23 de julho de 2011

Carta de 12.3.1809 a Miguel Pereira Forjaz

No meu esforço de trazer a lume as pequenas coisas relativas a Carlos Frederico Lecor, venho hoje com esta simples carta de um comandante de brigada ao Secretário de Estado (hoje seria Ministro). Uma das suas linhas é intrigante, no que Lecor diz preferir receber as gratificações portuguesas em detrimento das inglesas. Uma posição ideológica decerto.

Illmo. e Exmo. Sr.

Tenho a honra de participar a V Exª que na Tesouraria não sabem em que classe me hão-de contemplar, relativamente à Tabela que regulas as gratificações por me achar fora do meu Regimento e comandando uma Brigada, e depois de algumas dúvidas me queriam pagar como Coronel tirando-me a ratificação que S. A. Real me fez a Graça, por intervenção de V Exª de vinte mil réis por mês.

Eu prefiro esta à Gratificação Inglesa ficando desta sorte sem entrar no número de gratificados por aquela Nação.

Igualmente, não dá aos meus Ajudantes d’Ordens gratificação mais do que a de doze por cento, por se acharem fora do Regimento, desta forma não haverá quem queira servir de Ajudantes de Ordens, em geral todos quererão ir para os seus respectivos Corpos, parecendo-me que estes têm tanto trabalho, ou mais, do que os que servem juntos dos seus Regimentos. = Eu não requeiro nada a V exª a este respeito, porque tanto eu como eles, estamos por tudo porém nem todos pensarão assim e é bom que V exª saiba as dúvidas que há, com as quais haver ao descontentes.

Deus guarde a V Exª p.[or] m.[uitos] a.[nos] = Tomar, 12 de Março de 1809. = Illmo. e Exmo. Sr. D. Miguel Pereira Forjaz. = Carlos Frederico Lecor, Coronel Comandante de Brigada.

Itinerários de Carlos Frederico Lecor - 1810

ITINERÁRIOS - 1810

Fev.1810-Set.1810 – Comando de tropas na Beira (2.º período) - AHM
18.2.1810 – Ofício de Wellington (assinado em Viseu), informando Lecor que irá tomar o comando de um corpo junto ao Zézere (formando uma 2.ª linha atrás do Coronel Wilson, em Castelo Branco), constituído pelo RI n.º 13, e as Milícias de Tomar, Leiria e Santarém. Primeiramente, deveria tomar Quartel-general em Tomar, e dispor as suas tropas por forma a defender a passagem do Zêzere.
24.2.1810 – Tomar
12.3.1810 – Tomar
28.3.1810 – Castelo Branco (primeira carta a Miranda Henriques, após LLL chegar a Tomar, saindo de Castelo Branco)
1.4.1810 – Castelo Branco
3.4.1810 – Castelo Branco
8.4.1810 – Castelo Branco
12.4.1810 – Castelo Branco
23.4.1810 – Castelo Branco
30.4.1810 – Castelo Branco
2.5.1810 – Castelo Branco
17.5.1810 – Castelo Branco
29.5.1810 – Castelo Branco
3.6.1810 – Castelo Branco
16.6.1810 – Castelo Branco
20.6.1810 – Castelo Branco
28.6.1810 & 4.7.1810 - Milícias de Castelo Branco, Idanha e Covilhã postas sobre o comando de Lecor, de acordo com ofícios de Beresford (Soriano II/III/46-47)
1.7.1810 – Castelo Branco
5.7.1810 – Castelo Branco
8.7.1810 – Castelo Branco
10.7.1810 – Castelo Branco
12.7.1810 – Castelo Branco
15.7.1810 – Castelo Branco
18.7.1810 – Castelo Branco
21.7.1810 – Castelo Branco
24.7.1810 – Castelo Branco
26.7.1810 – Castelo Branco
20.9.1810 – Chega a Espinhal, vindo do Fundão, via Pampilhosa da Serra, em marchas forçadas. A 22, deveria estar em Ponte de Murcela.
27.9.1810 - Bussaco – Cte. Brigada (Caç. 5 + Inf. 12, 13) + Milícias.
29.9.1810 – Ponte de Murcella
(retirada de Ponte de Murcela para as Linhas de Torres, na coluna do General Hill)
16.10.1810 – campo da Serra da Muxeira
22.10.1810 – campo da Serra de Alhandra (“Commandante da 3.ª Divisão do Exército da Direita”).
18.11.1810 - A posição da Divisão de Milícias, comandanda por Lecor, era Alhandra (1.ª linha). Esta divisão fornecia-se no Depósito de Povoa (um dos três em funcionamento).
20.11.1810 – Sobral Pequeno (próxima a Sobral - actual Sobralinho, no concelho de Vila Franca de Xira)

Itinerários de Carlos Frederico Lecor - 1809

No início do ano de 1809, o então Coronel Carlos Frederico Lecor exerceu o comando militar da Beira Baixa, substituindo Francisco da Silveira Pinto de Fonseca (futuro Conde de Amarante). Em Abril, vai com a divisão para a zona de Abrantes, para treino.

ITINERÁRIOS 1809

Fev.1809-Maio.1809 – Comando de tropas na Beira (1.º período) - AHM
2.2.1809 – Almeida
3.2.1809 – Almeida
3.3.1809 – Idanha-a-Nova
7.4.1809 – Idanha-a-Nova. Informa que a vanguarda da sua divisão chegará a Abrantes no dia 9.
15.4.1809 - Abrantes
17.4.1809 – É citado em Ordem do Dia do Marechal Beresford, “pela boa apparencia em geral das Tropas debaixo das suas ordens”, após revista de tropas em Punhete, no dia 15 de Abril.
30.4.1809 – Abrantes
1.5.1809 - “(...) Forças de Abrantes até Villa Velha, às ordens do coronel Lecor: Caçadores n.º 1, 576; Caçadores n.º 2, 405; Caçadores n.º 5, 296; milícias de Santarém, 815; milícias de Thomar, 980; milícias da Covilhã, 993; dois esquadrões de cavallaria, 220; oito peças de calibre 3 (...)”. total: 4065 – fonte: ofício de Beresford (Soriano II/V/i/428).
15.5.1809 – Abrantes
19.5.1809 – garganta de Milhariça
23.5.1809 – Perdigão
5.6.1809 – Perdigão
6.6.1809 – Perdigão
10.6.1809 – Perdigão
11.6.1809 - Perdigão
2.7.1809 - Pinhel
8.7.1809 - Pinhel
3.8.1809 – José Ribeiro de Almeida é nomeado Comissário de Viveres na Brigada do sr. Lecor.
15.9.1809 - Punhete (*)
Outubro.1089 [Em hum dos dias dos mes de,] – Azambuja. O Mestre de Portas de Azambuja, Isidoro José Correia, recusa-se a fornecer Lecor com cavalgaduras, Lecor puxa da espada, insulta-o com palavras e dá-lhe uma bofetada.
2.10.1809 – Punhete. Comandante de Brigada – Caç. 4, 6 (841 efectivos).
4.11.1809 – Punhete
15.11.1809 – Punhete
21.11.1809 – Representação de Lecor contra o Mestre de Portas de Azambuja, relativos aos factos passados e que leva a inquirições a testemunhas em Dezembro.
2.12.1809 - Punhete
16.12.1809 – A sua brigada (Caç. 4 e 6) é numerada como a terceira de Caçadores, por Ordem do Dia, em Tomar.
22.12.1809 – o Marechal Beresford, em Ordem do Dia, reflecte sobre a falta de preparação dos Caçadores, mas testemunha “a sua satisfação ao Coronel Lecór pela maneira, e applicação, que tem empregado sempre para o melhoramento das Tropas debaixo das suas ordens” (Caç. 4, 6).

(*) Punhete é hoje conhecida por Constância.

24 de maio de 2011

Mais acerca do Pai de Lecor

Descobri agorinha mesmo, anúncio publicado na Gazeta de Lisboa, n.º 2 de 9 de Janeiro de 1748 [ver em GoogleLivros]. Já escrevi sobre o livro de Luiz Pedro Lecor anteriormente.

Um dos nomes referidos, João Francisco Lecor, aparece-me pela segunda vez. Já José Acúrsio das Neves se refere a ele nas Noções Históricas, Económicas e Administrativas (1827), como tendo feito um pedido à Junta de Comércio para fundar uma fábrica de botões de metal, isto em 1760. Particularmente interessante é que Acúrsio das Neves aponta-o como português de nascimento, o que poderá indicar que a família Lecor já tinha membros em Portugal há algum tempo. Pista fresquinha, portanto.

18 de maio de 2011

Propostas para as Milícias (1811)

Illmo. Senhor,
Tenho a honra de remeter a V. S.ª incluso o projecto sobre o augmento do Soldo da Officialidade dos regimentos de Millicias que S. Ex.ª o Illmo. e Exmo. Sr. Marechal [de Campo Maior, Beresford] deseja vêr, o qual estimarei seja da aprovação de S. Ex.ª para que se possa remediar os meios de subsistencia tão necessarios á Officialidade de Millicias, para que sirvão de mais boa vontade, e se possa tirar destes Corpos a maior vantagem possivel.

Deus Guarde a V. S.ª
Castelo Branco, 31 de Julho de 1811

Illmo. Sr. Manoel de Brito Mozinho

Carlos Frederico Lecor
Brigadeiro

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Os Corpos de Millicias compoem-se de 8 companhias havendo em cada huma dellas 12 soldados aggregados, os quaes se ajuntão quando o Regimento se reune para formar huma 9.ª Companhia, que se chama de Granadeiros, para o commando da qual há um Capitão, e mais officiaes e officiaes inferiores correspondentes.
Os Regimentos devidem-se em 2 Batalhões, dando-se a cada hum 1 Tenente Coronel, e 1 Ajudante: formando-se a Companhia de Granadeiros na direita do 1.º Batalhão.
Numero impar de Pelotões cauza grande desarranjo nas manobras e inconveniente que sabiamente foi remediado nos Batalhões de Cassadores pelo Ilmo. e Exmo. Senhor Marechal.
A formação de 2 Batalhões não he menos dificultoza principalmente para os officiaes de Millicias, que em geral são tirados de suas cazas sem nunca terem servido e como passam a maior parte do tempo licenciados jamais se poderá esperar dos Officiaes superiores de Milicias grandes conhecimentos tacticos acrescendo que até ao prezente ainda não pude fazer trabalhar aos Regimentos com 2 Batalhões por haver nos Corpos de Millicias 1 proporsão guardada e maiores descontos no seu estado completo do que nos Corpos de Linha.
A officialidade de Millicias em geral não he tão abastada quanto se pença: Eu vivo entre elles vai para tres annos, e conheço que passão necessidades reaes, por não poderemja ser socorridos de suas arruinadas cazas, e dispersas familias; razão porque vivem em grande descontentamento, e desejão as suas Demissões, de que talvez dependa toda a falta que se encontra nos Corpos de Millicias.
Contemplar a sorte desta classe de Defensores he de absoluta necessidade, assim como a de dar organização aos Corpos de Millicias, que seja analoga aos conhecimentos de que he susceptivel a sua Officialidade.
Estes dois importantes objectos podem se remediar fazendo as duas alterações seguintes; com as quaes a forsa dos Corpos não diminue.

Primeira = Abulir a Companhia de Granadeiros.
Segunda = Reduzir a formação a hum só Batalhão.

Da primeira conseguese a vantagem de trabalhar com numero par de Pelotões = O ficarem os soldados aggregados servindo nas suas companhias respectivas, o que fazem com repognancia na de Granadeiros = O pouparse o Soldo dos Officiaes, Officiaes inferiores, e Tambor da mesma Companhia.
Da segunda = Tirase a vantagem de se facilitar a execução das manobras a Officialidade Superior das Millicias, não faltando ao que determina o Regulamento, podendose poupar os Soldos, Cavalgaduras de hum Tenente Coronel, e de hum Ajudante, cujo importe junto ao que se pode economizar na Companhia superflua de Granadeiros offerece o meio de se augmentar o Soldo à Officialidade sem despeza da Real Fazenda, como se vê na Conta Corrente junta.

Castello Branco, 31 de Julho de 1811
Carlos Frederico Lecor
Brigadeiro

in: Arquivo Histórico Militar, AHM-DIV-1-14-175-66 [imagens 1-3]

9 de maio de 2011

Desfile de 18 de Dezembro de 1815

"LISBOA 18 de Dezembro.

A Brilhante parada que honrem, por motivo do anniversario da nossa Augusta Soberana, fizerão as Tropas de Linha e Milícias desta Capital , ás quaes se veio reunir a nova Divisão dos Voluntários Reties do Príncipe, commandada em Chefe pelo Tenente General Carlos Frederico Lecor, apresentou ao numeroso concurso dos habitadores desta Cidade que a vèlla se apinhou , hum dos mais pomposos espectáculos pelo aceio e garbo marcial de todos os Corpos

Entre os de linha se não podia facilmente designar a algum delles a palma da primazia; pois se notava em todos o particular esmero dos seus respectivos Chefes em apresentarem as tropas do seu commando dignas do sempre illustre nome de Guerreiros Portuguezes. Ao vêr estes aguerridos Soldados, despertavão-se em nossa imaginação as victorias que coroarão de louros os guerreiros Portuguezes no Douro, no Bussaco, em Albuera , em Ciudad-Bodrigo, em. Badajoz, em Arapiles, em Vittoria, nos Pyrenéos, cm S. Sebastião, no Nivelle, Nive, e Adour, em Orthez, e nas margens do Ets e Garona, em toda a parte em fim onde na ultima gloriosa luta lhes foi preciso combater, devendo-lhes em grande parte Portugal a independência, a Hespanha a liberdade, a França o paternal Governo dos Bourbons, a Inglaterra e o seu Grande Wellington trofeos e gloria immortal pela invencível força com que, unidos os Portuguezes e Bretões debaixo do commando de Arthur, contrastarão intrépidos os bellicosos Exercitos e os mais hábeis Generaes do inimigo commum da Europa.

Entrarão pois sucessivamente as Tropas de Linha e Milicias na espaçosa Praça do Terreiro do Paço, e ruas immediatas, depois das 11 horas, e ficou reservada a Praça do Rocio para os quatro Batalhões de Caçadores, que formão as duas Brigadas do Corpo de Voluntários Reaes do Príncipe, que perto da meio-dia entrarão e se formarão na dita Praça, attrahindo particular attenção dos espectadores a firmeza, continência marcial, e alto grão de disciplina a que este Corpo tem sido elevado pelo seu illustre Commandante em Chefe, e pelos Brigadeiros Avellez, e Pizarro, que vinháo á frente das suas respectivas Brigadas. - Chegou pouco depois á Praça do Rocio o Illustrissimo e Excelentissimo Tenente General Francisco de Paula Leite, Governador das Armas desta Capital e Provincia, e cumprimentando o Illustrissimo e Excelentissimo Tenente General Lecor, feitas as continencias pela tropa, e passada revista aos quatro Batalhões, se encaminhárão ambos os Generaes ao Terreiro do Paço, d’onde voltárão a postar-se, com os seus luzidos Estados Maiores, (unindo-se-lhes o Illustrissimo e Excelentissimo Tenente General, d’Artilheria, José Antonio da Rosa), junto do Portão do Palácio do Governo.

[pormenor do Terreiro do Paço, ou Praça do Comércio, hoje]

Tinha dado o Castello de S. Jorge e as Fortalezas a costumada salva ao meio-dia; e á huma hora em ponto começárão no Terreiro do paço as tropasa as descargas, principiando cada huma das tres pelos Parques de Artilheria seguida immediatamente em toda a linha da Infanteria. - Acabadas as descargas passárão os Generaes Leite e Lecor ao meio da Praça, onde o primeiro entoou por tres vezes o Viva á nossa Augusta Soberana, a que em toda a linha as tropas e o povo correpondêrão com enthusiasmo; acção que repetio o General Lecor, com as mesmas circunstancias. Passou depois o Governador das Armas, no lugar que anteriormente occupava, e principiárão as tropas a desfilar pela sua frente na ordem seguinte:

Rompião a marcha dois Esquadrões de Cavallaria dos Regimentos n.º 1 e 4, e após elles a Cavalaria dos Voluntarios Reaes do Commercio; vinha depois hum Parque de Artilheria Montada, do Regimento de Artilheria n.º 1, de 3 peças e 1 obuz; e, formados em columna, começárão a marchar os Voluntarios Reaes do principe,a cuja frente se [posicionou] o seu Comandante em Chefe, que, conduzindo a Divisão até principiar a desfilar pela frente do Governador de Armas, passou a tomar lugar ao lado deste, (ao qual estava tambem unido o Tenente general Rosa), o que igualmente (...) fazendo os dois Commandantes das Brigadas desta Divisão. - Marchárão em seguimento della os dois Batalhões de Artilheiros Nacionaes Oriental e Occidental,e atraz delles hum Parque de 5 peças e 1 obuz, do sobredito Regimento de Artilheria n.º1. - Forão avançando immediatamente a Brigada de Infantaria n.º 1 e 16, outro Parque de 3 peças e hum obuz, e a Brigada n.º 4 e 13, o Regimento da Guarda Real da Polícia, e o ultimo parque de Artilheria Montada de 5 peças e 1 obuz. -Desfilárão consecutivamente os dois Regimentos de Milicias Oriental e Occidental, finda a passagem dos quaes se retirárão o Governador das Armas, e os Tenentes Generaes Lecor e Rosa, ficando o innumeravel concurso regosijado de vêr este esplendido apparato militar, que no seio da doce paz se não mistura com funestas recordações."

In: Gazeta de Lisboa, n.º 299, 19.12.1815

5 de maio de 2011

Piada de Caserna


Certo official francez disputando com um suisso, arguio de que os da sua terra combatião por todos os partidos, huma vez que lhes pagassem, sendo certo que os francezes nunca combatião senão pela honra. “He verdade, respondeo o suisso, ninguém combate senão por aquillo que mais lhe falta”.
in: O Archivo Popular, n.º 6, Sábado, 6.2.1839

15 de janeiro de 2011

Lorenzo Caleppi, ou como o audaz Arcebispo de Nisibi enganou um dia Junot

“O tempo na verdade era delicioso, e convidava a viajar; em huma bella manhã da Semana da Páscoa procurou-se o velho, e elle tinha abalado com os trastes. Com effeito teve a habilidade de transportar-se para Inglaterra, com quasi tudo o que lhe pertencia, em hum navio, que sahio licenciado por Junot.”
José Accursio das Neves, História Geral da invazão dos Francezes (1810), p. 222.

Assim partiu ‘à italiana’ o velho italiano Monsenhor Lorenzo Caleppi (1741-1817) da Lisboa ocupada de 1808, não sem antes escrever uma carta ao general Junot, agradecendo-lhe a simpatia, mas prometendo-lhe que “agitado pelos gritos da [sua] consciência” (1), deveria partir para o Brasil e cumprir o seu papel de Núncio Apostólico junto à corte legítima.

Após não ter conseguido embarcar na esquadra que levou os nossos melhores para o Brasil nos últimos dias de novembro de 1807, Monsenhor Caleppi ficou em Lisboa, único embaixador que o fez, e conspirou activamente com os ajudantes de ordens do Marquês de Alorna, o nosso Carlos Frederico Lecor e o major Bocaciari (de triste destino, a falar aqui em breve), para que todos fugissem para a esquadra inglesa nas costas portuguesas. Os três não conseguiram convencer Alorna, já preso aos franceses, não sem remorsos (outra história!), mas por alturas da Páscoa, em torno do dia 18 de Abril, lá tomaram o caminho do exílio, recusando o jugo revolucionário. Caleppi escusou-se por carta a Junot, que estava doente e não poderia ir a uma festa, mas nessa mesma noite, vestido de pescador lá ia ele ao seu destino.

Lorenzo Caleppi nasceu em Cervia (Ravenna, na costa adriática da Itália) em 29 de Abril de 1741, filho do Conde Nicola Caleppi e Luciana Salducci, e foi ordenado padre em 1772. Rapidamente, escalou a hierarquia do Vaticano, assumindo-se como um dos mais promissores diplomatas da Igreja. Em 22 de Fevereiro de 1797, esteve presente e assinou o Tratado de Tolentino [na foto ao lado, Caleppi é o segundo a contar da esquerda], com que a Igreja capitulou de vez perante o Directório Francês e Napoleão.

Segundo na comitiva do Vaticano na negociação e assinatura do Tratado de Tolentino, atrás do Cardeal Alessandro Mattei, o próprio Napoleão, tendo-o conhecido na Itália uma vez (provavelmente durante as negociações ou a assinatura do tratado), observou que “toda a arte do mais subtil xeique turco era mera simplicidade comparada com a astúcia de Caleppi” (2). Ao assinar, numa ocasião, um tratado com Murat, Caleppi colocou um par de óculos escuros verdes, para que não se visse o seu semblante. Para Laura Junot, isso mostra o homem.

Em 23 de Fevereiro de 1801, é eleito Arcebispo de Nisibi, sendo consagrado na catedral de Frascati. Nomeado Núncio para Lisboa nos finais desse mesmo ano, chega a Lisboa no dia 22 de Maio de 1802.

Em 1805, Laura Junot conhece-o em Lisboa, por ocasião do breve consulado do seu marido na Corte, e diz dele que “a sua astúcia combinada com a sua extensa e profunda informação, tornava a sua companhia extremamente interessante”, e que “fazia tudo [...] com bom gosto, sem qualquer indício de servilismo”. (3)

Monsenhor Caleppi, como um dos dois únicos embaixadores remanescentes em Lisboa (o outro era o da Rússia, e que se reúne à Corte no Rio, penso que em 1812, por via dos Estados Unidos), e por sua própria inclinação política, tudo fez junto de variadas altas instâncias da sociedade portuguesa, para que fugissem para o exílio, mas com poucos resultados, acaba por escapar ele próprio, deixando o seu próprio n.º 2 na Nunciatura, Vincenzo Macchi, futuro cardeal, para ser posteriormente expulso por terra até aos Pirinéus. Caleppi leva com ele, pouco tempo depois, pelo menos o nosso herói Carlos Frederico Lecor e José Tomás Bocaciari, os ajudantes de ordens de Alorna.

Na sua carta a Junot, jogando o mesmo jogo cortês do comandante da ocupação estrangeira, Caleppi despede-se de Junot, trocando-lhe as voltas, decerto com um sorriso enquanto a ditava:

“A negação dos passaportes, para poder embarcar-me, soffrida pelo espaço de quatro mezes, os incommodos, e tudo quanto tenho supportado neste intervallo, sem os poder conseguir, me tem muitas vezes feito recear, que alguma calumnia tenha enganado a V. Excelencia, [...] sobre a minha pertenção. [...] Por felicidade minha V. Excelencia nestes ultimos dias me fez o maior obséquio, certificando-me repetidas vezes pela sua honra, que nada, absolutamente nada, havia contra a minha pessoa, e que a negação dos passaportes, para o meu embarque, era sómente huma medida, não devendo a França (me dizia V. Excelencia) facilitar aos Embaixadores meios de transportar-se a hum paiz, com quem estava em guerra.” (4)

Lá se foi Caleppi, com certeza desenhando na mente a cara do grande Junot, após brilhante saída de cena. Essa mesma saída de cena é fortemente ovacionada no Rio de Janeiro, quando o Núncio lá chegou, assumindo o seu papel enquanto embaixador da Santa Sé, o primeiro do novo mundo.


Em 8 de Março de 1816, já com a guerra terminada na Europa, e uma prestes a decorrer no Rio da Prata (no comando, o nosso Carlos Frederico Lecor), Lorenzo Caleppi é criado Cardeal, embora nunca tenha recebido o solidéu vermelho. Dez meses depois, a 10 de Janeiro de 1817, um mês antes de Lecor conquistar Montevidéu, o Arcebispo de Nisibi falece com quase 76 anos de idade. Como sua última vontade, é sepultado no franciscano Convento de Santo Antônio [na foto], no Rio de Janeiro.

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(1) Carta de Lorenzo Caleppi a Junot, 18.4.1808, in: José Accursio das Neves, História Geral da invazão dos Francezes (1810), p. 222-227.
(2) Laura Junot (1832), Memoirs of the Duchess d’Abrantes, Vol. IV, London: Richard Bentlet, pp. 242-245 [minha tradução].
(3) Ibidem
(4) Carta de Lorenso Caleppi a Junot, 18.4.1808, op. cit.

14 de janeiro de 2011

O Pai de Lecor, ou a Educação de Meninos (1746)

Há três posts atrás [aqui], versando sobre o período formativo de Carlos Frederico Lecor, falei em dois pequenos parágrafos acerca do pai, Louis Pierre, ou Luís Pedro Lecor . Este terá nascido por volta de 1720, em Paris, na paróquia de Saint Eustache.

Em 1747, encontramo-lo pela primeira vez em Portugal, pois é neste ano que ele edita o Livro de educação de meninos ou ideas geraes e definiç[ão] das cousas que devem saber [ficha na BNP]. Este livro é, fora dos seus dois casamentos e 5 baptismos dos filhos, uma das únicas duas pista s que nos restam do homem , juntamente com o Privilégio Real por dez anos outorgado por Dom João V, nos seus livros de Mercês, sobre a mesma obra.

Sabemos então que Louis Pierre Lecor era tradutor, livreiro e pedagogo. Tradutor, porque a obra é traduzida do francês, apesar de ser acrescentada e diminuída onde o mesmo achou adequado. Livreiro, porque Luis Pedro pediu e obteve os direitos autorais sobre a obra pelo prazo de dez anos. Pedagogo pela própria natureza do livro, onde através de 49 capítulos, ele versa sobre tudo o que os meninos cristãos devem saber.

O livro é curiosamente dedicado a Sua Alteza a então Princesa da Beira, Dona Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança, futura Rainha Dona Maria I (tinha 12 anos em 1746), [na foto, em baixo] conforme o caro leitor poderá aferir da dedicatória ao início da obra:

«Serenissima SENHORA,
OFFEREÇO a V. A. este Livro, não só para acredita-lo, estampando nelle o Augustissimo nome de V. A., que basta para lhe adquirir o mayor credito, e honra; senão também, porque, sendo a sua matéria a Educação das idades tenras, não seria sufficiente para causar a utilidade, q promette, se juntame~te com o dictames, q prescreve, se não visse nelle o Exemplar da educação mais egrégia, mais regulada, e mais perfeita, qual he a q no Augustissimo Nome de V. A. se insinua. Dictame he Evangelico, que devemos emprehender assemelharnos ao Exe~plar Divino; não porque esta semelhança se possa cabalmente conseguir, mas para que com este Exemplo á vista cheguemos áquella altura, que a nossa possibilidade alcança: e por semelhante modo offerecendo eu a V. A. Este Livro, nelle proponho hum Exemplar, que, supposto não pode ser completamente igualado, póde com tudo servir de estîmulo, para que os poucos annos se encham de progressos heroycos, vendo os que V. A. Tem feito em annos tão poucos não sem admiração, e pasmo deste Reyno, o dos estranhos, aonde tem chegado os eccos dos exercícios virtuosos, e litterarios, com que V. A. não só vence a agilidade, com q o tempo corre, adiantando-se mais que elle, mas também promette vencer a sua voracidade; porque a pesar della vivirá eterno, e respeitado no Templo da Memória o Augustissimo Nome de V. A. Digne-se pois V. A. De aceitar esta offerta, que será outro publico monumento da benignidade, com que V. A. Se distingue, aceita-la, sendo cousa tão pequena. Guarde Deos a Real Pessoa de V. A. Para credito desta Monarchia.
Luis Pedro Le-Cor»
Tive o prazer de poder consultar em micro filme a obra, e ter uma excelente perspectiva do contexto ideológico que Carlos Frederico terá usufruído e que ajudou a formar o homem que estudamos neste blogue. Com pouca surpresa, verifiquei que a educação proposta por Luís Pedro é própria do Antigo Regime, conservadora e monárquica, mas polvilhada já de um forte carácter iluminista, como o prova o extracto seguinte:

«(...) he necessário abrir-lhe os olhos do entendimento em mil cousas, q sendo-lhe precisas; lhe podem também ser deleitáveis; pois do contrario nasce a ignorância, com q até certa idade se não distingue dos brutos, não percebendo o que se lhes diz, nem sabendo responder ao que se lhes pergunta; porque o juízo não sabe usar do que não conhece, assim como entre as trevas não tem uso a vista.
»

Em formato pedagógico e acessível de Pergunta/Resposta, Luis Pedro Lecor sumariza as três coisas vitais que um menino deve saber e conhecer: «primeira, deve conhecer-se assi mesmo: segunda, deve conhecer a Deos, que he seu Creador: terceira, deve conhecer as creaturas, que forão feitas para o homem».

Como aprende o homem então a conhecer-se: «Estudando primeiro, do que he composto: segundo, de onde vem: terceiro, porque está no mundo: quarto, em q há de reduzir-se, depois de não estar nelle».

Concluo um já extenso post, com uma impressão do delicado balanço que noto em Luis Pedro Lecor para não conflituar com a igreja católica portuguesa. Na obra, é dito que o Sol gira em torno da Terra, teoria essa (Geocentrismo) que nesta altura já estaria em descrédito, até porque 11 anos depois, o Igreja abandonou a proibição de menções ao heliocentrismo. Penso isto não por algum juízo de valor 260 anos depois, mas porque noto em toda a obra uma preocupação de Luís Pedro na apresentação adequada e o mais moderna possível dos aspectos científicos que ensina.