Bairro de Santos-o-Velho (será o novo no Brasil?). Então Rua, hoje Travessa, Pé de Ferro. Aqui nasceu, em 6 de Outubro de 1764, Carlos Frederico Lecor, filho de Louis Pierre Lecor e de D. Quitéria Luísa Marina, afilhado do seu tio Carlos Frederico Krusse (que lhe deu os dois nomes próprios) e da sua tia D. Vitória Berarda Marciana Krusse.
Aqui vos deixo três fotos que tirei há umas semanas:
2 de maio de 2014
17 de novembro de 2013
'Frio por caracter y absolutista por hábito profesional'
Na minha busca de Lecor, não encontrei senão meros esboços do homem por trás do militar, nada de cartas pessoais e apenas meras referências esporádicas à sua vida pessoal e íntima.
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| Gen. Tomás de Iriarte (1794-1878) |
O extrato que publico veio colmatar alguma dessa falta, não porque nos dê a dimensão humana mais íntima dele, mas porque é o aprofundamento das memórias de um general argentino que usufruiu da hospitalidade portuguesa em Montevidéu, Tomás de Iriarte [NA FOTO], oficial de artilharia, e que o conheceu. Iriarte esteve em Montevidéu pelo menos em 1817/18 e em 1820, em momentos de exílio face à situação política conturbada nas então Províncias Unidas do Rio da Prata.
O extrato que apresento, que faz parte das memórias de Iriarte, diz respeito a quando este conheceu Lecor em Montevidéu, em 1820, pois noutro momento das sua smemórias este refere-se ao interesse que o general português votada ao General San Martin, nas conversas que mantinha, e a expedição que se preparava em Buenos Aires contra o exército realista espanhol no Chile, como se veio depois a concretizar.
Tomás de Iriarte, que é normalmente criticado por ter as pessoas que retrata nas suas memórias em péssima estima, por algum desapontamento 40 anos depois, quando escreve o livro, é face a Carlos Frederico Lecor (recém feito Barão da Laguna) extremamente honesto e equilibrado e, na opinião deste que vos escreve, retrata o general português, buscado incessantemente neste blogue, de uma forma que articulada com todos os outros pequenos extratos que já li, nos faz fé de ser extremamente incisiva e correta, não nos dando todo o homem, mas aquele como era visto por outros, a única perspetiva a que tenho acesso.
Coloco o texto na sua língua e ortografia original, assim como uma gravura de Lecor na altura dos factos.
«No era este, en verdad, un hombre vaciado en el
molde comun, pero es igualmente cierto que no se distinguia por calidades
relevantes, espresion del genio. Su aspecto y su caracter revelaban la escuela
y profession del soldado envegecido en los campos; pero ni se entienda por esto
que careciese de urbanidad y cortesania: al contrario, era afable y
complaciente, sin derogar de su dignidad, com quantos cultivaban su trato; y
unia á un talante severo la compostura del hombre culto avezado à la alta
sociedad. Hombre de mundo, su espíritu conciliador fué un resorte eficaz que
constantemente puso en juego para consolidar su conquista; y si porque los
orientales no podian soportar el yugo estrangero, el general Lecor no fué el
idolo del pueblo, tampoco puede aseverarse que alimentasen contra él
sentimientos de odio y reprobacion personal. Si mas tarde la presa se le escapò
de las manos, no se podria com justicia hacerle un cargo de incapacidad, porque
los acontecimientos se agolparon com fracaso y rapidez, y todo el saber humano
no habria podido dominarlos. En fin, y para concluir el retrato del general
Lecor, en que insensiblemente nos hemos empeñado, daremos la última
pincelada: ̶̶ era frio por caracter y absolutista por
hàbito profesional, bajo una monarquia ilimitada: no habia en su dilatada
carrera conocido outro sistema que el de la obediencia pasiva, y lo creia el
único conveniente; pero los estimulos de su corazon eran nobles y
desapasionados.»
Tomás de Iriarte, Glorias Argentinas y Recuerdos Historicos (1818-1825), Buenos Aires, Libreria de da Victoria, 1858 (pp. 19-20)
7 de setembro de 2013
Herói da Brasileia Liberdade
O anjo do Brasil então havia
Para as partes do Sul seu vôo erguido
Onde as tropas de Lisia ora regia
O portuguez Lecor, varão subido:
O Anjo em suas visceras ascendia
Seu fogo, e nelle já todo encendido
Se-dedicava, em sua intensidade,
Em favor da Brasilea Liberdade.
Mas prevendo este effeito o negro Abysmo,
Para as parte do Sul tambem voava
Com apressado vôo o Despostismo
Onde p’ra si desgraças encarava!
Voa com ele o mis’ro Servilismo,
Que neste empenho tanto o-ajudava!
E mal que nesse ponto ambos chegaram,
No esp’rito de Dom Alv’ro penetraram.
Tenta Lecor os seus ver dedicados
Ao Brasil onde, crê toda a justiça:
Mas aos lusos, por Alv’ro já ganhados,
Contra o Brasil o Servilismo atiça!
De Lecor os esforços são baldados,
Tanto póde de Alvaro a cobiça!
Deixou então Lecor seus companheiros,
Se-votando aos valentes Brasileiros!
Embora, ó luso, general honrado,
Com venturoso, e radiante effeito
Não fosse o teu esforço coroado,
O que tu viste com mortal despeito!
Tu serás no Brasil sempre lembrado
Por esse eterno, e glorioso feito!
Um nome te-concede a Eternidade
No templo da suprema Liberdade!
in: Canto XI.
António Gonçalves Teixeira e Sousa, A Independência do Brasil – Poema Épico em 12 Cantos, 1855 (2.º Volume), RJ: Tip. 2 de Dezembro do P. Brito
13 de agosto de 2013
1.º Combate de Zugarramurdi, 13 de agosto de 1813
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| Zugarramurdi |
18 dias antes do 2.º combate de Zugarramurdi, cujo relatório do Marechal de Campo Lecor transcrevi no post respetivo, a mesma Brigada Portuguesa da 7.ª Divisão havia sido ordenada a atacar os franceses na vila basca.
Segue o relatório que Lecor escreveu a Manuel de Brito Mozinho, secretário militar do Marechal Beresford. Talvez esta fonte primária possa ajudar a perceber as ações de 31 de agosto.
Illmo. Senhor,
Tenho
a honra de participar a V. S.ª para por na prezença do Illmº e Exmº Mar.al
Marquez de Campo Mayor que tendo o Gen. Lord Darluze ordenado no dia 13 de
tarde que duas Companhias do Regimento de Infantaria n.º 19 occupassem o Povo
de Zugaramura, ao pôr do sol o inimigo atacou este Povo com forças mtº
supperiores, e obrigou as ditas Compªs a evacuarem o dº Povo para evitarem ser
envolvidas protegendo a sua retirada hum piquete do Batalhão de Cass.es n.º 2
perdendo hum e outro corpo os indeviduos q constão do mappa que remeto incluzo.
O inimigo teve de
perda 2 officiaes e 5 soldºs mortos e 15 feridos.
O sobredº Povo achase
ainda occupado com hum piquete francez.
Deus guarde a V. Sª muitos anos. Campo
da 7.ª Divisão 15 de Agosto de 1813
Illmo. Sr. Manuel de Brito Mozinho
Carlos Frederico Lecor
M de C.
Arquivo Histórico Militar, AHM 1-14-243-19
Participaram desta ação, os seguintes:
- Regimento de Infantaria n.º 19 - 190 homens : Capitão John Ross;
- Batalhão de Caçadores n.º 2 - 453 homens: Major Zuhlcke
15 de maio de 2013
Novembro de 1807

Nos idos de Novembro de 1807, temia-se a chegada dos Franceses, comandandos por Junot e encarregados de invadir Portugal. O Marquês de Alorna, D. Pedro de Almeida Portugal, Governador de Armas do Alentejo, enviou os seus três ajudantes d'ordens, Coroneis Lecor e Boucachar e o Major Gaibão, percorrer a zona a norte do Tejo em busca do invasor. A partir de aqui recorro às palavras do 5.º Marquês de Alorna, D. José Trazimundo, sobrinho, que nos deixou as suas memórias destes dias negros:
(...)
Lembro-me, como se fosse hoje, de vêr chegar a Bemfica o Coronel Lecor, cheio de poeira e lama, com o uniforme em desalinho, porque havia oito ou dez dias que se não despia, e triste, respondendo com difficuldade às perguntas que minhas tias lhe faziam a respeito da posição de meu tio. Serviu-se-lhe, á pressa, uma ceia, e, depois de receber várias cartas de minhas tias, partiu em uma das carruagens que o levou a um dos caes do Tejo, onde embarcou para se reunir ao seu General”.(in: Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto - p.6)
Foi esta a primeira aparição pública e notória de Lecor, como os olhos de Alorna e do próprio Príncipe-Regente. Lecor levava de volta a Alorna instruções reais que pareciam irreais - deveria abrir as portas das praças portuguesas aos Franceses e recebê-los como amigos.
13 de maio de 2013
"Perdoa-me, Ferro!": Uma Estória Alentejana
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| Igreja da Misericórida, Vila Viçosa |
Illmo. e Exmo. Snr.
Fernando Ferro, Anspessada da 2.º Companhia do Regimento de
Infantaria n.º 20, disputando com Onofre Jozé da Silva, Soldado da 6.ª
Companhia do Regimento de Infantaria n.º 15, acabou dizendo que não
sahiria de Villa Viçoza, sem fazer hum pincel de bigodes dos Granadeiros
de Olivença, este segundo, picando-se do brio de que esta Nação hé tão
susceptivel, com grande disconto de ser mal criado, puchou por huma
navalha, dêolhe huma facada, e fugio.
O Commandante do Regimento tirou deste cazo a vantagem de reprezentar a indignidade da arma curta, empregada por hum soldado que professa valentia, e lialdade, e que se dezonra dobradamente, quando comete acção traidora com arma traidora.
Quando todos estavão persuadidos disto, entra o criminozo pelo quartel, dizendo que tinha cometido o crime, e que alli vinha para lhe fazerem o que quizesse ; foi prêzo.
Pela Semana Santa, estando eu na Mizericordia, dizem-me que o soldado de Campomaior me queria falar, e o que quis foi perdoar ao seu assassino, e pedirme incarecidamente que o mandasse soltar.
Não o mandei soltar, mas mandeio buscar, e contei-lhe o que estava sucedendo – ao que elle respondeo // tu já me perdoaste, mas eu sempre te quero pedir perdão; e deitandoselhe aos pés, perdoame Ferro.
Neste cazo que eu não podia dicidir, dicidi em Nome de Sua Alteza Real, que ficasse solto, e espero que Sua Alteza Real me fassa a honra de memandar dizer que fiz bem.
O Commandante do Regimento tirou deste cazo a vantagem de reprezentar a indignidade da arma curta, empregada por hum soldado que professa valentia, e lialdade, e que se dezonra dobradamente, quando comete acção traidora com arma traidora.
Quando todos estavão persuadidos disto, entra o criminozo pelo quartel, dizendo que tinha cometido o crime, e que alli vinha para lhe fazerem o que quizesse ; foi prêzo.
Pela Semana Santa, estando eu na Mizericordia, dizem-me que o soldado de Campomaior me queria falar, e o que quis foi perdoar ao seu assassino, e pedirme incarecidamente que o mandasse soltar.
Não o mandei soltar, mas mandeio buscar, e contei-lhe o que estava sucedendo – ao que elle respondeo // tu já me perdoaste, mas eu sempre te quero pedir perdão; e deitandoselhe aos pés, perdoame Ferro.
Neste cazo que eu não podia dicidir, dicidi em Nome de Sua Alteza Real, que ficasse solto, e espero que Sua Alteza Real me fassa a honra de memandar dizer que fiz bem.
Deus Guarde a V. Ex.ª m. ann. Villa Viçoza. 27 de Março de 1807.
Illmo. e Exmo. Snr. Antonio de Araujo de Azevedo
Marquez d’Alorna
[Transcrito do Arquivo Histórico Militar, 1.ª Divisão, 13.ª Seção, Caixa
n.º 25, n.º 8 - Adaptado ligeiramente, com negrito meu, indicando vocativo e assinatura da carta]
18 de abril de 2013
Campanha de Vitoria, 1813 - Trajeto da 7.ª Divisão (4 a 21de junho)
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Percurso aproximado da Brigada Portuguesa, desde o dia 4/6/1813 a 15/6/1813, numerada 6.ª alguns meses depois, comandanda por Carlos Frederico Lecor, constituída de 2 batalhões de Infantaria 7 (Setúbal) e 19 (Cascais), cada, e o Batalhão de Caçadores 2. A Brigada pertencia à 7.ª Divisão aliada, de Lord Dalhousie.
O itinerário foi feito com base nos Supplementary Despatches, Correspondence and Memoranda of Field Marshall Arthur Duke of Wellington, K.G., Volume VII, London, John Murray, 1860, editado pelo filho, 2.º Duque de Wellington, pp. 626-sg, disponível em linha em http://books.google.pt/books?id=c5QgAAAAMAAJ.
De 4 a 14 de junho, a 6.ª Divisão seguiu a 7.ª Divisão, no mesmo percurso, mas no dia 15, último dia do percurso agora mostrado, juntam-se a 7.ª e 6.ª à 3.ª Divisão (Picton).
Durante muita da parte inicial do percurso, a 7.ª e 6.ª Divisão tiveram a Brigadas de Cavalaria do general Alten e a dos Hussardos (Grant) na sua vanguarda. A utilização da cavalaria era vital para o plano de Wellington no sentido de mascarar toda a infantaria de linha que avançava, escondendo-a dos franceses.
Itinerário
4/6 - Gallegos [Vilarinho dos Galegos] > St. Salvador > Villasexmir
5/6 - Peñaflor [de Horniga] > Torrelobaton
6/6 - > Villalba [del Duero]
7/6 - Villalbla [del Duero] > Villamuriel [de Cerrato]
9/6 - > Tamarra [Támara de Campos]
10/6 - Tamarra > Itero de La Vega/Itero del Castillo
(Alto)
12/6 - > Villoleda
13/6 - > Olmillos [de Sasamón]/ Sasamón
14/6 - > Villadiego > Villanueva de Puerta
15/6 - > San Martin de Helines [Elines]
16/6 - > Villarcayo
* * *
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16/6 - Villarcayo
18/6 - La Cerca > Salinas de Rósio > Castrobarto
19/6 - Castrobarto > Berberana
20/6 - Berberana > Guilerti [Gillarte] > Sta. Eulalia > Jocano [Jokano] > Apricano [Aprikano]
21/6 - > Anda > Los Guetos [Hueto Arriba & Hueto Abajo] > Mendoza > Vitoria
Este itinerário foi feito com base nos Supplementary Despatches, Correspondence and Memoranda of Field Marshall Arthur Duke of Wellington, K.G., Volume VII, London, John Murray, 1860, editado pelo filho, 2.º Duque de Wellington, pp. 626-sg, disponível em linha em http://books.google.pt/books?id=c5QgAAAAMAAJ.
Rumo ao bicentenário da Batalha de Vitoria. 1813-2013.
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