reformar o Exército Português e enquadrá-lo nas tácticas e práticas britânicas tinha começado apenas há alguns meses e esse mesmo Exército carecia ainda de confiança e experiência de combate face aos temíveis Franceses que controlavam a Espanha de Sul a Norte.

Apesar do povo português pouco demonstrar no exterior, próprio da raça, o medo estava no ar, ainda que por vezes mascarado de indiferença. “Os Franceses vêm aí!” Os militares sabem-no melhor que ninguém, principalmente os colocados na fronteira, em contacto com cidades e vilas extremenhas.
Passará ainda pouco menos de um ano até uma batalha começar a alterar tudo isso – Buçaco, onde por cada britânico morre um português, nem mais nem menos. Fica assinada em sangue, suor e coragem a mais velha aliança da Europa.

Carlos Frederico Lecor seguiu o seu percurso de sucesso...
Isidoro José Correia foi readmitido ao serviço e pouco admirará que outro oficial tenha também perdido a paciência...
Não sabemos se o Corregedor da Comarca de Santarém, Manuel Gomes Ferreira Valente, alguma vez veio a saber escrever o nome ‘Lecor’, ou se se acomodou ao mais familiar ‘Licores’...

1 comentário:

João Torres Centeno disse...

«...uma piçada...» é uma expressão tipica do vocabulario militar ( calão de quartel).
Muito me ri, porque já não ouvia tal expressão há muito tempo.
João Centeno