13 de dezembro de 2018

A Vida e Tempos de Carlos Frederico Lecor



MARECHAL DO EXÉRCITO CARLOS FREDERICO LECOR
VISCONDE DA LAGUNA, COM GRANDEZA

* Grã-Cruz Honorário da Ordem Militar da Torre e Espada (Portugal)
* Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro (Brasil)
* Comendador da Real Ordem Militar (Portugal) e de Imperial Ordem de São Bento de Aviz (Brasil)
* Medalha de Comando da Guerra Peninsular por 4 acções (Vittoria, Pyreneos, Nivelle e Nive) (Portugal)
* Cruz da Guerra Peninsular n.º 1, de Ouro, para 6 Campanhas (Portugal)
* Army Gold Medal (por três acções: Pyrenées, Nivelle e Nive) (Grã Bretanha)
* Medalha de Distinção do Exército do Sul (Brasil)


I. Infância e Juventude (1764-1793)

CARLOS FREDERICO LECOR, primeiro filho de Luiz Pedro Lecor e D. Quitéria Luísa Marina Lecor nasceu a 6 de outubro de 1764, em Santos-o-Velho, Lisboa, na rua do Pé de Ferro, vizinha do convento das Trinas do Mocambo. Muda-se para Faro com a sua família algures na década de 1770. 

Após os estudos iniciais, terá trabalhado como caixeiro na companhia do tio, assim como viajado pelo norte da Europa, mas preferiu alistar-se e jurar bandeiras, aos 29 anos, como soldado de artilharia Pé de Castelo, na Fortaleza de São João do Registo da Barra de Tavira, a 13 de outubro de 1793. 

II. Subalterno (1794-1797)

A 17 de março de 1794, já sargento, é promovido a Ajudante de infantaria com exercício na Praça de Vila Nova de Portimão pelo Capitão General dos Algarves, que já havia patrocinado os seus três irmãos meses antes, recebendo a sua carta patente de ajudante, a primeira como oficial, a 6 de abril. 


A 5 de outubro de 1794, é admitido na Real Academia de Marinha, como discípulo do primeiro ano do curso de Marinha, tendo sido ‘plenamente aprovado’ no exame de admissão. A 2 de dezembro desse ano de 1794, troca com o 1.º tenente António Pimentel do Vabo e torna-se o 1.º tenente da 9.ª companhia do Regimento de Artilharia do Algarve, em Faro. 

Entre Portimão e Lisboa, conclui o 1.º ano na Real Academia, sendo aprovado no exame final, por volta de Junho, estando assim habilitado “a ouvir as Liçoens do segundo anno”,o que não vem a fazer, pois nos finais de dezembro, embarca na Esquadra do Brasil

Até julho de 1796, serve como 1.º tenente de artilharia, destacado do seu regimento, na nau Príncipe Real. Viaja de Lisboa a Salvador, retornando já em 1796. Segundo é referido por algumas fontes, ficou de baixa ao serviço a partir de junho de 1796. 

III. Capitão nas Tropas Ligeiras (1797-1805)

A 1 de março de 1797, é promovido a capitão da 8.ª companhia de infantaria da Legião de Tropas LigeirasParticipa na campanha de 1801, a Guerra das Laranjas, na fronteira de Zibreira, próximo a Castelo Branco. A 13 de maio de 1802, é promovido a sargento mor de cavalaria da Legião. 

IV. Ajudante de Campo (1805-1808)

Três anos depois, a 1 de agosto de 1805, é promovido a tenente coronel agregado à Legião, ajudante d’ordens do novo Vice Rei do Brasil, o marquês de Alorna. Apesar de Alorna não tomar posse do comando no Brasil, Carlos Frederico mantém o exercício junto a Alorna, que vem a ser nomeado Governador d’Armas do Alentejo. Antes de se reunir ao seu general, Lecor comanda interinamente a Legião, até que o barão de Wiederhold assume o comando.


Punhete, junto ao Tejo.
Em 1807, é Lecor o oficial que identifica as forças francesas já bem dentro de Portugal, em Vila Velha de Ródão, a 21 de novembro, correndo a avisar o Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, D. António de Araújo Azevedo, e o Príncipe Regente D. João, o que consegue fazer pela manhã de 23, em Lisboa. O seu relatório e posterior reconhecimento na área do Cartaxo e Golegã foi essencial para acautelar a plena segurança do embarque da Corte. 

Depois de 29 de Novembro, mantém-se como ajudante d’ordens do marquês de Alorna, colaborando com a ocupação francesa, até que foge, na Páscoa de 1808, em direção à esquadra britânica do almirante Sir Sidney Smith, para tomar o exílio em Plymouth. Após a revolta e criação da Junta do Porto, o tenente coronel Lecor desembarca no Porto, com a incumbência de promover a formação do 2.º batalhão da Leal Legião Lusitana, que havia ajudado a criar em Plymouth e Londres. 

V. Guerra Peninsular (1808-1812)


A 20 de novembro de 1808, no processo de reorganização do Exército, é promovido a coronel comandante do Regimento de Infantaria n.º 23, em Almeida. A 2 de fevereiro do ano seguinte, é feito comandante de brigada das unidades presentes na Beira Baixa, sedeando-se primeiro em Idanha a Nova e depois em Castelo Branco. Participa na campanha de 1809, comandando a brigada constituída pelos Batalhões de Caçadores 3 e 4, a um momento, e 4 e 6, noutro, juntamente com o 2.º batalhão do Regimento de Infantaria n.º 9. 
Em fevereiro de 1810, a brigada Lecor, constituída pelos Regimentos de Infantaria n.º 12 e 13, fica posicionada na serra do Muradal, em 2.ª linha face ao comando do general Roberto Wilson na área de fronteira de Castelo Branco. No mês seguinte, Lecor leva a sua brigada para Castelo Branco, substituindo a brigada Wilson. Na campanha de 1810, a brigada Lecor, com a adição de um batalhão cada dos Regimentos de Milícias de Castelo Branco, Idanha e Covilhã, é subordinada ao general Rowland Hill, desembocando na batalha do Buçaco, a 27 de setembro de 1810, onde não combate, retirando depois até aos primeiro dias de outubro para as linhas defensivas, em Alhandra, no extremo direito, junto ao rio Tejo. 

Rio Pônsul, junto a Idanha a Nova.
A 5 de março de 1811, é nomeado comandante da brigada portuguesa da nova 7.ª Divisão anglo-portuguesa, mas em abril desse ano, antes da batalha de Fuentes de Honor, é de novo nomeado comandante militar da área de Castelo Branco, com os regimentos de milícias da área. Dois meses depois, a 8 de maio, é promovido a brigadeiro. Ainda no mesmo exercício, reage com muito atino, sangue frio e respeito pelas ordens na incursão francesa de abril de 1812, do marechal Marmont, sobre a Guarda e Castelo Branco, reagindo com calma e sem baixas. 
Em Outubro de 1812, é feito Comendador Honorário da Ordem da Torre e Espada.

VI. Campanhas de Espanha e França (1813-1814)

Em março de 1813, nas vésperas do início da campanha desse ano, é novamente nomeado comandante da brigada portuguesa da 7.ª Divisão, tendo participado nas batalhas de Vitória e dos Pirinéus. A 10 de julho, é promovido a marechal de campo.  A 10 de novembro de 1813, é o comandante interino da 7.ª Divisão anglo-portuguesa na batalha de Nivelle, sendo assim o único general português em toda a Guerra Peninsular que comanda uma divisão dos dois exércitos. No início de dezembro, com a nomeação do general George Walker, retorna ao comando da agora 6.º Brigada, mas é logo nomeado comandante da Divisão Portuguesa. 


Batalha de St. Pierre.
A 13 de dezembro desse ano, na batalha de S. Pierre, última parte da batalha do Nive, comanda a Divisão Portuguesa, nomeadamente a brigada do Algarve (Regimentos de Infantaria 2 e 14) no centro, ordenando até uma carga do 2.º batalhão do Regimento de Infantaria n.º 14, para desembaraçar o 1.º batalhão, de voltigeurs franceses que atacavam. É ferido sem gravidade.

Comanda a divisão até ao fim da guerra, em abril de 1814, retornando a Portugal nos meses seguintes, como o oficial português mais graduado do exército em operações. Pouco tempo depois de chegar a Lisboa, é nomeado governador da praça de Elvas, em 28 de agosto.

VII. Os Voluntarios Reaes (1815)

Em Junho de 1815, alguns meses depois de tomar posse do cargo de governador de Elvas, Carlos Frederico é promovido a tenente general e nomeado comandante em chefe da Divisão dos Voluntários Reais do Príncipe, uma grande unidade com cerca de 5000 homens, destinada ao Brasil. O seu nome foi avançado logo no Dezembro anterior, quando as ordens do governo do Rio foram assinadas.

De Julho a Dezembro, esteve em Belém, a superintender o treino, adestramento e equipamento da grande unidade, tendo partido de Lisboa no início de 1816, com a maior parte desta. Entre as muitas preocupações de adestrar a força militar, Lecor preocupava-se com a saúde dos seus homens tendo feito vacinar muitos soldados, dando ele o exemplo. Por isso foi feito Correspondente da Academia Real de Ciências.

Chega ao Rio de Janeiro no início de Abril de 1816, sabendo nessa altura que a rainha D. Maria havia falecido. Apesar dessa triste notícia, estes são momentos de grande alegria no Rio de Janeiro, Entre os muitos momentos de festa e de gala, como o desfile e brinco de 13 de Maio, imortalizado num óleo de Jean-Baptiste Debret, beija mãos e jantares diplomáticos, a Divisão mantinha treinos quase diários.


A 12 de Junho, finalmente, a Divisão, embarcada de novo na esquadra, zarpa do Rio com destino a Santa Catarina, onde chega em Julho. Por esta altura, o objetivo da Divisão é já perfeitamente claro e definido: a tomada de Montevideu e da Banda Oriental e a instalação de uma capitania-general sob a liderança de Carlos Frederico Lecor.

VIII. Campanha de Montevideu (1816-1821)

Soldado da DVR

Nos começos de Julho, quando a esquadra começa a chegar à Vila Nova do Desterro (hoje, Florianópolis), logo começa a desembarcar no continente o primeiro destacamento de vários que teriam de marchar a pé os cerca de 700 quilómetros que permeiam entre S. Catarina e a vila do Rio Grande.

Já a ação começava no sudoeste do Rio Grande, com a batalha de Carumbé a 27 de Outubro, só nessa altura a Divisão se pôde apresentar toda em território inimigo. Após a batalha de India Muerta, a 19 de Novembro, em que o n.º 2 de Lecor, Sebastião Pinto de Araújo Correia, destrói a única ameaça naquela parte do país, o caminho para Montevideu ficou amplamente livre, buscando Lecor mais entendimentos políticos que o domínio pela força das armas.

A 20 de Janeiro de 1817, seis meses após o previsto, Lecor e os Voluntarios Reaes entram na cidade de Montevideu sem disparar uma bola, sob o pálio e recebido pela maioria do cabildo municipal. A norte, duas semanas antes, o marquês de Alegrete destruía as forças de Artigas em Catalán. 

Começa então o que Falcão Espalter chama de Vigia Lecor, o período de Carlos Frederico Lecor como capitão general da Banda Oriental. O general, alto, loiro e de olhos azuis, cultivava as relações sociais com a burguesia da cidade e fez-se rodear de colaboradores locais de grande valia, que por sua vez o ajudava a criar ainda mais alianças. A 6 de Fevereiro de 1818, Carlos Frederico Lecor é feito Barão da Laguna, por ocasião da cerimónia de aclamação do rei D. João VI. A 3 de Dezembro, casa com D. Rosa Maria Josefa Deogracias de Herrera y Basavilbaso.


Após o fim do conflito, em 1820, com a batalha de Tacuarembó, ganha pelo Conde da Figueira, homólogo de Lecor no Rio Grande, a oposição federalista de Artigas cai por terra de vez. Daí por um ano, consegue a integração da Banda Oriental no Reino do Brasil, sob o nome de Cisplatina.
É feito Grã Cruz Honorário da Ordem da Torre e Espada a 15 de Novembro de 1820.

IX. A Brasileia Liberdade (1822-1828)

Carlos Frederico acompanha o evoluir da situação política no Rio, desde que D. João VI retorna a Portugal, e quando a independência vem, apoia D. Pedro, sai de Montevideu para Canelones, dois dias depois do 7 de Setembro, sob o pretexto de uma revista e assume o comando das forças brasileiras independentes, saudando o novo Império.

Em Dezembro de 1822, é feito oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro. No início de 1823, o seu título de Barão da Laguna é confirmado, recebendo pela mesma altura as honras de Grande do Império.

Monta sítio à sua velha conquista e nos finais de 1823 chega a entendimento de paz com o que resta dos Voluntários Reais, concluindo assim o último ato militar da Guerra da Independência. Os portugueses evacuam Montevideu em 1824, sendo esta a última força militar portuguesa efetiva presente no Brasil.

Em 1825, o título de Lecor é elevado a Visconde da Laguna com Grandeza, que o equipara protocolarmente a conde. Nesse ano, os 33 orientais desembarcam na agora Cisplatina com o fim de recomeçar a luta e libertar de vez a Banda Oriental do Uruguai para a trazer de volta à Argentina. Carlos Frederico é nomeado em Abril de 1826 para comandante do Exército do Sul e viaja para Porto Alegre apenas em Agosto. Apesar de Lecor ser recebido no Rio Grande como um herói e garantia de salvação, o seu trabalho é encurtado quando o D. Pedro o demite do cargo um mês depois, numa audiência em Porto Alegre em o imperador não lhe terá mostrado mais que frieza e desprezo.

Magoado, Carlos retorna a Montevideu, decerto pensando ser esse o fim da sua carreira. Entretanto, o exército é derrotado em Itazuangó (ou Passo do Rosário), em Fevereiro de 1827, sob o comando de Barbacena. D. Pedro sente então a necessidade de readmitir o velho general em Agosto. Lecor, vindo do Rio de Janeiro assume o comando do Exército do Sul apenas em janeiro de 1828. 

Lecor vê-se no entanto com a tarefa dupla de cuidar de um exército cansado e desagregado, e de evitar mais ações desnecessárias, face a um paz que estava já a ser negociada em Londres. Finalmente a paz vem nos finais de 1828 e a sua carreira militar, apesar deste breve segundo fôlego, termina.

X. Soldados Velhos não Morrem... (1829-1836)

Em 1829, embarca em Porto Alegre para o Rio de Janeiro onde viverá até ao fim. É sujeito a um Conselho de Guerra Justificativo, muito em consequência de um conflito que manteve com o seu n.º 2 no Rio Grande, Gustavo Braun (ou Brown). É absolvido, congratulado e reformado na patente de Marechal do Exército, o mais alto do Exército.

O agora Visconde de Laguna com Grandeza, residia na rua do Aterrado junto à ponte, ligeiramente afastado do centro do Rio, com a sua jovem esposa. Tudo indica que se manteve afastado da política, mais não seja porque, após a abdicação de D. Pedro, a regência, que governava o Brasil na menoridade de D. Pedro II, o nomeou Comandante Superior da recém-criada Guarda Nacional do Rio de Janeiro. O cargo era honorífico, mas uma prova que o velho general era ainda digno da confiança do poder.

Nem um ano depois, Carlos Frederico Lecor deixou viúva a sua esposa, falecendo na sua casa a 2 de Agosto de 1836, com 71 anos e 10 meses. Sabe-se que a sua doença foi prolongada, mas não qual a causa de morte. Não deixou descendência.


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A foto ao topo é um pormenor do retrato de Carlos Frederico Lecor, exposto no Museu Histórico Nacional, em Montevideu. A foto foi gentilmente cedida por Dalmiro Barros, a quem agradeço.

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