12 de janeiro de 2016

O Apelo d'Armas, ou uma família de Portugueses no início das Guerras Revolucionárias

P: Como se chamão aquelles, q trazem espada para o serviço do Estado? 
R: Chamão-lhes gente de guerra, ou soldados.
Luiz Pedro Lecor, Lição XXX, das Leys Humanas. Educação de Meninos, 1746

Faro, Novembro de 1793.

Por esta altura, finais da década de 1780, uma mudança começava a fazer-se notar na sociedade portuguesa, fruto das convulsões políticas europeias, produto da onda de choque que foi a Revolução Americana, na década anterior.


É assim que, em 1787, mais por causa dos piratas do Norte de África do que propriamente da situação europeia, o Conde de Vale dos Reis, capitão-general dos Algarves, escreve uma carta à rainha D. Maria pedindo a construção de quartéis para o regimento de artilharia de Faro, ainda na sua maioria aboletado nas casas de cidadãos, desde que fora formado em 1776. Se esta carta é escrita a 27 de Novembro, logo a 1 de Dezembro, a vereação de Faro dá início a uma petição, recolhendo as assinaturas de quem estava nas Casas da Câmara, e depois indo às ruas chamar os que cidadãos que lá se achassem a assinar a importante petição. Entre as várias assinaturas, temos Carlos Frederico Krusse, ao topo, e Carlos Frederico Lecor e João Pedro Buys, mais para baixo.


O apelo do uniforme foi, porém, mais forte. O desejo de ser mais na vida que um comerciante, viajar pelo império, conhecer a India, o Brasil, Angola, ao invés de ficar preso a um escritório, contando metal e fazendo balanços. O espírito da época, romântico, idealista, liberal, a tudo isso encarreirava na alma do jovem Carlos e o inspirou a seguir a vida militar. 
Em menino, ficara-lhe a memória do rio Tejo e a vista da saída e chegada das naus. Em Faro, ao ir nadar à Ria, próximo ao Poço das Naus, o espírito inquisitivo de Carlos o fazia ficar observando as peças de artilharia de variados calibres armazenadas ali próximo, pondo à prática os cálculos aprendidos com os seus professores. No bom tempo, muito frequente no Algarve, as peças ficam cá fora, para que os artífices nelas pudessem trabalhar.

Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve

No ambiente de pequena cidade litoral de Faro, o regimento de Artilharia era uma absoluta novidade, tendo apenas sido formado em 1774. Começou por ser constituído por três companhias que vieram, desde logo, do extinto regimento de Artilharia de Lagos, a escassos 80 quilómetros de Faro. Depois vieram as restantes companhias do Porto e de outras guarnições, assim como o seu primeiro comandante, Diogo Ferrier. Não havia, nem nunca chegou a haver um quartel propriamente dito, mas edifícios alugados por toda a cidade, onde se tinha o material, os oficiais e artilheiros.

Na volta para casa, passando pela Praça da Rainha (Jardim Manuel Bívar, hoje), Carlos veria também com alguma frequência o Regimento de Milícias de Faro, treinando a marcha, com a banda tocando, marcando o passo. Com ele, os irmãos João, António, Jorge e o primo João Pedro, todos aproximando-se ansiosamente da idade militar, de correr e conhecer mundo, defender o império e a santa religião.


Os Sargentos Cadetes de Artilharia

Na cavalaria e infantaria, desde 1757 que se aceitavam cadetes nos regimentos, tendo que fazer prova de nobreza. Na artilharia, porém, não havia este sistema, até porque era muito raro ter nobres portugueses a desejar servir nela. A artilharia, assim como a engenharia, era uma arma técnica que só teve, aliás, direito a uniforme, em meados do século. Apesar disso, o alvará de 16 de março de 1757, que criava os cadetes apenas para a infantaria e cavalaria era usado, por analogia, pela artilharia, confirmado oficialmente em 1767. A única diferença estava em que a artilharia não requeria prova de nobreza, mas, geralmente, jovens com boa formação e de famílias burguesas de algum respeito e envolvimento social, além do que estes cadetes tinham de estar nos números, ou quadros, das companhias.

Para a artilharia iam então muitos jovens filhos da burguesia mercantil urbana e a pequena nobreza rural de Lisboa, Porto, Faro e Estremoz, arautos castrenses do crescimento da classe média que apenas desta forma poderia obter o oficialato militar, a patente d’el-Rei. O seu percurso normal era assentar praça como soldado, e passar a cabo de esquadra, furriel e, finalmente, a sargento. Estivessem então em que unidade estivessem, pediam a passagem ao regimento de artilharia local e o reconhecimento como cadetes; nas folhas hoje guardadas pelo Arquivo Histórico Militar, aparecem designações como ‘sargento-cadete’ ou ‘cadete-sargento’, indicando-nos também que era fundamentalmente um termo oficioso. Sendo sargentos-cadetes, era apenas questão de esperar por uma vaga de 2.º tenente, o primeiro posto da carreira de oficial de artilharia. Mesmo assim, em situação de campanha, como no Roussilhão e Catalunha de 1794, cadetes chegaram a comandar batarias, como veremos mais adiante.



Irmãos de Armas

Oficial subalterno, 1793
Regimento de Artilharia do Algarve
(ilust.: Bill Younghusband)

António Pedro e Jorge Frederico

Os dois irmãos mais novos, António Pedro, com 20 anos, e Jorge Frederico, com 18, assentam praça como voluntários e juram bandeiras primeiro, logo em 1788, no Regimento de Infantaria de Tavira, a trinta quilómetros de Faro. Com a sua educação, logo se vêem como sargentos-cadetes na artilharia de Faro, uma característica da artilharia portuguesa, não mais de um ano depois: Jorge a (10 de março de 1788), António a (10 de maio de 1788).


João Pedro

É já quando toda a França muda, mudando com ela a Europa, que os dois irmãos mais velhos decidem se alistar. João Pedro (1766-1844), nascido na rua de S. João da Matta, em Santos-o-Velho, foi primeiro. João, ao contrário dos dois irmãos mais novos, assentou praça diretamente em Faro, onde morava, no regimento de Artilharia do Algarve. Fê-lo a dezembro de 1792 ou janeiro de 1793. Menos de quatro meses depois, embarcavam os três para a Catalunha, apenas Carlos Frederico ficou, assentando praça de voluntário na Fortaleza da São João da Barra de Tavira, apenas um mês após os seus irmãos estarem já embarcados rumo à guerra.

11 de janeiro de 2016

Apontamentos históricos a respeito dos movimentos e ataques das forças general Carlos Frederico Lecor na Banda Oriental desde 1816 até 1823 (Lobo Barreto)


Apontamentos históricos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se occupou a Banda Oriental do rio da Prata desde 1816 até 1823 com que a Divisão dos Voluntários Reaes evacuou a praça de Montevidéu (Por uma testemunha ocular)

[As memórias de João da Cunha Lobo Barreto, que foi em tenente de caçadores na Divisão de Voluntários Reais.]

13 de junho de 2015

Memórias: Sargento Mor José António da Rosa (1793)


Na sua obra seminal Excerptos Históricos, Cláudio de Chaby convoca frequentemente os raros memorialistas portugueses das guerras revolucionárias e da guerra peninsular, assim como alguns britânicos. Aqui faço gosto de apresentar a transcrição de uma destas memórias, das mais raras ainda pertinentes ao Exército Auxiliar que combateu na Campanha do Roussilhão e da Catalunha, de 1793 a 1795, aliado à Espanha, inserido na maior guerra da Primeira Coligação.

O Sargento Mor (hoje, major) José António Rosa (1745-1830), proveniente do Regimento de Artilharia da Corte (em 1806, o n.º 1), era o comandante da brigada de Artilharia do Exército Auxiliar, forte de 450 homens, e relata o que lhe aconteceu na viagem marítima de Lisboa a Rosas, na Catalunha.



José António Rosa
«Depois que no dia 20 de Setembro de 1793, embarquei com destino para o porto de Rosas, indo a brigada da minha obediência em dois navios, um dos quaes era comandado por Antonio Teixeira Rebello, e o outro por mim, chegámos à altura do cabo de Gattes com os mais navios do comboio, e encontrando ali tempos contrarios os navios se desordenaram, e quasi todos, ainda que separados, foram obrigados a arribar a Cartagena, uns por falta de aguas e mantimentos, outros porque os mares os não deixavam seguir. O navio que eu mandava, foi um dos que arribou àquelle porto duas vezes, até que na segunda arribada nos encontrámos ali com a nau capitania, com a qual saimos; porém, continuando o mau tempo, no fim de quatro horas a capitania não apparecia, e dos navios do comboio só nos achávamos reunidos dois quando chegámos à altura da ilha de Mahon, sendo o outro navio da minha conserva, o em que ia parte do Regimento de Peniche [futuro n.º 13] à obediência  do seu Coronel António Franco [de Abreu]. N’esta altura tivemos noticia de que n’aquelles mares andavam alguns corsarios argelinos, e com tal noca cui- // dámos em nos conservar para que, no caso de sermos acommettidos, mutuamente nos defendessemos e ajudassemos; para este effeito adoptei todas as providencias  que em similhante occasião me eram possiveis; sendo-me em taes circumstancias de grande soccorro, alguns barris de polvora que o navio por acaso levava, da qual destinei parte para seis peças que o mesmo navio montava, e à outra para os soldados se servirem como infanteria; e não havendo ballas para as espingardas, utilisei-me de algum chumbo que mandei fundir em cylindros, e depois cortar em pequenos pedaços que que os soldados fizeram balas tão esphericas como as que saem da fundição; e d’este modo forneci a cada soldado dos que deviam servir com armas, quinze cartuchos, sendo tudo praticado em um dia. Tambem, para supprir as granadas de mão, que não tinha, e tão precisas são nas abordagens, mandei que vinte e quatro soldados entregassem as suas latas de agua, e em cada uma d’estas se metteu um e meio arratel de polvora, tapando-se as bocas das mesmas latas com rolhas de cortiça furada de alto a baixo; por onde passava um estopim, regulado segundo o tempo preciso para se lançarem na embarcação inimiga; e estando d’este modo prevenido, e a gente com os seus postos nomeados, tanto para o serviço de infanteria, como para o de artilheria que se achava já bem preparava, na madrugada do dia 8 de novembro, diante do cabo de Santo Antonio, as sentinellas me deram parte que appareciam duas vélas, vindo uma com a prôa para nós, o que sendo vito por mim, me determinou a mandar logo a ir a postos toda a tropa: o mesmo fez o coronel Antonio Franco, pois via que o meu navia ia a seracommettido pelo outro que, segundo o rumo e distancia a que já se achava, com todo o fundamento era considerado por inimigo. Quando chegou a dita embarcação a permittir-me pela sua proximidade o poder servir-me da minha artilheria, levantei a nossa bandeira que firmei com um tiro de bala, indo esta afundar-se junto ao casco do navio aggressor, o qual mudou então, de rumo, sem que levantasse bandeira, nem se lhe visse um só homem, apesar da pouca distancia a que se achava de nós; o que deu bem a entender que a sua tenção era de nos atacar no caso de não nos achar tão promptos para os receber (3)»


“(3) .... pag. 50
Ao favor do sr. Dr. Thomás José de Sousa Rosa, e de seu irmão o sr. Pedro José de Sousa Rosa, dignos filhos do benemerito general, devemos o conhecimento do interessante escripto, do qual extrahimos as noticias a que é referida esta nota, e outras de que aproveitámos na composição do nosso trabalho; e mais devemos a faculdade de fazer copiar, de um retrato, obra do nosso insigne Sequeira, aquelle que do mesmo general illustra as paginas d’este livro.
À confiança que a s. Ex.as merecemos, tornando-nos depositario de taes e tão justa e zelosamente queridas recordações, somos de todo o coração agradecido; e para documento d’esta verdade, traçamos as presentes linhas, que concluiremos com a declaração sincera de muito nos honrarmos alliando-nos com s. Ex.as, nos sentimentos de saudade e veneração, que exemplarmente tributam à memoria de seu estremecido pae, ornamento brilhante da nossa patria, por elle muito querida, e muito honrada na laboriosa profissão das armas.”

Excertos de: CHABY, Claúdio de, Excerptos Históricos e Colleção de Documentos Relativos à Guerra Denominada de Peninsula e às Anteriores de 1801 e do Roussillon e Cataluña, (v. 1), Lisboa, Imprensa Nacional, 1863., pp. 49-50

Ilustrações, contidas no livro, de Sequeira.

1 de janeiro de 2015

Nicolaus Krusse e os seus Negócios no Brasil



Olinda, Capital do Pernambuco,
à altura (1726-1729)
Em maio de 1726, o provedor e deputados da Mesa de Homens de Negócio da capitania de Pernambuco enviaram  uma representação ao rei, entre outros assuntos, pedindo a remessa de “dois estrangeiros, Pedro Graaf e Nicolau da Cruz [sic]”. Por de trás dum nome tipicamente português, Cruz, temos uma alemão de Hamburgo, Nicolaus Krusse, avô materno do Marechal Carlos Frederico Lecor.

Sendo acusados de estar a conduzir negócios no Brasil, sem terem autorização para isso, ficou decidido que o Nicolaus tinha que retornar a Portugal, porque alemão, ou melhor hamburguês, e Pedro Graaf, porque holandês, podia ficar, em função dos acordos diplomáticos. Em finais de 1729, os dois comerciantes ainda apresentam um requerimento, onde pedem para continuar residindo e negociando na dita capitania, mas é certo que em 1730, Nicolaus voltou a Portugal, decerto a cidade de Portimão, no Barlavento algarvio.


Portimão, visto de leste
Após casar com Teresa do Nascimento, em ano que desconheço, nasce Carlos Frederico Krusse, o seu primeiro filho, em 1734, em Portimão. Tem, aliás, três filhos e três filhas, nascidos todos  em Portimão entre 1733 e 1748.

Nicolau Krusse, Crusi ou Cruz, como por vezes está grafado,  vem a falecer em Santos o Velho, a 15 de Março de 1758. Neste mesmo bairro de Lisboa, três anos depois, a sua filha Quitéria Maria Luísa Marina casa com Luís Pedro Lecor, a 3 de fevereiro. Seis anos depois nasce o seu neto, Carlos Frederico Lecor, a 6 de outubro.

Após a sua instalação em Pernambuco não ter sido bem sucedida, e de ter aberto loja em Portimão, perto do importante porto de Lagos, Nicolaus parece ter-se mudado para Lisboa, entre 1748 e 1758, podendo a mudança ter sido perfeitamente regular, em busca dos maiores e mais importantes mercados em Lisboa, ou em função do Terremoto de 1755, em que a cidade de Portimão ficou muito destruída, como em geral as cidades do Barlavento, mais perto do epicentro.

Fontes: Arquivo Histórico Ultramarino; Livros Paroquiais de Faro (Sé). Se desejar conhecer extamente as fontes consultadas, queira deixar a indicação nos comentários.

Projeto Ultramar (UFPE) / Documentos Manuscritos Avulsos da Capitania de Pernambuco, Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2006

15 de dezembro de 2014

Pintura: Revista das tropas destinadas a Montevidéu, de Debret


J.B. Debret, “Revista das tropas destinadas a Montevidéu, na Praia Grande, 1816”, óleo sobre cartão colado sobre tela, 41,6 X 62,9, Pinacoteca de São Paulo

"No centro, um grupo de cavaleiros: o rei D. João VI, em cavalo branco, tem à direita o príncipe  D. Pedro e o infante D. Miguel e à esquerda, montada, a amazona a 'infanta viúva' D. Maria Teresa.  Esses quatro personagens viviam no Palácio de S. Cristóvão e formavam, como comenta o pintor na descrição do 'Embarque das Tropas', o grupo 'inseparável que se encontrava diariamente a cavalo ou de carro'. No pequeno carro, atrás do rei, vislumbra-se o busto do Conde da Barca, então ministro e secretário de Estado. à esquerda de D. Miguel, também a cavalo, o marechal Lord Beresford, comandante em chefe das tropas portuguesas, em atitude respeitosa, tem, na mão direita, o chapéu armado e se  dirige ao soberano para indicar-lhe ter terminado o desfile e solicitar-lhe autorização para o início de outros exercícios militares. Atrás, à direita dos cavaleiros e do carro do Conde da Barca, estão a rainha D. Carlota Joaquina e as filhas 'que ela nunca abandonava', como assinala também Debret, em um grande coche aberto, protegido do sol por toldo sobre ele estendido. À sua sombra, vêem-se quatro damas e o cocheiro em grande uniforme. No primeiro plano, à direita, está um grupo de oficiais entre os quais sobressai, em cavalo branco, o tenente-general Carlos Frederico Lecor, comandante dos Voluntários e mais tarde governador da Província Cisplatina e Visconde da Laguna [NB: Também se notam o Ajudante-General da DVR, marechal de campo Sebastião  Pinto de Araújo Correia, os dois comandantes de brigada, brigadeiros Jorge de Avillez (Zuzarte Ferreira de Sousa) (1785-1845) e Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro (1776-1819)]. No primeiro plano, à esquerda, um batalhão de caçadores, que parece ser o último do desfile, recebe ordens de um oficial a cavalo enquanto outro, chegando a galope, a ele se aproxima [NB:  o segundo oficial traja de azul ferrete, logo é bastante provável que seja de Cavalaria; o primeiro oficial a cavalo é claramente oficial superior do batalhão]. No segundo plano, um pouco à direita, dois generais e seus ajudantes de ordens galopam em direção à tropa. À esquerda, está o morro da Armação, já atingido por um batalhão e para ele dois outros se dirigem. A fumaça que acompanha as estradas de acesso parece indicar que se inicia a 'guerra simulada' a que se refere Debret. Ao fundo, o Corcovado, o Pão de Açúcar e outras serras, do outro lado da baía."

IN: João Hermes Pereira de Araújo, "As primeiras obras de Debret e Taunay pintadas no Brasil" in: Anais do Seminário Internacional D. João VI Um Rei Aclamado na América, Museu Histórico Nacional, 2000, Rio de Janeiro. pp. 202-207

As minhas notas, entre parênteses retos. Serão NB: Nota do bloguista.

Ligações
Óleo na Google Art Projecto (foto de Isabella Matheus) : ver
Pinacoteca Estadual de São Paulo: http://www.pinacoteca.org.br

Veja Também

"Revista das Tropas Destinadas a Montevidéu (13MAI1816)": http://lecor.blogspot.pt/2013/02/revista-das-tropas-destinadas.html

6 de dezembro de 2014

Fontes: A Encruzilhada da Memória (Novembro de 1807)


Palácio da Ajuda (século XIX)

“Vá, Sr. Lecor, até ao inferno, se for necessario, porque quero saber onde estão os Franceses: marcham, e não quero que nos surpreendam.”


Tendo sido escrita, da pena própria ou por instrução de D. Leonor de Almeida, 4.ª marquesa de Alorna (1750-1839), o certo é que o autor da Memória Justificativa do Marquês de Alorna quase de certeza recebeu a parte do próprio, então tenente coronel, Carlos Frederico Lecor, seja direta ou indiretamente. São uma fonte que ajudam a aclarar os momentos históricos da última semana de novembro de 1807, enquanto o Corpo de Observação da Gironda materializa aquela que virá a ser conhecida como Primeira Invasão Francesa, entrando em Portugal por Segura e Salvaterra do Extremo, a partir do dia 19. Alguns elementos não aparecem referenciados em mais parte alguma e mesmo considerando algum esforço panegírico ou hiperbólico por parte da autora da Memória, não posso deixar de o tomar como extremamente relevante. Apesar de sempre próximo da família desde, pelo menos, 1802, e tendo visitando D. Leonor a Londres na primavera de 1808, em 1815, em Lisboa, Lecor, tenente general da Divisão de Voluntários Reais, é frequente visita para jantar na casa da marquesa; aí decerto, a história terá sido contada com mais vagar, mais minúcia.

Há, neste interessante opúsculo, algumas discrepâncias em locais e datas, nomeadamente o dia em que o Conselho de Estado reuniu pela última vez antes do embarque para o Brasil (24 de novembro, e não 25), ou o destino de Lecor depois de ir a casa do Secretário de Estado D. António de Araújo (o Príncipe estava no palácio da Ajuda, e não Mafra). 
Outras fontes apontam a zona entre Abrantes e Sardoal como o sítio onde Lecor observa pela primeira vez os franceses, sendo que esta Memória o coloca perto de Castelo Branco na ocasião. A Memória diz que foi a 24 de novembro, mas foi a 23, pois, segundo nos informa o Marquês de Fronteira, Lecor cavalgou em 30 horas, “à rédea solta”, para Lisboa, sendo que o Conselho de Estado de 24 realiza-se com base no relatório oral do dedicado ajudante de ordens.

Os quatro correios que a autora da Memória atribui como sendo destacados a Carlos Frederico Lecor, dois deles são localizados, na forma de cartas, em D. João VI Príncipe e Rei, de Angelo Pereira. Observando o progresso dos franceses, Lecor envia um desses correios com carta de Santarém, a 26 de novembro, e outro do Cartaxo, no dia seguinte, esta última missiva entregue já a Corte se achava embarcada na esquadra que partiria, dias depois, para o Brasil. No dia 29 ou 30, já os franceses em Sacavém e a horas de entrar em Lisboa, Lecor retorna a Lisboa e vai a Benfica, onde o jovem marquês de Fronteira D. José o descreve vividamente, “cheio de poeira e lama, com o uniforme em desalinho, porque havia oito ou dez dias que se não despia, e triste, respondendo com difficuldade às perguntas que minhas tias lhe faziam”.

Mais observações podem ser feitas, como a noção que foi o Marquês de Alorna que ordenou que Lecor notificasse os magistrados que fizessem desviar pontes, de forma a atrasar os franceses, sem ter instruções de Lisboa para isso, mas julgo que farei melhor deixar falar o excerto da Memória que hoje aqui trago, para que o caro Leitor possa fazer a sua própria leitura.

Excerto: Memória Justificativa do Marquez d’Alorna, Hamburgo, Tip. F. H. Nestler, 1823.

Abrantes hoje (foto: Manuel Anastácio)
[p.5] « [...] é justo passar mais rapidamente para o momento decisivo, em que o Princepe Regente, El Rey, que Deus Guarde, houvéra certamente succumbido victima dos Francezes, a quem tinha impedido a entrada pelo Alem-Tejo, onde elle Marquez governava no anno de 1807, que desviando-se tentarião outra varéda, chamou o seu Ajudante, o Coronel Carlos Frederico Lecor, e lhe disse ertas [sic] notaveis palavras: “Vá, Sr. Lecor, até ao inferno, se fôr necessario, porque quéro saber onde estão os Francezes: marchão, e não quéro que nos surprehendão.” Acrescentou a isto, que se o dito os encontrasse, não parasse para vir informa-lo, mas que á rédea solta fôsse avisar S. A. R., então Princepe Regente, hoje El Rey que Deus Guarde, tendo cuidado ao mesmo tempo de recomendar aos Magistrados, que destruissem todas as pontes, a fim de retardar a marcha do inimigo.
No dia 24 de Novembro, o Coronel Lecor, chegando perto de Castello Branco, encontrou paisanos assustados e fugitivos: tomou consigo um destes paisanos, e se fez conduzir ao lugar aonde elles dizião que tinhão visto os Francezes: na distancia de menos de um quarto de légoa, avistou o Corpo, que avançava em grande desordem; voltou a rédea, e no dia 25 de Novembro pela manhan, chegou á Casa do Secretario d’Estado Antonio d’Araújo, que // [p.6] immediatamente o mandou para Mafra, onde S. A. R. Se achava. O Coronel Lecor dèo parte ao Princepe das Ordens, que tinha recebido do Marquez d’Alorna, do encontro dos Francezes, e do receio bem fundado, de que dentro de 30 horas chegassem a Lisboa.
Juntou-se logo Concélho d’Estado; o Coronel Lecor ahi foi chamdo para dar conta do que sabia. S. A. R. lhe ordenou (*) que voltasse acompanhado de quatro Correios que virião, uns depois dos outros, informa-lo dos progréssos que fazia o Exército Francez desde que o avistasse, notando a hora, e o lugar em que se achava, e voltasse o Coronel Lecor com o ultimo correio; o que elle fez [...].

(*) Estas ordens, que o Coronel Lecor recebéo por escripto, estão provavelmente registados na Secretaria d’Estado; e as ordens que se entregárão ao Coronel, passados muitos mezes lhas pedio o Principal Sousa, para gloria, dizia elle, do Marquez d’Alorna, que tanto tinha contribuido para salvar El Rey e a Familia Real; gloria que lhe competia na historia da restauração (que tinha encommendado ao Dr. José Accursio das Neves. [...] »


Referências

- S/Autor, Memória Justificativa do Marquez d’Alorna, Hamburgo, Tip. F. H. Nestler, 1823.

- BARRETO, José Trazimundo Mascarenhas, Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926;
- PEREIRA, Angelo, D. João VII Príncipe e Rei: A Retirada da Família Real para o Brasil, 1807, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1953.



VER TAMBÉM

A Lenda da Ponte sobre o Zêzere [Parte I] [Parte II]