15 de maio de 2013

Novembro de 1807


Nos idos de Novembro de 1807, temia-se a chegada dos Franceses, comandandos por Junot e encarregados de invadir Portugal. O Marquês de Alorna, D. Pedro de Almeida Portugal, Governador de Armas do Alentejo, enviou os seus três ajudantes d'ordens, Coroneis Lecor e Boucachar e o Major Gaibão, percorrer a zona a norte do Tejo em busca do invasor. A partir de aqui recorro às palavras do 5.º Marquês de Alorna, D. José Trazimundo, sobrinho, que nos deixou as suas memórias destes dias negros:

O Coronel Lecor, em desempenho daquellas ordens, encontrou a vanguarda do exercito de Junot a pouca distancia de Abrantes, junto ao Sardoal, tendo atravessado a Beira Baixa, e, calculando que em seis dias, podia o mesmo exercito estar às portas de Lisboa, partiu logo para Mafra, onde chegou em trinta horas, apesar da grande distância e dos pessimos caminhos. Foi só então que o Príncipe soube que o exercito de Napoleão havia já trinta horas que estava a vinte e quatro léguas da capital!
(...)
Lembro-me, como se fosse hoje, de vêr chegar a Bemfica o Coronel Lecor, cheio de poeira e lama, com o uniforme em desalinho, porque havia oito ou dez dias que se não despia, e triste, respondendo com difficuldade às perguntas que minhas tias lhe faziam a respeito da posição de meu tio. Serviu-se-lhe, á pressa, uma ceia, e, depois de receber várias cartas de minhas tias, partiu em uma das carruagens que o levou a um dos caes do Tejo, onde embarcou para se reunir ao seu General”.(in: Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto - p.6)
Foi esta a primeira aparição pública e notória de Lecor, como os olhos de Alorna e do próprio Príncipe-Regente. Lecor levava de volta a Alorna instruções reais que pareciam irreais - deveria abrir as portas das praças portuguesas aos Franceses e recebê-los como amigos.

13 de maio de 2013

"Perdoa-me, Ferro!": Uma Estória Alentejana


No ano de 1807, Carlos Frederico Lecor, então tenente-coronel, era ajudante de ordens do Marquês de Alorna, que por sua vez era o Governador de Armas do Alentejo. A crise diplomática com França e Espanha começava então a desenvolver-se e uma futura ameaça a desenhar-se, vindo a materializar-se definitivamente em Novembro, com a Primeira Invasão Francesa.

Igreja da Misericórida, Vila Viçosa
No dia a dia do comando onde Lecor trabalhava, um dos mais importantes e movimentados de Portugal de então, pela sua vasta fronteira e vias de comunicação com Espanha. Durante este período, Lecor terá decerto assistido à curiosa história que vos passo a contar, através da simples transcrição de uma carta do 3.º Marquês de Alorna, D. Pedro José de Almeida Portugal, ao então Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, D. António de Araújo de Azevedo, 1.º conde da Barca:

Illmo. e Exmo. Snr.

Fernando Ferro, Anspessada da 2.º Companhia do Regimento de Infantaria n.º 20, disputando com Onofre Jozé da Silva, Soldado da 6.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 15, acabou dizendo que não sahiria de Villa Viçoza, sem fazer hum pincel de bigodes dos Granadeiros de Olivença, este segundo, picando-se do brio de que esta Nação hé tão susceptivel, com grande disconto de ser mal criado, puchou por huma navalha, dêolhe huma facada, e fugio.

O Commandante do Regimento tirou deste cazo a vantagem de reprezentar a indignidade da arma curta, empregada por hum soldado que professa valentia, e lialdade, e que se dezonra dobradamente, quando comete acção traidora com arma traidora. 
Quando todos estavão persuadidos disto, entra o criminozo pelo quartel, dizendo que tinha cometido o crime, e que alli vinha para lhe fazerem o que quizesse ; foi prêzo.

Pela Semana Santa, estando eu na Mizericordia, dizem-me que o soldado de Campomaior me queria falar, e o que quis foi perdoar ao seu assassino, e pedirme incarecidamente que o mandasse soltar.
Não o mandei soltar, mas mandeio buscar, e contei-lhe o que estava sucedendo – ao que elle respondeo // tu já me perdoaste, mas eu sempre te quero pedir perdão; e deitandoselhe aos pés, perdoame Ferro.

Neste cazo que eu não podia dicidir, dicidi em Nome de Sua Alteza Real, que ficasse solto, e espero que Sua Alteza Real me fassa a honra de memandar dizer que fiz bem.

Deus Guarde a V. Ex.ª m. ann. Villa Viçoza. 27 de Março de 1807.

Illmo. e Exmo. Snr. Antonio de Araujo de Azevedo
      Marquez d’Alorna

[Transcrito do Arquivo Histórico Militar, 1.ª Divisão, 13.ª Seção, Caixa n.º 25, n.º 8 - Adaptado ligeiramente, com negrito meu, indicando vocativo e assinatura da carta]

18 de abril de 2013

Campanha de Vitoria, 1813 - Trajeto da 7.ª Divisão (4 a 21de junho)



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Percurso aproximado da Brigada Portuguesa, desde o dia 4/6/1813 a 15/6/1813, numerada 6.ª alguns meses depois, comandanda por Carlos Frederico Lecor,  constituída de 2 batalhões de Infantaria 7 (Setúbal) e 19 (Cascais), cada, e o Batalhão de Caçadores 2. A Brigada pertencia à 7.ª Divisão aliada, de Lord Dalhousie.
O itinerário foi feito com base nos Supplementary Despatches, Correspondence and Memoranda of Field Marshall Arthur Duke of Wellington, K.G., Volume VII, London, John Murray, 1860, editado pelo filho, 2.º Duque de Wellington, pp. 626-sg, disponível em linha em http://books.google.pt/books?id=c5QgAAAAMAAJ.


De 4 a 14 de junho, a 6.ª Divisão seguiu a 7.ª Divisão, no mesmo percurso, mas no dia 15, último dia do percurso agora mostrado, juntam-se a 7.ª e 6.ª à 3.ª Divisão (Picton). 
Durante muita da parte inicial do percurso, a 7.ª e 6.ª Divisão tiveram a Brigadas de Cavalaria do general Alten e a dos Hussardos (Grant) na sua vanguarda. A utilização da cavalaria era vital para o plano de Wellington no sentido de mascarar toda a infantaria de linha que avançava, escondendo-a dos franceses.

Itinerário 
4/6 - Gallegos [Vilarinho dos Galegos] > St. Salvador > Villasexmir
5/6 - Peñaflor [de Horniga] > Torrelobaton
6/6 - > Villalba [del Duero]
7/6 - Villalbla [del Duero] > Villamuriel [de Cerrato]
9/6 - > Tamarra [Támara de Campos]
10/6 - Tamarra > Itero de La Vega/Itero del Castillo
(Alto)
12/6 - > Villoleda
13/6 - > Olmillos [de Sasamón]/ Sasamón
14/6 - > Villadiego > Villanueva de Puerta
15/6 - > San Martin de Helines [Elines]
16/6 - > Villarcayo 


* * *



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16/6 - Villarcayo
18/6 - La Cerca > Salinas de Rósio > Castrobarto
19/6 - Castrobarto > Berberana
20/6 - Berberana > Guilerti [Gillarte] > Sta. Eulalia > Jocano [Jokano] > Apricano [Aprikano]
21/6 - > Anda > Los Guetos [Hueto Arriba & Hueto Abajo] > Mendoza > Vitoria

Este itinerário foi feito com base nos Supplementary Despatches, Correspondence and Memoranda of Field Marshall Arthur Duke of Wellington, K.G., Volume VII, London, John Murray, 1860, editado pelo filho, 2.º Duque de Wellington, pp. 626-sg, disponível em linha em http://books.google.pt/books?id=c5QgAAAAMAAJ.


Rumo ao bicentenário da Batalha de Vitoria. 1813-2013. 

14 de abril de 2013

Itinerários de Carlos Frederico Lecor - 1812

Jardim do Paço Epicospal, Castelo Branco (Wikicommons)

Intinerário de Lecor, 1812

Após um breve comando da futura 6.ª Brigada (Infantaria 7 e 19, 2 batalhões cada + Caçadores 2), pertencente à 7.ª Divisão, Lecor é nomeado, em abril de 1811, pela terceira vez, para o comando militar territorial na Beira Baixa, nomeadamente uma Divisão de Milícias, constituída pelos regimentos de milícias de Castelo Branco, Idanha e Covilhã (que ele havia comandando antes nas Linhas de defesa, na zona do Sobral/Alhandra).

1.1.1812 - Castelo Branco
26.1.1812 - Castelo Branco
4.2.1812 - Castelo Branco
5.2.1812 - Castelo Branco
24.2.1812 - Castelo Branco
25.2.1812 - Castelo Branco
15.3.1812 - Castelo Branco
16.3.1812 - Castelo Branco
6.4.1812 - Castelo Branco
7.4.1812 - Castelo Branco
11.4.1812 - Castelo Branco (retira nesse dia para Vila Velha, face à aproximação da 2.ª Divisão do Armé de Portugal, comandando por Clausel, e parte de uma incursão liderada por Marmont, que alguns chamam a 4.ª Invasão Francesa).

Nota: Em carta ao Lord Liverpool, Wellington refere o dia 12/4 como a data da entrada dos franceses em Castelo Branco e a retirada ordeira de Lecor. Na verdade, em carta do próprio a D. Miguel Pereira Forjaz, Lecor indica a data de 11/4 como a da retirada de Castelo Branco.

12.4.1812 - Vila Velha de Ródão (no mesmo dia, combinado com o 1st Hussards da King's German Legion, passou ao Passo da Milhariça, na estrada de Castelo Branco para Lisboa, na serra do Muradal)
13.4.1812 - Castelo Branco (reentrada em Castelo Branco, após retirada de Clausel)

Nota: Clausel, e a 2.ª Divisão, retiram de Castelo Branco, a ordens do Marechal Marmont, ao terem conhecimento da queda de Badajoz, a 6/4, 7 dias antes. O alívio ao Cerco de Badajoz, que decorria desde 16 de março era um dos dois objetivos da invasão de Marmont; o outro era forragem.

14.4.1812 - Castelo Branco (anúncio de reentrada em Castelo Branco)
15.4.1812 - Castelo Branco 
14.5.1812 - Castelo Branco
1.6.1812 - Castelo Branco
2.6.1812 - Castelo Branco
3.6.1812 - Castelo Branco
4.6.1812 - Promoção a Marechal de Campo (equivalente ao atual Major-General)
6.6.1812 - Castelo Branco
8.6.1812 - Castelo Branco
18.8.1812 - Castelo Branco
23.9.1812 - Castelo Branco
9.10.1812 - Castelo Branco
11.10.1812 - Castelo Branco

(...)

Nota: todas as datas são extraídas de documentos primários e secundários que estão devidamente identificados por mim. Apenas não os coloco por razões de conforto de leitura. Estou, no entanto, sempre ao dispor de qualquer interessado em facultar as referências bibliográficas.

Itinerários de Carlos Frederico Lecor - 1811

Sé de Castelo Branco (Wikicommons)

Itinerário de Lecor 1811

10.2.1811 - Sobral Pequeno (atual Sobralinho), ao comando de uma divisão de Milícias e Infantaria 12.
(3.3.1811 - Wellington, em carta a Beresford, fala do desejo do governo português de nomear Lecor para o Governo de Armas do Minho, expressando discordância.)
8.3.1811 - Sobral Pequeno (Sobralinho)
14.3.1811 - Nomeação para o comando da Brigada portuguesa da recém-formada 7.ª Divisão do exército Aliado.
20.3.1811 - Em carta a Beresford, Wellington refere a intenção de nomear Lecor para, de novo, comandar tropas na Beira Baixa. Refere também que Lecor não quer deixar de comandar a Brigada portuguesa da 7.ª Divisão, mas que o irá chamar e falar com ele acerca dessa eventualidde.

De abril de 1811 a abril de 1813 - 3.º e último período de comando de tropas na Beira Baixa.

13.4.1811 - Wellington informa Beresford que já deu ordens a Lecor para o seu novo comando na Beira Baixa.
16.4.1811 - Vilar Maior (ainda comandante da Brigada portuguesa da 7.ª Divisão)
3.5.1811 - Batalha de Fuentes de Onõro (Lecor já não comandava a Brigada Portuguesa da 7.ª Divisão)
8.5.1811 - Promoção a Brigadeiro
31.5.1811 - Castelo Branco
(...)
24.7.1811 - Castelo Branco
31.7.1811 - Castelo Branco
14.8.1811 - Castelo Branco
8.9.1811 - Castelo Branco
11.9.1811 - Castelo Branco
23.9.1811 - Castelo Branco
29.9.1811 - Castelo Branco
30.9.1811 - Castelo Branco
20.10.1811 - Castelo Branco
28.11.1811 - Castelo Branco
1.12.1811 - Castelo Branco
24.12.1811 - Castelo Branco
25.12.1811 - Castelo Branco

Nota: todas as datas são extraídas de documentos primários e secundários que estão devidamente identificados por mim. Apenas não os coloco por razões de conforto de leitura. Estou, no entanto, sempre ao dispor de qualquer interessado em facultar as referências bibliográficas.

20 de janeiro de 2013

Entrada em Montevidéu - 20.1.1817

"Na segunda-feira, 20 de janeiro de 1817, ao romper do sol, se formaram os Corpos no maior asseio possível, a fim de seus respectivos Comandantes lhes passarem as competentes revistas, e depois de reunida toda a Coluna, pôs-se ele em marcha para a Capital da Banda Oriental.
Às 9 horas, o Major Manoel Marques de Sousa, à frente de um esquadrão de cavalaria da Legião de São Paulo [oficialmente Legião de Voluntários Reais, criados em 1775 - futuro 3.º Regimento de Cavalaria de 1.ª linha do Império] e de outro de Voluntários do Rio Grande [criados em Vaimão, RS, em 1770 - futuro 4.º Regimento de Cavalaria de 1.ª linha do Império], fez alto junto às trincheiras da cidade.
Às 11 horas, chegou o Tenente-General Lecor com o grosso da Divisão de Voluntários Reais e as Tropas brasileiras postas à sua disposição.
O Síndico Bianquini, ao entregar-lhe as chaves da cidade, disse:

De acordo com a vontade do povo, de que somos representantes, entregamos as chaves desta muito fiel, reconquistadora e benemérita Cidade de São Filipe e Santiago de Montevidéu ao muito alto e poderoso Príncipe D. João VI, rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, evocando a proteção de suas armas para esta Província infeliz, certo de que Sua Majestade Fidelíssima respeitará as nossas leis, usos e costumes, e esperando que, no caso de resolver Sua Majestade para o futuro a evacuação desta praça, devolverá ao Cabildo estas chaves que dele recebe.

O General Lecor, saudado como libertador, [...], foi conduzido debaixo de pálio e assim levado à Matriz, onde se entuou Te-Deum; depois a Tropa percorreu algumas ruas do centro da cidade e, à excepção da Coluna de Vanguarda que se aquartelou na Cidadela, foram as Unidades formar uma linha cerca de uma légua da praça, cobrindo os subúrbios, todos com postos avançados.
Consumira a Divisão de Voluntários cerca de sete meses incompletos para deslocar-se de Santa Catarina até Montevidéu."

Excerto tirado de: Gen. Paulo de Queiroz Duarte (1984), Lecor e a Cisplatina 1816-1828 (Volume I), Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército - p. 247
Imagem, de gravura de Gilberto Bellini, desconheço a fonte de onde foi retirada (encontrei-a na wikipedia em língua espanhola), representa a entrada das tropas luso-brasileiras em Montevidéu.

Tropas sob o comando de Lecor à entrada em Montevidéu

Divisão de Voluntários Reais
1.ª Brigada de Infantaria:
- 1.º Regimento de Infantaria ... 1,040
- 1.º Batalhão de Caçadores ... 712
2.ª Brigada de Infantaria:
- 2.º Regimento de Infantaria ... 1,076
- 2.º Batalhão de Caçadores ... 615
Cavalaria ... 756
Artilharia ... 233
(Total de 4,432 efectivos)

Unidades Brasileiras
Batalhão de Infantaria do Rio Grande ... 220
Esquadrão de Cavalaria do Rio Grande ... 113
2 Esquadrões da Legião de São Paulo ... 54
2 Esquadrões da Milícia do Rio Grande ... 196
Companhia de Artilharia a Cavalo ... 62
Guerrilhas do Rio Grande ... 17
(Total de 662 efectivos)

Grande total de 5,094 efectivos

29 de abril de 2012

Juliana e Lecor

No passado dia 12 de abril, José Norton apresentou o seu novo livro "Juliana, Condessa Stroganoff", a biografia de D. Juliana, conhecida mais comummente pelos portugueses como a infame Condessa de Ega. 

José Norton desmonta brilhantemente a cabala histórica que os românticos, primeiro, e todos os outros depois montaram contra Juliana. Para lá da pretensa amante de Junot, frívola e rebelde aristocrata mimada e caída em desgraça, o autor mostra a mulher, apenas e só, fruto das circunstâncias do seu tempo, das ações do seu marido e, principalmente, da educação numa das mais mais progressivas famílias aristocratas portuguesas.

Já habituado à qualidade e fluidez da escrita de José Norton, é suficiente dizer que li este livro em três dias e não fosse pelo meu trabalho teria lido em menos tempo. Pese embora a falta de referências diretas que possam ajudar outros investigadores a ir aos documentos primários - única falha que humildemente aponto, não se deixa de notar a exaustiva pesquisa que o autor levou a cabo e que o faz produzir uma obra num género que deixou saudades com Raul Brandão no início do seculo XX e que recomeça agora a apelar ao gosto dos portugueses pelos tempos idos da gloriosa (digo eu) transição do antigo regime para o liberalismo. A Não-Fição Histórica portuguesa está pois viva e ganha terreno aos romances históricos, bendita seja Clio, a musa da História.

Porque esta postagem não pretende ser uma crítica, há que chegar ao ponto que me traz aqui: Lecor. O nosso amigo Carlos Frederico aparece neste livro, muito da mesma forma que apareceu em "O Último Távora", do mesmo autor. Um personagem secundária, inevitável na medida em que era amigo da família e frequentava a casa desde finais do século XIX. Como primeiro ajudante de ordens do Marquês de Alorna, D. Pedro, desde pelo menos 1805, Lecor frequentava o círculo íntimo da Casa de Alorna e Fronteira e era por todos eles considerado e de extrema confiança para quase todos os assuntos sensíveis.

O papel de Lecor foi o de ligação entre a mãe de Juliana, a futura 4.ª marquesa de Alorna, exilada em Londres e Juliana, no momento em que as forças inglesas derrotaram os franceses em Roliça e Vimeiro, no verão de 1808 e se desmontava o governo francês sobre Portugal, na sequência da Convenção de Sintra. 

Lecor, no âmbito da segunda vaga de fugas ao domínio francês, por alturas da Páscoa de 1808, havia fugido para Londres com o objetivo de viajar depois para o Brasil. Durante os 3 meses que permaneceu na Inglaterra, além de participar na formação da Leal Legião Lusitana (LLL), esteve em contato com a mãe de Juliana e ao voltar para Portugal, na companhia do 1.º batalhão da LLL, trouxe cartas de vital importância para as filhas da futura marquesa de Alorna, e especialmente Juliana, casada que era com um dos mais prolíferos e voluntariosos colaboradores de Junot, o conde de Ega.

Um primeiro ponto importante, que José Norton deixa em aberto é a data de chegada de Lecor a Portugal. De facto, Lecor chega ao Porto no dia 18 de agosto de 1808, na companhia de vários oficiais, nomeadamente Sir Robert Wilson que é nomeado semanas depois comandante da LLL pelo Bispo do Porto. Esta informação foi-me gentilmente passada por Moisés Gaudêncio, historiador desta época e especialmente da Legião, com base na biografia de Wilson, "A Very Slippery Fellow", de Michael Glover (a viagem dura 9 dias). A questão é que Lecor vinha com uma missão mais importante, a de preparar um segundo batalhão da LLL e de preparar a chegada do primeiro, organizado em Plymouth.

No livro, através de uma carta de uma das irmãs de Juliana, Frederica, sabe-se que Lecor entrega eventualmente as cartas incluindo a destinada a Juliana, já embarcada no navio inglês que a levaria para a França. Fá-lo decerto só após concluir as suas tarefas no âmbito da LLL, que incluiu algum tempo passado no Porto e uma posterior viagem, a 24 de agosto, ao Ramalhal, acompanhando Wilson, para conferenciar com o General Dalrymple, comandante das forças inglesas em Portugal.

De acordo com a carta de Frederica à mãe, nos inícios de Outubro, é referido que Lecor entrega as cartas, mas tarde demais para que se possa entregar a destinada a Juliana, que havia partido a 15 de setembro com destino a França.

Em relação a Carlos Frederico Lecor, não se sabe se acompanhou Sir Robert Wilson ao Ramalhal a 24.8.1808, ou se ficou no Porto a tratar dos assuntos da Legião (o que é bem mais provável). Seja como for, ele entregou as cartas no início de Outubro, tarde demais para Juliana, se bem que creio que pouca influência teria no destino dos condes de Ega.

Lecor poderia ter enviado as cartas por correio de confiança de Porto para Lisboa, mas creio que a sensibilidade das mesmas e a necessidade de as entregar em mãos só permitiu que ele as entregasse ele próprio quando pode finalmente ir a Lisboa, tarde demais para que chegassem a Juliana.

Aqui está, pois, o meu pequeno contributo no que tange ao papel de Lecor nesta história. Espero que complemente a leitura de "Juliana, Condessa Stroganof", livro que recomendo vivamente aos caros leitores deste blogue.

José Norton, Juliana - Condessa de Stroganoff, Filha da marquesa de Alorna, A vida da portuguesa mais influente da Europa no século XIX. Edição: 2012; Páginas: 440; Editor: Livros d'Hoje; ISBN: 9789722047944.