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22 de dezembro de 2017

'Austerlitz em Vila Viçosa': O Brinco do Monte da Aboboreira (19 de fevereiro de 1806)



Em 19 de Fevereiro de 1806, à vista do chafariz da Atalaia, onde hoje em dia se encontram os limites dos distritos de Évora e Portalegre, levou-se a cabo o Brinco do Monte da Aboboreira, manobras militares na presença do príncipe regente D. João, simulando a batalha de Austerlitz, grande vitória de Napoleão sobre os russos e os austríacos, combatida a 3 de Dezembro de 1805.

Participaram os seis regimentos de Infantaria da província, assim como os seus três regimentos de Cavalaria e a Artilharia de Estremoz, e tudo aconteceu num só dia, retornando as tropas aos seus quartéis acabada a revista final.
“Junto à Asseca ha um monte que lhe chamão Castellos Velhos [Castelinho] he aonde se postou a peça que deu um tiro quando se avistou El-Rei o Sr. D. João 6.º que vinha de V.ª Viçosa a assistir ao brinco, e tambem (ver a) tropa formar e entrar nos seus lugares, aonde estava um passadiço [he a ponte de madeira] para mostrar uma passagem e ataque das tropas que passárão na Catalunha”. Elvas, 22.9.1863 (Chaby)
Príncipe Regente D. João, 1806 (Domingos Sequeira)

No monte de Castelinho, ou Castelo Velho, disparou-se uma peça ao se avistar S.A.R. o Príncipe Regente que vinha de Vila Viçosa para assistir ao Brinco. Nesse monte esperava-o um barracão. Lá dentro, sobre a mesa, o mapa do terreno e o plano do brinco.
“O Principe e sua esposa foram n’um dos coches do paço, seguidos da corte, e com ella o Marquez de Ternay. O Príncipe trajava farda encarnada bordada a ouro; a Princeza também d’encarnado.[...] A pouca distância do monte de Abebreira apearam-se suas Altezas, e cavalgaram dois formosos cavallos brancos e dirigiram-se ao dito monte, e d’alli ao do Castello-velho.Chegando aqui deu-lhe salva toda a artilharia.” (Almada, 1862) 

Começa o Brinco!
O Marquês de Alorna, que havia idealizado o Brinco, mandou dar sinal para começar a batalha. 
“O Marquez d’Alorna dirigiu as manobras, acompanhado dos ajudantes d’ordens Lecor e Carché [possivelmente, João Tomás Bocaciari], tendo por clarim d’ordens um preto vestido com o uniforme da Legião.” (Almada, 1862)
Na parte ocidental do campo, a mais próxima de suas Altezas Reais, que assistiam do alto, iniciou-se a ação com uma companhia de caçadores do 1.º Regimento de Infantaria de Elvas reconhecendo o campo do flanco direito, encontrando-se com a companhia de caçadores do 1.º Regimento de Infantaria de Olivença, ou de Mestral. 
“Começou a acção sahindo os caçadores do Regimento do flanco esquerdo D [1.º de Elvas] reconhecer o campo do flanco direito do 1.ª Regimento A [1.º de Olivença, ou Mestral] encontrárão-se com os do ditto Regimento que foram por estes repelidos [...]” (Wiederhold)
A cavalaria da divisão do Sul, 2 esquadrões de Cavalaria d’Olivença, carrega para desembaraçar os caçadores, tendo a imediata resposta dos 2 esquadrões de cavalaria d’Elvas, da divisão do Norte. 

Deu-se então combate e, dado um sinal, todos se retiraram, começando então as duas linhas a fazer fogo; do Norte, sem ordem, e a do Sul, por quartas partes de pelotão. 





Ponte sobre a Ribeira de Mures
O Brigadeiro Barão de Wierderhold (Bernardino Guilherme Held Wiederhold, 1753-1810), que nos legou a sua descrição do brinco duas semanas após este ter tido lugar (ler em baixo), refere que “como o fogo era muito vivo por causa do demasiado fumo”, não era possível ver nada. 
Quando o fumo dissipou, estava em marcha a passagem da ponte de madeira expressamente construída sobre a ribeira de Mures, para este Brinco.
q[uan]do extincto vio-se a segunda linha [divisão do Sul] em retirada fasendo três columnas para passarem a ponte [...]. Passou a columna do centro com 6 homens de frente e as outras duas por quartos a direita e a esquerda e logo que passaram a desfiladeiro começaram [a] metter em batalha pela Vanguarda [Wiederhold]
A passagem da ribeira de Mures, pela ponte e por vaus laterais, fez-se com tal calor que um oficial de artilharia de Estremoz se feriu com a espada, tal era a sua precipitação, informando-nos os Annaes de Elvas que esse facto teve influência na substituição de espadas direitas por curvas.
A peleja simulada “inflamou de tal sorte os pelajadores que muitos chegarão a carregar com pequenas pedras as Espingardas” [Annaes]
Depois das duas divisões terem passado a ponte, “uma vencida e outra vencedora”, foram-se postar os regimentos em linha  no campo a sul da ribeira e desfilaram perante o Príncipe Regente.  Wiederhold refere que não houve tempo para a recriação da segunda parte da batalha de Austerlitz, em que a segunda linha (do Sul) retoma a ponte.

Num cabeço junto à primeira linha, que formou junto à ponte, estava a choça de Napoleão. Depois de terem passado por sua Alteza Real Príncipe D. João, as tropas recolheram-se aos seus quartéis. 

Croqui do brinco do Alto da Abororeira (Wiederhold, 12.2.1806)

Algumas semanas depois, o Barão de Wiederhold, escreve um memorial do Brinco que acompanha o cróqui em cima.
“Postárão-se os seis regimentos em linha de Batalha como as figuras da 1.ª posição o mostrão. Começou a acção sahindo os caçadores do Regimento do flanco esquerdo D reconhecer o campo do flanco direito do 1.ª Regimento A encontrárão-se com os do ditto Regimento que foram por estes repelidos, sahiram socorrer aquelles os dous esquadrões de Cavalaria G pelos flancos do Regimento E e encontrarão-se com estes; viérão os dous esquadrões G H travou-se o combate athé certo signal ou ordem nos quatro esquadrões e as duas companhias de Caçadores que retiraram. Começárão as duas linhas a fazer fogo, a primeira linha [Divisão do Norte] sem ordem e a segunda [Divisão do Sul] por quartas partes de pelotões; como o fogo era muito vivo por causa do demasiado fumo ignoro o que se praticou, q[uan]do extincto vio-se a segunda linha em retirada fasendo três columnas para passarem a ponte ao pé da letra G. Passou a columna do centro com 6 homens de frente e as outras duas por quartos a direita e a esquerda e logo que passaram a desfiladeiro começaram [a] metter em batalha pela Vanguarda a primeira linha na retirada da segunda apareceo tendo a sua direita feito um oitavo à esquerda, de sorte que a direita ficou cobrindo o seu flanco esquerdo; passou a ponte vencido sempre fazendo fogo. A Artilheria trabalhou conforme o permettia a occasião, depois d’as duas linhas terem passado a ponte uma vencida e outra vencedora, foram no segundo campo postados os Regimentos em linha de Batalha. S. Altª R.al estava entre o flanco esquerdo da primeira linha e o direito da segunda. Esta começou a fazer quartos por pelotões a esquerda para passar pela frente do R.al S.nr e a primeira linha apoz esta por quarto à direita e a Artilheria na posição em que esta foi também fazendo os seus quartos nos lugares competentes, e depois de terem passado pela frente de S. A. R.al recolherão-se as tropas a quarteis. Em um cabeço junto à primeira linha estava a choça de Napoleão. O tempo não deo lugar a vereficar-se o que succedeo na Batalha de Austerlitz na tomada da ponte pela segunda linha vencida. B. de W (…), 10 de março” 
Fonte: AHM 3-05-04-08-24

* * *

Ordem de Batalha do Brinco do Monte da Aboboreira

1.ª LINHA (OU DIVISÃO DO NORTE)
Coronel António José de Miranda Henriques
- (A) 1.º Regimento de Infantaria de Olivença, ou de Mestral [Inf 3]
- (B) Regimento de Infantaria de Campo Maior [Inf 20]
- (C) 2.º Regimento de Infantaria de Olivença [Inf 15]
- (H) Regimento de Cavalaria de Elvas [Cav 8] – 2 esquadrões
- (J) Regimento de Cavalaria de Évora [Cav 6] – 2 esquadrões
- (L) Regimento de Artilharia de Estremoz [Art 3] – 1 bataria

2.ª LINHA (OU DIVISÃO DO SUL)
Coronel José Carcome Lobo
- (D) 1.º Regimento de Infantaria de Elvas, ou de Bastos [Inf 5]
- (E) Regimento de Infantaria de Serpa [Inf 22]
- (F) 2.º Regimento de Infantaria de Elvas, ou de Mexia [Inf 17]
- (G) Regimento de Cavalaria de Olivença [Cav 6] – 2 esquadrões
- (L) Regimento de Artilharia de Estremoz [Art 3] – 1 bataria


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Pesquisas de Cláudio de Chaby em 1863

57 anos depois destes acontecimentos, Cláudio Bernardo Pereira de Chaby (1818-1905), pesquisando os eventos, encontrou um veterano de artilharia que lhe facultou informação de memória:
“Só pude descobrir hum velho no B.am de Veteranos que me disse informações, do que pretende saber, e forão por elle dadas com tanta prontidão e segurança que as devo julgar exactas, elle sendo praça d’Art.ª d’Elvas assestio a tal função”. (carta de Chaby, 12.9.1863)
O veterano confirmou a Chaby que o 3.º marquês de Alorna foi o comandante, assim como confirma o nome dos comandantes das 2 linhas em confronto. Não se lembra especificamente se a Cavalaria de Évora assistiu, a que comentamos que de facto participou com dois esquadrões, e, por fim, que a 'brincadeira' teve lugar 4.ª feira de cinzas.

Com base nesta sua visita ao local, Cláudio de Chaby recupera alguns dos elementos do brinco, com a referência que um dos maiores interesses era ver em ação os regimentos que estiveram na Campanha do Rossilhão e Catalunha, há uma década atrás:
“Junto à Asseca ja um monte que lhe chamão Castellos Velhos [Castelinho?] he aonde se postou a peça que deu um tiro quando se avistou El-Rei o Sr. D. João 6.º que vinha de V.ª Viçosa a assistir ao brinco, e tambem (ver a) tropa formar e entrar nos seus lugares, aonde estava um passadiço [he a ponte de madeira] para mostrar uma passagem e ataque das tropas que passárão na Catalunha”. (Carta de Chaby, Elvas, 22.9.1863)
De todos os regimentos de infantaria presentes neste dia, apenas o 1.º Regimento de Olivença, ou Mestral, combateu no Rossilhão. 


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BIBLIOGRAFIA

- ARQUIVO HISTÓRICO MILITAR.

- ALMADA, Victorino d', Elementos para um Dicionário de Geographia e Historia Portugueza. Concelho d'Elvas e extintos de Barbacena, Villa-Boim e Villa-Fernando (2 tomos), Elvas, Typ. Elvense, 1889;
- ESPANCA, Pe. Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, ou Ensaio da História desta vila transtagana, corte da sereníssima Casa e Estado de Bragança, desde os tempos mais remotos até ao presente, segundo o que pode coligir seu autor (1862-1886); 
- MATTA, José Avelino da Silva e, Annaes de Elvas ou Apontamentos historicos Para a Topographia Elvense ou Breve Discripção Phisica, Politica, e Historica, Da Nobre e Sempre Leal Cidade de Elvas. Estremoz, 1859.

30 de junho de 2017

Onde esteve Lecor entre 21 e 23 de Novembro de 1807, nas suas próprias palavras


Na ocasião na invasão hispano-francesa de Novembro de 1807, que Junot efectuou pela fronteira da Beira Baixa, o papel exato de Carlos Frederico Lecor nunca é devidamente aferido na historiografia. Sabe-se apenas que Lecor, em serviço no Alentejo, topou os franceses e cavalgou para Lisboa, sendo uma das pessoas que avisou a corte que os franceses já estavam em Portugal, aproximando-se sobre Lisboa. No processo terá mandado destruir a ponte de barcas sobre o rio Zêzere, facto quer envolvido num nevoeiro dos boatos.

Já muito escrevi sobre o assunto, analisando obras contemporâneas, as memórias de D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, então com 5 anos de idade; os livros escritos por Acúrsio das Neves (que, 2 anos depois, nega-se a falar do episódio, por haver muitas contradições) e Maximilien Foy, que mostra a perspetiva do inimigo e o atraso que sofreu para atravessar o Zêzere.

Por último li a Memória Justificativa do Marquês de Alorna, publicada anonimamente em 1823, que fornece um papel a Alorna de instigador às ações de Lecor, seu então subordinado.

Agora, encontrei finalmente a fonte primária em que Lecor descreve as suas ações nesses fatídicos dias e onde ficam plenamente explicado o papel do marquês de Alorna, a questão da ponte de barcas do Zêzere e o que aconteceu de facto.



Hindo a Alcantara por ordem do meu General a entregar huã carta de V. S.ª a Mr Herman [François-Antoine Herman, Cônsul de França em Lisboa desde 1806, que entretanto se havia retirado] encontrei perto de Villa Velha 
[21.11.1807 – 1600H]/ antes das quatro oras da tarde do dia 21 do corrente mez hum almocreve d’Alpalhão por nome Jose Fez [Fernandes?] q me deo a noticia de ter entrado hua coluna de sinco mil homens de Tropa Franceza em Castello Branco as dez oras da noite do dia 20 q não fazião mal e q dizião q nos vinhão ajudar contra os Inglezes.Apresei a marcha para hir certificar-me da noticia, e chegando a Villa Velha não encontrei maior clareza do //que tinha espalhado o mesmo almocreve, e tratando de fazer aprontar huma cavalgadura para hir reconhecer a Tropa a nociado/a não me foi percizo sahir daquele ponto 
[21.11.1807 – 1630H]/por quanto às quatro oras e meia avistei hum corpo de Tropa Ligeira da força de 200 homens pouco mais ou menos (fardados de Branco) q se deregia para a mesma v.ª pela estrada de Castelo Branco. Rezolvi q não devia hir para diante e q o mais importante era vir dar parte a V. S.ª para evitar que V. A. R. fosse surpreendido. Passei // a Barca para a parte do sul recomendando ao Escrivão da mesma V.ª q me participasse q tropa era, [21.11.1807 – 2000H]o que fez às 8 oras da noite dizendo-me que erão Francezes. Não tendo mais q avreguar esperei q foçe dia para partir n’hum barco q devia largar. 
[22.11.1807 – 0630H]As seis oras e meia do dia 22 se puzerão os Francezes em marcha tomando a estrada de Abrantes não tendo feito cazo da Barca de V.ª Velha q eu por precaução mandei ficar da parte do sul com recomendação q fosse destruida.
Chegando Abrantes escrevi ao Capp.m Mor e a Diogo Joze de Bivar participando-lhes a entrada dos Francezes e q deregião // à quella villa e q achava a propozito q elles se prestassem de comum acordo com o juiz de Fora para fazerem deser o Tejo a todas as embarcações e Barcas da ponte mandando impossibilitar a Ponte de Punhete para demorar a Tropa Franceza na passage do Zezer e partindo imediattamente [23.11.1807 – 0800H]/cheguei a esta corte as 8 horas do dia 23.


Fonte
"OFÍCIO DO MARQUÊS DE ALORNA PARA ANTÓNIO DE ARAÚJO DE AZEVEDO", Arquivo Distrital de Braga - Coleção Linhares, PT/UM-ADB/FAM/FAA-AAA/E/03965

Outras postagens sobre o assunto
Fontes: A Encruzilhada da Memória (Novembro de 1807)

A Lenda da Ponte sobre o Zêzere

28 de junho de 2017

Apontamentos acerca de evento: Primeira Invasão




PRIMEIRA INVASÃO
ANTECEDENTES

19.2.1806 – Brinco do Alto da Aboboreira.
10.3.1806 – relatório do Brinco do Alto da Aboboreira, perto de Vila Viçosa.
Finais de fevereiro?
1.4.1806 – Lecor está ainda em Belém (na verdade Ajuda, Quartel da Guarda do Corpo, atual Lanceiros 2) a tomar conta da LTL enquanto Von Wiederhold não toma posse.

17.10.1807 – [Franceses, a azul, Corpo de Observação da Gironda] Recebe ordens para entrar em Espanha.
18.10.1807 – Passagem do Bidassoa (?)

9.10.1807 – Carta de Alorna a António de Araujo de Azevedo, dando conta da passagem dos embaixadores francês e espanhol e sua saída do reino. Cartas particulares de Madrid e San Sebastian indicam que se aprontam mantimentos para a passagem de 30 mil franceses. Alorna desconsidera as informações como ainda pouco fidedignas (‘De longe e para longe’). Sem data, a primeira divisão francesa já teria passado por Olite (?) em Navarra.

Desde o início de novembro que Alorna tinha ordens para observar os franceses em Alcântara. (KENNETH LIGHT)

Th = THIEBAULT

Faz sentido, pois a raia de Castelo Branco – Alcantara estava entre dois governos de armas, o da Beira, a que pertencia em termos territoriais, com o seu comando no eixo Viseu – Almeida, e o do Alentejo, em Vila Viçosa-Elvas. A maior proximidade, assim como a ponte de barcas em Vila Velha faziam com que o governador d’armas do Alentejo fosse o comando mais perto, capaz de projetar espias sobre a estrada de Castelo Branco a Abrantes.

12.11 – Saiem de Salamanca para Alcantara, em 5 dias. Junot chega a Alcantara dois dias antes. (15nov ?)

14.11 – Aviso da Secretaria a, pelo menos, o Governador interino da Beira.

17.11 – informados, em Alcantara, que em 48 horas entrarão em Portugal.

18.11 (tarde) – Um soldado do RegMil de Castelo Branco avista tropas espanholas em Zebreira, preparando quartéis para tropas francesas.

19.11 – tropas ligeiras entram em Segura.
19.11 – (1600h) Cor. Joaquim Rebelo de Trigueiros Martel, comandante do RegMil de Castelo Branco, escreve da Idanha a Nova, para o Governador d’Armas interino da Beira, Florêncio José Correia de Melo.

20.11 – Entram a 1.ª e 2.ª Divisões de Infantaria + Carafa
ENTRAM OS PRIMEIROS QUANDO?
20.11 – 2200h. Tropas francesas (5000 homens) entram em Castelo Branco.
O resto do exército vaiou o Erges, nos dias seguintes, junto a Salvaterra do Extremo
Castelo Branco. Acúrsio das Neves fala de Segura, mas pelo que deixa entender, todo o Corpo por lá terá passado, não tendo menção de Salvaterra, mas apenas que estariam muito atrasados e em grupos isolados.
20.11 – Alorna refere que Bocaciari lhe havia informado, desde Marvão, que a vanguarda francesa que tinha chegado a Alcântara, se havia extendido a Valença.

21.11 – 1600h. Lecor em Vila Velha ouve o almocreve José Fez (Fernandes?) (orig. Alpalhão) que diz que os franceses entraram em Castelo Branco às 8 da noite. “q não fazião mal e q dizião q nos vinhão ajudar contra os Inglezes”. Lecor ia de Montalvão para Vila Viçosa, em diligência (carta a Mr. Herman, em Alcantara; Alorna diz que Lecor que devia hir de Montalvão a este quartel).
21.11 – 1630h. Lecor encontra logo após sair de Vila Velha (“não me foi percizo sahir daquele ponto”) 200 tropas ligeiras, fardadas de branco. Lecor decide nesse momento que não vale a pena ir além e que devia avisar o Principe Regente: “para evitar que V. A. R. fosse surpreendido”. Foi depois para a margem sul do rio Tejo pela barca de Vila Velha.
21.11 – 2000h. O escrivão de Vila Velha confirma-lhe que as tropas eram francesas. Ficou à espera do próximo barco que largasse.

Rezolvi q não devia hir para diante e q o mais importante era vir dar parte a V. S.ª para evitar que V. A. R. fosse surpreendido. Passei // a Barca para a parte do sul recomendando ao Escrivão da mesma V.ª q me participasse q tropa era, o que fez às 8 oras da noite dizendo-me que erão Francezes. Não tendo mais q avreguar esperei q foçe dia para partir n’hum barco q devia largar.”

21.11 - Envia nota a lápis a Alorna, informando da sua decisão de ir a Lisboa. Lecor “escreveme de Villa Velha huma carta em lapes, dizendo-me que por ter visto francezes na dita Villa Velha, se rezolvia a hir a Lisboa dar parte.”

V S.ª lá saberá se a rezolução deste oficial foi boa, e se o foi devese inteiramente a elle, porque a tomou sobre si.” (Alorna, 23.11)

Alorna está cético de que a invasão já tenha começado. Fala do histerismo e pânico do povo. A comunicação de Lecor, “a lapes”, a 21, é que começa a criar alguma cautela a Alorna, que promete enviar gente a Alcantara, Valença de Alcantara e a Vila Velha.

22.11 – Às 0630h da manhã, os franceses puseram-se em marcha pela estrada de Abrantes, “não tendo feito cazo da Barca de V.ª Velha q eu por precaução mandei ficar da parte do sul com recomendação q fosse destruida”. Lecor passa o Tejo para norte de dia, no primeiro barco.


Punhete (hoje, Constância)


22.11 – Lecor chega a Abrantes e avisa as autoridades locais, recomendando-lhes que descessem os barcos todos ao rio e impossibilitassem a ponte de barcas de forma a retardar o invasor.

Fez desviar os barcos do Zêzere, o que retardou a marcha do inimigo’ – António de Araújo

23.11 – 0800h. Lecor chega a Lisboa. (demora cerca de 24 horas, parando em Abrantes). Apesar de residir em Mafra, o PR vinha despachar frequentemente ao Palácio da Ajuda. Na verdade, foi a casa do Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, António Araújo de Azevedo.
23.11 – Serão. Guarda avançada entra em Abrantes

24.11 – Franceses chegam a Abrantes. Guarda avançada chega na noite de 23. Ac, 1999: Vanguarda entra em Abrantes às 1500, do dia 23.
24.11 – Junot entra em Abrantes de manhã.
24.11 – O Governador d’Armas interino da Beira escreve ao Secretário D. António de Araújo. Sabe da carta do coronel de Milícias de Castelo Branco às 15 horas. A carta demorou 4 dias a ir de Idanha a Nova a Viseu. Deve ter demorado mais ainda a chegar a Lisboa, decerto já a corte estaria embarcada.
24.11. – última reunião do Conselho de Estado antes do embarque.
24.11 – Ajuda. “Mr Menil entrou como parlamentar em Lisboa no dia 24 de novembro, e entregou seus despachos a Mr. De Araújo no mesmo momento em que S.A.R. recebia de tres pessoas differentes, e principalmente do general Lecor, a noticia de que a vanguarda do exercito Francez já estava em Abrantes, isto he, na distancia de vinte legoas de Lisboa.
Convocou-se imediatamente um conselho de Estado e S.A.R. decidio-se a embarcar para o Brazil pelos votos unanimes de todos os membros do conselho.”
pp.193-194: “As Quatro Coincidências de Datas” in: O Campeão Portuguez 1.9.1819 (tradução de um folheto impresso em Paris, 1819)


26.11 – Vanguarda avança para Punhete.
Santarém, 26.11.1807 – Em Santarém, foi para a Golegã. Os franceses estão em Punhete. Escreveu uma carta de Santarém (um dos correios – o primeiro?). Não tinha verificado ainda a verdadeira posição dos franceses, o que pretende fazer na Golegã.
26.11 – Família Real em Queluz antes, D. João vai para lá.

TRAVESSIA FRANCESA DO ZEZERE

27.11 – Passam o Zêzere. Encontro de Junot com José de Oliveira Barreto (que escreve carta em Golegã indicando que se encontraria com Junot a 26, em Punhete).
Ac204 – Junot dormiu na Golegã.

The bridge could not be completed before one half of the army had reached the opposite bank”.

Cartaxo, 27.11.1807 – franceses em Punhete, Campos da Golegã alagados. Não chegam a Santarém antes de 28:

Illmo. e Exmo. Senhor
Depois q tive ontem a honra de escrever a V. Ex.ª de Sattarem [sic], marchei para a Golegam a certificarme da verdadeira pozição do Exerçito Francez, e ali vim no conheçimento que ainda se achavam em Punhete: assim não he provavel que possão chegar a Sattarem antes de amanhãa, acresendo o embaraço q lhe cauzara para a sua marcha o estado quase inpraticavel dos campos da Golegam. He quanto por ora se me offresse q possa participar a V. Ex.ª,
Ds Gde a V. Ex.ª. Cartacho 27 de Novembro 1807
Carlos Frederico Lecor”

27.11 – A família real começa a embarcar ao princípio da tarde. Belém. Sai de Queluz ao meio dia, chegam ao Largo de Belém.
Hum rigo temporal cerrava a barra (Ac, 177) – nada sai
Nas praias de Belém, havia ainda pouca gente quando chegou a primeira carruagem da Casa Real, dado que se ignorava em Lisboa a hora da partida. Lisboetas de todos os sexos e idades, tristes e consternados, aglomeravam-se mais e mais, para verem algo que nunca pensariam antes ser possível: o Príncipe Regente, a Rainha, toda a família real, embarcar, partir do reino em exílio.

ACURSIO DAS NEVES 175-176: “Em Quéluz toda a manhã [D. Carlota Joaquina] tinha sido incansável em arranjar a família, e dar todas as providencias, que as circunstancias exigião: sobre o caes de Belem estava ella mesmo fazendo embarcar as criadas, e mais pessoas da comitiva, segundo a ordem, que lhes destinava, com uma presença de espírito inimitavel”

28.11 – Junot jantou em Santarém, na casa do Capitão Mor de Aviz. Previsão de Lecor do dia 27 certa. Deu molho... (ver Acúrcio)
28.11 – Hum rigo temporal cerrava a barra (Ac, 177) – nada sai


28/29.11 – Junot no Cartaxo. À 1 da manhã recebe a notícia que D. João havia embarcado.

29.11 - Parte a esquadra. Amanhecer, tempo sereno e hum vento favorável.
29.11 – Chegam a Sacavém às 20 ou 21. (Ac:206)
30.11 – Entram em Lisboa (4 batalhões). 9 horas portas de Lisboa.

Benfica - 8-10 dias que não se despia [30NOV/1DEZ] Fronteira

28 ou 29.11 – Lecor volta a Lisboa com o quarto correio. Ao chegar, ou assiste ou sabe da partida (António de Araújo). Vai a Benfica (ceia) e depois atravessa, na mesma noite, o Tejo numa barca e retorna a Vila Viçosa. No alforge, Lecor leva ordens do Príncipe Regente para que receba os franceses e espanhois como aliados, que não lhes fizesse guerra e que lhes abrisse as portas das praças.. [cit do que é um soldado]

Sei que Lecor só tem tempo de visitar brevemente o Palácio de Benfica e que retornou logo a Vila Viçosa.


Fontes

- ACURSIO DAS NEVES, José, História Geral da invasão dos Francezes em Portugal e da Restauração deste Reino (5 v.), Lisboa, Oficina de Simão Thadeo  Ferreira, 1810

- BARRETO, José Trazimundo Mascarenhas, Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926.;

6 de dezembro de 2014

Fontes: A Encruzilhada da Memória (Novembro de 1807)


Palácio da Ajuda (século XIX)

“Vá, Sr. Lecor, até ao inferno, se for necessario, porque quero saber onde estão os Franceses: marcham, e não quero que nos surpreendam.”


Tendo sido escrita, da pena própria ou por instrução de D. Leonor de Almeida, 4.ª marquesa de Alorna (1750-1839), o certo é que o autor da Memória Justificativa do Marquês de Alorna quase de certeza recebeu a parte do próprio, então tenente coronel, Carlos Frederico Lecor, seja direta ou indiretamente. São uma fonte que ajudam a aclarar os momentos históricos da última semana de novembro de 1807, enquanto o Corpo de Observação da Gironda materializa aquela que virá a ser conhecida como Primeira Invasão Francesa, entrando em Portugal por Segura e Salvaterra do Extremo, a partir do dia 19. Alguns elementos não aparecem referenciados em mais parte alguma e mesmo considerando algum esforço panegírico ou hiperbólico por parte da autora da Memória, não posso deixar de o tomar como extremamente relevante. Apesar de sempre próximo da família desde, pelo menos, 1802, e tendo visitando D. Leonor a Londres na primavera de 1808, em 1815, em Lisboa, Lecor, tenente general da Divisão de Voluntários Reais, é frequente visita para jantar na casa da marquesa; aí decerto, a história terá sido contada com mais vagar, mais minúcia.

Há, neste interessante opúsculo, algumas discrepâncias em locais e datas, nomeadamente o dia em que o Conselho de Estado reuniu pela última vez antes do embarque para o Brasil (24 de novembro, e não 25), ou o destino de Lecor depois de ir a casa do Secretário de Estado D. António de Araújo (o Príncipe estava no palácio da Ajuda, e não Mafra). 
Outras fontes apontam a zona entre Abrantes e Sardoal como o sítio onde Lecor observa pela primeira vez os franceses, sendo que esta Memória o coloca perto de Castelo Branco na ocasião. A Memória diz que foi a 24 de novembro, mas foi a 23, pois, segundo nos informa o Marquês de Fronteira, Lecor cavalgou em 30 horas, “à rédea solta”, para Lisboa, sendo que o Conselho de Estado de 24 realiza-se com base no relatório oral do dedicado ajudante de ordens.

Os quatro correios que a autora da Memória atribui como sendo destacados a Carlos Frederico Lecor, dois deles são localizados, na forma de cartas, em D. João VI Príncipe e Rei, de Angelo Pereira. Observando o progresso dos franceses, Lecor envia um desses correios com carta de Santarém, a 26 de novembro, e outro do Cartaxo, no dia seguinte, esta última missiva entregue já a Corte se achava embarcada na esquadra que partiria, dias depois, para o Brasil. No dia 29 ou 30, já os franceses em Sacavém e a horas de entrar em Lisboa, Lecor retorna a Lisboa e vai a Benfica, onde o jovem marquês de Fronteira D. José o descreve vividamente, “cheio de poeira e lama, com o uniforme em desalinho, porque havia oito ou dez dias que se não despia, e triste, respondendo com difficuldade às perguntas que minhas tias lhe faziam”.

Mais observações podem ser feitas, como a noção que foi o Marquês de Alorna que ordenou que Lecor notificasse os magistrados que fizessem desviar pontes, de forma a atrasar os franceses, sem ter instruções de Lisboa para isso, mas julgo que farei melhor deixar falar o excerto da Memória que hoje aqui trago, para que o caro Leitor possa fazer a sua própria leitura.

Excerto: Memória Justificativa do Marquez d’Alorna, Hamburgo, Tip. F. H. Nestler, 1823.

Abrantes hoje (foto: Manuel Anastácio)
[p.5] « [...] é justo passar mais rapidamente para o momento decisivo, em que o Princepe Regente, El Rey, que Deus Guarde, houvéra certamente succumbido victima dos Francezes, a quem tinha impedido a entrada pelo Alem-Tejo, onde elle Marquez governava no anno de 1807, que desviando-se tentarião outra varéda, chamou o seu Ajudante, o Coronel Carlos Frederico Lecor, e lhe disse ertas [sic] notaveis palavras: “Vá, Sr. Lecor, até ao inferno, se fôr necessario, porque quéro saber onde estão os Francezes: marchão, e não quéro que nos surprehendão.” Acrescentou a isto, que se o dito os encontrasse, não parasse para vir informa-lo, mas que á rédea solta fôsse avisar S. A. R., então Princepe Regente, hoje El Rey que Deus Guarde, tendo cuidado ao mesmo tempo de recomendar aos Magistrados, que destruissem todas as pontes, a fim de retardar a marcha do inimigo.
No dia 24 de Novembro, o Coronel Lecor, chegando perto de Castello Branco, encontrou paisanos assustados e fugitivos: tomou consigo um destes paisanos, e se fez conduzir ao lugar aonde elles dizião que tinhão visto os Francezes: na distancia de menos de um quarto de légoa, avistou o Corpo, que avançava em grande desordem; voltou a rédea, e no dia 25 de Novembro pela manhan, chegou á Casa do Secretario d’Estado Antonio d’Araújo, que // [p.6] immediatamente o mandou para Mafra, onde S. A. R. Se achava. O Coronel Lecor dèo parte ao Princepe das Ordens, que tinha recebido do Marquez d’Alorna, do encontro dos Francezes, e do receio bem fundado, de que dentro de 30 horas chegassem a Lisboa.
Juntou-se logo Concélho d’Estado; o Coronel Lecor ahi foi chamdo para dar conta do que sabia. S. A. R. lhe ordenou (*) que voltasse acompanhado de quatro Correios que virião, uns depois dos outros, informa-lo dos progréssos que fazia o Exército Francez desde que o avistasse, notando a hora, e o lugar em que se achava, e voltasse o Coronel Lecor com o ultimo correio; o que elle fez [...].

(*) Estas ordens, que o Coronel Lecor recebéo por escripto, estão provavelmente registados na Secretaria d’Estado; e as ordens que se entregárão ao Coronel, passados muitos mezes lhas pedio o Principal Sousa, para gloria, dizia elle, do Marquez d’Alorna, que tanto tinha contribuido para salvar El Rey e a Familia Real; gloria que lhe competia na historia da restauração (que tinha encommendado ao Dr. José Accursio das Neves. [...] »


Referências

- S/Autor, Memória Justificativa do Marquez d’Alorna, Hamburgo, Tip. F. H. Nestler, 1823.

- BARRETO, José Trazimundo Mascarenhas, Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926;
- PEREIRA, Angelo, D. João VII Príncipe e Rei: A Retirada da Família Real para o Brasil, 1807, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1953.



VER TAMBÉM

A Lenda da Ponte sobre o Zêzere [Parte I] [Parte II]

15 de maio de 2013

Novembro de 1807


Nos idos de Novembro de 1807, temia-se a chegada dos Franceses, comandandos por Junot e encarregados de invadir Portugal. O Marquês de Alorna, D. Pedro de Almeida Portugal, Governador de Armas do Alentejo, enviou os seus três ajudantes d'ordens, Coroneis Lecor e Boucachar e o Major Gaibão, percorrer a zona a norte do Tejo em busca do invasor. A partir de aqui recorro às palavras do 5.º Marquês de Alorna, D. José Trazimundo, sobrinho, que nos deixou as suas memórias destes dias negros:

O Coronel Lecor, em desempenho daquellas ordens, encontrou a vanguarda do exercito de Junot a pouca distancia de Abrantes, junto ao Sardoal, tendo atravessado a Beira Baixa, e, calculando que em seis dias, podia o mesmo exercito estar às portas de Lisboa, partiu logo para Mafra, onde chegou em trinta horas, apesar da grande distância e dos pessimos caminhos. Foi só então que o Príncipe soube que o exercito de Napoleão havia já trinta horas que estava a vinte e quatro léguas da capital!
(...)
Lembro-me, como se fosse hoje, de vêr chegar a Bemfica o Coronel Lecor, cheio de poeira e lama, com o uniforme em desalinho, porque havia oito ou dez dias que se não despia, e triste, respondendo com difficuldade às perguntas que minhas tias lhe faziam a respeito da posição de meu tio. Serviu-se-lhe, á pressa, uma ceia, e, depois de receber várias cartas de minhas tias, partiu em uma das carruagens que o levou a um dos caes do Tejo, onde embarcou para se reunir ao seu General”.(in: Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto - p.6)
Foi esta a primeira aparição pública e notória de Lecor, como os olhos de Alorna e do próprio Príncipe-Regente. Lecor levava de volta a Alorna instruções reais que pareciam irreais - deveria abrir as portas das praças portuguesas aos Franceses e recebê-los como amigos.

13 de maio de 2013

"Perdoa-me, Ferro!": Uma Estória Alentejana


No ano de 1807, Carlos Frederico Lecor, então tenente-coronel, era ajudante de ordens do Marquês de Alorna, que por sua vez era o Governador de Armas do Alentejo. A crise diplomática com França e Espanha começava então a desenvolver-se e uma futura ameaça a desenhar-se, vindo a materializar-se definitivamente em Novembro, com a Primeira Invasão Francesa.

Igreja da Misericórida, Vila Viçosa
No dia a dia do comando onde Lecor trabalhava, um dos mais importantes e movimentados de Portugal de então, pela sua vasta fronteira e vias de comunicação com Espanha. Durante este período, Lecor terá decerto assistido à curiosa história que vos passo a contar, através da simples transcrição de uma carta do 3.º Marquês de Alorna, D. Pedro José de Almeida Portugal, ao então Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, D. António de Araújo de Azevedo, 1.º conde da Barca:

Illmo. e Exmo. Snr.

Fernando Ferro, Anspessada da 2.º Companhia do Regimento de Infantaria n.º 20, disputando com Onofre Jozé da Silva, Soldado da 6.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 15, acabou dizendo que não sahiria de Villa Viçoza, sem fazer hum pincel de bigodes dos Granadeiros de Olivença, este segundo, picando-se do brio de que esta Nação hé tão susceptivel, com grande disconto de ser mal criado, puchou por huma navalha, dêolhe huma facada, e fugio.

O Commandante do Regimento tirou deste cazo a vantagem de reprezentar a indignidade da arma curta, empregada por hum soldado que professa valentia, e lialdade, e que se dezonra dobradamente, quando comete acção traidora com arma traidora. 
Quando todos estavão persuadidos disto, entra o criminozo pelo quartel, dizendo que tinha cometido o crime, e que alli vinha para lhe fazerem o que quizesse ; foi prêzo.

Pela Semana Santa, estando eu na Mizericordia, dizem-me que o soldado de Campomaior me queria falar, e o que quis foi perdoar ao seu assassino, e pedirme incarecidamente que o mandasse soltar.
Não o mandei soltar, mas mandeio buscar, e contei-lhe o que estava sucedendo – ao que elle respondeo // tu já me perdoaste, mas eu sempre te quero pedir perdão; e deitandoselhe aos pés, perdoame Ferro.

Neste cazo que eu não podia dicidir, dicidi em Nome de Sua Alteza Real, que ficasse solto, e espero que Sua Alteza Real me fassa a honra de memandar dizer que fiz bem.

Deus Guarde a V. Ex.ª m. ann. Villa Viçoza. 27 de Março de 1807.

Illmo. e Exmo. Snr. Antonio de Araujo de Azevedo
      Marquez d’Alorna

[Transcrito do Arquivo Histórico Militar, 1.ª Divisão, 13.ª Seção, Caixa n.º 25, n.º 8 - Adaptado ligeiramente, com negrito meu, indicando vocativo e assinatura da carta]

15 de janeiro de 2011

Lorenzo Caleppi, ou como o audaz Arcebispo de Nisibi enganou um dia Junot

“O tempo na verdade era delicioso, e convidava a viajar; em huma bella manhã da Semana da Páscoa procurou-se o velho, e elle tinha abalado com os trastes. Com effeito teve a habilidade de transportar-se para Inglaterra, com quasi tudo o que lhe pertencia, em hum navio, que sahio licenciado por Junot.”
José Accursio das Neves, História Geral da invazão dos Francezes (1810), p. 222.


Assim partiu ‘à italiana’ o velho italiano Monsenhor Lorenzo Caleppi (1741-1817) da Lisboa ocupada de 1808, não sem antes escrever uma carta ao general Junot, agradecendo-lhe a simpatia, mas prometendo-lhe que “agitado pelos gritos da [sua] consciência” (1), deveria partir para o Brasil e cumprir o seu papel de Núncio Apostólico junto à corte legítima.

Após não ter conseguido embarcar na esquadra que levou os nossos melhores para o Brasil nos últimos dias de novembro de 1807, Monsenhor Caleppi ficou em Lisboa, único embaixador que o fez, e conspirou activamente com os ajudantes de ordens do Marquês de Alorna, o nosso Carlos Frederico Lecor e o major Bocaciari (de triste destino, a falar aqui em breve), para que todos fugissem para a esquadra inglesa nas costas portuguesas. Os três não conseguiram convencer Alorna, já preso aos franceses, não sem remorsos (outra história!), mas por alturas da Páscoa, em torno do dia 18 de Abril, lá tomaram o caminho do exílio, recusando o jugo revolucionário. Caleppi escusou-se por carta a Junot, que estava doente e não poderia ir a uma festa, mas nessa mesma noite, vestido de pescador lá ia ele ao seu destino.


Lorenzo Caleppi nasceu em Cervia (Ravenna, na costa adriática da Itália) em 29 de Abril de 1741, filho do Conde Nicola Caleppi e Luciana Salducci, e foi ordenado padre em 1772. Rapidamente, escalou a hierarquia do Vaticano, assumindo-se como um dos mais promissores diplomatas da Igreja. Em 22 de Fevereiro de 1797, esteve presente e assinou o Tratado de Tolentino [na foto ao lado, Caleppi é o segundo a contar da esquerda], com que a Igreja capitulou de vez perante o Directório Francês e Napoleão.


Segundo na comitiva do Vaticano na negociação e assinatura do Tratado de Tolentino, atrás do Cardeal Alessandro Mattei, o próprio Napoleão, tendo-o conhecido na Itália uma vez (provavelmente durante as negociações ou a assinatura do tratado), observou que “toda a arte do mais subtil xeique turco era mera simplicidade comparada com a astúcia de Caleppi” (2). Ao assinar, numa ocasião, um tratado com Murat, Caleppi colocou um par de óculos escuros verdes, para que não se visse o seu semblante. Para Laura Junot, isso mostra o homem.


Em 23 de Fevereiro de 1801, é eleito Arcebispo de Nisibi, sendo consagrado na catedral de Frascati. Nomeado Núncio para Lisboa nos finais desse mesmo ano, chega a Lisboa no dia 22 de Maio de 1802.


Em 1805, Laura Junot conhece-o em Lisboa, por ocasião do breve consulado do seu marido na Corte, e diz dele que “a sua astúcia combinada com a sua extensa e profunda informação, tornava a sua companhia extremamente interessante”, e que “fazia tudo [...] com bom gosto, sem qualquer indício de servilismo”. (3)


Monsenhor Caleppi, como um dos dois únicos embaixadores remanescentes em Lisboa (o outro era o da Rússia, e que se reúne à Corte no Rio, penso que em 1812, por via dos Estados Unidos), e por sua própria inclinação política, tudo fez junto de variadas altas instâncias da sociedade portuguesa, para que fugissem para o exílio, mas com poucos resultados, acaba por escapar ele próprio, deixando o seu próprio n.º 2 na Nunciatura, Vincenzo Macchi, futuro cardeal, para ser posteriormente expulso por terra até aos Pirinéus. Caleppi leva com ele, pouco tempo depois, pelo menos o nosso herói Carlos Frederico Lecor e José Tomás Bocaciari, os ajudantes de ordens de Alorna.


Na sua carta a Junot, jogando o mesmo jogo cortês do comandante da ocupação estrangeira, Caleppi despede-se de Junot, trocando-lhe as voltas, decerto com um sorriso enquanto a ditava:

“A negação dos passaportes, para poder embarcar-me, soffrida pelo espaço de quatro mezes, os incommodos, e tudo quanto tenho supportado neste intervallo, sem os poder conseguir, me tem muitas vezes feito recear, que alguma calumnia tenha enganado a V. Excelencia, [...] sobre a minha pertenção. [...] Por felicidade minha V. Excelencia nestes ultimos dias me fez o maior obséquio, certificando-me repetidas vezes pela sua honra, que nada, absolutamente nada, havia contra a minha pessoa, e que a negação dos passaportes, para o meu embarque, era sómente huma medida, não devendo a França (me dizia V. Excelencia) facilitar aos Embaixadores meios de transportar-se a hum paiz, com quem estava em guerra.” (4)



Lá se foi Caleppi, com certeza desenhando na mente a cara do grande Junot, após brilhante saída de cena. Essa mesma saída de cena é fortemente ovacionada no Rio de Janeiro, quando o Núncio lá chegou, assumindo o seu papel enquanto embaixador da Santa Sé, o primeiro do novo mundo.


Em 8 de Março de 1816, já com a guerra terminada na Europa, e uma prestes a decorrer no Rio da Prata (no comando, o nosso Carlos Frederico Lecor), Lorenzo Caleppi é criado Cardeal, embora nunca tenha recebido o solidéu vermelho. Dez meses depois, a 10 de Janeiro de 1817, um mês antes de Lecor conquistar Montevidéu, o Arcebispo de Nisibi falece com quase 76 anos de idade. Como sua última vontade, é sepultado no franciscano Convento de Santo Antônio [na foto], no Rio de Janeiro.

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(1) Carta de Lorenzo Caleppi a Junot, 18.4.1808, in: José Accursio das Neves, História Geral da invazão dos Francezes (1810), p. 222-227.

(2) Laura Junot (1832), Memoirs of the Duchess d’Abrantes, Vol. IV, London: Richard Bentlet, pp. 242-245 [minha tradução].
(3) Ibidem
(4) Carta de Lorenso Caleppi a Junot, 18.4.1808, op. cit.