26 de janeiro de 2018

Soldados Velhos não Morrem…


‘Quem sois vós? Eu sou um homem. Que cousa é hum homem? He hum animal que discorre.De que he composto o homem? De hum corpo mortal, e de huma alma immortal.’ 
Luiz Pedro Lecor, Lição preliminar. Educação de Meninos, 1746


Rio de Janeiro, 4 de Agosto de 1836

É noite. O cortejo fúnebre move-se lentamente pelas ruas. Por cada igreja onde passa, desde o seu início, na rua do Aterrado, junto à ponte, até à Igreja de S. Francisco de Paula, no centro da cidade, os sinos tocam em reverência ao ilustre defuncto. Entre as pessoas se vai sabendo de quem se trata. O visconde da Laguna – Carlos Frederico Lecor. Licor. Licores. Benzem-se e ajoelham-se. ‘Que belo cortejo, santo homem’, dizem. 

Alguns, mostrando reverência, não deixam de contar menos um português, ainda com os acontecimentos de 1831 frescos na memória, mas também vendo passar um Marechal do Exército Brasileiro, fiel desde o início ao imperador D. Pedro e à Regência depois.

Chegando ao espaço aberto do Campo de Santana e passando entre o poço e a igreja paroquial, mais facilmente se pode observar o conjunto fúnebre. 
Na frente, duas filas paralelas de homens, empunhando tocheiras acesas, marchando vagarosamente; logo atrás, o coche, a dois cavalos, carregando o caixão. Atrás deste, uma carruagem, levada por quatro cavalos; nela, a viúva, D. Rosa, o irmão, Brigadeiro João Pedro, a sua esposa D. Erigida, e o padre cura de Santana, paróquia do falecido.


Rossio, Rio de Janeiro, Jean Batiste Debret

Os dados são escassos quanto ao percurso que foi tomado, mas não é difícil pensar numa passagem pelo Rossio (atual Praça Tiradentes, então Praça da Constituição), de onde, nessa altura, se avistava os imponentes campanários da igreja de S. Francisco, o destino final, ao alto, virados a Norte.

À porta da igreja, no largo, os convidados esperam a chegada do coche transportando o visconde. Esperam-no para a derradeira despedida, o último ato público do marechal. O ambiente de tristeza é emoldurado pelos muitos uniformes imperiais, o desbroados dourados, as condecorações.

Da mesma forma que o seu padrinho, em Faro, também a devoção a S. Francisco levam Carlos Frederico, crente, a ser enterrado na sua última morada das catacumbas da igreja. Também o seu irmão João Pedro, agora vivo e enlutado, será, oito anos depois, ali chorado e sepultado, perto do irmão mais velho.


* * *

Igreja de São Francisco de Paula, Rio de Janeiro (wikicommons

Dies magna et amara valde

Não se percebe claramente nos presentes, mas há em muitos deles, soldados, naquele momento, as memórias do Sul, da Cisplatina e Montevidéu. Em alguns até, memórias mais antigas da fase final da guerra peninsular, dos campos de Saint Pierre de Irube, de Toulose e Zugarramurdi. Em poucos, já, as memórias, apesar de tudo não tão distantes assim, de Castelo Branco, da Ponte de Murcela, de Alhandra, ou até mesmo das guarnições do Algarve, onde foi soldado.

É quando alguém morre que finalmente pensamos no que fez, e no que foi. A morte de alguém impere-nos ao perfeito, à conclusão do ciclo, à possibilidade de concluir. Na conversa entre camaradas, à espera do cortejo fúnebre, a vê-lo chegar às escadarias, essas memórias ganham ainda mais vida, trazendo ao presente esse perfeito que a morte permite. Ao parar o coche, porém, calam-se as vozes e despede-se o homem que cessou. O caixão entra.

A encomenda do corpo é conduzida pelo reverendíssimo Procomissário da Ordem Terceira de S. Francisco, acompanhado de 24 sacerdotes, além do pároco de Santana, e quatro sacristãos. A cerimónia decorre no fausto apropriado, seguida por um Libera Me de música, acompanhado intensamente pelos presentes. 
A peça musical poderia muito bem ser o nono responsório do padre José Maurício Nunes Garcia, seu contemporâneo, muito apreciado na corte, onde também Sigismund Neukomm, mais recente, que se propôs a terminar o Requiem de Mozart, enquanto residia no Rio.

Libera me domine de morte aeterna in die illa tremenda quando caeli movendi sunt et terra dum veneris judicare saeculum per ignem.Liberta-me senhor da morte eterna. Quando os céus e a terra se revirarem, então virás julgar os povos através do fogo

Tremens factus sum ego et timeo dum discussio venerit atque ventura ira dies illa. Dies irae calamitatis et miseriae Tremo e tenho medo, quando o abalo vier juntamente com a fúria futura. Naquele dia de ira, de calamidade e miséria

Dies magna et amara valde dum veneris judicare saeculum per ignem.Dia grande e por demais amargo até que venhas julgar a eternidade pelo fogo

Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis…Dá-lhe o descanso eterno, Senhor, e que a luz perpétua o ilumine.

Kyrie eleison.

Requiescat in pace.
Senhor, tem piedade de nós.
Descanse em paz…

Já sem instrumentos, apenas as vozes ecoam, arrastadas, solenes e penumbres pelas paredes do templo. ‘Requiescat in pace’… Descanse em paz.


Catacumbas de Ordem, Jean Batiste Debret

Baixam todos às catacumbas da igreja onde as últimas palavras são enunciadas, o corpo recomendado. Todos os confrades de S. Francisco, mas também antigos camaradas, por ordem de antiguidade na irmandade terceira, abençoam o corpo com água benta. Depois colocaram cal. Fechou-se o caixão. Os assistentes colocam o caixão na sepultura atribuída na catacumba n.º 117.


* * *

Requiescat in pace


Voltemos atrás dois dias. Rio de Janeiro, 2 de Agosto de 1836. Falece, com 72 anos e 10 meses, o Marechal do Exército Carlos Frederico Lecor, Visconde de Laguna, Grande do Império, Grã Cruz honorário da Ordem da Torre e Espada, Comendador da Ordem Militar de Aviz, Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro. Pouco se sabe da sua doença, apenas que terá sido prolongada, pelas contas do médico e do boticário. Reflexos sem dúvida de uma vida de campanhas, desde 1795, 40 anos a cavalo e em tendas, na dura vida castrense. 

1 comentário:

Moisés Gaudêncio disse...

Olá Jorge. Gosto da ideia de começar pelo fim. Na minha humilde opinião acho que se é um texto literário então não «fica bem» dizer p. ex «os dados são escassos» ou ter um parágrafo tão denso de informação histórica como o último. Se é texto literário podem-se tomar «liberdades literárias» usando não só informação histórica suportada pelas fontes mas também conjecturas e suspeitas. Ou como dizem os britânicos «educated guesses». Por outro lado parece-me que a informação histórica pura e dura deve ir sendo introduzida na «estória« em doses moderadas e em contextos bem definidos. Não será muito fácil a um historiador escrever boa ficção histórica! Salta-lhe «o pé para o chinelo» digamos assim. Abraço