7 de março de 2009

Arvorado em general, o primeiro comando de Lecor na Beira Baixa (1809-1810)




Após ter sido nomeado para comandar a Beira Baixa, por Ofício de 25 de Janeiro, assinado por D. Miguel Pereira Forjaz. o Coronel Carlos Frederico Lecor deslocou-se, no início de Fevereiro, de Almeida (onde comandou brevemente o Infantaria 23) para a Idanha [na foto, o Rio Pônsul, junto a Idanha-a-Velha].

A província era de extrema importância, na medida em que o Coronel Lecor se via encarregado da defesa do teatro onde apenas há cerca de 14 meses, Junot havia entrado em Portugal. Como o próprio Lecor refere, na sua carta de aceitação e agradecimento a D. Miguel Pereira Forjaz, datada de 2 de Fevereiro, "Lembre-se V. Ex.ª que me arvora em General e que as minhas circunstâncias não são para isso".

Com pouco menos de um mês nesse comando, Lecor enviou uma carta ao Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, D. Miguel Pereira Forjaz, apresentando os problemas e prescrevendo uma terapeutica (curiosamente, ou não, a mesma que Arthur Wellesley prescreverá, com sucesso, para a defesa de Portugal em 1810 - a negação de sustento às tropas francesas).
Entre outros elementos, é notório o desfazamento entre os militares e os civis, problema principal que Lecor enumera. Com o benefício, no entanto, de uma linguagem elegante e clara, Lecor apresenta em pleno o potencial que o levará a mais altos voos e consistentemente a deter comandos nesta área, talvez a principal entrada de acesso a Lisboa, paralela ao Tejo.

Aqui fica, pois, a carta que amanhã fará 200 anos de idade, reportando a situação da Beira Baixa e, concerteza, a disposição geral dos Portugueses:

Illmo e Exmo. Senhor,

A presunção em que acham os Povos da Beira Baixa, aonde tenho a honra de comandar, que o perigo está passado, e que o Inimigo não tornará a invadir esta Província, faz com que o patriotismo e actividade se desenvolva mui pouco nestas Povoações, lembrando-se de Privilégios, e fugindo a darem transportes aos accentos, e escondendo o pão supérfluo que ainda têm: faz-se muito necessário ordens positivas sobre tão importante objecto, determinando S.A.R. = 1.º Que cessem na actual situação todos os Privilégios em todas as classes de cidadãos principiando pela Tropa de Linha, e Milícias = 2.º Que todas as Autoridades Constituídas Eclesiásticas, Civis e Militares, aproximando-se o Inimigo se devem retirar às Montanhas, sem o que é dificultoso fazer mover os Povos, valendo-se o Inimigo as mesmas Autoridades para lhe fazerem aprontar os Mantimentos que lhe são necessários como fizeram em Portugal e estão praticando em Espanha = 3.º Que se obrigue a todas as famílias a depositarem o pão, que conservam para o seu sustento, e os seus gados nas Montanhas, ou terras que lhes são vizinhas desde Alpedrinha até a Serra do Muradal, e desta até Vila Velha, para onde os Povos se devem recolher logo que o Inimigo pretenda entrar com maiores forças, porque de outra sorte acharão em cada Povo assão (?) nos Depósitos particulares de cada família pão suficiente para sustentarem as suas Colunas umas poucas semanas = 4.º Todo o pão dos celeiros e sobras dos particulares se deve reunir em um Depósito geral para fornecimento da Tropa, fora do alcance de um golpe de mão, parecendo-me o mais conveniente a Sobreira Formosa.
Todas estas disposições merecem a atenção de S.A.R., pois marchando o Inimigo sem Armazéns, o meio mais forte de resistência que lhe poderemos opor será embaraçando que lhe encontre subsistência.
Tenho calculado que na Beira Baixa se podem sustentar 20 mil homens dois meses com provimentos particulares, por consequência é de primeira necessidade obrigar que se façam os Depósitos particulares e gerais nos Pontos que a Natureza defende, e que a Tropa e ordenanças podem guardar.
Acabo de receber um Ofício do general Costa [Cuesta] pelo oficial que mandei àquele Exército tomar conhecimento das disposições dos Espanhóis, e Franceses. O mesmo Costa me dá a conhecer o pouco contente que está do Exército Português o não auxiliar. À presença de V.Exª mando o mesmo oficial, o qual pode informar a V.Exª das miudezas [meudezas] e particulares que ali presenciou. O Exército do dito General Costa vai-se reforçando, e assegura-me o dito oficial que já tem 5 mil homens de Cavalaria bem armados, e vestidos.
Espero que S.A.R. determine com toda a brevidade se executem as providências que pondero para bem da defesa desta Província, a fim de que haja tempo de poder executar todos estes arranjos, sem os quais toda a Resistência Militar não bastará para suster a entrada do Inimigo.

Deus Guarde a V. Exª (...)

Idanha, 3 de Março de 1809

Illmo e Exmo Sr. D. Miguel Pereira Forjaz

Carlos Frederico Lecor(Transcrição da carta disponível no Arquivo Histórico Militar, AHM-DIV-1-14-095-54, com adaptação ao Português contemporâneo)

* * *

A 20 de Novembro de 1808, quase 3 meses após ter retornado de Plymouth integrado na Leal Legião Lusitana, Carlos Frederico é nomeado Coronel do Regimento de Infantaria n.º 23, de Almeida.
No adro ainda ia o seu trabalho nesse regimento - buscando pô-lo em condições - quando se vê nomeado comandante da Beira Baixa, em 25 de Janeiro de 1809, mais precisamente Comandante da Divisão d'Observação da Beira Baixa, integrada no maior Exército d'Entre Tejo e Mondego (Tenente General António José de Miranda Henriques), juntamente com a formação-irmã, a Divisão d'Observação da Beira Alta (Marechal de Campo [hoje seria Major General] Bacelar).

Em finais de Março, a Divisão da Beira Baixa, como era tratada à guisa de diminutivo, tinha as seguintes forças, em duas linhas:


1.ª LINHA [Margem do rio Erges, a fronteira com Espanha]
Constituído inteiramente por 6 Companhias de Caçadores do Monte, com o complemento de 102 homens cada, totalizando 612. Este tipo de companhias eram formadas por Ordenanças voluntários ou escolhidos pelo excelente conhecimento do terreno da Raia.
Estando baseados em aldeias e vilas, formavam então a 1.ª linha, com a seguinte distribuição de efectivos, de Sul para Norte:

Malpica (50), Monforte (52), Rosmaninhal (102), Segura (102), Salvaterra do Extremo (102), Penagarcia (30) Aranhas (72) Guadrazães (102)

As Companhias de Caçadores do Monte eram formadas apenas em tempo de guerra, a partir de voluntários, sendo as patentes dos seus oficiais assinadas pelo comandante militar da região. A sua utilização em 1809 teve um precedente, em 1801, na Guerra das Laranjas, não só na Beira Baixa (que não viu acção), mas na Beira Alta e em Trás-os-Montes. Em 1801, Lecor era aliás Capitão Ajudante d'Ordens do Marquês de Alorna, na Legião de Tropas Ligeiras que guarneceu também este mesmíssimo teatro de operações.

2.ª LINHA [Margem do rio Pônsul]
Constituído pela Infantaria de linha, Caçadores e Regimentos de Milícia locais, perfazia 4,284 homens, distribuidos assim, também de Sul para Norte:

Cebolaes - Batalhão de Caçadores n.º 4 [486]
Castelo Branco - Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 1 [194 efectivos]
& Regimento de Milícias de Castelo Branco [308]
Escalos de Baixo - Batalhão de Caçadores n.º 5 [227]
Idanha-a-Nova - Batalhão de Caçadores n.º 2 [366]
Idanha-a-Velha - Batalhão de Caçadores n.º 1 [552]
& Regimento de Milícias da Idanha-a-Nova [1,101]
Penamacor - Regimento de Milícias da Covilhã [1,050]

Cavalaria
3 Esquadrões, em Zibreira, Alcafozes e Idanha-a-Nova, cada um destes com pequenos destacamentos em 11 aldeias e vilas [370]

Artilharia
Uma Companhia de Caçadores do Monte, mais a sul, em Vila Velha do Ródão, com 102 homens, defendia uma linha de postos constituída por 58 artilheiros em quatro áreas, de Sul para Norte, Vila Velha, Perdigão, Talhadas & Muradal.


Esta Divisão estava posicionada essencialmente de forma defensiva, com os Caçadores do Monte servindo de piquetes altamente móveis, reconhecendo activamente. Mais para dentro, em torno do Quartel-General de Lecor em Idanha-a-Nova, estavam as unidades de linha e as Milícias, o grosso das forças.

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