6 de maio de 2008

As Famílias Lecor, Krusse & Buys

O período formativo de Carlos Frederico Lecor passou-se, em maior ou menor medida, no seio de 3 famílias, todas ligadas entre si, pertencentes aquilo que se convenciona chamar de burguesia mercantil. Primeiro, a própria família Lecor, formada por Louis Pierre e D. Quitéria, pais de Carlos. Por parte da D. Quitéria temos a família Krusse (também grafada Kruse ou Cruzi) e a família Buys (grafada também Buiz, Buis ou Buyz).

A mãe de Carlos, D. Quitéria Marina Luísa, era por parte do pai, uma Krusse, e por parte da mãe, uma Buys. Ambas estas famílias operavam negócios em Lisboa, mas fundamentalmente no Algarve, onde entre outras coisas mantinham Caíques (barcos tradicionais do sotavento algarvio, e que deram supostamente origem às caravelas) que transportavam cereais de Mértola para Faro e daí para Lisboa.

Ora, com base nas localizações de nascimentos, casamentos e mortes, consigo estabelecer um triângulo geográfico onde posso localizar o tal período formativo de Carlos Frederico: Lisboa, no ângulo superior, e Portimão e Faro, nos inferiores. Cada cidade está relacionada com uma das famílias;

- Os Krusse originalmente de Portimão, terão ido para Lisboa após o terremoto de 1755; tinham negócios em Faro;
- Os Buys, com negócios e moradia em Faro (juntamente com os Krusse);
- & os Lecor, inicialmente estabelecidos em Lisboa, mas cujos filhos todos acabam em Faro, o que explica o facto de todos se terem alistado no Regimento de Artilharia aí sediado.

Os 3 apelidos têm também origens internacionais, sendo os Krusse de Hamburgo, os Buys da Holanda e os Lecor de Paris. Curioso será notar que dos 4 avós de Carlos Frederico, não há um único nacional português, excepto talvez Catarina Maria Buys, portuguesa de 1.ª geração, filha por sua vez de um holandês e de uma espanhola.

Assim, serve este post de introdução a outras personagens que iremos falar no futuro, tais como o tio-padrinho, Carlos Frederico Krusse; a irmã de Carlos, D. Maria Leocádia Leonor e o seu marido, João Pedro Buys (por sua vez sócio de Carlos Frederico Krusse); ou o jovem alferes Carlos Ernesto Krusse que morre em combate a 19 de Novembro de 1816, na chamada batalha de India Muerta, ao serviço da Divisão de Voluntários Reais, na Banda Oriental.
Não esquecerei também Vicente Antônio Buys, artilheiro, que acompanhou Lecor na escolha do serviço brasileiro (daí o acento circunflexo, à moda americana).

2 de maio de 2008

“Em hum dos dias do mes de Outubro...”


“Em hum dos dias de Outubro” , como se lhe referem as testemunhas, não se lembrando do dia exacto, 1809, o coronel Lecor (ou ‘Licores’, como lhe chama o corregedor Manuel Gomes Ferreira Valente), ao ver recusadas cavalgaduras por parte do mestre-de-portas de Azambuja [na foto, o centro de Azambuja] - puxa “da sua espada, insultando-o ao mesmo tempo de palavras”. De acordo com as informações que o corregedor recolhe das várias testemunhas, “chegou o referido Coronel (Licores) ao excesso de lhe dar huma bofetada”.

Tendo a queixa sido inicialmente feita pelo próprio coronel ‘Licores’, o corregedor Manuel Valente havia-se deslocado à vila de Azambuja, demitira o Mestre-de-Portas, Isidoro José Correia, e ouvira 31 testemunhas. Como resultado da sua inquirição, chegou à conclusão que, de facto, o coronel ‘Licores’ espetou uma 'galheta' ao Sr. Isidoro Correia, não sem antes o ameaçar bradando a espada no ar.
Vale como atenuante ao nosso amigo ‘Licores’ que as testemunhas referiram insistentemente que o Mestre-de-Portas tinha o irritante hábito de não mostrar qualquer respeito pelos vários oficiais do Exército que por ali passavam. Isto é, as poucas que viram algo ou se lembravam efectivamente de ter visto algo acontecer.

Para o coronel ‘Licores’, nosso herói e sujeito do blogue perante vós, o resultado poderia ter sido pior, mas foi mau. Levou, através de D. Miguel Pereira Forjaz, uma piçada real, do Príncipe Regente Dom João, datada de 1 de Fevereiro de 1810:

Constando ao P.R. N. Sr. por Devassa, a que mandara proceder sobre a representação de V. Me. contra o Mestre de Portas da Villa d’Azambuja, que tendo este justamente recusado dar as Cavalgaduras que V. Me. lhe pedira quando por ali transitou em Outubro do ano próximo precedente, visto que se lhe não mostrava titulo que autorizasse huma semelhante requisição, passara V.Me. ao excesso de puxar pela espada em acção de maltratar, insultando-o justamente de palavras injuriosas: He S.A.R. servido mandar estranhar a V.Me. hum tão desagradável e irregular procedimento, esperando que pª o futuro haja de conter-se nos limites da moderação e prudência que sempre devem regular as acções de hum official militar.

Nessa altura, a pressão francesa sobre as fronteiras portuguesas faz-se sentir cada vez mais. O espectro de uma terceira invasão, mais forte que qualquer uma das anteriores está na mente de todos. A batalha de Talavera e consequente retirada para Portugal estava ainda fresca de meses.
O trabalho do Marechal Beresford de reformar o Exército Português e enquadrá-lo nas tácticas e práticas britânicas tinha começado apenas há alguns meses e esse mesmo Exército carecia ainda de confiança e experiência de combate face aos temíveis Franceses que controlavam a Espanha de Sul a Norte.

Apesar do povo português pouco demonstrar no exterior, próprio da raça, o medo estava no ar, ainda que por vezes mascarado de indiferença. “Os Franceses vêm aí!” Os militares sabem-no melhor que ninguém, principalmente os colocados na fronteira, em contacto com cidades e vilas extremenhas.
Passará ainda pouco menos de um ano até uma batalha começar a alterar tudo isso – Buçaco, onde por cada britânico morre um português, nem mais nem menos. Fica assinada em sangue, suor e coragem a mais velha aliança da Europa.

Carlos Frederico Lecor seguiu o seu percurso de sucesso...
Isidoro José Correia foi readmitido ao serviço e pouco admirará que outro oficial tenha também perdido a paciência...
Não sabemos se o Corregedor da Comarca de Santarém, Manuel Gomes Ferreira Valente, alguma vez veio a saber escrever o nome ‘Lecor’, ou se se acomodou ao mais familiar ‘Licores’...

29 de abril de 2008

Gravura II

Após muitas palavras, é sempre interessante observar imagens do homem a que se dedica este blogue, aqui substancialmente mais novo que nas duas anteriores. Mais parecendo, na verdade, do que sendo, pois entre esta gravura e o quadro a óleo a dois posts de distância (Miguel Benzo) não vão mais de 8 anos.

Esta gravura, de Francisco Bartolozzi (1728-1815, um dos mais brilhantes retratistas da altura) é de Carlos Frederico Lecor enquanto Brigadeiro, posto a que ascendeu a 8 de Maio de 1811, com a idade de 46 anos.

Lecor era nessa altura uma estrela em ascensão no Exército Português, com uma divisão comandada na Ponte de Murcela, nos dias de 28 de Setembro de 1810, enquanto uns poucos quilómetros ao Norte se escreviam lindas e mortíferas páginas de glória; e outra divisão, guarnecendo a extrema direita da 1.ª Linha de protecção da península de Lisboa (as afamadas Linhas de Torres).

Sobre Francisco Bartolozzi, encontrei o catálogo de uma exposição organizada pela Sociedade Martins Sarmento e a Casa de Sarmento, em Agosto e Setembro de 2004, denominada "Francesco Bartolozzi e os seus discípulos". Está aqui e merece sem dúvida uma visita.

Não consigo agora trazer da minha memória quem me forneceu esta imagem, ou qual a sua fonte, mas só espero ter-lhe dado o devido mérito.

Bem, aparentemente não há como contornar as palavras; portanto, há que deixá-las fluir...

28 de abril de 2008

Gravura

Esta gravura, da autoria de José Wasth Rodrigues, com base numa fotografia de um quadro a óleo de colecção privada, mostra um Carlos Frederico Lecor mais velho, provavelmente no final da década de 1820, inícios da de 1830.

Apesar disso, claras são a grande maioria das condecorações e ordens que leva ao peito, se bem que abro espaço de discussão aqui:

Suspensas do pescoço:
- (por cima) Medalha de distinção da Cisplatina (ou do Exército do Sul) (também chamada Medalha do Barão de Laguna);
- (por baixo) Ordem Militar de Aviz

No peito esquerdo:
- Ordem do Cruzeiro (Império do Brasil);
- Ordem de Aviz (presumo que a versão brasileira);
- Ordem da Torre e Espada (Portugal).
- (suspensa) Cruz da Guerra Peninsular.

No peito esquerdo:
- Desconhecida (muito provavelmente uma medalha espanhola com relação a alguma das batalhas em que Lecor participou).

De qualquer forma, aqui fica mais uma imgem do militar com uma pose mais intimista, onde se nota uma espécie de sorriso.

25 de abril de 2008

22 de abril de 2008

Jorge Frederico Lecor


Jorge Frederico Lecor é, dos irmãos de Carlos, o que menos informações dispõe à modernidade, apesar de um papel de alguma importância na vida política portuguesa, nomeadamente no que tange à Revolução de 1820 na Ilha da Madeira [na foto, a cidade do Funchal].

Desconheço a data do seu nascimento, ou mesmo apenas o ano, mas pressuponho que terá nascido em Lisboa. Sei que terá nascido após 1767. Para complicar um pouco mais, a ficha do Arquivo Histórico Militar relativa ao oficial reporta informações acerca de outro com o mesmo nome, bastante mais novo (filho de Jorge Frederico ou de outro irmão?; erro de arquivamento algures entre 1800 e hoje?). Já de seguida o que sei...

Seguiu, como os 3 irmãos, a carreira de artilheiro, no Regimento de Artilharia do Algarve, em Faro, sendo promovido a 2.º Tenente da 8.ª Companhia em 7 de Setembro de 1795. Terá possivelmente feito a Campanha do Roussilhão como Cadete, mas encontro algumas incongruências que o poderão ter feito confundir com os irmão António Pedro e João Pedro.

A 2 de Novembro de 1800, ainda como 2.º Tenente, passa para a Companhia de Bombeiros.
É promovido a 1.º Tenente da 1.ª Companhia de Artilheiros em 14 de Novembro de 1802.

Em 1805, mais precisamente em 15 de Agosto, o então (1.º) Tenente Jorge Frederico é promovido a Sargento-Mor agregado (ao RAAlgarve) para servir como um dos Ajudantes d'Ordens do novo Vice-Rei e Capitão-General de Mar e Guerra do Estado da Índia, D. Bernardo José Maria Lorena e Silveira, 5.º Conde de Sarzedas.
Jorge Frederico terá chegado a Goa, com o seu General, a 27 de Maio de 1807.

Em 1810, foi Governador de Damão, e em 1813 é dado no Rio de Janeiro como Coronel (provavelmente com o posto de Tenente-Coronel).

Em 1815 é nomeado Coronel comandante do Corpo de Artilharia da Madeira, onde permanece até falecer, precocemente, a 22 de Setembro de 1822. Em 1820 é participante activo, já Brigadeiro, no movimento Constitucional madeirense.

Casado com D. Germana Guilhermina Lecor, deixou profícua descendência, contando eu pelo menos 4 filhas, todas elas casadas com distintos cavalheiros madeirenses: Guilhermina Máxima Lecor; Matilde Eufémia Lecor; Maria Emília Lecor & Henriqueta Aurora Lecor.

7 de abril de 2008

António Pedro Lecor

António Pedro Lecor nasceu, talvez, em 1770, em Lisboa.

A 10 de Março de 1788, assenta praça como Soldado do Regimento de Infantaria de Tavira. Dezasseis meses depois (16.7.1789), era Cadete do Regimento de Artilharia do Algarve, em Faro, na Companhia de Bombeiros. Por despacho de 7 de Setembro de 1795, é promovido a 2.º Tenente da 4.ª Companhia de Artilheiros, embora também seja apontada a data de 31 de Outubro do mesmo ano.
Participa na Campanha do Roussilhão onde contrái uma moléstia nervoza que o acompanha para a vida e eventualmente o leva a reformar-se ainda jovem.
A 16 de Novembro de 1800, passa à Companhia de Mineiros, como 2.º Tenente, e reforma-se a 17 de Dezembro de 1805.

Apesar de reformado, a reorganização militar de Portugal chama-o de volta ao dever e é promovido em 17 de Janeito de 1810 ao posto de 1.º Tenente agregado à Artilharia fixa de Faro.

Perco-lhe o rasto até que em 28 de Maio de 1816 é Major e Governador da Praça de Faro.

Faleceu sem descendência. É, dos irmãos Lecor, o que menor proeminência militar conheceu (pelo menos o único que não atingiu o generalato), mas demonstra-nos a forte devoção ao dever que um soldado português imprime à História do país durante esta época.