7 de maio de 2014

Pequena biografia: António Pedro Lecor (I Parte: 1768-1828)

Largo da Sé, em Faro (fonte: wikicommons)
ANTÓNIO PEDRO LECOR, terceiro filho de Luiz Pedro Lecor e D. Quitéria Luísa Marina Lecor, nasceu a 6 de Setembro de 1768, em Santos o Velho, Lisboa, apesar de, por alguma razão, ter sido baptizado na paróquia vizinha de Alcântara, 22 dias depois. Muda-se para Faro com a sua família algures na década de 1770. Com 18 anos, a 10 de Março de 1788, e dois meses após o seu irmão Jorge Frederico, alista-se como voluntário no Regimento de Infantaria de Faro, aquartelado então em Tavira. Durante esse período, e durante um ano, frequenta a Aula Regimental de Tavira, onde estudou os dezasseis livros do curso matemático de Bellidor, tendo sido admitido ao estudo de fortificação de Antoni. Passa ao Regimento de Artilharia do Algarve, em Faro, também como o irmão, a 16 de julho do ano seguinte. Embarca na nau S. António, em Lagos, em 10 de agosto de 1793 com os irmãos, João Pedro e Jorge Frederico, também cadetes, e as três companhias de artilheiros de Faro para a Catalunha onde participa nas operações do Exército Auxiliador. Na Catalunha ou Roussilhão, sofre ferimentos não especificados que fazem com que seja afligido de uma moléstia nervosa, que mais à frente, lhe impede a mobilidade e independência pessoal. Antes ainda de retornar às sede do seu regimento, é promovido a 2.º Tenente da 4.ª companhia de artilheiros a 31 de outubro de 1795. A 16 de novembro de 1800 passa no mesmo posto à companhia de sapadores e mineiros. Em 1803 é colocado numa lista de incapazes, mas apenas a 17 de dezembro de 1805 passa à reforma. A 20 de setembro de 1808, no entanto, é promovido a 1.º Tenente agregado da Companhia de Artilharia Fixa de Faro, recebendo a carta patente a 2 de janeiro de 1812. Apesar da sua moléstia crónica, que o impede de fazer uso das mãos, é promovido , na promoção geral de 24 de junho de 1815, a Capitão, assistente do Ajudante General da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, mas não acompanha a divisão para o Brasil, sendo promovido a Sargento Mor Governador da Praça de Faro a 28 de maio de 1816. Mantém-se neste cargo até 1828, apesar de se apresentar, em 1824, “muito doente e magro”, “débil” e “incapaz de todo o serviço”.

(Ainda por continuar)

Leia também:
- Acontecimentos em Faro, 1828

6 de maio de 2014

Pequena biografia: João Pedro Lecor (I Parte: 1766-1816)

Sé de Faro, onde João Pedro se casou em 1804.
(fonte: Wikicommons)
JOÃO PEDRO LECOR, segundo filho de Luiz Pedro Lecor e D. Quitéria Luísa Marina Lecor nasceu a 7 de outubro de 1766, em Santos-o-Velho, Lisboa, na rua São João da Mata. Muda-se para Faro com a sua família algures na década de 1770. Alista-se por volta de dezembro de 1792 ou Janeiro de 1793, no Regimento de Artilharia do Algarve, com quartel em Faro, sendo soldado da 5.ª companhia de artilheiros. Oito meses após assentar praça, é nomeado cadete (muitas vezes dito também sargento-cadete), apesar de ter mais 4 anos que a idade estabelecida no decreto de 1757. Embarca na nau S. António, em Lagos,  em 10 de agosto de 1793 com os irmãos, António Pedro e Jorge Frederico, também cadetes, e as três companhias de artilheiros de Faro para a Catalunha onde participa nas operações do Exército Auxiliador. Cai prisioneiro de guerra dos franceses, em 1794, e permanece em cativeiro na área de Toulose por dez meses. A 7 de outubro de 1795, e de volta à sede do regimento, é graduado em 2.º Tenente. Vai a 1 de abril do ano seguinte como Tenente na Legião de Tropas Ligeiras, na 4.ª companhia de infantaria. No entanto, por alguma razão, acaba por voltar logo em seguida para o regimento de Artilharia do Algarve, ficando como 1.º Tenente da 4.ª companhia de artilheiros. No ocaso do século XVIII, a 13 de fevereiro de 1800, é graduado em Capitão, em atenção ao serviço prestado na Campanha do Roussilhão e Catalunha, e aos prejuízos sofridos enquanto esteve prisioneiro dos Franceses, mantendo o exercício de 1.º Tenente da 4.ª companhia. A 28 de julho de 1804, João Pedro casa-se com Brigida Leonor da Fonseca, na Sé de Faro. Um ano depois, a 17 de dezembro é promovido a Capitão efetivo, comandando a 6.ª companhia de artilheiros. Durante a primeira invasão Francesa, entre finais de 1807 e 1808, pede a demissão do Regimento de Artilheria n.º 2, indicando numa carta de 1814 que foi o único oficial que o fez. Aquando do levantamento anti francês e criação da Junta em Faro, a 22 ou 23 de junho de 1808, foi empregue como enviado da Junta, com o seu primo Tenente Coronel António Pedro Buys, à esquadra inglesa e depois a Cadiz e Gibraltar, por forma a adquirir víveres, armas e munições.
Albufeira (fonte:wikicommons)
A 17 de novembro de 1809, é promovido a Sargento Mor Governador da Praça de Albufeira, 35 quilómetros a oeste de Faro. Permanece nesse cargo durante a Guerra Peninsular e bem até 1815. Queixa-se bastante do pouco rendimento que obtém do seu posto, tendo em atenção à pouca movimentação portuária. Em 22 de junho de 1815, é nomeado para Tenente Coronel Ajudante de Ordens principal do seu irmão, Tenente General Carlos Frederico Lecor, na Divisão de Voluntários Reais do Príncipe. Participa na organização desta unidade para intervir no Reino do Brasil. Embarca, com todo o estado maior e a infantaria da Divisão, a 20 de janeiro de 1816, chegando ao Rio de Janeiro a 30 de março.

Postagens antigas sobre João Pedro Lecor: 
- "Coisas que nunca mudam" (1814):  http://lecor.blogspot.pt/2008/05/coisas-que-nunca-mudam.html
- Biografia (feita em 2008): http://lecor.blogspot.pt/2008/03/joo-pedro-lecor.html

2 de maio de 2014

Aqui Nasceu Lecor.

Bairro de Santos-o-Velho (será o novo no Brasil?). Então Rua, hoje Travessa, Pé de Ferro. Aqui nasceu, em 6 de Outubro de 1764, Carlos Frederico Lecor, filho de Louis Pierre Lecor e de D. Quitéria Luísa Marina, afilhado do seu tio Carlos Frederico Krusse (que lhe deu os dois nomes próprios) e da sua tia D. Vitória Berarda Marciana Krusse.

Aqui vos deixo três fotos que tirei há umas semanas:


foto 1: um das duas secções da actual travessa,
a mais afastada da Rua de Trinas (de Mocambo)

foto 2: Entrada na travessa pela Rua de Trinas

foto 3: Vista do Tejo, na Rua de Trinas, mesmo à entrada da Travessa onde Lecor nasceu.

17 de novembro de 2013

'Frio por caracter y absolutista por hábito profesional'


Na minha busca de Lecor, não encontrei senão meros esboços do homem por trás do militar, nada de cartas pessoais e apenas meras referências esporádicas à sua vida pessoal e íntima. 

Gen. Tomás de Iriarte
(1794-1878)
O extrato que publico veio colmatar alguma dessa falta, não porque nos dê a dimensão humana mais íntima dele, mas porque é o aprofundamento das memórias de um general argentino que usufruiu da hospitalidade portuguesa em Montevidéu, Tomás de Iriarte [NA FOTO], oficial de artilharia, e que o conheceu. Iriarte esteve em Montevidéu pelo menos em 1817/18 e em 1820, em momentos de exílio face à situação política conturbada nas então Províncias Unidas do Rio da Prata.

O extrato que apresento, que faz parte das memórias de Iriarte, diz respeito a quando este conheceu Lecor em Montevidéu, em 1820, pois noutro momento das sua smemórias este refere-se ao interesse que o general português votada ao General San Martin, nas conversas que mantinha, e a expedição que se preparava em Buenos Aires contra o exército realista espanhol no Chile, como se veio depois a concretizar.

Tomás de Iriarte, que é normalmente criticado por ter as pessoas que retrata nas suas memórias em péssima estima, por algum desapontamento 40 anos depois, quando escreve o livro, é face a Carlos Frederico Lecor (recém feito Barão da Laguna) extremamente honesto e equilibrado e, na opinião deste que vos escreve, retrata o general português, buscado incessantemente neste blogue, de uma forma que articulada com todos os outros pequenos extratos que já li, nos faz fé de ser extremamente incisiva e correta, não nos dando todo o homem, mas aquele como era visto por outros, a única perspetiva a que tenho acesso.

Coloco o texto na sua língua e ortografia original, assim como uma gravura de Lecor na altura dos factos.


«No era este, en verdad, un hombre vaciado en el molde comun, pero es igualmente cierto que no se distinguia por calidades relevantes, espresion del genio. Su aspecto y su caracter revelaban la escuela y profession del soldado envegecido en los campos; pero ni se entienda por esto que careciese de urbanidad y cortesania: al contrario, era afable y complaciente, sin derogar de su dignidad, com quantos cultivaban su trato; y unia á un talante severo la compostura del hombre culto avezado à la alta sociedad. Hombre de mundo, su espíritu conciliador fué un resorte eficaz que constantemente puso en juego para consolidar su conquista; y si porque los orientales no podian soportar el yugo estrangero, el general Lecor no fué el idolo del pueblo, tampoco puede aseverarse que alimentasen contra él sentimientos de odio y reprobacion personal. Si mas tarde la presa se le escapò de las manos, no se podria com justicia hacerle un cargo de incapacidad, porque los acontecimientos se agolparon com fracaso y rapidez, y todo el saber humano no habria podido dominarlos. En fin, y para concluir el retrato del general Lecor, en que insensiblemente nos hemos empeñado, daremos la última pincelada:  ̶̶ era frio por caracter y absolutista por hàbito profesional, bajo una monarquia ilimitada: no habia en su dilatada carrera conocido outro sistema que el de la obediencia pasiva, y lo creia el único conveniente; pero los estimulos de su corazon eran nobles y desapasionados.»

Tomás de Iriarte, Glorias Argentinas y Recuerdos Historicos (1818-1825), Buenos Aires, Libreria de da Victoria, 1858 (pp. 19-20)

7 de setembro de 2013

Herói da Brasileia Liberdade


Antes de mais, um pouco de poesia celebrando Lecor, Heroi da Brasilea Liberdade:

O anjo do Brasil então havia
Para as partes do Sul seu vôo erguido
Onde as tropas de Lisia ora regia
O portuguez Lecor, varão subido:
O Anjo em suas visceras ascendia
Seu fogo, e nelle já todo encendido
Se-dedicava, em sua intensidade,
Em favor da Brasilea Liberdade.

Mas prevendo este effeito o negro Abysmo,
Para as parte do Sul tambem voava
Com apressado vôo o Despostismo
Onde p’ra si desgraças encarava!
Voa com ele o mis’ro Servilismo,
Que neste empenho tanto o-ajudava!
E mal que nesse ponto ambos chegaram,
No esp’rito de Dom Alv’ro penetraram.

Tenta Lecor os seus ver dedicados
Ao Brasil onde, crê toda a justiça:
Mas aos lusos, por Alv’ro já ganhados,
Contra o Brasil o Servilismo atiça!
De Lecor os esforços são baldados,
Tanto póde de Alvaro a cobiça!
Deixou então Lecor seus companheiros,
Se-votando aos valentes Brasileiros!

Embora, ó luso, general honrado,
Com venturoso, e radiante effeito
Não fosse o teu esforço coroado,
O que tu viste com mortal despeito!
Tu serás no Brasil sempre lembrado
Por esse eterno, e glorioso feito!
Um nome te-concede a Eternidade
No templo da suprema Liberdade! 

in: Canto XI.
António Gonçalves Teixeira e Sousa, A Independência do Brasil – Poema Épico em 12 Cantos, 1855 (2.º Volume), RJ: Tip. 2 de Dezembro do P. Brito

13 de agosto de 2013

1.º Combate de Zugarramurdi, 13 de agosto de 1813

Zugarramurdi
18 dias antes do 2.º combate de Zugarramurdi, cujo relatório do Marechal de Campo Lecor transcrevi no post  respetivo, a mesma Brigada Portuguesa da 7.ª Divisão havia sido ordenada a atacar os franceses na vila basca. 

Segue o relatório que Lecor escreveu a Manuel de Brito Mozinho, secretário militar do Marechal Beresford. Talvez esta fonte primária possa ajudar a perceber as ações de 31 de agosto.


 Illmo. Senhor,


Tenho a honra de participar a V. S.ª para por na prezença do Illmº e Exmº Mar.al Marquez de Campo Mayor que tendo o Gen. Lord Darluze ordenado no dia 13 de tarde que duas Companhias do Regimento de Infantaria n.º 19 occupassem o Povo de Zugaramura, ao pôr do sol o inimigo atacou este Povo com forças mtº supperiores, e obrigou as ditas Compªs a evacuarem o dº Povo para evitarem ser envolvidas protegendo a sua retirada hum piquete do Batalhão de Cass.es n.º 2 perdendo hum e outro corpo os indeviduos q constão do mappa que remeto incluzo.

O inimigo teve de perda 2 officiaes e 5 soldºs mortos e 15 feridos.

O sobredº Povo achase ainda occupado com hum piquete francez.



Deus guarde a V. Sª muitos anos. Campo da 7.ª Divisão 15 de Agosto de 1813



Illmo. Sr. Manuel de Brito Mozinho



Carlos Frederico Lecor

M de C.

Arquivo Histórico Militar,  AHM 1-14-243-19


Participaram desta ação, os seguintes:
- Regimento de Infantaria n.º 19 - 190 homens : Capitão John Ross;
- Batalhão de Caçadores n.º 2 - 453 homens: Major Zuhlcke

15 de maio de 2013

Novembro de 1807


Nos idos de Novembro de 1807, temia-se a chegada dos Franceses, comandandos por Junot e encarregados de invadir Portugal. O Marquês de Alorna, D. Pedro de Almeida Portugal, Governador de Armas do Alentejo, enviou os seus três ajudantes d'ordens, Coroneis Lecor e Boucachar e o Major Gaibão, percorrer a zona a norte do Tejo em busca do invasor. A partir de aqui recorro às palavras do 5.º Marquês de Alorna, D. José Trazimundo, sobrinho, que nos deixou as suas memórias destes dias negros:

O Coronel Lecor, em desempenho daquellas ordens, encontrou a vanguarda do exercito de Junot a pouca distancia de Abrantes, junto ao Sardoal, tendo atravessado a Beira Baixa, e, calculando que em seis dias, podia o mesmo exercito estar às portas de Lisboa, partiu logo para Mafra, onde chegou em trinta horas, apesar da grande distância e dos pessimos caminhos. Foi só então que o Príncipe soube que o exercito de Napoleão havia já trinta horas que estava a vinte e quatro léguas da capital!
(...)
Lembro-me, como se fosse hoje, de vêr chegar a Bemfica o Coronel Lecor, cheio de poeira e lama, com o uniforme em desalinho, porque havia oito ou dez dias que se não despia, e triste, respondendo com difficuldade às perguntas que minhas tias lhe faziam a respeito da posição de meu tio. Serviu-se-lhe, á pressa, uma ceia, e, depois de receber várias cartas de minhas tias, partiu em uma das carruagens que o levou a um dos caes do Tejo, onde embarcou para se reunir ao seu General”.(in: Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto - p.6)
Foi esta a primeira aparição pública e notória de Lecor, como os olhos de Alorna e do próprio Príncipe-Regente. Lecor levava de volta a Alorna instruções reais que pareciam irreais - deveria abrir as portas das praças portuguesas aos Franceses e recebê-los como amigos.