20 de janeiro de 2013

Entrada em Montevidéu - 20.1.1817

"Na segunda-feira, 20 de janeiro de 1817, ao romper do sol, se formaram os Corpos no maior asseio possível, a fim de seus respectivos Comandantes lhes passarem as competentes revistas, e depois de reunida toda a Coluna, pôs-se ele em marcha para a Capital da Banda Oriental.
Às 9 horas, o Major Manoel Marques de Sousa, à frente de um esquadrão de cavalaria da Legião de São Paulo [oficialmente Legião de Voluntários Reais, criados em 1775 - futuro 3.º Regimento de Cavalaria de 1.ª linha do Império] e de outro de Voluntários do Rio Grande [criados em Vaimão, RS, em 1770 - futuro 4.º Regimento de Cavalaria de 1.ª linha do Império], fez alto junto às trincheiras da cidade.
Às 11 horas, chegou o Tenente-General Lecor com o grosso da Divisão de Voluntários Reais e as Tropas brasileiras postas à sua disposição.
O Síndico Bianquini, ao entregar-lhe as chaves da cidade, disse:

De acordo com a vontade do povo, de que somos representantes, entregamos as chaves desta muito fiel, reconquistadora e benemérita Cidade de São Filipe e Santiago de Montevidéu ao muito alto e poderoso Príncipe D. João VI, rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, evocando a proteção de suas armas para esta Província infeliz, certo de que Sua Majestade Fidelíssima respeitará as nossas leis, usos e costumes, e esperando que, no caso de resolver Sua Majestade para o futuro a evacuação desta praça, devolverá ao Cabildo estas chaves que dele recebe.

O General Lecor, saudado como libertador, [...], foi conduzido debaixo de pálio e assim levado à Matriz, onde se entuou Te-Deum; depois a Tropa percorreu algumas ruas do centro da cidade e, à excepção da Coluna de Vanguarda que se aquartelou na Cidadela, foram as Unidades formar uma linha cerca de uma légua da praça, cobrindo os subúrbios, todos com postos avançados.
Consumira a Divisão de Voluntários cerca de sete meses incompletos para deslocar-se de Santa Catarina até Montevidéu."

Excerto tirado de: Gen. Paulo de Queiroz Duarte (1984), Lecor e a Cisplatina 1816-1828 (Volume I), Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército - p. 247
Imagem, de gravura de Gilberto Bellini, desconheço a fonte de onde foi retirada (encontrei-a na wikipedia em língua espanhola), representa a entrada das tropas luso-brasileiras em Montevidéu.

Tropas sob o comando de Lecor à entrada em Montevidéu

Divisão de Voluntários Reais
1.ª Brigada de Infantaria:
- 1.º Regimento de Infantaria ... 1,040
- 1.º Batalhão de Caçadores ... 712
2.ª Brigada de Infantaria:
- 2.º Regimento de Infantaria ... 1,076
- 2.º Batalhão de Caçadores ... 615
Cavalaria ... 756
Artilharia ... 233
(Total de 4,432 efectivos)

Unidades Brasileiras
Batalhão de Infantaria do Rio Grande ... 220
Esquadrão de Cavalaria do Rio Grande ... 113
2 Esquadrões da Legião de São Paulo ... 54
2 Esquadrões da Milícia do Rio Grande ... 196
Companhia de Artilharia a Cavalo ... 62
Guerrilhas do Rio Grande ... 17
(Total de 662 efectivos)

Grande total de 5,094 efectivos

8 de janeiro de 2013

Instrucçoens para os Corpos de Guerrilhas (transcrição)

« O Snr. Marechal Commandante em Chefe nomeará os Commandantes, e lhes dará huma graduação, conforme ao seu merecimento.
Depois de nomeado o Commandante e de formada a Companhia ninguem a poderá deixar sem licença do Commandante, e todos devem inteiramente obdecer-lhe. Os Corpos ficarão sugeitos aos Artigos de Guerra, como todas as outras Ordenanças, e desde que o inimigo for lancado fora poderão retirar-se a sua caza, como as outras Ordenanças.
Os Mappas dos Corpos serão mandados cada segunda-feira ao Quartel General, derigindo-se ao Ajudante General. Estes Mappas serão pello modello incluzo.
Serão acompanhados estes Mappas com as partes de todos os acontecimentos da senmana antecedente, assim do que fez a Companhia, como do que se sabe do inimigo na Vezinhança.
Cada Commandante de Companhia dará os nomes dos engajados na sua Companhia ao Capitão Mór do Districto, e adverte-se que as Companhias devem ser inteiramente compostas das Ordenanças não admitindo nellas nem Soldados de Linha, nem de Milicias; pelo contrario prenderão todos desta natureza, e os mandarão ao General da Provincia.
Estes Corpos devem quanto for possivel ficar dispersos nas suas Povoaçoens, junctando-se unicamente // para se defenderem, ou fazer hum ataque, e os Commandantes devem sempre cuidar muito em terem as melhores intelligencias do inimigo. A intelligencia para estes Corpos he mais util, do que h~ua addicção de força, pois que ella lhe dará sempre a certeza de atacar o inimigo em maior numero, ou de se retirar se acontecer o contrario.
No terreno de Portugal nada há que temer da cavallaria: ella serve mais para impôr, do que para o Serviço: e as Guerrilhas basta que a não temão para a baterem, tomando unicamente cuidado de naõ se exporem nas poucas planicies, que há na Beira e ao Norte de Portugal.
Tudo quanto as Guerrilhas tomarem ao inimigo sejão cavallos, machos, trastes, etc. será seu, e vendido em seu proveito.
As Guerrilhas devem tomar muito cuidado em destinguir os dezertores do inimigo, e de lhe fallar com bom termo, mandando-os todos, assim como os Prezioneiros, debaixo de escolta ao Quartel General mais proximo, se o do Exercito estiver muito distante.
Os Commandantes de cada Companhia combinarão seos ataques sobre o inimigo; conforme á informação, que tiverem do seu número, e dois ou trez Commandantes vezinhos se poderão reunir onde o inimigo estiver em força. //
Estes Corpos devem sempre ser activos, e não deixarem jamais socegar o inimigo, e os ataques de noite são particularmente favoraveis àquelles que melhor conhecem o terreno, e fazem que seja de menor effeito a vantagem da Disciplina: he por isto que os ataques de noite se recommendão às Guerrilhas; porem nestas occazioens atirar fora do alcance he muito prejudicial, e fará mallograr a empreza, e se devem adiantar (…) muito perto do inimigo.
A falta de experiencia das Guerrilhas, fazendo-as atirar antes de tempo, o que não produzindo effeito não faz mais que avizar o inimigo: ellas por este motivo nunca atirarão a mais de cem passos. O ataque de noite sempre cauza muita consternação.
Quando as Companhias de Guerrilhas se encontarem o Commandante de maior graduação, ou patente mais antiga commandará os outros.

NB. Cada Corpo de Guerrilhas não terá mais de 3 sargentos.

Quartel General da Lagioza, 20 d’Agosto de 1810.»

Transcrito de Arquivo Histórico Militar - AHM/DIV/1/14/184/32.