17 de maio de 2008

Tenente-coronel Santo António


"Imagem de Sto. António, que acompanhou o Reg. Inf. 19 na Batalha de Vitória, como em todas as acções em que esta unidade tomou parte. D. João, Príncipe Regente, conferiu-lhe o posto de tenente-coronel, tem ao peito a medalha da guerra peninsular. (Do Museu Militar) (Cliché V. Rodrigues)" - Gen. Ferreira Martins, História do Exército Português, p. 290.

No meio disto tudo, o menos importante é o facto da medalha ser a Cruz para sargentos e praças, quando o santo é suposto ser oficial...

Saiba mais em no blogue "Lagos Militar" [1] [2]

14 de maio de 2008

1816-1971


Aqui temos duas condecorações militares portuguesas. Uma, a da esquerda, foi criada em 1816; a outra, em 1971. A primeira, depois de uma guerra, a segunda, durante uma guerra. Entre as duas existem 155 anos, durante os quais Portugal se alterou drasticamente; muito mais do que se pode até inicialmente pensar.

A primeira é a Cruz da Guerra Peninsular, que tanto podia ser em ouro como em prata; a segunda é a 2.ª mais alta condecoração actual que se pode ganhar por feitos em campanha - a Medalha de Valor Militar. Esta segunda condecoração existe desde 1863, mas em 1971 assumiu esta nova forma. De acordo com os novos cânones sociais, esta medalha já vem em ouro, em prata e em cobre.

O propósito deste post é mostrar simplesmente a ligação, não só falerística, pois não conheço nada sobre a razão de ser, nem tampouco o nome do artista que ilustrou a reforma de 1971 das medalhas militares portuguesas (ou, já agora, do artista que fez o desenho de 1816). Assim, resta-me mostrar esta imagem que eu montei e especular um pouco sobre as raízes do moderno Exército Português que se vê reflectido de uma forma simbólica, num pastiche homenagem de sabor pós-modernista, nos gloriosos momentos que teve de 1808 a 1814; de reencontro com si mesmo num novo espaço social, onde não mais a nobreza teria o seu espaço assegurado, mas em que um simples camponês poderia fazer a diferença pelo seu país, nas serras tempestuosamente ondulantes de Trás-os-Montes.

Seja um grupo de camponeses de chuços bramindo liberdade, seja a saga dos burgueses Lecor ou dos pequenos proprietários Azeredos, Saldanhas ou Avillez, a medalha de Valor Militar, ainda em efectividade, serve para nos lembrar da importância da Guerra Peninsular, naquilo que ela transporta de glória e valor, mas fundamentalmente do nascimento do Portugal contemporâneo, em que vivemos e que foi pago em sangue há 200 anos.

A de 1971 lembra-nos os mesmo jovens, 155 anos depois, lutando noutros cenários, sobre outras circunstâncias, mas os mesmos portugueses, os mesmos camponeses, os mesmos burgueses, todos nobres, com a cruz pátea, a abelheira no topo, os mesmos louros frutados, o mesmo brasão nacional...

12 de maio de 2008

Um dia a lembrar...

No final da Guerra Peninsular o Exército Português de Operações retornou a Portugal, tendo cá chegado em finais de Agosto de 1814 (provavelmente no dia 25). Uma testemunha, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, 5.º Marquês de Fronteira, então com 12 anos de idade, deixou escrito o seguinte:

"A entrada dos corpos foi brilhantissima. Recordo-me de vêr entrar os Regimentos de Cavallaria n.º 1 e n.º 4, commandado este pelo bravo Conde de Penafiel que, apesar da sua grande fortuna e independencia, fez todas as campanhas da Guerra peninsular, os Regimentos de Infanteria n.ºs 1, 4, 13 e 16, sendo o 13 commandado pelo jovem João Carlos de Saldanha, hoje Duque de Saldanha, que apenas tinha vinte e quatro annos, e um numeroso parque de artilharia. Á frente d'esta brilhante columna vinha o General Lecor seguido d'um bello Estado Maior e de muitos officiaes superiores que, tendo feito a Guerra peninsular, mas não estando nos seus corpos, se agregaram ao Estado Maior para gozarem, e com justiça, das honras d'aquelle dia.
Foi por esta occasião que vi, pela primeira vez, o General Luiz do Rego que tanta gloria adquiriu durante a guerra. Estava na força da edade e tinha o ar marcial que sempre o caracterizou. Foi saudado pelos habitantes de Lisboa com grande enthusiasmo.
Os corpos mal tinham espaço para desfilar por secções, porque o povo era tanto que, a todos os momentos, interrompia a marcha. Vi os porta-machados do Regimento 4 e uma parte da companhia de granadeiros, levados em triumpho nos braços do povo, quando passavam pela frente do palacio onde estavam os Governadores do Reino, numa das varandas".

fonte: Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto (v. 1), Coimbra: Imprensa da Universidade, 1926 (1861) - pp.131-132.

Noutro sítio, aqui, levantado pelo Prof. Mendo Castro Henriques, pode-se ler também o testemunho de Manuel José Maria da Costa e Sá, do qual destaco duas pequenas histórias deste ajuntamento, ao mesmo tempo as maiores do mundo para quem as viveu e para quem as lê hoje:

"Uma Velha de maior idade, dirige-se ao Rossio, ali pergunta por dois Filhos, que parece tinha no Regimento N.° l de Infantaria, sabe que são ambos mortos, e com uma energia verdadeiramente expressiva levanta as mãos aos Céus, “Bendito sejais DEOS. Pai meu, (diz), que mos concedeste para acabarem no seu Serviço, e no do meu Príncipe”: e mudança alguma mais se lhe observa: a outra, um Soldado que se apresenta, ao passar o Regimento N.° l de Infantaria, sem uma perna perdida em combate; "este" diz hum Indivíduo dos circunstantes, "mostra ter encarado os Inimigos", “Sim Senhor..”, responde ele, “…mas fiquei impossibilitado de o poder encarar muitas vezes, pois perdi esta perna no principio da Campanha, e fiquei inútil, e não pude colher bastante gloria, paciência”, dizia lacrimejando, “mas ainda encostado a um muro, como tenho os braços sãos, posso mostrar que sou Português” (...)".

9 de maio de 2008

Coisas que nunca mudam...

Illmo. e Exmo. Senhor

As tristes circunstâncias, em que me acho, me obrigão a hir por este modo pedir a V. Exª. a mercê de ouvir meu irmão Carlos Frederico Lecor, a quem tenho encarregado aprezentar a V. Exª. o meu requerimento, e documentos juntos; e igualmente expor a V. Exª. que sendo eu o unico ofecial de Artilharia que pedio a sua demissão para não servir com os Francezes, nem por isso tenho comseguido aumento no Serviço capaz de dar a perciza manutenção. Deus guarde a V. Exª.

Albufeira, 12 de Dezembro de 1814


De V. Ex.ª
Subdito Obediente

João Pedro Lecor

Esta carta é auto evidente e insere-se em inúmeras outras que já li, onde o Estado não paga o que deve aos militares. Há coisas, portanto, que nunca mudam...

Por outro lado, fica claro que João Pedro Lecor era Governador da Praça de Albufeira, e Major, até esta data, e muito provavelmente até rumar a Belém, integrado na nóvel Divisão de Voluntários Reais do Príncipe (vide post anterior "João Pedro Lecor" - Março 2008).

6 de maio de 2008

As Famílias Lecor, Krusse & Buys

O período formativo de Carlos Frederico Lecor passou-se, em maior ou menor medida, no seio de 3 famílias, todas ligadas entre si, pertencentes aquilo que se convenciona chamar de burguesia mercantil. Primeiro, a própria família Lecor, formada por Louis Pierre e D. Quitéria, pais de Carlos. Por parte da D. Quitéria temos a família Krusse (também grafada Kruse ou Cruzi) e a família Buys (grafada também Buiz, Buis ou Buyz).

A mãe de Carlos, D. Quitéria Marina Luísa, era por parte do pai, uma Krusse, e por parte da mãe, uma Buys. Ambas estas famílias operavam negócios em Lisboa, mas fundamentalmente no Algarve, onde entre outras coisas mantinham Caíques (barcos tradicionais do sotavento algarvio, e que deram supostamente origem às caravelas) que transportavam cereais de Mértola para Faro e daí para Lisboa.

Ora, com base nas localizações de nascimentos, casamentos e mortes, consigo estabelecer um triângulo geográfico onde posso localizar o tal período formativo de Carlos Frederico: Lisboa, no ângulo superior, e Portimão e Faro, nos inferiores. Cada cidade está relacionada com uma das famílias;

- Os Krusse originalmente de Portimão, terão ido para Lisboa após o terremoto de 1755; tinham negócios em Faro;
- Os Buys, com negócios e moradia em Faro (juntamente com os Krusse);
- & os Lecor, inicialmente estabelecidos em Lisboa, mas cujos filhos todos acabam em Faro, o que explica o facto de todos se terem alistado no Regimento de Artilharia aí sediado.

Os 3 apelidos têm também origens internacionais, sendo os Krusse de Hamburgo, os Buys da Holanda e os Lecor de Paris. Curioso será notar que dos 4 avós de Carlos Frederico, não há um único nacional português, excepto talvez Catarina Maria Buys, portuguesa de 1.ª geração, filha por sua vez de um holandês e de uma espanhola.

Assim, serve este post de introdução a outras personagens que iremos falar no futuro, tais como o tio-padrinho, Carlos Frederico Krusse; a irmã de Carlos, D. Maria Leocádia Leonor e o seu marido, João Pedro Buys (por sua vez sócio de Carlos Frederico Krusse); ou o jovem alferes Carlos Ernesto Krusse que morre em combate a 19 de Novembro de 1816, na chamada batalha de India Muerta, ao serviço da Divisão de Voluntários Reais, na Banda Oriental.
Não esquecerei também Vicente Antônio Buys, artilheiro, que acompanhou Lecor na escolha do serviço brasileiro (daí o acento circunflexo, à moda americana).

2 de maio de 2008

“Em hum dos dias do mes de Outubro...”


“Em hum dos dias de Outubro” , como se lhe referem as testemunhas, não se lembrando do dia exacto, 1809, o coronel Lecor (ou ‘Licores’, como lhe chama o corregedor Manuel Gomes Ferreira Valente), ao ver recusadas cavalgaduras por parte do mestre-de-portas de Azambuja [na foto, o centro de Azambuja] - puxa “da sua espada, insultando-o ao mesmo tempo de palavras”. De acordo com as informações que o corregedor recolhe das várias testemunhas, “chegou o referido Coronel (Licores) ao excesso de lhe dar huma bofetada”.

Tendo a queixa sido inicialmente feita pelo próprio coronel ‘Licores’, o corregedor Manuel Valente havia-se deslocado à vila de Azambuja, demitira o Mestre-de-Portas, Isidoro José Correia, e ouvira 31 testemunhas. Como resultado da sua inquirição, chegou à conclusão que, de facto, o coronel ‘Licores’ espetou uma 'galheta' ao Sr. Isidoro Correia, não sem antes o ameaçar bradando a espada no ar.
Vale como atenuante ao nosso amigo ‘Licores’ que as testemunhas referiram insistentemente que o Mestre-de-Portas tinha o irritante hábito de não mostrar qualquer respeito pelos vários oficiais do Exército que por ali passavam. Isto é, as poucas que viram algo ou se lembravam efectivamente de ter visto algo acontecer.

Para o coronel ‘Licores’, nosso herói e sujeito do blogue perante vós, o resultado poderia ter sido pior, mas foi mau. Levou, através de D. Miguel Pereira Forjaz, uma piçada real, do Príncipe Regente Dom João, datada de 1 de Fevereiro de 1810:

Constando ao P.R. N. Sr. por Devassa, a que mandara proceder sobre a representação de V. Me. contra o Mestre de Portas da Villa d’Azambuja, que tendo este justamente recusado dar as Cavalgaduras que V. Me. lhe pedira quando por ali transitou em Outubro do ano próximo precedente, visto que se lhe não mostrava titulo que autorizasse huma semelhante requisição, passara V.Me. ao excesso de puxar pela espada em acção de maltratar, insultando-o justamente de palavras injuriosas: He S.A.R. servido mandar estranhar a V.Me. hum tão desagradável e irregular procedimento, esperando que pª o futuro haja de conter-se nos limites da moderação e prudência que sempre devem regular as acções de hum official militar.

Nessa altura, a pressão francesa sobre as fronteiras portuguesas faz-se sentir cada vez mais. O espectro de uma terceira invasão, mais forte que qualquer uma das anteriores está na mente de todos. A batalha de Talavera e consequente retirada para Portugal estava ainda fresca de meses.
O trabalho do Marechal Beresford de reformar o Exército Português e enquadrá-lo nas tácticas e práticas britânicas tinha começado apenas há alguns meses e esse mesmo Exército carecia ainda de confiança e experiência de combate face aos temíveis Franceses que controlavam a Espanha de Sul a Norte.

Apesar do povo português pouco demonstrar no exterior, próprio da raça, o medo estava no ar, ainda que por vezes mascarado de indiferença. “Os Franceses vêm aí!” Os militares sabem-no melhor que ninguém, principalmente os colocados na fronteira, em contacto com cidades e vilas extremenhas.
Passará ainda pouco menos de um ano até uma batalha começar a alterar tudo isso – Buçaco, onde por cada britânico morre um português, nem mais nem menos. Fica assinada em sangue, suor e coragem a mais velha aliança da Europa.

Carlos Frederico Lecor seguiu o seu percurso de sucesso...
Isidoro José Correia foi readmitido ao serviço e pouco admirará que outro oficial tenha também perdido a paciência...
Não sabemos se o Corregedor da Comarca de Santarém, Manuel Gomes Ferreira Valente, alguma vez veio a saber escrever o nome ‘Lecor’, ou se se acomodou ao mais familiar ‘Licores’...

29 de abril de 2008

Gravura II

Após muitas palavras, é sempre interessante observar imagens do homem a que se dedica este blogue, aqui substancialmente mais novo que nas duas anteriores. Mais parecendo, na verdade, do que sendo, pois entre esta gravura e o quadro a óleo a dois posts de distância (Miguel Benzo) não vão mais de 8 anos.

Esta gravura, de Francisco Bartolozzi (1728-1815, um dos mais brilhantes retratistas da altura) é de Carlos Frederico Lecor enquanto Brigadeiro, posto a que ascendeu a 8 de Maio de 1811, com a idade de 46 anos.

Lecor era nessa altura uma estrela em ascensão no Exército Português, com uma divisão comandada na Ponte de Murcela, nos dias de 28 de Setembro de 1810, enquanto uns poucos quilómetros ao Norte se escreviam lindas e mortíferas páginas de glória; e outra divisão, guarnecendo a extrema direita da 1.ª Linha de protecção da península de Lisboa (as afamadas Linhas de Torres).

Sobre Francisco Bartolozzi, encontrei o catálogo de uma exposição organizada pela Sociedade Martins Sarmento e a Casa de Sarmento, em Agosto e Setembro de 2004, denominada "Francesco Bartolozzi e os seus discípulos". Está aqui e merece sem dúvida uma visita.

Não consigo agora trazer da minha memória quem me forneceu esta imagem, ou qual a sua fonte, mas só espero ter-lhe dado o devido mérito.

Bem, aparentemente não há como contornar as palavras; portanto, há que deixá-las fluir...