9 de maio de 2018

José Tomás Bocaciari


JOSÉ TOMÁS BOCACIARI nasceu em 1772, na freguesia do Loreto, onde residia muitos imigrantes italianos, em torno da Igreja dos Italianos. Sendo estudante, assenta praça e jura bandeiras a 21 de Outubro de 1792, na 1.ª companhia de granadeiros do Regimento de Infantaria de Lippe, futuro n.º1. Com 21 anos é reconhecido Cadete, a 6 de Outubro de 1793. De acordo com o livro mestre regimental, tinha 1 metro e setenta, cabelos loiros e olhos azuis.

A 1 de Março de 1797 é promovido a tenente da 4.ª companhia de infantaria da recém formada Legião de Tropas Ligeiras, com patente de 6 de Abril. Após participar na campanha de 1801, na área da Beira Baixa, é promovido a capitão da 7.º Companhia da Legião em 24 de Junho de 1802. 

A 26 de Março de 1805, é promovido a sargento mor e ajudante de ordens do 3.º marquês de Alorna, no governo de armas do Alentejo, juntamente como o tenente coronel Carlos Frederico Lecor. Em Abril de 1808, foge para a esquadra inglesa e terá ido para Inglaterra, de onde seguiu para ao Brasil. De acordo com o marquês de Fronteira, ambos os ajudantes de ordens terão conjurado para tentar convencer o seu general a fugir para a esquadra britânica.

Já no Brasil, a 21 de Março de 1809, é graduado em tenente coronel, adido ao Estado Maior do Exército. Pouco se sabe sobre o seu percurso até 1817.

Por volta de Junho de 1817, é promovido a coronel ajudante de ordens do novo capitão general da Bahia, o conde de Palma, D. Francisco de Assis Mascarenhas. Terá chegado a Salvador já em 1818.

Em 5 de Novembro de 1818, como coronel de cavalaria, é graduado a Brigadeiro com o exercício de ordens ao Governo da Bahia. A 13 de Maio do ano seguinte, é promovido a Brigadeiro efetivo.

Em 1821 está entre os oficiais que juram a constituição, e é feito prisioneiro a 15 de Novembro desse ano por estar envolvido nos eventos de 3 de Novembro, por ser do partido 'felisbertino', e enviado a Lisboa.

A 2 de Janeiro de 1822, após uma viagem de 48 dias para Lisboa, no bergantim Carvalho Sexto o então brigadeiro comete suicídio ao que tudo parece às 19 horas, lançando-se à água entre S. Julião e o Bugio, à entrada do Rio Tejo.

19 de abril de 2018

António e Jorge Lecor vão para a Artilharia (1789)


Mais uma pequena contribuição para o conhecimento da família Lecor, neste caso os dois irmãos mais novos de Carlos Frederico e os que primeiro entraram no Exército. Os elementos foram retirados do livro mestre regimental n.º 6 da Infantaria de Faro e referem a sua transferência para o regimento de Artilharia do Algarve, em função de serem declarados 'cadetes' de artilharia. Ao contrário da infantaria, onde eram declarados cadetes de facto, os 'cadetes' de artilharia estavam nas fileiras das companhias como praças e sargentos, até serem promovidos a patente, normalmente de 2.º Tenente.

O regimento de infantaria, apesar de se chamar de Faro, já há algum tempo que estava aquartelado em Tavira, a capital, então, do Algarve. Junto a ele funcionava a Aula Regimental, leccionada pelo tenente coronel José Sande de Vasconcelos.
Apesar de residirem em Faro, António e Jorge Lecor incorporaram-se ao regimento de infantaria, muito possivelmente para frequentar a referida aula, essencial para a carreira de um oficial de artilharia.

O decreto de 30 de julho de 1762, referido como a legislação sob a qual a transferência dos dois irmãos acontece, indica que o general local pode aprovar sem mais formalidades a transferência dos efetivos para a artilharia. Obedecia a uma tentativa de preservar a integridade da formação dos novos oficiais de artilharia.

Livro nº 6 - Livro de Assentamentos dos Oficiais e Praças do do Regimento de Infantaria de Faro, de 1788 a 1795. (PT/AHM/G/LM/B-14/06)

Soldados da 2.ª companhia do tenente coronel


[f. 63]

95  p.  
Antonio Pedro Lécor
idade: 19
5 pés 4 ½ polegadas [1,64 m]
cabelos louros
olhos azuis
De Lisboa
Solteiro
tempo do juramento: 10 Março 1788
Cazualidades: Passou para o Regimento de Artilharia deste reino. Baixa a 16 de julho de 1789.
Fiador: Voluntario. Filho de Luiz Pedro Lecór, fiador seu thio Antonio Pedro Bouiz [Buys]
Observações: Por ordem do do Marechal de campo Agostinho Janssen Moller, governador interino de armas deste reino, se lhe fez a passagem na conformidade do decreto de 30 de julho de 1762.

[f. 65]

95  p.  
Jorge Frederico Lécôr
idade: 17
5 pés 3 polegadas [1,60m]
cabelos louros
olhos azuis
De Lisboa
Solteiro
tempo do juramento: 10 Março 1788
Cazualidades: Passou para o Regimento de Artilharia deste reino. Baixa a 16 de julho de 1789.
Fiador: Voluntario. Filho de Luiz Pedro Lecór, fiador seu thio Antonio Pedro Bouiz [Buys]
Observações: Por ordem do  Marechal de campo Agostinho Janssen Moller, governador interino de armas deste reino, se lhe fez a passagem na conformidade do decreto de 30 de julho de 1762.

[Não localizei a certidão de batismo de Jorge Frederico, que calculo seja ou 1771 ou 1772, mas esta informação parece localizar o seu ano de nascimento em 1771.]

Fonte
Arquivo Histórico Militar

Imagem
Ponte romana, em Tavira.

11 de abril de 2018

Medalha do Barão da Laguna, ou de Distinção do Exército do Sul


Medalha de Distinção do Exército do Sul, também conhecida como Medalha do Barão da Laguna, dada por serviço em campanhas no sul do Brasil entre 1811 e 1824, foi criada pelo Império do Brasil a 31 de Janeiro de 1823 e regulada a 18 de Fevereiro do mesmo ano. Era conferida ao general em chefe e demais oficiais generais, oficiais, sargentos e praças que compõem o exército e esquadra, assim com aos empregados civis com graduação militar.

Desenho
Uma cruz de quatro braços iguais encimada pelo timbre da Casa de Bragança (um dragão alado); no centro da cruz, um círculo. Ouro para os oficiais generais; prata para os demais oficiais e metal branco ou estanho fino para as praças e empregados civis assemelhados.


Anverso: Em campo azul, um ramo de oliveira sobre o cerro de Montevidéu; na orla do círculo central, a palavra “MONTEVIDEO” e dois ramos; nos braços da cruz, a inscrição dos anos que cada agraciado estivesse em serviço na Cisplatina desde 1817. Um ano é só marcado no braço superior; dois vão nos braços laterais; 3 no superior e laterais; 4 em todos os braços; 5 nos quatros de um lado e no superior do outro e por aí adiante, sendo os braços vagos ocupados por rosáceas.
Reverso: Em campo verde, a legenda “PETRUS I.B.I.D.”, significando Petrus, Primus Brasiliae Imperator, Dedit (Pedro Primeiro Imperador do Brasil deu); na orla, uma coroa de louros.

Fita
Verde, com as bordas amarelas; sobre a fita, um passador de metal com o ano MDCCCXXII (1822).

Uso

Deveria ser usada no lado esquerdo do peito. Os oficiais generais podiam, nos dias de grande gala, usá-la ao pescoço.
De forma a ter direito ao uso, era requerido que o Barão de Laguna, Carlos Frederico Lecor (1764-1836) lhe houvesse expedido o título competente, por ele firmado e selado com o selo imperial do exército, indicando o nome da pessoa, a qualidade de metal de que deve ser feita e o ano ou anos em que foi merecida.

Fontes
- Regulação para a distribuição da Medalha de distincção (...), 18/2/1823, Conselho Supremo Militar.
- CMG Léo Fonseca e Silva (redator), Marinha do Brasil: Medalhas e Condecorações, Serviço de Documentação Geral da Marinha, Rio de Janeiro, 1983

Esta é a republicação de uma outra postagem no blogue Clio & Marte, que pode ver aqui.

28 de março de 2018

Apontamentos sobre a formação de oficiais de Artilharia no Algarve da década de 1790


A Aula Regimental do Regimento de Infantaria de Faro oferece-nos duas curiosidades. A primeira, e que pode causar mais confusões é que se localizava em Tavira, 40 quilómetros a leste de Faro, a capital política do reino dos Algarves dessa época. Na verdade, fácil de explicar, dado que o regimento de infantaria (que virá em 1806 a ser o n.º 14) se havia mudado em localização, em meados do século, mas não ainda, em 1793, em nome.
Dos quatro regimentos de artilharia que existiam nesta altura, Lisboa, Estremoz e Porto, apenas o da Guarnição do Algarve não tinha a aula junto ao regimento.

Descentralização do RAGA

Na verdade, é por isto que Carlos Frederico, decidindo-se alistar, obteve um posto em Tavira ou perto, de forma a frequentar as aulas do Coronel José de Sande Vasconcelos. Entrou como Soldado Pé de Castelo no Forte de São João do Registo da Barra de Tavira, em Cabanas de Tavira. Durante os seis meses que Lecor prestou serviço no Forte, tendo atingido o posto de sargento, também frequentava a aula regimental, de forma a preparar-se para exames de acesso ao oficialiato. 

Carlos Frederico assentou praça de voluntário e jurou bandeiras, perante um oficial do Forte de S. João, (guarnição), e o capelão, a 13 de Outubro de 1793, exatamente quando se iniciava o período letivo na aula do Coronel Sande de Vasconcelos, a poucos quilómetros. 

Quatro dias por semana, com descanso à quarta-feira, Carlos e os seus camaradas do regimento e de outros fortes das redondezas, aprendiam, numa sala da vários níveis de desenvolvimento, os princípios matemáticos teóricos e retirar, como dizia o Conde de Lippe, vinte anos antes, aprender “a arte de tirar de um pequeno número de factos conhecidos consequencias geraes para os factos incognitos”. No Inverno, as aulas eram das 9 ao meio-dia, no Verão, das 8 às 11 horas. Com alguma preparação matemática que a sua educação burguesa lhe ofereceu, principalmente sendo filho de um pedagogo, e criado no seio de famílias de homens de negócios, comerciantes de grosso, é certo que a primeira matéria do curso, a Matemática, não deve ter oferecido ao jovem soldado grande dificuldade.

Adicionar legenda
O Novo curso de Mathematica para uso dos officiaes Engenheiros, e Artilheria foi originalmente escrito em 1725 por Bernard Forest de Bélidor (1698-1761), tendo sido atualizado, se não em outras ocasiões anteriores, em 1757, quatro anos antes de Mr. Bellidor falecer, em 8 de setembro de 1761. 
Mais do que simplesmente um manual de Matemática, era feito especificamente para artilheiros e engenheiros, com aplicação militar direta. A sua tradução em português, feita pelo capitão Manuel de Sousa, veio em 1764, um ano após o decreto que regulamentou as aulas regimentais, assim como os exames de acesso. Nas aulas regimentais, o ‘curso mathematico de Belidoro’ é constantemente citado como a base da instrução de um oficial de artilharia do início de 1790, que poderia depois, completado ‘o estudo dos dezasseis livros de Bellidor’, especializar-se em fortificação, minas, arquitetura, engenharia.

Aos sábados, em período letivo, os cadetes, de todas as patentes, conforme o tempo de serviço – anspeçadas, cabos de esquadra, sargentos –, iam para o campo realizar exercícios de campo, onde as teorias da semana eram explicadas e experimentadas.


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Contactem-me nos comentários, para bibliografia, que a tenho presente em qualquer altura.

Leia também
- O APELO D'ARMAS, OU UMA FAMÍLIA DE PORTUGUESES NO INÍCIO DAS GUERRAS REVOLUCIONÁRIAS
- Lecor aluno universitário na Real Academia de Marinha (1794-1795)

Imagem ao topo
Pormenor da fortaleza de S. João da Barra de Tavira, em Cabanas de Tavira.

26 de janeiro de 2018

Soldados Velhos não Morrem…


‘Quem sois vós? Eu sou um homem. Que cousa é hum homem? He hum animal que discorre.De que he composto o homem? De hum corpo mortal, e de huma alma immortal.’ 
Luiz Pedro Lecor, Lição preliminar. Educação de Meninos, 1746


Rio de Janeiro, 4 de Agosto de 1836

É noite. O cortejo fúnebre move-se lentamente pelas ruas. Por cada igreja onde passa, desde o seu início, na rua do Aterrado, junto à ponte, até à Igreja de S. Francisco de Paula, no centro da cidade, os sinos tocam em reverência ao ilustre defuncto. Entre as pessoas se vai sabendo de quem se trata. O visconde da Laguna – Carlos Frederico Lecor. Licor. Licores. Benzem-se e ajoelham-se. ‘Que belo cortejo, santo homem’, dizem. 

Alguns, mostrando reverência, não deixam de contar menos um português, ainda com os acontecimentos de 1831 frescos na memória, mas também vendo passar um Marechal do Exército Brasileiro, fiel desde o início ao imperador D. Pedro e à Regência depois.

Chegando ao espaço aberto do Campo de Santana e passando entre o poço e a igreja paroquial, mais facilmente se pode observar o conjunto fúnebre. 
Na frente, duas filas paralelas de homens, empunhando tocheiras acesas, marchando vagarosamente; logo atrás, o coche, a dois cavalos, carregando o caixão. Atrás deste, uma carruagem, levada por quatro cavalos; nela, a viúva, D. Rosa, o irmão, Brigadeiro João Pedro, a sua esposa D. Erigida, e o padre cura de Santana, paróquia do falecido.


Rossio, Rio de Janeiro, Jean Batiste Debret

Os dados são escassos quanto ao percurso que foi tomado, mas não é difícil pensar numa passagem pelo Rossio (atual Praça Tiradentes, então Praça da Constituição), de onde, nessa altura, se avistava os imponentes campanários da igreja de S. Francisco, o destino final, ao alto, virados a Norte.

À porta da igreja, no largo, os convidados esperam a chegada do coche transportando o visconde. Esperam-no para a derradeira despedida, o último ato público do marechal. O ambiente de tristeza é emoldurado pelos muitos uniformes imperiais, o desbroados dourados, as condecorações.

Da mesma forma que o seu padrinho, em Faro, também a devoção a S. Francisco levam Carlos Frederico, crente, a ser enterrado na sua última morada das catacumbas da igreja. Também o seu irmão João Pedro, agora vivo e enlutado, será, oito anos depois, ali chorado e sepultado, perto do irmão mais velho.


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Igreja de São Francisco de Paula, Rio de Janeiro (wikicommons

Dies magna et amara valde

Não se percebe claramente nos presentes, mas há em muitos deles, soldados, naquele momento, as memórias do Sul, da Cisplatina e Montevidéu. Em alguns até, memórias mais antigas da fase final da guerra peninsular, dos campos de Saint Pierre de Irube, de Toulose e Zugarramurdi. Em poucos, já, as memórias, apesar de tudo não tão distantes assim, de Castelo Branco, da Ponte de Murcela, de Alhandra, ou até mesmo das guarnições do Algarve, onde foi soldado.

É quando alguém morre que finalmente pensamos no que fez, e no que foi. A morte de alguém impere-nos ao perfeito, à conclusão do ciclo, à possibilidade de concluir. Na conversa entre camaradas, à espera do cortejo fúnebre, a vê-lo chegar às escadarias, essas memórias ganham ainda mais vida, trazendo ao presente esse perfeito que a morte permite. Ao parar o coche, porém, calam-se as vozes e despede-se o homem que cessou. O caixão entra.

A encomenda do corpo é conduzida pelo reverendíssimo Procomissário da Ordem Terceira de S. Francisco, acompanhado de 24 sacerdotes, além do pároco de Santana, e quatro sacristãos. A cerimónia decorre no fausto apropriado, seguida por um Libera Me de música, acompanhado intensamente pelos presentes. 
A peça musical poderia muito bem ser o nono responsório do padre José Maurício Nunes Garcia, seu contemporâneo, muito apreciado na corte, onde também Sigismund Neukomm, mais recente, que se propôs a terminar o Requiem de Mozart, enquanto residia no Rio.

Libera me domine de morte aeterna in die illa tremenda quando caeli movendi sunt et terra dum veneris judicare saeculum per ignem.Liberta-me senhor da morte eterna. Quando os céus e a terra se revirarem, então virás julgar os povos através do fogo

Tremens factus sum ego et timeo dum discussio venerit atque ventura ira dies illa. Dies irae calamitatis et miseriae Tremo e tenho medo, quando o abalo vier juntamente com a fúria futura. Naquele dia de ira, de calamidade e miséria

Dies magna et amara valde dum veneris judicare saeculum per ignem.Dia grande e por demais amargo até que venhas julgar a eternidade pelo fogo

Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis…Dá-lhe o descanso eterno, Senhor, e que a luz perpétua o ilumine.

Kyrie eleison.

Requiescat in pace.
Senhor, tem piedade de nós.
Descanse em paz…

Já sem instrumentos, apenas as vozes ecoam, arrastadas, solenes e penumbres pelas paredes do templo. ‘Requiescat in pace’… Descanse em paz.


Catacumbas de Ordem, Jean Batiste Debret

Baixam todos às catacumbas da igreja onde as últimas palavras são enunciadas, o corpo recomendado. Todos os confrades de S. Francisco, mas também antigos camaradas, por ordem de antiguidade na irmandade terceira, abençoam o corpo com água benta. Depois colocaram cal. Fechou-se o caixão. Os assistentes colocam o caixão na sepultura atribuída na catacumba n.º 117.


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Requiescat in pace


Voltemos atrás dois dias. Rio de Janeiro, 2 de Agosto de 1836. Falece, com 72 anos e 10 meses, o Marechal do Exército Carlos Frederico Lecor, Visconde de Laguna, Grande do Império, Grã Cruz honorário da Ordem da Torre e Espada, Comendador da Ordem Militar de Aviz, Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro. Pouco se sabe da sua doença, apenas que terá sido prolongada, pelas contas do médico e do boticário. Reflexos sem dúvida de uma vida de campanhas, desde 1795, 40 anos a cavalo e em tendas, na dura vida castrense. 

22 de dezembro de 2017

'Austerlitz em Vila Viçosa': O Brinco do Monte da Aboboreira (19 de fevereiro de 1806)



Em 19 de Fevereiro de 1806, à vista do chafariz da Atalaia, onde hoje em dia se encontram os limites dos distritos de Évora e Portalegre, levou-se a cabo o Brinco do Monte da Aboboreira, manobras militares na presença do príncipe regente D. João, simulando a batalha de Austerlitz, grande vitória de Napoleão sobre os russos e os austríacos, combatida a 3 de Dezembro de 1805.

Participaram os seis regimentos de Infantaria da província, assim como os seus três regimentos de Cavalaria e a Artilharia de Estremoz, e tudo aconteceu num só dia, retornando as tropas aos seus quartéis acabada a revista final.
“Junto à Asseca ha um monte que lhe chamão Castellos Velhos [Castelinho] he aonde se postou a peça que deu um tiro quando se avistou El-Rei o Sr. D. João 6.º que vinha de V.ª Viçosa a assistir ao brinco, e tambem (ver a) tropa formar e entrar nos seus lugares, aonde estava um passadiço [he a ponte de madeira] para mostrar uma passagem e ataque das tropas que passárão na Catalunha”. Elvas, 22.9.1863 (Chaby)
Príncipe Regente D. João, 1806 (Domingos Sequeira)

No monte de Castelinho, ou Castelo Velho, disparou-se uma peça ao se avistar S.A.R. o Príncipe Regente que vinha de Vila Viçosa para assistir ao Brinco. Nesse monte esperava-o um barracão. Lá dentro, sobre a mesa, o mapa do terreno e o plano do brinco.
“O Principe e sua esposa foram n’um dos coches do paço, seguidos da corte, e com ella o Marquez de Ternay. O Príncipe trajava farda encarnada bordada a ouro; a Princeza também d’encarnado.[...] A pouca distância do monte de Abebreira apearam-se suas Altezas, e cavalgaram dois formosos cavallos brancos e dirigiram-se ao dito monte, e d’alli ao do Castello-velho.Chegando aqui deu-lhe salva toda a artilharia.” (Almada, 1862) 

Começa o Brinco!
O Marquês de Alorna, que havia idealizado o Brinco, mandou dar sinal para começar a batalha. 
“O Marquez d’Alorna dirigiu as manobras, acompanhado dos ajudantes d’ordens Lecor e Carché [possivelmente, João Tomás Bocaciari], tendo por clarim d’ordens um preto vestido com o uniforme da Legião.” (Almada, 1862)
Na parte ocidental do campo, a mais próxima de suas Altezas Reais, que assistiam do alto, iniciou-se a ação com uma companhia de caçadores do 1.º Regimento de Infantaria de Elvas reconhecendo o campo do flanco direito, encontrando-se com a companhia de caçadores do 1.º Regimento de Infantaria de Olivença, ou de Mestral. 
“Começou a acção sahindo os caçadores do Regimento do flanco esquerdo D [1.º de Elvas] reconhecer o campo do flanco direito do 1.ª Regimento A [1.º de Olivença, ou Mestral] encontrárão-se com os do ditto Regimento que foram por estes repelidos [...]” (Wiederhold)
A cavalaria da divisão do Sul, 2 esquadrões de Cavalaria d’Olivença, carrega para desembaraçar os caçadores, tendo a imediata resposta dos 2 esquadrões de cavalaria d’Elvas, da divisão do Norte. 

Deu-se então combate e, dado um sinal, todos se retiraram, começando então as duas linhas a fazer fogo; do Norte, sem ordem, e a do Sul, por quartas partes de pelotão. 





Ponte sobre a Ribeira de Mures
O Brigadeiro Barão de Wierderhold (Bernardino Guilherme Held Wiederhold, 1753-1810), que nos legou a sua descrição do brinco duas semanas após este ter tido lugar (ler em baixo), refere que “como o fogo era muito vivo por causa do demasiado fumo”, não era possível ver nada. 
Quando o fumo dissipou, estava em marcha a passagem da ponte de madeira expressamente construída sobre a ribeira de Mures, para este Brinco.
q[uan]do extincto vio-se a segunda linha [divisão do Sul] em retirada fasendo três columnas para passarem a ponte [...]. Passou a columna do centro com 6 homens de frente e as outras duas por quartos a direita e a esquerda e logo que passaram a desfiladeiro começaram [a] metter em batalha pela Vanguarda [Wiederhold]
A passagem da ribeira de Mures, pela ponte e por vaus laterais, fez-se com tal calor que um oficial de artilharia de Estremoz se feriu com a espada, tal era a sua precipitação, informando-nos os Annaes de Elvas que esse facto teve influência na substituição de espadas direitas por curvas.
A peleja simulada “inflamou de tal sorte os pelajadores que muitos chegarão a carregar com pequenas pedras as Espingardas” [Annaes]
Depois das duas divisões terem passado a ponte, “uma vencida e outra vencedora”, foram-se postar os regimentos em linha  no campo a sul da ribeira e desfilaram perante o Príncipe Regente.  Wiederhold refere que não houve tempo para a recriação da segunda parte da batalha de Austerlitz, em que a segunda linha (do Sul) retoma a ponte.

Num cabeço junto à primeira linha, que formou junto à ponte, estava a choça de Napoleão. Depois de terem passado por sua Alteza Real Príncipe D. João, as tropas recolheram-se aos seus quartéis. 

Croqui do brinco do Alto da Abororeira (Wiederhold, 12.2.1806)

Algumas semanas depois, o Barão de Wiederhold, escreve um memorial do Brinco que acompanha o cróqui em cima.
“Postárão-se os seis regimentos em linha de Batalha como as figuras da 1.ª posição o mostrão. Começou a acção sahindo os caçadores do Regimento do flanco esquerdo D reconhecer o campo do flanco direito do 1.ª Regimento A encontrárão-se com os do ditto Regimento que foram por estes repelidos, sahiram socorrer aquelles os dous esquadrões de Cavalaria G pelos flancos do Regimento E e encontrarão-se com estes; viérão os dous esquadrões G H travou-se o combate athé certo signal ou ordem nos quatro esquadrões e as duas companhias de Caçadores que retiraram. Começárão as duas linhas a fazer fogo, a primeira linha [Divisão do Norte] sem ordem e a segunda [Divisão do Sul] por quartas partes de pelotões; como o fogo era muito vivo por causa do demasiado fumo ignoro o que se praticou, q[uan]do extincto vio-se a segunda linha em retirada fasendo três columnas para passarem a ponte ao pé da letra G. Passou a columna do centro com 6 homens de frente e as outras duas por quartos a direita e a esquerda e logo que passaram a desfiladeiro começaram [a] metter em batalha pela Vanguarda a primeira linha na retirada da segunda apareceo tendo a sua direita feito um oitavo à esquerda, de sorte que a direita ficou cobrindo o seu flanco esquerdo; passou a ponte vencido sempre fazendo fogo. A Artilheria trabalhou conforme o permettia a occasião, depois d’as duas linhas terem passado a ponte uma vencida e outra vencedora, foram no segundo campo postados os Regimentos em linha de Batalha. S. Altª R.al estava entre o flanco esquerdo da primeira linha e o direito da segunda. Esta começou a fazer quartos por pelotões a esquerda para passar pela frente do R.al S.nr e a primeira linha apoz esta por quarto à direita e a Artilheria na posição em que esta foi também fazendo os seus quartos nos lugares competentes, e depois de terem passado pela frente de S. A. R.al recolherão-se as tropas a quarteis. Em um cabeço junto à primeira linha estava a choça de Napoleão. O tempo não deo lugar a vereficar-se o que succedeo na Batalha de Austerlitz na tomada da ponte pela segunda linha vencida. B. de W (…), 10 de março” 
Fonte: AHM 3-05-04-08-24

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Ordem de Batalha do Brinco do Monte da Aboboreira

1.ª LINHA (OU DIVISÃO DO NORTE)
Coronel António José de Miranda Henriques
- (A) 1.º Regimento de Infantaria de Olivença, ou de Mestral [Inf 3]
- (B) Regimento de Infantaria de Campo Maior [Inf 20]
- (C) 2.º Regimento de Infantaria de Olivença [Inf 15]
- (H) Regimento de Cavalaria de Elvas [Cav 8] – 2 esquadrões
- (J) Regimento de Cavalaria de Évora [Cav 6] – 2 esquadrões
- (L) Regimento de Artilharia de Estremoz [Art 3] – 1 bataria

2.ª LINHA (OU DIVISÃO DO SUL)
Coronel José Carcome Lobo
- (D) 1.º Regimento de Infantaria de Elvas, ou de Bastos [Inf 5]
- (E) Regimento de Infantaria de Serpa [Inf 22]
- (F) 2.º Regimento de Infantaria de Elvas, ou de Mexia [Inf 17]
- (G) Regimento de Cavalaria de Olivença [Cav 6] – 2 esquadrões
- (L) Regimento de Artilharia de Estremoz [Art 3] – 1 bataria


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Pesquisas de Cláudio de Chaby em 1863

57 anos depois destes acontecimentos, Cláudio Bernardo Pereira de Chaby (1818-1905), pesquisando os eventos, encontrou um veterano de artilharia que lhe facultou informação de memória:
“Só pude descobrir hum velho no B.am de Veteranos que me disse informações, do que pretende saber, e forão por elle dadas com tanta prontidão e segurança que as devo julgar exactas, elle sendo praça d’Art.ª d’Elvas assestio a tal função”. (carta de Chaby, 12.9.1863)
O veterano confirmou a Chaby que o 3.º marquês de Alorna foi o comandante, assim como confirma o nome dos comandantes das 2 linhas em confronto. Não se lembra especificamente se a Cavalaria de Évora assistiu, a que comentamos que de facto participou com dois esquadrões, e, por fim, que a 'brincadeira' teve lugar 4.ª feira de cinzas.

Com base nesta sua visita ao local, Cláudio de Chaby recupera alguns dos elementos do brinco, com a referência que um dos maiores interesses era ver em ação os regimentos que estiveram na Campanha do Rossilhão e Catalunha, há uma década atrás:
“Junto à Asseca ja um monte que lhe chamão Castellos Velhos [Castelinho?] he aonde se postou a peça que deu um tiro quando se avistou El-Rei o Sr. D. João 6.º que vinha de V.ª Viçosa a assistir ao brinco, e tambem (ver a) tropa formar e entrar nos seus lugares, aonde estava um passadiço [he a ponte de madeira] para mostrar uma passagem e ataque das tropas que passárão na Catalunha”. (Carta de Chaby, Elvas, 22.9.1863)
De todos os regimentos de infantaria presentes neste dia, apenas o 1.º Regimento de Olivença, ou Mestral, combateu no Rossilhão. 


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BIBLIOGRAFIA

- ARQUIVO HISTÓRICO MILITAR.

- ALMADA, Victorino d', Elementos para um Dicionário de Geographia e Historia Portugueza. Concelho d'Elvas e extintos de Barbacena, Villa-Boim e Villa-Fernando (2 tomos), Elvas, Typ. Elvense, 1889;
- ESPANCA, Pe. Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, ou Ensaio da História desta vila transtagana, corte da sereníssima Casa e Estado de Bragança, desde os tempos mais remotos até ao presente, segundo o que pode coligir seu autor (1862-1886); 
- MATTA, José Avelino da Silva e, Annaes de Elvas ou Apontamentos historicos Para a Topographia Elvense ou Breve Discripção Phisica, Politica, e Historica, Da Nobre e Sempre Leal Cidade de Elvas. Estremoz, 1859.

18 de setembro de 2017

Lecor, pelo capitão Seweloh, do 27.º de Caçadores (1827)


Nas suas Reminiscências da Campanha de 1827, o coronel Anton Adolph Friedrich von Seweloh, do 27.º Batalhão de Caçadores, Alemães, refere-se a Carlos Frederico Lecor colocando-o num estatuto quasi divino.  Não o faz com um propósito satírico, mas mostra a enorme reputação e influência do então já visconde da Laguna, não só nas Cisplatina, onde esteve quase 10 anos, como no Rio Grande. 

Lecor era, no mais possível, um caudilho, já se tem escrito muito sobre isso; Era, mas com a diferença que servia o imperador do Brasil, e, antes, o rei de Portugal. Ao se ver afastado do cargo de comandante em chefe do Exército do Sul, como nos conta Seweloh, Lecor afasta-se e não instiga ações políticas, o que o afasta bastante dos caudilhos republicanos da antiga América espanhola.

Daí por 2 anos, finalmente o visconde da Laguna se reforma e fixa residência no Rio de Janeiro, após 37 anos de carreira militar, sendo promovido a Marechal do Exército.

O marquês de Barbacena recebeu o comando em chefe do exercito das mãos do visconde da Laguna, sendo este, sem duvida, um dos mais dignos, mais talentosos, mais instruídos, mais distintos comandantes do Brasil; julgo até não dizer de mais, colocando-o pelo menos no primeiro lugar entre os generais brasileiros, porque na Europa ou em qualquer outra parte do mundo poderia exercer seu elevado cargo com distinção, gloria e louros. Em toda a minha vida não encontrei homem tão geralmente estimado e venerado, a quem tanto poupasse a inveja, o espírito de censura.  

A província de Montevideu, por ele antes conquistada, o honrava como um pai venerando; a província do Rio Grande tinha nele uma confiança ilimitada; desde muito o esperava como um redentor; os homens ricos lhe entregavam seus cabedais e todos os dias lhe diziam que deles dispusesse como quisesse. Em poucos dias estavam centenas de carretas à sua disposição, e as tropas esfaimadas receberam dele em Santana [do Livramento] as primeiras provisões. 

O exercito o endeusava; ele era o objecto de suas preces, o objecto de seus votos, desejos e esperanças; não e possível pintar fiel e claramente tudo, a não ser que falemos dele como de um Deus. Abalava-me a presença daquele tipo, tão raro e cheio de comoção: recordo-me daquele tempo em que vi os habitantes da província de S. Pedro [do Rio Grande] se afadigarem por demonstrar seu amor ilimitado para com o mais digno guerreiro do Brasil. 

Já era um velho de 60 anos [62, mais concretamente]; tinha a nobre figura de um herói; em torno de sua bela cabeça, o céu colocara uma coroa de prata, como tão raras vezes é dada aos mortais; mas também não lhe faltava a energia nem a força; era um homem robusto, com a experiência e sabedoria de um ancião, o que é muito raro no Brasil, onde se vê muitos velhos de vigor juvenil e sem prudência alguma. 

Tal era o homem de quem o marquês de Barbacena tirou o comando. A este ultimo general precederam boatos muito desfavoráveis, unânimes e do lodos os lados repetidos, sendo necessária toda a prudência do visconde da Laguna, que recusou inclinar-se para qualquer dos muitos partidos dispostos a defende-lo e talvez muito perigosos; mas o digno general, servindo lealmente a um governo que tanto o maltratou, e por duas vezes o humilhou aos olhos de todos, não quis resistir; preferiu empregar a persuasão, a bondade, a amizade, o rigor, para debelar tudo quanto pudesse ser nocivo aos interesses de seu Imperador. 
Soldado, 27.º Batalhão de Caçadores (Ivan Wasth Rodrigues)

Fonte
SEWELOH, A. A. F., “Reminiscências da  Campanha de 1827 contra Buenos-Ayres”, Revista Trimestral do Instituto Historico, Geographico e Ethnographico do Brasil. Tomo XXXVII, Parte Primeira, Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1874. pp.399-462. Excerto adaptado e com ortografia modernizada. [LER]