9 de maio de 2009

Carta: 1.6.1823 - A José Bonifácio Andrada e Silva - Parte 1

Tive a honra de receber a muito lisongeira e polida Carta que V.Exa. se dignou distinguir-me, fazendo o favor, que devidamente preso, de se me dirigir particularmente e em confidência, e tratando-me com expressões que até, se eu as merecesse, seriam boas, para me encherem de vãs glórias, e a que não tenho outro direito, senão o que se funda no mais ardente desejo de que me venham bem; e como V.Exa. quando assim me fala tem por objeto principal a Glória das Armas de Sua Majestade Imperial, e a Dignidade e Independência do Grande Brasil, contemplando-me sobremaneira, mas com muita justiça, em me julgar empenhado intimamente, e com todas as minhas potências, em tão Grandiosa Empresa, não haverá para estranhar que seja eu tão franco e leal com V.Exa., como V.Exa. tão nobremente o foi comigo: no quadro que V.Exa. vai ver, achará o que eu sou, e quando me pintarem a V.Exa. com outras cores, poderá V.Exa. conhecer a diferença que há do original.

Quando eu renunciei aos interesses de um País, que me viu nascer, que me enchera de Honras, e onde outras me esperavam, e me liguei aos do Vasto Império do Brasil, tive em vista não só a justiça da Causa Sagrada que abraçava, mas o convencimento de que assim defendia os legítimos direitos do Herdeiro do Trono Português contra os planos evasivos do partido Es- panhol, dominante nas Cortes de Lisboa, e porque no duro cativeiro de S.M.F. nada me parecia mais digno do que obedecer a Seu Augusto Filho, cujas virtudes e sublimes qualidades eu admirava: toda esta resolução, que é das que os homens da minha têmpera tomam uma só vez na vida, estava decidida a minha sorte, e quaisquer que fossem as alternativas da Política, elas já nada tinham comigo.

Então principiei para mim uma nova época na Carreira Política, e quase que me esqueci de todos os serviços que tinha rendido em mais de trinta anos de trabalho efetivo para, também, me esquecer dos sensabores e amarguras que eles me custaram, e se alguma vez recordava as contradições, que na minha complicada Comissão havia encontrado da parte de meus Subalternos, que me embaraçavam com uma Política oposta à minha; da parte do inimigo, que era necessário bater, e contemplar para que esta Província não ficasse um ermo, e nós todos por Canibais; da parte do passado Ministério pela impaciência com que ele, muito de longe do teatro da ação, queria forçar acontecimentos, que só tempo e paciência podiam fazer favoráveis, e porque alguma vez deu mais por vozes vagas, e acaso filhas de interesse particulares, do que pelas minhas informações oficiais; e da parte de vários outros agentes, que tiveram a influência de me mortificarem, era só para ter a consolação de dizer "bem, já tudo isto se acabou".

Esta não era a minha única satisfação, eu também cheguei a lisonjear-me, e V.Exa. me perdoará a presunção, de que sabida por S.M.I., e pelo seu Ilustrado Ministério a minha dedicação, e boa vontade, haviam os meus desvelos de procurar-me contentamentos na estação derradeira da minha existência, e não deixavam de me confirmar nesta persuasão documentos autênticos em Nome do Nosso Amável Imperador.

É verdade que várias Providências tomadas pela Repartição de V .Exa., e entre elas a da Comissão, que devia cuidar dos negócios deste País, ao passo que muito as respeitava, me causavam a maior penalidade; porque tinham um lado, que desgraçadamente foi o do maior e único efeito prejudicial aos Interesses do Império e de S.M., enquanto autorizam os outros, que me deviam respeitar, ou em mim deviam confiar, a faltar-me, e a pensarem, que eu era suspeito ao Ministério, e que ele desconfiava, ou fazia triste idéia das minhas operações; e sobre a Comissão, já que nada deverei ocultar a V.Exa., vem a propósito dizer que se ela não tem feito quanto mal podia, é porque eu o conheci em tempo, e o tenho, e continuarei a impedir.

O Síndico Procurador estava pelo seu lugar nas circunstâncias em que o considera a Comissão, e tudo o que ele me propusesse a bem do Império e desta Província seria por mim feito, como se fazia antes da Comissão; mas nem por isso aparecia a minha autoridade cerceada e vulnerável, nem estava ninguém fundado para julgar que S.M.I. tinha receios de mim.

O Brigadeiro Manoel Marques de Souza sempre manteve comigo a melhor inteligência, e se como Militar obedecia as minhas ordens, nunca por ele me foi proposta coisa que eu não aprovasse, em tudo isto porém era; conservada a ordem militar.

(continua)

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