1 de agosto de 2019

A Vida e Tempos de Carlos Frederico Lecor



MARECHAL DO EXÉRCITO CARLOS FREDERICO LECOR
VISCONDE DA LAGUNA, COM GRANDEZA

* Grã-Cruz Honorário da Ordem Militar da Torre e Espada (Portugal)
* Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro (Brasil)
* Comendador da Real Ordem Militar (Portugal) e de Imperial Ordem de São Bento de Aviz (Brasil)
* Medalha de Comando da Guerra Peninsular por 4 acções (Vittoria, Pyreneos, Nivelle e Nive) (Portugal)
* Cruz da Guerra Peninsular n.º 1, de Ouro, para 6 Campanhas (Portugal)
* Army Gold Cross (por quatro acções: Vittoria, Pyrenées, Nivelle e Nive) (Grã Bretanha)
* Medalha de Distinção do Exército do Sul (Brasil)


I. Infância e Juventude (1764-1793)

CARLOS FREDERICO LECOR, primeiro filho de Luiz Pedro Lecor e D. Quitéria Luísa Marina Lecor nasceu a 6 de outubro de 1764, em Santos-o-Velho, Lisboa, na rua do Pé de Ferro, vizinha do convento das Trinas do Mocambo. Muda-se para Faro com a sua família algures na década de 1770. 

Após os estudos iniciais, terá trabalhado como caixeiro na companhia do tio, assim como viajado pelo norte da Europa, mas preferiu alistar-se e jurar bandeiras, aos 29 anos, como soldado de artilharia Pé de Castelo, na Fortaleza de São João do Registo da Barra de Tavira, a 13 de outubro de 1793. 

II. Subalterno (1794-1797)

A 17 de março de 1794, já sargento, é promovido a Ajudante de infantaria com exercício na Praça de Vila Nova de Portimão pelo Capitão General dos Algarves, que já havia patrocinado os seus três irmãos meses antes, recebendo a sua carta patente de ajudante, a primeira como oficial, a 6 de abril. 


A 5 de outubro de 1794, é admitido na Real Academia de Marinha, como discípulo do primeiro ano do curso de Marinha, tendo sido ‘plenamente aprovado’ no exame de admissão. A 2 de dezembro desse ano de 1794, troca com o 1.º tenente António Pimentel do Vabo e torna-se o 1.º tenente da 9.ª companhia do Regimento de Artilharia do Algarve, em Faro. 

Entre Portimão e Lisboa, conclui o 1.º ano na Real Academia, sendo aprovado no exame final, por volta de Junho, estando assim habilitado “a ouvir as Liçoens do segundo anno”,o que não vem a fazer, pois nos finais de dezembro, embarca na Esquadra do Brasil

Até julho de 1796, serve como 1.º tenente de artilharia, destacado do seu regimento, na nau Príncipe Real. Viaja de Lisboa a Salvador, retornando já em 1796. Segundo é referido por algumas fontes, ficou de baixa ao serviço a partir de junho de 1796. 

III. Capitão nas Tropas Ligeiras (1797-1805)

A 1 de março de 1797, é promovido a capitão da 8.ª companhia de infantaria da Legião de Tropas LigeirasParticipa na campanha de 1801, a Guerra das Laranjas, na fronteira de Zibreira, próximo a Castelo Branco. A 13 de maio de 1802, é promovido a sargento mor de cavalaria da Legião. 

IV. Ajudante de Campo (1805-1808)

Três anos depois, a 1 de agosto de 1805, é promovido a tenente coronel agregado à Legião, ajudante d’ordens do novo Vice Rei do Brasil, o marquês de Alorna. Apesar de Alorna não tomar posse do comando no Brasil, Carlos Frederico mantém o exercício junto a Alorna, que vem a ser nomeado Governador d’Armas do Alentejo. Antes de se reunir ao seu general, Lecor comanda interinamente a Legião, até que o barão de Wiederhold assume o comando.


Punhete, junto ao Tejo.
Em 1807, é Lecor o oficial que identifica as forças francesas já bem dentro de Portugal, em Vila Velha de Ródão, a 21 de novembro, correndo a avisar o Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, D. António de Araújo Azevedo, e o Príncipe Regente D. João, o que consegue fazer pela manhã de 23, em Lisboa. O seu relatório e posterior reconhecimento na área do Cartaxo e Golegã foi essencial para acautelar a plena segurança do embarque da Corte. 

Depois de 29 de Novembro, mantém-se como ajudante d’ordens do marquês de Alorna, colaborando com a ocupação francesa, até que foge, na Páscoa de 1808, em direção à esquadra britânica do almirante Sir Sidney Smith, para tomar o exílio em Plymouth. Após a revolta e criação da Junta do Porto, o tenente coronel Lecor desembarca no Porto, com a incumbência de promover a formação do 2.º batalhão da Leal Legião Lusitana, que havia ajudado a criar em Plymouth e Londres. 

V. Guerra Peninsular (1808-1812)


A 20 de novembro de 1808, no processo de reorganização do Exército, é promovido a coronel comandante do Regimento de Infantaria n.º 23, em Almeida. A 2 de fevereiro do ano seguinte, é feito comandante de brigada das unidades presentes na Beira Baixa, sedeando-se primeiro em Idanha a Nova e depois em Castelo Branco. Participa na campanha de 1809, comandando a brigada constituída pelos Batalhões de Caçadores 3 e 4, a um momento, e 4 e 6, noutro, juntamente com o 2.º batalhão do Regimento de Infantaria n.º 9. 
Em fevereiro de 1810, a brigada Lecor, constituída pelos Regimentos de Infantaria n.º 12 e 13, fica posicionada na serra do Muradal, em 2.ª linha face ao comando do general Roberto Wilson na área de fronteira de Castelo Branco. No mês seguinte, Lecor leva a sua brigada para Castelo Branco, substituindo a brigada Wilson. Na campanha de 1810, a brigada Lecor, com a adição de um batalhão cada dos Regimentos de Milícias de Castelo Branco, Idanha e Covilhã, é subordinada ao general Rowland Hill, desembocando na batalha do Buçaco, a 27 de setembro de 1810, onde não combate, retirando depois até aos primeiro dias de outubro para as linhas defensivas, em Alhandra, no extremo direito, junto ao rio Tejo. 

Rio Pônsul, junto a Idanha a Nova.
A 5 de março de 1811, é nomeado comandante da brigada portuguesa da nova 7.ª Divisão anglo-portuguesa, mas em abril desse ano, antes da batalha de Fuentes de Honor, é de novo nomeado comandante militar da área de Castelo Branco, com os regimentos de milícias da área. Dois meses depois, a 8 de maio, é promovido a brigadeiro. Ainda no mesmo exercício, reage com muito atino, sangue frio e respeito pelas ordens na incursão francesa de abril de 1812, do marechal Marmont, sobre a Guarda e Castelo Branco, reagindo com calma e sem baixas. 
Em Outubro de 1812, é feito Comendador Honorário da Ordem da Torre e Espada.

VI. Campanhas de Espanha e França (1813-1814)

Em março de 1813, nas vésperas do início da campanha desse ano, é novamente nomeado comandante da brigada portuguesa da 7.ª Divisão, tendo participado nas batalhas de Vitória e dos Pirinéus. A 10 de julho, é promovido a marechal de campo.  A 10 de novembro de 1813, é o comandante interino da 7.ª Divisão anglo-portuguesa na batalha de Nivelle, sendo assim o único general português em toda a Guerra Peninsular que comanda uma divisão dos dois exércitos. No início de dezembro, com a nomeação do general George Walker, retorna ao comando da agora 6.º Brigada, mas é logo nomeado comandante da Divisão Portuguesa. 


Batalha de St. Pierre.
A 13 de dezembro desse ano, na batalha de S. Pierre, última parte da batalha do Nive, comanda a Divisão Portuguesa, nomeadamente a brigada do Algarve (Regimentos de Infantaria 2 e 14) no centro, ordenando até uma carga do 2.º batalhão do Regimento de Infantaria n.º 14, para desembaraçar o 1.º batalhão, de voltigeurs franceses que atacavam. É ferido sem gravidade.

Comanda a divisão até ao fim da guerra, em abril de 1814, retornando a Portugal nos meses seguintes, como o oficial português mais graduado do exército em operações. Pouco tempo depois de chegar a Lisboa, é nomeado governador da praça de Elvas, em 28 de agosto.

VII. Os Voluntarios Reaes (1815)

Em Junho de 1815, alguns meses depois de tomar posse do cargo de governador de Elvas, Carlos Frederico é promovido a tenente general e nomeado comandante em chefe da Divisão dos Voluntários Reais do Príncipe, uma grande unidade com cerca de 5000 homens, destinada ao Brasil. O seu nome foi avançado logo no Dezembro anterior, quando as ordens do governo do Rio foram assinadas.

De Julho a Dezembro, esteve em Belém, a superintender o treino, adestramento e equipamento da grande unidade, tendo partido de Lisboa no início de 1816, com a maior parte desta. Entre as muitas preocupações de adestrar a força militar, Lecor preocupava-se com a saúde dos seus homens tendo feito vacinar muitos soldados, dando ele o exemplo. Por isso foi feito Correspondente da Academia Real de Ciências.

Chega ao Rio de Janeiro no início de Abril de 1816, sabendo nessa altura que a rainha D. Maria havia falecido. Apesar dessa triste notícia, estes são momentos de grande alegria no Rio de Janeiro, Entre os muitos momentos de festa e de gala, como o desfile e brinco de 13 de Maio, imortalizado num óleo de Jean-Baptiste Debret, beija mãos e jantares diplomáticos, a Divisão mantinha treinos quase diários.


A 12 de Junho, finalmente, a Divisão, embarcada de novo na esquadra, zarpa do Rio com destino a Santa Catarina, onde chega em Julho. Por esta altura, o objetivo da Divisão é já perfeitamente claro e definido: a tomada de Montevideu e da Banda Oriental e a instalação de uma capitania-general sob a liderança de Carlos Frederico Lecor.

VIII. Campanha de Montevideu (1816-1821)

Soldado da DVR

Nos começos de Julho, quando a esquadra começa a chegar à Vila Nova do Desterro (hoje, Florianópolis), logo começa a desembarcar no continente o primeiro destacamento de vários que teriam de marchar a pé os cerca de 700 quilómetros que permeiam entre S. Catarina e a vila do Rio Grande.

Já a ação começava no sudoeste do Rio Grande, com a batalha de Carumbé a 27 de Outubro, só nessa altura a Divisão se pôde apresentar toda em território inimigo. Após a batalha de India Muerta, a 19 de Novembro, em que o n.º 2 de Lecor, Sebastião Pinto de Araújo Correia, destrói a única ameaça naquela parte do país, o caminho para Montevideu ficou amplamente livre, buscando Lecor mais entendimentos políticos que o domínio pela força das armas.

A 20 de Janeiro de 1817, seis meses após o previsto, Lecor e os Voluntarios Reaes entram na cidade de Montevideu sem disparar uma bola, sob o pálio e recebido pela maioria do cabildo municipal. A norte, duas semanas antes, o marquês de Alegrete destruía as forças de Artigas em Catalán. 

Começa então o que Falcão Espalter chama de Vigia Lecor, o período de Carlos Frederico Lecor como capitão general da Banda Oriental. O general, alto, loiro e de olhos azuis, cultivava as relações sociais com a burguesia da cidade e fez-se rodear de colaboradores locais de grande valia, que por sua vez o ajudava a criar ainda mais alianças. A 6 de Fevereiro de 1818, Carlos Frederico Lecor é feito Barão da Laguna, por ocasião da cerimónia de aclamação do rei D. João VI. A 3 de Dezembro, casa com D. Rosa Maria Josefa Deogracias de Herrera y Basavilbaso.


Após o fim do conflito, em 1820, com a batalha de Tacuarembó, ganha pelo Conde da Figueira, homólogo de Lecor no Rio Grande, a oposição federalista de Artigas cai por terra de vez. Daí por um ano, consegue a integração da Banda Oriental no Reino do Brasil, sob o nome de Cisplatina.
É feito Grã Cruz Honorário da Ordem da Torre e Espada a 15 de Novembro de 1820.

IX. A Brasileia Liberdade (1822-1828)

Carlos Frederico acompanha o evoluir da situação política no Rio, desde que D. João VI retorna a Portugal, e quando a independência vem, apoia D. Pedro, sai de Montevideu para Canelones, dois dias depois do 7 de Setembro, sob o pretexto de uma revista e assume o comando das forças brasileiras independentes, saudando o novo Império.

Em Dezembro de 1822, é feito oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro. No início de 1823, o seu título de Barão da Laguna é confirmado, recebendo pela mesma altura as honras de Grande do Império.

Monta sítio à sua velha conquista e nos finais de 1823 chega a entendimento de paz com o que resta dos Voluntários Reais, concluindo assim o último ato militar da Guerra da Independência. Os portugueses evacuam Montevideu em 1824, sendo esta a última força militar portuguesa efetiva presente no Brasil.

Em 1825, o título de Lecor é elevado a Visconde da Laguna com Grandeza, que o equipara protocolarmente a conde. Nesse ano, os 33 orientais desembarcam na agora Cisplatina com o fim de recomeçar a luta e libertar de vez a Banda Oriental do Uruguai para a trazer de volta à Argentina. Carlos Frederico é nomeado em Abril de 1826 para comandante do Exército do Sul e viaja para Porto Alegre apenas em Agosto. Apesar de Lecor ser recebido no Rio Grande como um herói e garantia de salvação, o seu trabalho é encurtado quando o D. Pedro o demite do cargo um mês depois, numa audiência em Porto Alegre em o imperador não lhe terá mostrado mais que frieza e desprezo.

Magoado, Carlos retorna a Montevideu, decerto pensando ser esse o fim da sua carreira. Entretanto, o exército é derrotado em Itazuangó (ou Passo do Rosário), em Fevereiro de 1827, sob o comando de Barbacena. D. Pedro sente então a necessidade de readmitir o velho general em Agosto. Lecor, vindo do Rio de Janeiro assume o comando do Exército do Sul apenas em janeiro de 1828. 

Lecor vê-se no entanto com a tarefa dupla de cuidar de um exército cansado e desagregado, e de evitar mais ações desnecessárias, face a um paz que estava já a ser negociada em Londres. Finalmente a paz vem nos finais de 1828 e a sua carreira militar, apesar deste breve segundo fôlego, termina.

X. Soldados Velhos não Morrem... (1829-1836)

Em 1829, embarca em Porto Alegre para o Rio de Janeiro onde viverá até ao fim. É sujeito a um Conselho de Guerra Justificativo, muito em consequência de um conflito que manteve com o seu n.º 2 no Rio Grande, Gustavo Braun (ou Brown). É absolvido, congratulado e reformado na patente de Marechal do Exército, o mais alto do Exército.

O agora Visconde de Laguna com Grandeza, residia na rua do Aterrado junto à ponte, ligeiramente afastado do centro do Rio, com a sua jovem esposa. Tudo indica que se manteve afastado da política, mais não seja porque, após a abdicação de D. Pedro, a regência, que governava o Brasil na menoridade de D. Pedro II, o nomeou Comandante Superior da recém-criada Guarda Nacional do Rio de Janeiro. O cargo era honorífico, mas uma prova que o velho general era ainda digno da confiança do poder.

Nem um ano depois, Carlos Frederico Lecor deixou viúva a sua esposa, falecendo na sua casa a 2 de Agosto de 1836, com 71 anos e 10 meses. Sabe-se que a sua doença foi prolongada, mas não qual a causa de morte. Não deixou descendência.


* * *


A foto ao topo é o retrato de Carlos Frederico Lecor, exposto no Museu Histórico Nacional, em Montevideu. Fonte: Wikicommons.

31 de julho de 2019

The Life and Times of Carlos Frederico Lecor


MARSHAL OF THE ARMY CARLOS FREDERICO LECOR
VISCOUNT OF THE LAGUNA, GRAND OF THE EMPIRE

* Honorary Grand Cross of the Military Order of the Tower and the Sword (Portugal)
* Officer of the Imperial Order of the Southern Cross (Cruzeiro) (Brazil)
* Commander of the Royal Order (Portugal) and the Imperial Order of St. Benedict of Aviz (Brazil)
* Medal fo Distinction of Command of the Peninsular War, for 4 actions (Vitoria, Pyrenees, Nivelle e Nive) (Portugal)
* Peninsular War Cross, 1st class, Gold, for 6 campaigns (Portugal)
* Army Gold Cross (Vitoria, Pyrenees, Nivelle e Nive) (United Kingdom)
* Medal for Distinction in the Army of the South (Brazil)

I. Childhood and Youth (1764-1793)

CARLOS FREDERICO LECOR, the first son of Luiz Pedro Lecor and D. Quitéria Luísa Marina Lecor, was born on 6 October 1764, in Santos-o-Velho, Lisboa, in the Pé de Ferro St., next to the Convent of the Trinas do Mocambo. He moves, along with his family to Faro somewhere in the 1770s.

After his initial studies, he may have worked as a clerk in his uncle's commercial company, as well as traveled to northern Europe, but, at 29, he decided to enlist in the royal service, as a Gunner, in the Fortress of São João, in Tavira, 13 October 1793. 

II. Subaltern (1794-1797)

On 17 March 1794, already a Sargeant, he is promoted to Adjutant in Portimão, his first position as a commissioned officer. That same year, 5 October, he is admitted to the Navy Royal Academy (Real Academia de Marinha), as a first-year disciple, having been 'fully approved' in the admission exam.  At the end of the year, 2 December, he became the First Lieutenant of the 8th company of Gunners of the Algarve Artillery Regiment.

Between the Algarve and Lisbon, he concludes the 1st year in the Royal Academy, being approved in the final exam, around June1795, thus being entitled to attend the 2nd year. That is not to happen, as he embarks on the Príncipe Real, in late December, to Brazil, with a detachment of his regiment to serve in the ship's complement. The fleet travels from Lisbon to Salvador, and returns to Lisbon around July 1796. According to some sources, Lecor takes a leave from service, and it is possible that he may have attended the 2nd year courses of the Royal Academy.

III. Captain in the Light Troops (1797-1805)

On 1 March 1798, Lecor is promoted to captain of the 8th infantry company of the Light Troops Legion (LTL), the first permanent light unit in the Portuguese army. He participates in the 1801 campaign, in Zibreira, in the Castelo Branco frontier. A year later, 13 May 1802 (anniversary of the Prince Regent), he is promoted to major (sargento mor) of LTL.

IV. Aid de Camp (1805-1808)

Three years on, 1 August 1805, he is promoted to lieutenant colonel of the legion, but exercising as the Aid of Camp (AdC) of the newly appointed Vice King of Brazil, the 3rd marquis of Alorna. Although Alorna is not to take possession of his office, Lecor remains as his AdC when he becomes Governor at Arms (Governador de Armas) of the Alentejo province.
Before uniting his general in the Alentejo, he remains as caretaker commander of the Legion, until Baron of Wiederhold finally assumes his command.

In 1807, it is Lecor the one who identifies the French already well inside Portugal, in Vila Velha de Ródão, on the 2 November, running to warn the Minister of War, António de Araújo Azevedo, and the Prince Regent João which he is able to do by the morning of the 23rd, in Lisbon. His report and further reconnoiter in the Cartaxo and Golegã areas were essential to assure the full security of the Court's boarding.

After 29 November, he remains aid de camp to the marquis of Alorna, cooperating with the French occupation, until he flees, on Easter 1808, towards the British fleet, commanded by Admiral Sir Sidney Smith, taking exile in Plymouth. After the revolt and the creation of the Oporto Junta, lieutenant colonel Lecor arrives at Oporto, with the task of promoting the formation of the 2nd Battalion of the Lusitanian Loyal Legion, which he had helped to create in England.

V. Peninsular War (1808-1812)

On 20 November 1808, during the process of reforming the Army, he is promoted to Colonel commanding the Infantry Regiment nr. 23, in Almeida. On 2 February next year, he is appointed brigade commander of the forces present in the Beira Baixa province, with his headquarters first at Idanha a Nova and then in Castelo Branco.

Lecor participates in the August 1809 campaign, commanding the brigade made up of the Caçadores Battallions nr. 3 and 4, at one point, and 4 and 6, on a later one, together with the 2nd Battalion of the Infantry Regiment nr. 9. In February 1810, the Lecor Brigade, (made of the Infantry Regiments nr. 12 and 13) is positioned in Muradal Heights, forming a second line to Robert Wilson's command in Castelo Branco. The following month, Lecor takes his brigade to Castelo Branco, replacing the Wilson Brigade.

In 1810, the Lecor Brigade, with the addition of a battalion each from the Militia Regiments of Castelo Branco, Idanha and Covilhã, is made subordinate to general Hill's command, the campaign culminating in the battle of Buçaco, 27 September, where he doesn't engage in combat, retreating then with the rest of the army until the first days of October to the extreme right of the defensive lines, in Alhandra, by the Tagus.

On 5 March 1811, Lecor is appointed commanding officer of the Portuguese brigade of the newly formed 7th Division, but in April that year, before Fuentes de Honor, he is again appointed the military governor of the Castelo Branco area, with the Militia regiments of the area. Two months later, on 8 May, he is promoted to brigadier. In 1812, he reacts with the utmost judgment and firmness to the Marmont's incursion of April, complying to the letter with Beresford's orders and evacuating Castelo Branco calmly and without casualties.

VI. Campaigns of Spain and France (1813-1814)

On March 1813, on the verge of the new campaign, Lecor is again appointed commanding officer of the Portuguese brigade of the 7th Division, participating in Vitoria and the Pyrenees. On 10 July, he is promoted to major general (marechal de campo). On 10 November 1813, he is the interim commanding officer of the 7th Division in the battle of Nivelle, the only Portuguese general who ever commanded a division made up of both British and Portuguese units in battle. In early December, with the appointment of George Walker to the divisional command, Lecor resumes the command of the 6th Portuguese Brigade, but is almost immediately appointed commanding officer of the Portuguese Division, part of general Hill's corps.

On 13 December that year, in St. Pierre's battle, the last day of the Nive, commands the Portuguese Division, mainly the Algarve Brigade (Infantry Regiments nr. 2 and 14) in the centre, even ordering himself a charge of the Infantry 14's 2nd Battalion to disentangle the 1st  Battalion which were enveloped by French voltigeurs. He is lightly wounded that day.

He commands the division until the end of the war, returning to Portugal the following month, as the most senior Portuguese officer of the Army at Operations. Shortly after arriving in Lisbon, on 28 August, he is appointed the governor of the Elvas fortress.

VII. The Royal Volunteers (1815)

In June 1815, some months after becoming Elva's Governor, Carlos Fredrico is promoted to Lieutenant General and appointed commanding officer of the Prince's Royal Volunteers Division (Divisão dos Voluntários Reais do Príncipe), a grand unit with a little under 5000 men, destined for Brazil. His name was chosen by the Rio Government in December 1814, when the orders were signed and sent to Lisbon.

From July to December, Lecor was in Belém, supervising the training and equipping of the new grand unit, leaving Lisbon in early 1816, with most of it (mainly the infantry). Among the many concerns regarding the training of the military force, Lecor worried also with the health of his men having vaccinated them, with himself being vaccinated in public for all to see. For that, he was made a correspondent of the Royal Academy of Sciences.

He arrives at Rio de Janeiro in early April 1816, receiving then the news that queen Maria had died a few days before. Despite the sad news, these are moments of great joy in Rio. Among the many moments of pomp, like the parade and the exercise on 13th May, immortalized in a painting by Debret, royal receptions and diplomatic dinner parties, the Division was under almost daily training.

Finally, on 12 June the Division, now called King's Royal Volunteers Division, as João VI became king, embarked once more on the fleet and sailed from Rio towards Santa Catarina, arriving at the island in early July. By this time, the Division's objective is perfectly clear and defined: taking Montevideo and the Banda Oriental province and the creation of a general-captaincy under the leadership of Carlos Frederico Lecor.

VIII. Montevideo Campaign (1816-1821)

Upon arrival in July, the Division started disembarking the first detachment of many that were to march the around 700 kilometers between S. Catarina and the Rio Grande town.

By this time the Division was wholly on enemy territory, the action had already begun in the Rio Grande's southwest theater, with the battle of Carumbé, on 27 October. After the battle of India Muerta, on 19 November, in which major general Sebastião Pinto de Araújo Correia, Lecor's nr. 2, destroyed the only threat in eastern Banda Oriental, the road to Montevideo was wide open, with Lecor trying to obtain political compromises more than an armed domination.

On 20 January 1817, six months after initially predicted, and after negotiations with the municipal council, Lecor and the Royal Volunteers peacefully enter Montevideo, received by the majority of the Cabildo. To the north, two weeks earlier, the marquis of Alegrete destroyed Artigas' forces at Catalán. Thus starts what Falcão Espalter calls the Lecor Vigil (Vigia Lecor), the 9-year period of Lecor as the captain-general of the Banda Oriental. The refined, tall, blonde and blue-eyed general cultivated social relations with the city's bourgeoisie and surrounded himself with local allies of great worth, which in turn allowed for more alliances. 

On 6 February 1818, Carlos Frederico is made Baron of the Laguna, on occasion of the acclamation of the new king João VI (Portuguese kings were not crowned since around 1660). On 3 December the same year, he marries Rosa Maria Josefa Deogracias de Herrera y Basavilbaso, a 18-year-old Montevidean.

After the end of the conflict, in 1820, with the battle of Tacuarembó, won under the command of the count of Figueira, in the border with Rio Grande, the federalist opposition by Artigas ends. In a year's time, Lecor obtains the full integration of the Banda Oriental into the United Kingdom of Portugal, Brazil and the Algarves, under the name of Cisplatina. It is the last acquisition of land by the Portuguese empire.
He is made Honorary Grand Cross of the Order of the Tower and the Sword on 15 November 1820.

IX. The Brazilian Liberty (1822-1828)

Lecor follows the evolution of the political situation in Rio, since king João VI returns to Portugal, and when the independence finally comes, he supports Pedro, exits Montevideo to Canelones, just two days after the 7 September, under the pretence of reviewing troops and assumes command of the Brazilian forces, hailing the new empire. In December 1822 he is made Officer of the Imperial Order of the Southern Cross. In early 1823, his title of baron of the Laguna is confirmed, also receiving the honours of Grand of the Empire.

Lecor maintains a prolonged siege of his old conquest, Montevideo, and by the end of 1823 he reaches a peace arrangement with what is left of the Royal Volunteers, thus concluding the last act of the Brazilian War of Independence. The Portuguese evacuate the city in 1824, and are the last forces to do so.

In 1825, Lecor's title is raised to Viscount of the Laguna, and Grand of the Empire, equivalent to count. That same year, the 33 Orientales disembark in Cisplatina with the aim to restart the struggle and liberate once and for all the Banda Oriental of the Uruguay, in order to bring it back to Argentina. In April 1826, Lecor is appointed commander in chief of the Army of the South and travels to Porto Alegre later that year, in August. Despite being received as a hero and a saviour, is work is cut short when the emperor Pedro exonerates him a month after, in an audience in Porto Alegre in which the emperor (then visiting Rio Grande) shows him nothing but coldness and spite.

Hurt, Carlos Frederico travels to Rio de Janeiro, thinking it would be the end of his military career. However, the army is defeated in Itazuangó (or Passo do Rosário) in February 1827, under the command of the marquis of Barbacena. By August, the emperor felt the need to reinstate the old general. Lecor arrived from Rio de Janeiro, but assumes command only in January 1828. The now 63-year-old general faces the double task of caring for a tired and demoralised army and avoiding more unnecessary battles, against the backdrop of peace negotiations already taking place in London. Finally, the peace comes in late 1828 and Lecor's military career, despite this brief second wind, is over.

X. Old Soldiers never die... (1829-1836)

In 1829, Lecor embarks to Rio de Janeiro where he will live until the end of his life. He is subjected to a Justificative Court Martial, much in response to a conflict he maintained with his number 2 in the Army of the South, Gustavo Braun (or Brown). He is acquitted, congratulated and retires as a Marshall of the Army, the highest rank in the Brazilian army.

The Viscount of the Laguna with Greatness resided in the Aterrado Street by the bridge, then in the outskirts of Rio, with his young wife. He kept away from politics, but remained in the confidence of the regency governments, after the abdication of Pedro in 1831. In 1835, that same regency appointed him Superior Commander of the newly created National Guard in Rio de Janeiro. The appointment was clearly honorary, but a proof that the old general had still the confidence of his country.

On 2 August 1836, not even a year later, Carlos Frederico Lecor died in his home, with the age of 71 years and 10 months. The cause of death is not known, but may have been result of a prolonged disease. He left no descendency.

25 de junho de 2019

Elogio ao Marechal Lecor (2019)


ELOGIO AO MARECHAL DO EXÉRCITO CARLOS FREDERICO LECOR, VISCONDE DA LAGUNA E GRANDE DO IMPÉRIO

(Lido por Jorge Quinta-Nova, a 24 de Junho de 2019, na Sessão Académica da Delegação de Portugal – D. João VI da Federação de Academias de História Militar Terrestre do Brasil)

Boa tarde

Em 1936, por ocasião de uma sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro evocativa do primeiro centenário da morte do Visconde da Laguna, o académico baiano José Wanderley de Araújo Pinho, após uma brilhante exposição, e humildemente penitenciando-se pelo que considerou uma análise superficial da figura histórica, convocou os académicos do futuro a que, "mais felizes, com todos os documentos à mão", fizessem o que ele faria se pudesse à altura.
Em 1984, quase cinquenta anos depois, o general brasileiro Paulo de Queiroz Duarte, ainda que não com todos os documentos – na verdade, a quimera do historiador, o ideal impossível, respondeu em grande estilo a essa convocação, com os três volumes de Lecor e a Cisplatina, publicados pela Biblioteca do Exército, uma obra seminal na compreensão não só do marechal Lecor, mas da intervenção portuguesa de 1816 no Rio da Prata.

Hoje, humildemente aqui perante vós, espero poder também de forma digna, mas resoluta, responder ao apelo de há 83 anos, adicionando a minha contribuição, portuguesa e europeia, para o conhecimento da figura histórica daquele que é patrono da cadeira que humildemente ocupo, o marechal Carlos Frederico Lecor, Visconde da Laguna e Grande do Império do Brasil. Muito há que dizer, mas tendo em atenção a vossa paciência e o meu tempo, tentarei ser breve e conciso.

*

Carlos Frederico Lecor nasceu a 6 de Outubro de 1764, em Santos-o-Velho, Lisboa, na rua do Pé de Ferro, onde a sua família então vivia. É o primeiro filho de Quitéria Luísa Marina Krusse e de Luiz Pedro Lecor, ambos provenientes de famílias mercantis recentemente imigradas em Portugal. 
D. Quitéria Marina Luísa, por parte do pai, uma Krusse, e por parte da mãe, uma Buys. Ambas estas famílias adotaram Portugal como o seu país e operavam negócios em Lisboa e no Algarve, assim como na provisão de munição de boca ao Exército Português em várias ocasiões.
Luiz Pedro, nascido Louis Pierre, era um imigrado francês, como tantos durante a época de D. João V, e como tantos também vinha com um ofício em mente, acabando por se dedicar ao comércio por necessidade. Luiz Pedro publicou alias, em 1747, um livro sobre a educação de meninos, que era ainda leitura recomendada e popular no início de oitocentos.

Lecor. Krusse. Buys. Os 3 apelidos têm todos assim origens internacionais: os Krusse de Hamburgo, os Buys da Hoorn, na Holanda, e os Lecor de Paris, França. Curioso será notar que dos 4 avós de Carlos Frederico, não há um único nacional português, senão Catarina Maria Buys, portuguesa de 1.ª geração, filha por sua vez de um holandês e de uma espanhola.

A ascendência quase toda ela não portuguesa de Carlos Frederico Lecor é algo que o marca em toda a sua vida e carreira, não só pelo seu aspeto físico, de traços exóticos – alto, loiro e de olhos azuis, mas também pelo tipo de educação que providencia, não só inspirada perfeitamente nos ideais iluministas do século XVIII, mas também na forte tradição protestante de alfabetização, combinada com um tipo de formação fortemente ancorada nas necessidades da atividade comercial da sua família.

*

Por volta da década de 1770, a família muda-se para Faro, onde aliás os Buys já tinham negócios. É aliás desta mudança que nasce a perceção geral, ainda que errada, que Lecor nasceu em Faro. Esta cidade é aliás a única cidade portuguesa que deu o seu nome a uma rua devido a esse mesmo facto. A justiça aqui foi fruto de equívoco, mas é ainda assim, justiça. Se a cidade onde Lecor nasceu de facto, ainda que com tantas ruas, não lhe presta essa homenagem, pois então que o equívoco se preste a que a cidade de adoção o tenha feito.

Enquanto os seus irmãos, João Pedro, António Pedro e Jorge Frederico, combatiam no Roussilhão, Lecor iniciava a sua vida militar como Pé de Castelo na fortaleza de S. António da Barra de Tavira. Aos 29 anos, muito mais velho do que era então norma, Lecor assenta praça de voluntário e jura bandeiras, perante um oficial e o capelão, a 13 de Outubro de 1793, exatamente quando se iniciava a aula regimental do coronel Sande de Vasconcelos, em Tavira, logo ao lado. O general Teixeira Botelho, que traçou subsídios para a história da Artilharia portuguesa, refere muito acertadamente que a carreira dele "não teve a regularidade habitual do seu tempo". Para um jovem vindo das classes mercantis, sem ascendência nobre, a Artilharia era a única opção que permitia o acesso ao oficialato. 

Apenas cinco meses depois, já sargento, Lecor ascende finalmente ao oficialato, sendo nomeado em Março de 1794 ajudante da Praça de Portimão, sendo posteriormente admitido ao 1.º Ano do Curso de Marinha, na Real Academia de Marinha, em Lisboa, que completa com mérito, então já 1.º tenente do regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve. 
De notar a propósito que, mais de 200 anos depois, em 2014, o Marechal Lecor foi o patrono do 43.º Curso de Formação de Sargentos, uma das poucas homenagens que em Portugal se lhe deu, e a única que o Exército Português lhe dispensou.

A rápida ascensão de Lecor nas fileiras é já manifesta desde o seu início, tendo por base a sua competência académica, ainda que não devemos esquecer a ligação a 'pessoas de qualidade', como era normal na 'sociedade de favores' do Antigo Regime.

Em finais de 1795, Carlos Frederico embarca na Nau Príncipe Real, no âmbito de um destacamento de artilharia do Algarve, e viaja para o Brasil pela primeira vez. É Salvador a primeira terra brasileira que conhece, e onde permanece brevemente até a esquadra retornar a Lisboa em Abril de 1796.

*

Fossem quais fossem os objetivos de Lecor, parece que estes já não passavam pela Marinha quando em 1797 é escolhido para capitão de infantaria da recém criada Legião de Tropas Ligeiras, comandada pelo marquês de Alorna. A Legião de Alorna, como também era conhecida, era uma unidade ligeira com o uso combinado das três armas, resultado prático dos ensinamentos da Campanha do Roussilhão. Se não era algo inteiramente novo no Exército Português, era todo um conceito inovador a esta altura e que causou grande resistência na instituição.

O marquês de Alorna, D. Pedro Portugal, é vital para compreender Lecor, pois é na alçada dele, e sob a sua mentoria, que o ainda relativamente jovem oficial começa a despontar. Sendo capitão da 8.º companhia, Lecor serve na Guerra das Laranjas, na área de Castelo Branco, sendo depois promovido a sargento mor em 1802.
Em 1806, quando Alorna é nomeado governador de Armas do Alentejo (e Lecor, aliás, seu ajudante de ordens, já como tenente coronel), fica a comandar interinamente a Legião até que o barão de Wiederhold toma o comando. Nesta altura, já Lecor é um relativamente experimentado oficial superior, ainda que as suas maiores provas se aproximem ainda no horizonte.

*

A 21 de Novembro de 1807, Lecor aparece pela primeira vez no radar da História, quando avista tropas francesas em Vila Velha de Ródão, junto ao Tejo. Sem ordens diretas do seu general, mas agindo de sua própria vontade, ainda que decerto em concertação com António de Araújo de Azevedo, parte imediatamente para Lisboa a avisar que os franceses vêm aí. Em Punhete, hoje Constância, aconselha as autoridades locais a desmontar a ponte de barcas sobre o rio Zêzere, o que vem a atrasar Junot por dois dias.
O que Lecor fez nestes dias foi fundamental para que o embarque da corte se pudesse fazer com mais tempo e mais segurança. É de apontar que apesar de o poder fazer, Lecor nunca desmentiu a versão popular de que terá agido sob as ordens de Alorna (“Vá, Sr. Lecor, até ao inferno, se for necessario, porque quero saber onde estão os Franceses: marcham, e não quero que nos surpreendam.”). Teve decerto o palanque, mas sendo um verdadeiro amigo do seu general, e tendo em vista a fama que este obteve de traidor, a partir de 1810, nunca o abandonou, a sua memória e a sua família.

Lecor demonstra estas características de lealdade com frequência durante a sua vida.

Em meados de 1809, já coronel e no comando de uma brigada de caçadores na área de Tomar e sendo convocado pelo general Beresford para Almeida, assim como quase todas as unidades de linha, é o único comandante que se digna a escrever ao general Miranda Henriques a avisá-lo. É o próprio general português que o refere em carta. Não me compete aqui aprofundar as questões políticas da altura, mas o dever de respeito e lealdade de um subordinado a um comandante, apenas Lecor, nessa ocasião, o levou a peito.

Em 1810, quando o Armée de Portugal, comandado por Massena, 'l'enfant cheri de la victorie', monta cerco a Almeida, Lecor, em observação sob o comando de Hill, tenta o contacto com Alorna, que acompanhava os franceses, propondo a Beresford que o deixasse tentar o velho amigo a retornar ao serviço português. O rigor britânico de Wellington e a séria ameaça da III invasão impediram esta tentativa. Lecor tentou, no entanto. Acreditava ainda na redenção do seu amigo.

*

Os breves meses que Lecor passou em Castelo Branco em 1801, defronte das forças de Leclerc, no tempo da Legião das Tropas Ligeiras, foram decerto vitais para a ação que levou a cabo como comandante militar da Beira Baixa, em três períodos distintos, entre 1809 e 1812. As relações com a população civil e as milícias nem sempre foram as melhores, mas Lecor destacou-se de tal forma, que no ano posterior à sua saída para o Exército de Operações, 1813, era publicamente recomendado na Gazeta de Lisboa que o novo comandante militar seguisse o modelo fixado por Lecor.

A retirada em Abril de 1812 de Castelo Branco face à aproximação da 2.ª Divisão de Clausel, foi feita sem mácula e na estrita obediência às ordens de Beresford, por oposição ao desastre da Guarda, em que as milícias fugiram em pânico, chegando a perder as bandeiras. É com esta ação que Lecor, já um estrela em ascensão há algum tempo, garante a definitiva passagem ao Exército que marcharia em 1813 sobre Espanha e França.

Ainda que Lecor tenha sido chamado a comandar a brigada portuguesa da recém criada 7.ª Divisão em 1811, conhecida como a divisão dos rafeiros, pelas suas muitas nacionalidades e cores de uniforme, foi logo nomeado novamente comandante militar da Beira Baixa. Em 1813, porém, de novo recebe este comando e desta feita para iniciar a campanha ofensiva luso-britânica sobre o norte de Espanha.

Muitos saberão, pois é bem conhecido, mas digo-o aqui, Lecor foi o único general português que teve o privilégio de comandar uma divisão anglo-portuguesa em combate. Fê-lo na batalha de Nivelle, em Novembro de 1813, quando o exército assaltou as fortificações de Soult a norte do rio. Era comandante interino, a mais ténue das posições, mas cumpriu, de novo, sem mácula, a sua missão. Começava já a trilhar áreas novas e desconhecidas.

Em dezembro de 1813, Lecor é o comandante da Divisão Portuguesa e o oficial português mais graduado no Exército de Operações, já em França. É nesta qualidade que comanda tropas na batalha do S. Pierre, a 13 de dezembro, alguns dirão a mais portuguesa das batalhas desta campanha, e ajuda a manter a linha nos altos de Mouguerre. Acompanhando a brigada do Algarve, ordena uma carga de infantaria de Infantaria 14, e ao fim desse duro dia é ferido ligeiramente.

Quando o Exército Português em Operações retorna a Portugal a partir de Junho de 1814, finda a guerra e deposto Napoleão, é Lecor que comanda todas as unidades, apresentando-se nas paradas em Lisboa com o seu estado maior. 

Quem afirmasse, 21 anos antes, que isto iria acontecer, seria decerto apodado de louco.  Filho de mercadores, ainda que de grosso e bem relacionados, formado na artilharia, agora o general mais graduado de um exército português vitorioso.
As guerras revolucionárias, que duraram duas longas décadas, mandaram abaixo muitos dos paradigmas e inauguraram de forma dramática toda uma nova era. O elemento social não foi diferente.

*

Já por duas vezes, o destino de Lecor se havia relacionado com o Brasil: em 1796, quando foi na esquadra do Brasil, mero tenente, a Salvador da Bahia, e em 1808, quando, em Plymouth, Inglaterra, já coronel, fugido da ocupação francesa de Junot, tencionava embarcar para junto da Corte, no Rio de Janeiro. Não viajou nesta altura, tendo retornado a Portugal em Agosto com a Leal Legião Lusitana.

Tangencialmente também devo fazer nota que em 1805, quando foi originalmente nomeado ajudante de ordens do marquês de Alorna, era a intenção que o seu general ocupasse o importante cargo de Vice Rei do Brasil, o que por razões políticas acabou por não acontecer.

O seu destino ficou definitivamente selado com o do Brasil  em 1815, quando foi nomeado Comandante em Chefe da Divisão de Voluntarios Reaes, uma força de quase 5 mil homens, que para aí foi enviada em 1816 com o fim último de invadir a Banda Oriental. Nunca mais abandonou o Brasil e aí viria a falecer.

Antes de partir, fez vacinar os seus homens contra a varíola, ou as bexigas, tomando-a ele próprio primeiro em frente de todos. Por esse ato, foi feito correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa, quando já navegava para o Brasil.

*

Para um português, habituado à sua terra, o Brasil era todo um novo mundo com 'aves das cores mais fantasticas' e 'planícies sem limites'. Como o futuro conde de Samodães, comandante do 2.º regimento, o pôs, “tudo n’este paiz é grande e maravilhoso”.

Desembarcado na corte, no Rio de Janeiro, pouco tempo lá ficou e dois meses depois, em Junho de 1816, partiu para cumprir a sua missão. 

Aliás, uma das maiores críticas que costuma ser feita ao general Lecor é a de desembarcar o grosso das suas forças na ilha de Santa Catarina e fazer o duro percurso por terra desde aí até à Banda Oriental. Falamos de 800 quilómetros por terra arenosa e erma. Muitos historiadores criticam-no por esse excesso de cautela e/ou falta de habilidade com tão fortes forças, mas recentemente encontrei uma nota do próprio rei, ainda no Rio, dizendo-lhe que não arriscasse os seus soldados no oceano. O inverno austral, as traiçoeiras águas do Rio da Prata e os perigosos ventos pampeiros aconselhavam cautela.
Seja como for, a cautela era preferível, até porque não havia concorrência. A expedição espanhola de Pablo Morrillo, que se destinava a Montevideu, havia sido desviada para a Venezuela e isso soube-se em meados do ano.
Não será de esquecer a importância da logística – uma lição que os oficiais portugueses aprenderam bem com os britânicos durante a Guerra Peninsular, que aconselhava Lecor a tomar o seu tempo.

Não me ocuparei dos heróicos eventos da Segunda Invasión Portuguesa, até porque a maioria deles ocorreram no teatro leste, no interior, onde as forças da capitania do Rio Grande combatiam o grosso oriental de Artigas, mas da lenta e segura aproximação a Montevideu que culmina na tomada da cidade a 20 de Janeiro de 1817. 
Apesar de usar o título de capitão general da Banda Oriental quando entra no território em finais de Novembro, é nesta altura que o passa a ser de facto. Nem toda a Banda Oriental se submete (tarefa que só será completada em 1810), mas o importantíssimo porto de Montevideu passa a estar em mãos portuguesas. Lecor não o saberá, mas ele é o responsável pela última aquisição de território do Império Português, ainda que isso apenas se torne oficial em 1821, com a anexação do território sob o nome de Cisplatina.

Nesse dia inicia ele aquilo que Falcão Espalter denominou de Vigia Lecor. 

O início do governo português em Montevideu marcou o fim de 6 anos de revolução e lutas intestinas, em que não só os independentistas lutaram contra os espanhois, mas entre si, divididos entre centralistas e federalistas. Ainda que não tenha sido imediato, o novo governador trás de novo a paz e prosperidade ao importante porto. A maioria da população de Montevideu, principalmente os que beneficiam do comércio (e em Montevideu eram quase todos, em diferentes níveis), recebeu Lecor com alívio, ainda que com alguma apreensão.
Mesmo Buenos Aires, que partilhava algum ideário com Artigas, acabou por não intervir e manteve o tratado que tinha com Portugal desde 1812.

O general Lecor, no entanto, revelou ser tudo aquilo que os orientais poderiam esperar. Toda a sua conduta desde que havia entrado na Banda Oriental era conciliatória. Alguns militares seus subordinados queixam-se da sua falta de agressividade, como Saldanha, mas de facto Lecor cumpria as ordens que tinha recebido. Não seria um conquistador só por ser um conquistador, mas tentaria ser um libertador, ou tanto quanto possível.

Tomás de Iriarte, um oficial argentino que o conheceu, diz dele que “no fué el idolo del pueblo, tampoco puede aseverarse que alimentasen contra él sentimientos de odio y reprobacion personal”.
Quem o conheceu nesta altura revela bem qual a postura política de Lecor. A historiografia uruguaia acompanha até hoje esta visão e não o alça a um tirano estrangeiro, mas no pior dos casos, um mal necessário. Muitos vêm nele mais vantagens que desvantagens, apesar de ser um invasor.

A sua figura física não negava o soldado endurecido nas campanhas europeias, mas não lhe faltava urbanidade ou cortesia. Sem manifestar um afetação de maneirismos, era afável e complacente, sem que perdesse o respeito de quem lidava com ele. Lecor conseguia complementar o seu semblante sério e marcial com a compostura de um homem culto e habituado à alta sociedade.

*

Em 1822, veio a independência do Brasil e, decerto, a decisão mais monumental que Lecor tomou na sua vida: a de a apoiar na pessoa do Principe D. Pedro, então regente do Brasil. Lecor teve a plena noção do significado da sua decisão, e tomada essa decisão, assumiu-a como sua. Pesem embora outra fatores, como ter casado em 1818 com D. Rosa, uma dama montevidenha, sentiu claramente uma forte afinidade com o projeto brasileiro.
Associado a isso, e como escreveu em carta a José Bonifácio, reagiu aos “planos evasivos do partido Espanhol, dominante nas Cortes, porque no duro cativeiro de S.M.F. nada me parecia mais digno do que obedecer a Seu Augusto Filho”.

O capitão general da Cisplatina não esqueceu também decerto a luta intestina de muitos dos seus subordinados enquadrado no famigerado “Conselho Militar”, e que levava a Divisão de Voluntarios Reaes a um ponto de insubordinação intolerável.

Como Lecor refere, essa decisão foi daquelas que um homem como ele só poderia tomar uma vez na vida. Nesse mês de Setembro de 1822, o seu compromisso com o Brasil foi assumido de corpo inteiro. O general passava a ser um dos “heróis da brasileia liberdade”, conforme nos dita um poema épico escrito anos depois.

*

Em Abril de 1826, é nomeado Comandante em Chefe do Exército do Sul, no âmbito da Guerra da Cisplatina. Chega ao Rio Grande em Agosto, onde é recebido como um herói pelo povo gaúcho, como já o havia sido em 1816.
Não tem tempo de fazer obra, pois D. Pedro exonera-o apenas um mês depois, substituindo-o por Barbacena. A fria receção que recebe do imperador em Porto Alegre é decerto um dos pontos mais baixos da sua carreira.

Os argentinos, porém, ganham ímpeto no conflito e as forças brasileiras sofrem uma derrota no Passo do Rosário, em Fevereiro do ano seguinte. Em Agosto de 1827, o visconde da Laguna, no Rio de Janeiro, é de novo nomeado Comandante em Chefe e retorna ao Rio Grande. Encontra um exército desorganizado e desmoralizado e propõe-se, desde logo, a reformar o contacto com os negociantes locais, de forma a garantir o sustento e transporte. O seu crédito e reputação política é ainda enorme no Rio Grande e todos nutrem por ele uma enorme simpatia.
Durante o ano seguinte, Laguna mantém o Exército do Sul intacto, novamente acusado de inação ou até covardia. Os seus subordinados apelidam-no de Cuntactor Segundo, o adiador (como o romano Fábio Máximo Cuntactor que evitava combater Aníbal na II Guerra Púnica). O epíteto se não é, em termos marciais, o mais elogioso, não é também o mais ofensivo. Era o requerido para a defesa do Rio Grande, de forma a deter quaisquer incursões argentinas.

Quando a paz vem em 1828, o Visconde da Laguna já não é um homem novo, tem 64 anos, mais de 30 passados no Real Serviço, muitos deles em campanhas. É claramente o fim da sua carreira. Retorna de vez ao Rio de Janeiro e reforma-se como Marechal do Exército.
O seu último comando revela mais um pouco do homem. Em 1835 , a regência nomeia-o comandante superior da Guarda Nacional do Rio de Janeiro; um cargo simbólico, mas demonstrativo de que mantinha a confiança do Brasil, mesmo após a abdicação de D. Pedro.

Carlos Frederico Lecor, Visconde da Laguna e Grande do Império, fecha os olhos pela última vez a 2 de Agosto de 1836, na sua casa junto à ponte do Aterrado, no Rio de Janeiro. É enterrado nas catacumbas da Igreja de S. Francisco de Paula.

*

Concluo aqui o meu elogio a esta extraordinária figura histórica, algo extenso e espero que não muito maçudo, com a esperança de lhe ter honrado a memória de soldado, que pertence tanto a Portugal quanto ao Brasil. Espero ter também ajudado ao conhecimento de um homem assaz desconhecido, quase criminalmente, num e noutro lado do Atlântico, mas daqueles que sem grande alarido, mas com grande competência, lealdade e devoção, ajudou à grandeza dos nossos dois países. 

Muito obrigado pela vossa atenção.