1 de janeiro de 2015

Nicolaus Krusse e os seus Negócios no Brasil



Olinda, Capital do Pernambuco,
à altura (1726-1729)
Em maio de 1726, o provedor e deputados da Mesa de Homens de Negócio da capitania de Pernambuco enviaram  uma representação ao rei, entre outros assuntos, pedindo a remessa de “dois estrangeiros, Pedro Graaf e Nicolau da Cruz [sic]”. Por de trás dum nome tipicamente português, Cruz, temos uma alemão de Hamburgo, Nicolaus Krusse, avô materno do Marechal Carlos Frederico Lecor.

Sendo acusados de estar a conduzir negócios no Brasil, sem terem autorização para isso, ficou decidido que o Nicolaus tinha que retornar a Portugal, porque alemão, ou melhor hamburguês, e Pedro Graaf, porque holandês, podia ficar, em função dos acordos diplomáticos. Em finais de 1729, os dois comerciantes ainda apresentam um requerimento, onde pedem para continuar residindo e negociando na dita capitania, mas é certo que em 1730, Nicolaus voltou a Portugal, decerto a cidade de Portimão, no Barlavento algarvio.


Portimão, visto de leste
Após casar com Teresa do Nascimento, em ano que desconheço, nasce Carlos Frederico Krusse, o seu primeiro filho, em 1734, em Portimão. Tem, aliás, três filhos e três filhas, nascidos todos  em Portimão entre 1733 e 1748.

Nicolau Krusse, Crusi ou Cruz, como por vezes está grafado,  vem a falecer em Santos o Velho, a 15 de Março de 1758. Neste mesmo bairro de Lisboa, três anos depois, a sua filha Quitéria Maria Luísa Marina casa com Luís Pedro Lecor, a 3 de fevereiro. Seis anos depois nasce o seu neto, Carlos Frederico Lecor, a 6 de outubro.

Após a sua instalação em Pernambuco não ter sido bem sucedida, e de ter aberto loja em Portimão, perto do importante porto de Lagos, Nicolaus parece ter-se mudado para Lisboa, entre 1748 e 1758, podendo a mudança ter sido perfeitamente regular, em busca dos maiores e mais importantes mercados em Lisboa, ou em função do Terremoto de 1755, em que a cidade de Portimão ficou muito destruída, como em geral as cidades do Barlavento, mais perto do epicentro.

Fontes: Arquivo Histórico Ultramarino; Livros Paroquiais de Faro (Sé). Se desejar conhecer extamente as fontes consultadas, queira deixar a indicação nos comentários.

Projeto Ultramar (UFPE) / Documentos Manuscritos Avulsos da Capitania de Pernambuco, Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2006

15 de dezembro de 2014

Pintura: Revista das tropas destinadas a Montevidéu, de Debret


J.B. Debret, “Revista das tropas destinadas a Montevidéu, na Praia Grande, 1816”, óleo sobre cartão colado sobre tela, 41,6 X 62,9, Pinacoteca de São Paulo

"No centro, um grupo de cavaleiros: o rei D. João VI, em cavalo branco, tem à direita o príncipe  D. Pedro e o infante D. Miguel e à esquerda, montada, a amazona a 'infanta viúva' D. Maria Teresa.  Esses quatro personagens viviam no Palácio de S. Cristóvão e formavam, como comenta o pintor na descrição do 'Embarque das Tropas', o grupo 'inseparável que se encontrava diariamente a cavalo ou de carro'. No pequeno carro, atrás do rei, vislumbra-se o busto do Conde da Barca, então ministro e secretário de Estado. à esquerda de D. Miguel, também a cavalo, o marechal Lord Beresford, comandante em chefe das tropas portuguesas, em atitude respeitosa, tem, na mão direita, o chapéu armado e se  dirige ao soberano para indicar-lhe ter terminado o desfile e solicitar-lhe autorização para o início de outros exercícios militares. Atrás, à direita dos cavaleiros e do carro do Conde da Barca, estão a rainha D. Carlota Joaquina e as filhas 'que ela nunca abandonava', como assinala também Debret, em um grande coche aberto, protegido do sol por toldo sobre ele estendido. À sua sombra, vêem-se quatro damas e o cocheiro em grande uniforme. No primeiro plano, à direita, está um grupo de oficiais entre os quais sobressai, em cavalo branco, o tenente-general Carlos Frederico Lecor, comandante dos Voluntários e mais tarde governador da Província Cisplatina e Visconde da Laguna [NB: Também se notam o Ajudante-General da DVR, marechal de campo Sebastião  Pinto de Araújo Correia, os dois comandantes de brigada, brigadeiros Jorge de Avillez (Zuzarte Ferreira de Sousa) (1785-1845) e Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro (1776-1819)]. No primeiro plano, à esquerda, um batalhão de caçadores, que parece ser o último do desfile, recebe ordens de um oficial a cavalo enquanto outro, chegando a galope, a ele se aproxima [NB:  o segundo oficial traja de azul ferrete, logo é bastante provável que seja de Cavalaria; o primeiro oficial a cavalo é claramente oficial superior do batalhão]. No segundo plano, um pouco à direita, dois generais e seus ajudantes de ordens galopam em direção à tropa. À esquerda, está o morro da Armação, já atingido por um batalhão e para ele dois outros se dirigem. A fumaça que acompanha as estradas de acesso parece indicar que se inicia a 'guerra simulada' a que se refere Debret. Ao fundo, o Corcovado, o Pão de Açúcar e outras serras, do outro lado da baía."

IN: João Hermes Pereira de Araújo, "As primeiras obras de Debret e Taunay pintadas no Brasil" in: Anais do Seminário Internacional D. João VI Um Rei Aclamado na América, Museu Histórico Nacional, 2000, Rio de Janeiro. pp. 202-207

As minhas notas, entre parênteses retos. Serão NB: Nota do bloguista.

Ligações
Óleo na Google Art Projecto (foto de Isabella Matheus) : ver
Pinacoteca Estadual de São Paulo: http://www.pinacoteca.org.br

Veja Também

"Revista das Tropas Destinadas a Montevidéu (13MAI1816)": http://lecor.blogspot.pt/2013/02/revista-das-tropas-destinadas.html

6 de dezembro de 2014

Fontes: A Encruzilhada da Memória (Novembro de 1807)


Palácio da Ajuda (século XIX)

“Vá, Sr. Lecor, até ao inferno, se for necessario, porque quero saber onde estão os Franceses: marcham, e não quero que nos surpreendam.”


Tendo sido escrita, da pena própria ou por instrução de D. Leonor de Almeida, 4.ª marquesa de Alorna (1750-1839), o certo é que o autor da Memória Justificativa do Marquês de Alorna quase de certeza recebeu a parte do próprio, então tenente coronel, Carlos Frederico Lecor, seja direta ou indiretamente. São uma fonte que ajudam a aclarar os momentos históricos da última semana de novembro de 1807, enquanto o Corpo de Observação da Gironda materializa aquela que virá a ser conhecida como Primeira Invasão Francesa, entrando em Portugal por Segura e Salvaterra do Extremo, a partir do dia 19. Alguns elementos não aparecem referenciados em mais parte alguma e mesmo considerando algum esforço panegírico ou hiperbólico por parte da autora da Memória, não posso deixar de o tomar como extremamente relevante. Apesar de sempre próximo da família desde, pelo menos, 1802, e tendo visitando D. Leonor a Londres na primavera de 1808, em 1815, em Lisboa, Lecor, tenente general da Divisão de Voluntários Reais, é frequente visita para jantar na casa da marquesa; aí decerto, a história terá sido contada com mais vagar, mais minúcia.

Há, neste interessante opúsculo, algumas discrepâncias em locais e datas, nomeadamente o dia em que o Conselho de Estado reuniu pela última vez antes do embarque para o Brasil (24 de novembro, e não 25), ou o destino de Lecor depois de ir a casa do Secretário de Estado D. António de Araújo (o Príncipe estava no palácio da Ajuda, e não Mafra). 
Outras fontes apontam a zona entre Abrantes e Sardoal como o sítio onde Lecor observa pela primeira vez os franceses, sendo que esta Memória o coloca perto de Castelo Branco na ocasião. A Memória diz que foi a 24 de novembro, mas foi a 23, pois, segundo nos informa o Marquês de Fronteira, Lecor cavalgou em 30 horas, “à rédea solta”, para Lisboa, sendo que o Conselho de Estado de 24 realiza-se com base no relatório oral do dedicado ajudante de ordens.

Os quatro correios que a autora da Memória atribui como sendo destacados a Carlos Frederico Lecor, dois deles são localizados, na forma de cartas, em D. João VI Príncipe e Rei, de Angelo Pereira. Observando o progresso dos franceses, Lecor envia um desses correios com carta de Santarém, a 26 de novembro, e outro do Cartaxo, no dia seguinte, esta última missiva entregue já a Corte se achava embarcada na esquadra que partiria, dias depois, para o Brasil. No dia 29 ou 30, já os franceses em Sacavém e a horas de entrar em Lisboa, Lecor retorna a Lisboa e vai a Benfica, onde o jovem marquês de Fronteira D. José o descreve vividamente, “cheio de poeira e lama, com o uniforme em desalinho, porque havia oito ou dez dias que se não despia, e triste, respondendo com difficuldade às perguntas que minhas tias lhe faziam”.

Mais observações podem ser feitas, como a noção que foi o Marquês de Alorna que ordenou que Lecor notificasse os magistrados que fizessem desviar pontes, de forma a atrasar os franceses, sem ter instruções de Lisboa para isso, mas julgo que farei melhor deixar falar o excerto da Memória que hoje aqui trago, para que o caro Leitor possa fazer a sua própria leitura.

Excerto: Memória Justificativa do Marquez d’Alorna, Hamburgo, Tip. F. H. Nestler, 1823.

Abrantes hoje (foto: Manuel Anastácio)
[p.5] « [...] é justo passar mais rapidamente para o momento decisivo, em que o Princepe Regente, El Rey, que Deus Guarde, houvéra certamente succumbido victima dos Francezes, a quem tinha impedido a entrada pelo Alem-Tejo, onde elle Marquez governava no anno de 1807, que desviando-se tentarião outra varéda, chamou o seu Ajudante, o Coronel Carlos Frederico Lecor, e lhe disse ertas [sic] notaveis palavras: “Vá, Sr. Lecor, até ao inferno, se fôr necessario, porque quéro saber onde estão os Francezes: marchão, e não quéro que nos surprehendão.” Acrescentou a isto, que se o dito os encontrasse, não parasse para vir informa-lo, mas que á rédea solta fôsse avisar S. A. R., então Princepe Regente, hoje El Rey que Deus Guarde, tendo cuidado ao mesmo tempo de recomendar aos Magistrados, que destruissem todas as pontes, a fim de retardar a marcha do inimigo.
No dia 24 de Novembro, o Coronel Lecor, chegando perto de Castello Branco, encontrou paisanos assustados e fugitivos: tomou consigo um destes paisanos, e se fez conduzir ao lugar aonde elles dizião que tinhão visto os Francezes: na distancia de menos de um quarto de légoa, avistou o Corpo, que avançava em grande desordem; voltou a rédea, e no dia 25 de Novembro pela manhan, chegou á Casa do Secretario d’Estado Antonio d’Araújo, que // [p.6] immediatamente o mandou para Mafra, onde S. A. R. Se achava. O Coronel Lecor dèo parte ao Princepe das Ordens, que tinha recebido do Marquez d’Alorna, do encontro dos Francezes, e do receio bem fundado, de que dentro de 30 horas chegassem a Lisboa.
Juntou-se logo Concélho d’Estado; o Coronel Lecor ahi foi chamdo para dar conta do que sabia. S. A. R. lhe ordenou (*) que voltasse acompanhado de quatro Correios que virião, uns depois dos outros, informa-lo dos progréssos que fazia o Exército Francez desde que o avistasse, notando a hora, e o lugar em que se achava, e voltasse o Coronel Lecor com o ultimo correio; o que elle fez [...].

(*) Estas ordens, que o Coronel Lecor recebéo por escripto, estão provavelmente registados na Secretaria d’Estado; e as ordens que se entregárão ao Coronel, passados muitos mezes lhas pedio o Principal Sousa, para gloria, dizia elle, do Marquez d’Alorna, que tanto tinha contribuido para salvar El Rey e a Familia Real; gloria que lhe competia na historia da restauração (que tinha encommendado ao Dr. José Accursio das Neves. [...] »


Referências

- S/Autor, Memória Justificativa do Marquez d’Alorna, Hamburgo, Tip. F. H. Nestler, 1823.

- BARRETO, José Trazimundo Mascarenhas, Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926;
- PEREIRA, Angelo, D. João VII Príncipe e Rei: A Retirada da Família Real para o Brasil, 1807, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1953.



VER TAMBÉM

A Lenda da Ponte sobre o Zêzere [Parte I] [Parte II]

26 de setembro de 2014

Memória do Quartel-General de Montevideu (1818)

Henry Marie Brackenridge (1820), Voyage to Buenos Ayres Performed in the years 1817 and 1818 by Order of the American Government, London.


Apontamentos de Henry Marie Brackenridge acerca da sua estadia em Montevideu
e contacto com o comando militar português de 20 a 26 de Fevereiro de 1818.


Paolistas, Soldiers of the East Bank of the Plata
Emeric Essex Vidal - Picturesque illustrations of
Buenos Ayres and Monte Video (1820)

[Montevideu 22 de Fevereiro de 1818]

“Dessa forma procedemos para os alojamentos do general português, que ocupam uma das maiores e melhores casas na cidade. Entrámos num pátio ou veranda espaçoso, com galerias a toda a volta, por uma guarda de tropas negras, com aspeto brilhante e gorduroso, vestidos com uniformes vistosos. Nestes países os negros são preferidos para guardas e sentinelas, perto dos oficiais de distinção.

Depois de passarmos por vários salas, cruzando-nos com sentinelas e oficiais de serviço, que exibiam perante nós a pompa e circunstância do estabelecimento de um grande chefe, entrámos numa sala onde fomos polidamente convidados a nos sentar.

Mal tivémos tempo de nos refazer das reflexões produzidas por isto, para nós, uma cena inusual, quando o general ele próprio fez a sua aparição, com a qual ficámos extremamente impressionados. Ele é uma figura notavelmente elegante, alto e erecto, com uma dignidade nativa sem afetação de maneiras. Tem para cima de 55 anos, a sua tez é demasiado clara para um português; de facto, soubemos depois que ele é de descendência flamenga. A personalidade deste oficial não contradiz a impressão favorável que a sua aparência é calculada a fazer. A sua reputação é a de um soldado bravo e honrado, e de um homem polido e altruísta. Pelo que todos dizem, no entanto, ele não é excluvivamente devedor destas suas boas qualidades, pela sua elevação de um baixa estação de vida. O Sr. Bland apresentou-se através do White, que atuou como intérprete, e, após alguma conversação, no qual apresentou os motivos da visita, aceitou um convite geral para jantar no dia seguinte, o general ao mesmo tempo da forma mais prestativa prometia os seus serviços.” p. 45-46.

[Montevideu 23 de Fevereiro de 1818, 15 horas]

“Encontrámos um grande número de pessoas reunidas, todos eles oficiais portugueses de terra e mar, exceptuando um cavalheiro num fato de cidadão, que, fomos informados, era um agente de Buenos Aires, num qualquer negócio especial; ele parecia um homem inteligente e aguçado, e o seu fato preto simples formava um singular contraste com os esplêndidos uniformes, e cruzes, e medalhas dos oficiais portugueses. Os divertimentos foram os mais sumptuosos. Era, com efeito, um banquete, composto de tudo à laia de peixe, carne e caça, que possa ser imaginado, sendo seguido por toda a qualidade de frutas que tanto este mercado como o de Buenos Aires podem oferecer. Os nossos ouvidos eram ao mesmo tempo regalados com a mais doce música da banda do General. Muitos destes oficiais, particularmente os ajudantes do General, era notavelmente belos homens; Acontece que me sentei junto a um deles, com quem pude conversar bastante. Ele expressou grande admiração pelas nossas instituições políticas, e caráter nacional, parte das quais eu obviamente tomei como cumprimentos. Ele falou dos patriotas de Buenos Aires como um grupo faccioso, incapaz de estabelecer um governo sóbrio; os seus líderes todos corruptos, e desejosos apenas de adquirir uma pequena dose de auto importância; o povo ignorante, e à mercê de demagogos ambiciosos: ele contrastava o caráter deles com as virtudes e inteligência do povo dos Estados Unidos. Ele falou de Artigas, como um atroz selvagem, e declarou um acontecimento recente de tratamento cruel aos seus prisioneiros; que o seu povo era, como todos os selvagens, totalmente insensível aos sentimentos da humanidade. Ele falou de uma forma pouco elogiosos acerca dos ingleses, e manteve a ideia que algumas vãs tentativas haviam sido recentemente feitas da sua parte, para induzir o Rei de Portugal a retornar a Lisboa.” p. 52-53.




(tradução: Jorge Quinta-Nova; original pode ser lido aqui)

31 de agosto de 2014

Combate de Zugarramurdi, 31 de agosto de 1813

 
Vista de Zugarramurdi e Ainhoa. Entre ambas as vilas,
a fronteira hispano-francesa. (Google Earth)


[de Carlos Frederico Lecor a Manoel de Brito Mozinho, secretário militar do Marechal General W. C. Beresford, reportando o segundo Combate de Zugarramurdi, a 31 de agosto de 1813, às ordens do General Lord Dalhousie, comandante da 7.ª Divisão aliada.] 

Illmo. Snr 

Tenho a honra de remeter a V Sª incluso o mappa dos mortos, feridos, e prezioneiros que teve a Brigada do meu Comm.do no dia 31 do mez passado no ataque que executei por ordem de Lord Darluze sobre o Povo de Zugaramurda na manhã do sobredito dia, do qual expulsei o inimigo e das alturas immediatas sofferendo os francezes mtº mais perda em officiais e soldados.

Huma Compª do Regimento n.º 7 avansou em flanqueadores; porem adiantandose mais do que devia o seu flanco direito, forão victimas do seu valor 1 sargento e 8 soldados, ficando involvidos por huma partida de Cassadores inimigos.
Não tenho que elogiar em particular indeviduo algum dos tres corpos que tenho a honra de commandar, pois todos fizerão o seu dever com igual sangue frio.

O Ten. Cor. Calheiros Command.te do regimento n.º 7 teve o seu cavallo ferido e portouse com todo o acerto; assim como o Cor. Doyle de n.º 19, e Ten. Cor. Zulque do Bam. n.º 2.º.

Dipois de o inimigo se ter retirado para o Campo do Povo de Anhoa fui rendido por huma Brigada da 3.ª Divisão, e tive ordem para marchar a Echelar, e hoje para Lesaca, aonde me acho com a brigada do meu Commando.

D.s gd.e a V S.ª m.s an.s
Campo de Lesaca, 1 de Setembro de 1813

Illmo. Sr. Manoel de Brito Mozinho

Carlos Fredº Lecor
M de C.



Arquivo Histórico Militar, 1-14-243-19


Combateram nesta ação os seguintes:
- Regimento de Infantaria n.º 7- 806 homens : Tenente Coronel Francisco Xavier Calheiros [Bezerra do Araujo];
- Regimento de Infantaria n.º 19- 986 homens : Coronel John Doyle;
- Batalhão de Caçadores n.º 2 - 466 homens: Major Zuhlcke

Nota: o Capitão John Ross, que comanda duas companhias de Infantaria 7 no dia 13, morre neste combate.

Lecor's report: 2nd Zugarramurdi (31st August 1813)

View of Zugarramurdi and Ainhoa. Between the villages,
the Spanish French border. (Google Earth)

[Carlos Frederico Lecor to Manoel de Brito Mozinho, military secretary of Marechal General WC Beresford, reporting the 2nd Zugarramurdi, August 31, 1813, as ordered by General Lord Dalhousie, commander of the 7th Division.]

Illustrious Sir

I have the honour to enclose Your Lordship the map of the dead, wounded, and prisioners that the brigade of my command had on the 31st last month in the attack I executed on orders of Lord Dalhousie [Darluze, in the original] over the village of Zugarramurdi [Zugarramurda, in the original] in the morning of the said day, from whence I expelled the enemy and from the neighbouring heights having the French suffered mush more loss in officers and soldiers.

One company from Infantaria n.º 7 advanced flanking; however, advancing more than they should on their right flank, 1 Sargent and 8 soldiers were victims of their valour, having become enveloped by a party of enemy chasseurs.

I have no one in particular to praise in the three corps I have the honour to command, as all have done their duty with equal cold blood [I chose to preserve the Portuguese idiom].
Lieutenant Colonel Calheiros, commander of the Regimento n.º 7 [Infantaria] had his horse wounded and acted correctly; as Colonel Doyle of the n.º 19 [Infantaria], and Lieutenant Colonel Zulchke [Zulque, in the original] of the n.º 2 [Caçadores battalion]

After the enemy retired to the fields os the village of Ainhoa [Anhoa, in the original] I was rendered by a brigade of the 3rd Division, and had orders to march to Echelar, and today to Lesaca, where I am with the brigade of my command.

May the Lord save you for many years
Field of Lesaca, 1 September 1813

Most Illustrious. Sr. Manoel de Brito Mozinho

Carlos Fredº Lecor
M de C.[Major General, Marechal de Campo in the original]


Source: Arquivo Histórico Militar, 1-14-243-19


Lecor’s  6th Portuguese Brigade, 7th Division [1.9.1813]:

- Regimento de Infantaria n.º 7- 806 men : Lieutenant Colonel Francisco Xavier Calheiros [Bezerra do Araujo];
- Regimento de Infantaria n.º 19- 986 men : Colonel John Doyle;
- Batalhão de Caçadores n.º 2 - 466 men: Major George H. Zulchke

Captain John ROSS, who commanded two companies from Infantaria 7 on the 13th, in the 1st Zugarramurdi, died in this action.

23 de julho de 2014

Marcha terrestre da Divisão de Voluntários Reais d'el-Rei, desde julho de 1816


Ver Marcha DVRR 1816 num mapa maior

Entre Julho e Agosto de 1816, os cerca de 5000 homens e mulheres da Divisão de Voluntários Reais do Rei, em duas brigadas de um regimento de infantaria e um batalhão de caçadores cada, mais dois corpos de cavalaria e a brigada de artilharia, iniciaram a marcha terrestre desde a então Vila Nova do Desterro, hoje Florianópolis até a fronteira da então Banda Oriental, hoje Uruguai. Em pleno Inverno, estes soldados acamparam muitas vezes em sitios ermos, arenosos, no meio de tempestades com a fúria do Atlântico Sul ao largo. Atravessaram de cima a baixo a Lagoa Mirim, desde a vila de Rio Grande, pelo canal de S. Gonçalo, entrando logo em território da Liga Federal (ou dos Povos Livres) pelo arroio de S. Miguel.

Este é um projeto em andamento em que pretendo traçar o trajeto das diversas colunas da Divisão dos Voluntários Reais, com base no itinerário oficial estipulado pelo estado-maior divisionário, incluindo os depósitos de víveres, e duas memórias: a do Tenente-coronel Francisco de Paula Azeredo, comandante
António Claudino de Oliveira Pimentel
do 2.º batalhão do 2.º Regimento de Infantaria (que nasceu do antigo 3.º Batalhão de Caçadores, dos 4 com que se formou originalmente a DVRPríncipe (1)); e a do Tenente-coronel António José Claudino de Oliveira Pimentel, que estava na vanguarda e, portanto, nas primeiras colunas desta marcha.

Os descritivos no mapa irão sendo atualizados com datas de passagens, com as observações gerais dos memorialistas. O coronel Claudino de Pimentel chegou a ser vítima de uma suposta tentativa de homicidio por um outro oficial. Foi em Torres, quando a vanguarda entrou no Rio Grande do Sul.

Fontes memorialistas:
- AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866;
- PIMENTEL, Júlio Machado de Oliveira, Memorial Biographico de um militar ilustre O General Claudino Pimentel, Lisboa, Imprensa Nacional, 1884;

Para o itinerário oficial pelo Quartel Mestre:
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 (3 vv.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.

(1) O nome original da unidade. Muda em Maio de 1816, quando em virtude do falecimento da rainha Dona Maria, se passou a chamar Divisão de Voluntários Reais d'el-Rei. 


ATUALIZAÇÃO:
- Colocação de dados acerca do Coronel Claudino Pimentel [13.5.2014, 10:00]
- Colocação de dados acerca do Coronel Francisco de Paula Azeredo [14.5.2014, 11:30] 

- Colocação de dados acerca do "Itinerário de Marcha da Ilha de S. Catarina até ao Estreito no fim da lagoa de Patos", elaborado pelo major Miguel António Flangini, deputado do Quartel Mestre General. [16.5.2014, 8:00]