9 de setembro de 2008

A Polémica da Traição

Uma das problemáticas em qualquer esforço biográfico acerca de Carlos Frederico Lecor é quando se chega aos acontecimentos de 1822 e 1823, na Cisplatina, e que envolvem a deserção de bastantes portugueses e tomada do serviço ao nóvel Império Brasileiro. Para os portugueses, uma traição; para os brasileiros, uma tomada de posição heroica, um dos seus pais fundadores.

Aproveito estarmos em Setembro, mês da independência brasileira, para falar disto, um pouco apenas, pensando em voz alta (no passo dia 7, o Brasil cumpriu 186 anos de independência).

Não estando na cabeça de Lecor nesses anos, apenas poderei especular educadamente a razão pela qual ele deixou o serviço português e abraçou a causa independentista brasileira. É óbvio também que não foram apenas acontecimentos isolados, mas toda a sua vivência, que o levaram a abraçar o novo país.

Alguns autores apontam para uma pretensão por parte do governo português de trocar a Cisplatina por Olivença, negócio a fazer com Espanha e que resultaria na volta da potência colonizadora ibérica à Banda Oriental, em revolta desde, pelo menos, 1811. Este rumor terá inicialmente destinado Lecor a desligar-se do seu país.

A minha questão, no entanto, é saber até que ponto o pensamento político de Lecor não será a chave desta questão. A independência do Brasil está intimamente ligada à burguesia mercantil brasileira, à sua relação com a Inglaterra e, fundamentalmente, com o espírito liberal da época.

Poderemos também especular que a classe a que Lecor pertencia não lhe oferecia uma ligação forte à terra, acumulando isso com uma carreira militar errante, sem domicílio fixo. Também é de notar que Lecor vinha de uma família de imigrantes, mercadores estrangeiros que se haviam fixado em Portugal há menos de um século.

Por outro lado, há que tomar em conta uma veia conservadora em Lecor, que o terá feito, de certa forma, hostil às Cortes de Lisboa, as mesmas que planeavam a troca da Cisplatina. Muitos encontram no Brasil um refúgio do liberalismo selvagem da burguesia lisboeta e portuense. Muitos viram ainda em D. Pedro um líder forte, ao contrário do temeroso D. João VI, agora refém de Lisboa.

De notar que a presença das Cortes não se manifestava apenas em cartas e pressões do outro lado do Atlântico, mas das mais próximas pressões dos seus próprios subordinados da Divisão de Voluntários Reais, que frequentemente se amotinavam aos mais variados níveis, mesmo um dos seus coroneis, Claudino Pimentel, comandante do 1.º Regimento de Infantaria, em 1821, e que culminou na criação do Conselho Militar - que Lecor, a contra gosto, aceitou.

Pedindo desde já desculpa ao caro Leitor pela caoticidade destas minhas linhas, prometo em breve lançar-me mais consistentemente à descoberta deste período, armando uma interpretação mais coerente.

A Razão da Míngua

O caro leitor que cá volta segunda vez deve estar mal impressionado com a míngua de posts neste nosso blogue. Por isso pedimos desculpa. A razão passa muito pelo facto da Busca de Lecor se passar em cenários pouco digitais, no mundo dos arquivos e dos livros, tentando juntar fragmentos, conferir fontes primárias, para além da inevitável deambulação por outros assuntos que não o nosso bravo Marechal - um oficial francês anónimo do Exército Liberal que morreu em Faro, nos idos de 1833/1834, em consequência de um duelo - história verídica - é um bom exemplo, e daria um excelente romance histórico. Enfim...

Mais do que para apresentar as minhas desculpas aos senhores leitores, os que retornam (aqui lhes fica o meu eterno agradecimento) e aos estreantes, gostaria de sumariar os posts que virão acerca das Unidades de Lecor. Primeiro, relembro os que passaram:

I - Regimento de Artilharia do Algarve - [post]
II - Esquadra da Bahia (1795-1796) - [post1] [post2]

Seguirão no futuro próximo:

III - Legião de Tropas Ligeiras (1797 - 1805)
IV - Governo de Armas da Província do Alentejo (1805-1807) (1814-1815)
V - Leal Legião Lusitana (1808)
VI - Regimento de Infantaria n.º 23 (Almeida) (1808-1809)
VII - Divisão da Beira Baixa
(3 períodos: Fev-Mai.1809 / Fev-Set.1810 /Abr.1811-Abr.1813)
VIII - 6.ª Brigada Portuguesa (7.ª Divisão do Exército Aliado) (1813)
IX - Divisão Portuguesa (Exército Aliado) (1814)
X - Divisão dos Voluntários Reais (1815-1822)

E depois os comandos no Imperial Exército Brasileiro, de 1822 a 1830, nomeadamente do Exército do Sul na Guerra Cisplatina.

Haja fé, pois, neste vosso buscador que a musa Clio providenciará.

19 de agosto de 2008

Roliça 1808-2008

Duzentos anos após a batalha da Roliça, confronto de relativa baixa intensidade, mas de grande importância por iniciar um conflicto que só terá verdadeiramente fim em 1814, no sul de França, eis que valentes 're-enactors' a lutam de novo para gaúdio de uma vibrante audiência internacional.

Cada um lá foi com um objectivo; o meu foi o de assistir ao primeiro evento, do que espero virem a ser muitos e bons, e cheirar a pólvora. Como bom português, cheguei algo atrasado, para ver o centro inglês desenvolver perante os Franceses. Na ala direita, os Portugueses de Trant. Na escaramuça à frente, os Rifles do 95th. 'Make ready, Present, Fire!"e o fumo inunda o campo, com um cheiro desagradável ao primeiro toque nas narinas.

Descarga Inglesa
Progressão no Campo
No final, tive oportunidade de notar que as tropas portuguesas estavam representadas pelo Regimento de Infantaria 23, de Almeida, que apesar de não terem efectivamente participado na batalha de há 200 anos, acabam por significar algo mais para este vosso interlocutor. É o regimento onde Carlos Frederico Lecor foi feito Coronel, ainda durante esse mesmo ano de 1808.

Após a Batalha, o 23

Lecor havia desembarcado no Porto, durante a primeira quinzena de Agosto, ainda antes do primeiros destacamento da Leal Legião Lusitana, junto com o Coronel Wilson e outros oficiais.

A minha primeira batalha deixou-me plenamente satisfeito, ainda que outras 'guerras' me tenham impedido de assistir ao Vimeiro, nessa tarde. Os mais efusivos parabéns à organização deste evento, à Associação Napoleónica Portuguesa e a todos os bravos soldados que nela lutaram.

Pedindo desde já perdão ao caro leitor pelo indesculpável hiato na produção de textos, creiam-me sempre na busca incessante deste homem que foi Lecor, tudo fazendo para ele tome o seu lugar no panteão dos heróis e dos libertadores.

9 de julho de 2008

A Escrita da História



A nossa relação com a História tem sido sempre uma estória complicada, em que os profícuos modernos meios de comunicação mais têm feito por aprofundar. Permitam-me uma pequena acha para esta fogueira do conhecimento.


John Keegan, prestigiado escritor e professor (jubilado) na Real Academia de Sandhurst [na foto], ao promover, em 1994, o seu livro Uma História da Guerra (A History of Warfare), em resposta a uma pergunta simples - quem leria o seu livro?, aproveitou para dissertar acerca não só da escrita como da leitura da História, os seus esquemas de poder e legitimação. Li, traduzi e agora aqui coloco, pese embora a possível falta de contexto. Para eliminar mal entendidos, no final colocarei a ligação para a entrevista original, em língua inglesa:

Entrevistador: «Este livro, "A History of Warfare," qual a audiência alvo? Quem imagina a comprar este livro?

KEEGAN: Bem, espero que os meus colegas historiadores gostem, alguns gostam outros não, mas eu na realidade nunca escrevi para os meus colegas historiadores. O que eu sempre quis fazer foi escrever o tipo de livro que os outros historiadores tenham de levar a sério, mas que seja um livro para o leitor nornal educado que gosta de estar informado, de ter a sua visão do mundo aumentada acerca de um assunto particular. E eu penso que esta é a mais alta das vocações históricas. Eu desprezo muito... - desprezo quase - enfim, na verdade desprezo a direcção que a escrita histórica universitária tem tomado, na qual enorme esforço e anos de trabaho árduo são devotados a escrever livros que na verdade só interessam a algumas centenas, levantam questões acerca das quais apenas dezenas têm conhecimento enquanto questões e usam cada vez mais linguagem que só outros académicos percebem. Isso parece-me uma perversão da vocação do historiador. O historiador deve escrever para... o historiador deve ser uma pessoa educada, escrevendo para outra pessoa educada acerca de algo que esta última não conhece, mas deseja conhecer de uma forma que possa perceber

Entrevista original aqui.

25 de junho de 2008

Unidades de Lecor II - Esquadra da Bahia (1795/1796)


O comércio do Brasil sempre foi de enorme importância para Portugal, e a carreira atlântica precisava de ser protegida, principalmente após a aliança de Espanha com a França, no final da campanha do Roussilhão (1793-1795), aliança essa, feita pelos espanhois à margem dos seus aliados portugueses. Os barcos franceses e espanhois representavam uma ameaça constante aos navios de comércio. A Armada portuguesa tinha então a responsabilidade de proteger a rota comercial.

Assim, a 25 de Dezembro de 1795, parte de Lisboa com rumo à Bahia uma frota com a missão de proteger cerca de 23 navios de comércio. O comando, sediado na Nau Capitânea ‘Príncipe Real’ [na imagem, quadro do Museu da Marinha], estava a cargo do tenente-general Bernardo Ramires de Esquível. Entre os navios desta frota, contavam-se os seguintes:

Naus:
Príncipe Real (90 peças – guarnição: 904)
Infante D. Pedro (64 peças – guarnição: 557)
Vasco da Gama (74 peças – guarnição: 652)
D. Maria I (74 peças – guarnição: 616)
Princesa da Beira (74 peças – guarnição: 544)

Fragatas:
Minerva
Princesa
Ulisses
Tritão
Vénus
Thétis

Bergantins:
Serpente
Falcão

Apesar de haver sido criado um Regimento de Artilharia da Marinha, em finais de 1791, os 4 regimentos de artilharia continuavam a fornecer destacamentos para servir embarcados. É assim que do Regimento de Artilharia do Algarve parte um destacamento de 130 homens, onde se incluía o 1.º Tenente Carlos Frederico Lecor, da 9.ª companhia de artilheiros. Dois meses antes, o tenente-general Bernardo Esquível pedia, com urgência, ao Secretário de Estado da Marinha tal destacamento para a nau ‘Príncipe Real’ que lhe assegurava ter dado já as ordens. Os preparativos desta enorme força estavam já a decorrer em força.

Com uma data de partida para 28 de Novembro, que acaba por não ser cumprida como já referi em cima, uma carta do Conde de S. Vicente indica claramente qual a missão:


“3. A obrigação desta esquadra será de dar comboio a todos os navios de comércio nacional, que acharem prontos a partir até ao dito dia, levando-os sempre em sua conserva athe aquella altura que o Comandante julgar conveniente, e os reputtar livres de todo o risco de enemigos”.

O Secretário de Estado recomenda expressamente que a frota não se retenha por nenhum objecto, “qualquer que elle seja”, e que se dirija em direitura para a Bahia.



Assim, no dia de Natal de 1795, a Esquadra do Brasil parte, sob o comando do tenente general Bernardo Ramires de Esquível, a bordo da Nau ‘Príncipe Real’, em comboio com todos os navios de comércio que estavam prontos a partir nesse dia.

A Nau ‘Príncipe Real’ foi construída em 1771, sob o nome de ‘Nossa Senhora da Conceição’. Depois de 1794, após obras de beneficiação, toma o nome de ‘Príncipe Real’. Com uma guarnição de 950 homens, esta que era a maior nau portuguesa do seu tempo, era constituída por uma equipa de artilharia de entre 114 e 130 homens, assim distribuídos no seu complemento máximo:
Forte de S. Diogo, Salvador (fonte: wiki)

1 Capitão
2 1.º Tenentes
2 2.º Tenentes
125 Sargentos, soldados e tambores

Além destes, havia 150 homens de infantaria e um complemento de 670, entre marinheiros e outro pessoal embarcado.

A artilharia embarcada estava dividida em 2 baterias, cada um com cerca de 30 peças de 24. Além destas haveria mais 8 peças de 12, 6 carronadas de 36 e 6 obuzes de 24 no tombadilho.

A viagem de Lisboa à Bahia é feita em 46 dias, e segundo o tenente general Bernardo de Esquível, em carta que dirige ao Conde de S. Vicente, é a ‘mais feliz que se pode fazer’. O único problema foi uma epidemia que o tenente general não especifica a causa, mas informa ter-lhe custado a morte de 8 homens e duzentos doentes em terra.
A esquadra chega, pois, à Bahia a 9 de Fevereiro de 1796, com a intenção de fazer a viagem de regresso o mais depressa possível, mas a cidade de Salvador, afectada por uma seca generalizada tinha poucos víveres, o que os encarecia e dificultava a compra, assim como os doentes que demoravam a recuperar.
Diz Bernado Esquível que “não há farinha de guerra, não há carne, não há legumes, não há arroz”.

A viagem de volta a Lisboa, que se inicia a 1 de Abril, é mais complicada que a ida. Segundo carta-relatório do comandante, a 25 de Julho (já em Lisboa), a viagem é “dilatada e trabalhosa” por duas razões:

Primeira, maus ventos e calmas, os piores inimigos da navegação atlântica;

Segunda, a má qualidade dos navios que compunham o comboio, e que obriga a esquadra a dar fundo na ilha do Faial (Açores) para mantimentos e aguada. Alguns dos navios mercantes já pedeciam de sede e fome.

É nessa paragem no Faial, que dura 5 dias, que Bernardo Esquível toma conhecimento que uma esquadra inglesa, comandada pelo Lord Hugh Seymour, tinha por missão encontrar a esquadra portuguesa e escoltá-la a Lisboa, no qual faria grande gosto.

Cabo da Roca (fonte: wiki)
A 60 léguas do cabo da Roca, dá-se o acontecimento de maior tensão de toda a campanha. Dois navios de guerra não identificados aproximaram-se da esquadra. O mais próximo aproximou-se mais ainda e largou a bandeira francesa. O comandante português deu ordem de caça, também sem bandeira largada.
Entretanto, a dita fragata desconhecida, aproximando-se mais ainda, arreiou a bandeira francesa e larga a inglesa, disparando um tiro de saudação. Nessa altura a esquadra do Brasil largou a bandeira portuguesa e respondeu à saudação.

Anulando a ordem da caça, a esquadra do Brasil junta-se a outra esquadra para juntos entrarem no porto de Lisboa. Ao todo, eram 12 navios de guerra, 7 naus da Índia, 3 particulares e 23 de praça com carga do Brasil.

As doenças que afectaram apenas a nau ‘Príncipe Real’ na viagem para a Bahia, afectaram toda a esquadra na volta para Lisboa. O Capitão-de-Mar-e-Guerra João Gomes da Silva Telles, comandante da fragata Ulisses, falece devido a doença, sendo substituído pelo Capitão de Fragata Daniel Thompson. O próprio comandante da esquadra, Bernado Ramires de Esquível, adoece.

Chegam a 25 de Julho de 1796, escoltando carga no valor de 2,152,798$451.

Não sabemos se Carlos Frederico Lecor terá sido afectado pela epidemia, mas sabemos que esta missão marca o final da sua carreira como oficial de artilharia. No ano de 1797, ele entrará na Legião de Tropas Ligeiras, sob o comando do Marquês de Alorna, D. Pedro José de Almeida Portugal, com quem ficará até 1807.

15 de junho de 2008

Início da Carreira

Hey por bem fazer merce a Carlos Licor, Sargento de Artelharia que guarnece a fortaleza de São João do Registro da Barra de Tavira; do posto de Ajudante da Praça de Villa nova de Portimão, que vaga pela reforma de Joaquim Jozé de Sequeira: O Conselho de Guerra o tenha assim entendido, e lhe mande expedir os despachos necessários. Palácio da Nossa Senhora da Ajuda em desessete de Março de mil setecentos noventa e quatro.

In: Arquivo do Conselho da Guerra.


Este é o registro mais antigo [17.3.1794] que se pode encontrar nos arquivos do Conselho da Guerra acerca de Carlos Frederico Lecor e que parece demonstrar a tese que ele assentou praça como soldado pé-de-castelo em Tavira a 15.10.1793, e não como cadete no Regimento de Artilharia do Algarve.

Em 12 de Dezembro desse mesmo ano, passará a ocupar o cargo de 1.ª tenente de uma das companhias (a 9.ª) do regimento, passando de Portimão a Faro.

Faz, pois, sentido aquilo que o general Teixeira Botelho diz da carreira desta artilheiro, que "não teve a regularidade habitual do seu tempo".

29 de maio de 2008

Unidades de Lecor I - Regimento de Artilharia do Algarve

Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve

Apesar de alguns autores indicarem que Carlos Frederico Lecor terá iniciado a sua carreira militar como soldado pé-de-castelo (artilharia miliciana de guarnição) na praça de Tavira, tendo progredido como cabo e sargento, e outros que terá assentado praça no regimento algarvio de artilharia como cadete, a verdade é que só há notícia certa dele como Ajudante da praça de Villa Nova de Portimão em 1794, um ou dois anos (conforme as fontes) após assentar praça. Servia como oficial adjunto ao governador da praça algarvia.

Em 2.12.1794, é superiormente sancionada a troca de Carlos, em Portimão, com um 1.º Tenente da 9.ª companhia de artilheiros do Regimento de Artilharia do Algarve, António Pimentel Vabo. Só podemos pensar que Lecor era 1.º Tenente ou equivalente à altura da troca. Seja como for, começou ele então a servir neste regimento ininterruptamente até que passou à Legião de Tropas Ligeiras, em 1797 (que analisaremos no 3.º post desta série).

Acontece que os regimentos de artilharia da altura, quatro (o da Côrte - Lisboa, o do Porto, o de Estremoz e o de Faro) não eram regimentos no sentido em que o eram os de infantaria e cavalaria, mas mais unidades administrativas que geriam os recursos artilheiros conforme as necessidades. As necessidades passavam pela guarnição dos fortes e praças, assim como o fornecimento de equipas de artilheiros às naus da nossa Armada.

O Regimento de Artilharia do Algarve começou a ser organizado em Setembro de 1774. Incumbido da organização estava o Coronel Diogo Ferrer, do Regimento do Porto, que veio para Faro, e que concluiu a tarefa nos inícios de 1775. Este regimento, como os outros de artilharia, de acordo com o alvará de 1766, era constituido por 12 companhias, 9 de artilheiros, uma de bombeiros, uma de mineiros e uma de artífices e pontoneiros. Como nos regimentos de infantaria a 1.ª, 2.ª e 3.ª companhias eram respectivamente comandadas pelo Coronel, Tenente-Coronel e pelo Sargento-Mor (isto até 1796).

O regimento nunca teve um quartel, ficando os seus integrantes alojados pela cidade de Faro. Sobre a sua constituição em 1791, diz o Conde de Val de Reys o seguinte: “... naquele regimento se acham 141 praças incapazes de continuar o real serviço, comprehendo nelas 54 por serem viciosos, debeis e mal figurados, e 87 por terem moléstias reputadas incuráveis”. Falamos de um quarto da força total de cerca de 643.

A situação deste regimento deteriou-se ao ponto de do Brigadeiro Bernardim Freire, numa inspecção em 1803, indicar que a aula regimental não funcionava desde que o Coronel Costa Cardoso tomara o comando, em 1793, entre variadíssimos outros problemas. O maior problema porém, que afectava a disciplina e qualquer espírito de corpo, era que grande parte do regimento era destacado para fora da cidade de Faro, por vezes por anos a fio, muitos embarcados nas esquadras portuguesas dessa altura. Num mapa de 1801, verifica-se que andavam embarcados desde Setembro de 1796 nos corsários Tigre e Onça, destacamentos do regimento; e no Milhafre e canhoneira Lobo, outros desde Maio de 1798.

O próprio Lecor é destacado para servir como oficial artilheiro na Nau Príncipe Real (com 90 peças, a maior nau portuguesa da altura) na chamada ‘Esquadra da Bahia’ formada em 1795, comandada pelo tenente general Bernardo Ramires Esquível para proteger um comboio comercial vindo do Brasil para Portugal. Será o seu último acto como oficial de artilharia, e como Napoleão (comparação algo inédita, mas pronto) parte para outros voos. Falarei do pouco que sei desta aventura no próximo post desta série – a Esquadra da Bahia.

Sobre os comandantes deste regimento, há que referir os dois que dizem mais respeito ao nosso jovem Carlos Frederico Lecor: primeiro, o Brigadeiro Teodósio da Silva Reboxo, que comandou o regimento de 1783 até 1793, muito conceituado dentro da artilharia e que contribuiu fortemente para uma certa fama da aula regimental. Pelas datas, é pouco provável que Lecor tenha servido debaixo das suas ordens e mesmo assim terá já sido numa fase de declínio. Segundo, o Coronel Costa Cardoso, que terá encontrado o regimento bastante desorganizado, o quartel-mestre demente fazia um ano, os livros em desordem.

Assim era o estado da artilharia portuguesa na década de 1790, e em geral apenas representativo do geral estado do Exército Português antes dos desastres de 1801 e 1807.