26 de maio de 2009

Retrato, autor desconhecido


Encontrei este retrato do Marechal Carlos Frederico Lecor, no sítio da "Uruguay Educa", portal educativo [visite aqui]. É um Lecor mais velho, decerto após 1824 (tendo em vista o uniforme imperial brasileiro, a Imperial Ordem do Cruzeiro no peito e a Medalha da Cisplatina - a do Barão da Laguna, como também é chamada - em torno do seu pescoço). Não há outra informação acerca da fonte se não esta: Archivo Nacional de la Imagen, SODRE (Servicio Oficial de Difusión Radiotelevisión y Espectáculos).

Nota (31.7.09) - É de 1824 a primeira organização do Imperial Exército e, salvo erro, os uniformes e insígnias.

9 de maio de 2009

As Razões da 'Traição'

Quem tem acompanhado este blogue, decerto já se terá deparado com uma das questões mais quentes acerca do homem Carlos Frederico Lecor:

Porque razão, em 1822, Lecor deixou de servir Portugal e passou a servir o novo Império Brasileiro?

Avancei, desde logo, algumas hipóteses, mas nada será melhor do que ler as próprias palavras do homem por trás da decisão.
A 1 de Junho de 1823, em Canelones, enquanto liderava o cerco a Montevidéu e aos remanescentes da Divisão de Voluntários Reais (então liderados por D. Álvaro da Costa), Carlos Frederico escreveu uma carta ao Ministro José Bonifácio Andrada e Silva.
Esta carta é um verdadeiro desabafo de alma, razão pela qual a transcrevo integralmente, pese embora a sua grande extensão, para que o caro leitor possa aferir e responder por si mesmo à pergunta.

Exactamente pelo seu enorme tamanho, não a começarei a transcrever aqui, mas no próximo post e nos mais que forem necessários. Ela é transcrita a partir da obra Lecor e a Cisplatina do General Paulo Queirós Duarte, publicada pela Biblioteca do Exército. Está no volume II e vai das páginas 507 a 510.

Carta: 1.6.1823 - A José Bonifácio Andrada e Silva - Parte 1

Tive a honra de receber a muito lisongeira e polida Carta que V.Exa. se dignou distinguir-me, fazendo o favor, que devidamente preso, de se me dirigir particularmente e em confidência, e tratando-me com expressões que até, se eu as merecesse, seriam boas, para me encherem de vãs glórias, e a que não tenho outro direito, senão o que se funda no mais ardente desejo de que me venham bem; e como V.Exa. quando assim me fala tem por objeto principal a Glória das Armas de Sua Majestade Imperial, e a Dignidade e Independência do Grande Brasil, contemplando-me sobremaneira, mas com muita justiça, em me julgar empenhado intimamente, e com todas as minhas potências, em tão Grandiosa Empresa, não haverá para estranhar que seja eu tão franco e leal com V.Exa., como V.Exa. tão nobremente o foi comigo: no quadro que V.Exa. vai ver, achará o que eu sou, e quando me pintarem a V.Exa. com outras cores, poderá V.Exa. conhecer a diferença que há do original.

Quando eu renunciei aos interesses de um País, que me viu nascer, que me enchera de Honras, e onde outras me esperavam, e me liguei aos do Vasto Império do Brasil, tive em vista não só a justiça da Causa Sagrada que abraçava, mas o convencimento de que assim defendia os legítimos direitos do Herdeiro do Trono Português contra os planos evasivos do partido Es- panhol, dominante nas Cortes de Lisboa, e porque no duro cativeiro de S.M.F. nada me parecia mais digno do que obedecer a Seu Augusto Filho, cujas virtudes e sublimes qualidades eu admirava: toda esta resolução, que é das que os homens da minha têmpera tomam uma só vez na vida, estava decidida a minha sorte, e quaisquer que fossem as alternativas da Política, elas já nada tinham comigo.

Então principiei para mim uma nova época na Carreira Política, e quase que me esqueci de todos os serviços que tinha rendido em mais de trinta anos de trabalho efetivo para, também, me esquecer dos sensabores e amarguras que eles me custaram, e se alguma vez recordava as contradições, que na minha complicada Comissão havia encontrado da parte de meus Subalternos, que me embaraçavam com uma Política oposta à minha; da parte do inimigo, que era necessário bater, e contemplar para que esta Província não ficasse um ermo, e nós todos por Canibais; da parte do passado Ministério pela impaciência com que ele, muito de longe do teatro da ação, queria forçar acontecimentos, que só tempo e paciência podiam fazer favoráveis, e porque alguma vez deu mais por vozes vagas, e acaso filhas de interesse particulares, do que pelas minhas informações oficiais; e da parte de vários outros agentes, que tiveram a influência de me mortificarem, era só para ter a consolação de dizer "bem, já tudo isto se acabou".

Esta não era a minha única satisfação, eu também cheguei a lisonjear-me, e V.Exa. me perdoará a presunção, de que sabida por S.M.I., e pelo seu Ilustrado Ministério a minha dedicação, e boa vontade, haviam os meus desvelos de procurar-me contentamentos na estação derradeira da minha existência, e não deixavam de me confirmar nesta persuasão documentos autênticos em Nome do Nosso Amável Imperador.

É verdade que várias Providências tomadas pela Repartição de V .Exa., e entre elas a da Comissão, que devia cuidar dos negócios deste País, ao passo que muito as respeitava, me causavam a maior penalidade; porque tinham um lado, que desgraçadamente foi o do maior e único efeito prejudicial aos Interesses do Império e de S.M., enquanto autorizam os outros, que me deviam respeitar, ou em mim deviam confiar, a faltar-me, e a pensarem, que eu era suspeito ao Ministério, e que ele desconfiava, ou fazia triste idéia das minhas operações; e sobre a Comissão, já que nada deverei ocultar a V.Exa., vem a propósito dizer que se ela não tem feito quanto mal podia, é porque eu o conheci em tempo, e o tenho, e continuarei a impedir.

O Síndico Procurador estava pelo seu lugar nas circunstâncias em que o considera a Comissão, e tudo o que ele me propusesse a bem do Império e desta Província seria por mim feito, como se fazia antes da Comissão; mas nem por isso aparecia a minha autoridade cerceada e vulnerável, nem estava ninguém fundado para julgar que S.M.I. tinha receios de mim.

O Brigadeiro Manoel Marques de Souza sempre manteve comigo a melhor inteligência, e se como Militar obedecia as minhas ordens, nunca por ele me foi proposta coisa que eu não aprovasse, em tudo isto porém era; conservada a ordem militar.

(continua)

Carta: 1.6.1823 - A José Bonifácio Andrada e Silva - Parte 2

É bem certo que depois da Comissão, salva a minha quebra na opinião pública, se tem continuado o necessário equilíbrio entre mim, o Síndico Procurador e o Brigadeiro Marques; mas Exmo.Sr., há quem perdeu a cabeça na Comissão, porque esta o tirou da sua esfera, e desejarei que algum lance de firmeza da minha parte, e que opiniões absurdas me arrancaram, basta para acalmar a vertigem e assim me veja eu dispensado de desabonar, perante V.Exa., indivíduos que tanto devem à Nação, e que parece preferirem aos interesses dela os seus particulares: tudo isto porém eu ainda combinava, conhecendo, que em Política, posto que seja injusto, é prudente viver desconfiando em casos arriscados, e tomar providências de cautela, que o risco autorize, e por tanto naquelas circunstâncias do Brasil, eu me resignava a que se desconfiasse de um General europeu, que se achava à testa da Força européia, atacada de opiniões exaltadas, e peninsulares; quando porém chegou à minha mão a respeitável Carta Imperial, datada de vinte e oito de janeiro p.p., publicada no Diário do Governo n.º 53, fiquei aniquilado, e confesso a V.Exa. que naquele momento me julguei o homem mais infeliz do Universo; porque não podia evitar que o desagrado que S.M.I. me intimava fosse transcendente aos negócios públicos, a mim confiados, e ao melhor proveito do Seu Imperial Serviço, como já sucede, havendo-se aqui desenvolvido, desde aquela ocasião, um dispersível conciliábulo, cujos incansáveis trabalhos e diligências têm por fim declamar contra quantos eu faço, levar as Tropas à insubordinação e ao levantamento, exagerando-lhes a sua paciência e sofrimentos, e compadecendo-se farisaicamente das suas poucas comodidades, e forcejando por continuar a insurreição da gente da Campanha, louvando e detalhando os muitos melhoramentos de que esta Província é capaz, como são Universidades, Fábricas, Pontes, Canais e outras Grandezas e Estabelecimentos, que há na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos!!! e carregando a mim e ao Síndico Procurador a falta deles, como provam aos seus prosélitos, com o frisante contexto da veneranda citada Carta Imperial: V.Exa. diz bem que só
com grandeza de alma e sacrifícios se levam ao cabo grandes projetos; porém, Exmo.Sr., o meu espírito não é tão forte, nem tão elevadas as minhas faculdades, que me não causassem o mais vivo sentimento as veementes reconvenções de S.M.I., mais ainda porque a minha consciência as não deixava recear; para ela é que eu apelei na minha angústia, e a direitura do meu procedimento me tem dado forças para esperar que o tempo e a mesma ordem dos acontecimentos convençam a S.M.I. e a V.Exa. de que, se eu não mereço elogios, é tão crítica a minha posição, que deve escusar-me de reprimenda. Em campo, e fazendo a Guerra àquelas mesmas Tropas, que comandei, que conduzi à Vitória, e que me granjeariam honras e considera- ções; necessitado a dividir-lhes as forças, porque de outro modo, se as minhas ainda agora são pequenas, muito menores seriam, se àquelas chegassem a reunir-se; obrigado a guardar uma Providência, incitada por mil brilhantes aparências, e poderosos aliciantes a repelir o nosso Governo. e tudo isto quando mais escassos eram os meios que eu tinha para o fazer; quando a sua longa estada neste País contra os seus engajamentos as trazia descontentes; sem pólvora; sem cartuchame; sem barracas; sem armamentos de reserva; porque a precipitação, com que saí de Montevidéu, para cumprir as ordens de S.M.I., nada disto me deixou tirar, e que por certo tiraria, como naquela ocasião disse ao Síndico Procurador, e ao Brigadeiro Manoel Marques, se não tivesse que satisfazer as desconfianças que de mim havia, e que a minha Carta a S.M.I., ainda Príncipe Regente, devia ter desvanecido, e sacrificar assim o tempo, que precisava para salvar os dois Batalhões de Libertos; para extrair da Praça quanto conviesse às minhas Tropas, e quanto cumpria subtrair-se às da Divisão, e para tomar várias outras providências, cuja falta cada dia ha de ir sendo mais sensível, e rodeado de outros mil embaraços, que talvez ainda me veja no caso particularizara V.Exa., quando acabe de me decidira não tomar sobre mim faltas alheias; e por cúmulo de males suspendido o aceite das minhas letras, de que ainda a nudez das Tropas se está ressentindo, e que maiores males teria causado a não serem os sacrifícios crédito de D.Tomás Garcia: são circunstâncias que se clamam para quem está no meio delas, ao menos aquele favor, que é indispensável para que ele desempenhe a Comissão que lhe está incumbida: a obsequiosa Carta de V.Exa. e a muito fiel informação, que o Coronel Flangini me tem dado dos esforços incansáveis de V.Exa. pelo Grande Brasil, e pelo Esplendor do Império e a segurança da generosa vontade com que V.Exa. deseja que lhe fale com franqueza, me tem animado a ser tão sincero com V.Exa. que não hei de deixar mal posta a confiança cavalheira com que V.Exa. me abona, eque serei muito feliz se a continuara merecer de V.Exa. para mim, e para as minhas informações, no que me empenha, não minha pessoal reputação, mas sim a das Armas de S.M.I., que tanto quero, e me interessa promover, e que não devo expor, nem exporei, sempre que esteja convencido de que elas podem sofrer um desar, que nas atuais circunstâncias do Brasil e deste Estado é prudente e até necessário evitar; embora me fosse aqui dito oficialmente "que a S.M.I. no es doloroso ningún sacrificio de Ias fuerzas que el Poderoso ha depositado en Sus Reales Manos", asserção que de qualquer modo tomada é para mim absolutamente falsa, e nada conforme ao conhecimento que tenho do Caráter Paternal de S.M.I., que se muito zela os interesses de seus súditos, e muito mais preza o sangue deles, e seguramente me demandaria a mais pequena gota vertida, se outro arbítrio a pudesse poupar; esta é a minha resolução, quais quer que sejam as opiniões das pessoas que por aqui pensem de outro modo: porque estão livres da responsabilidade que sobre mim pesa e, que se pesasse sobre elas, seriam menos pianistas e mais comedidas em criticar as minhas operações, até invocando o Nome de S.M.I. e do Ministério, para semearem nesta Província a divisão e o descontentamento, e acaso a reduzirem ao estado de desordem em que, para seus fins, a desejam, e que para desautorizarem o que os outros fazem, e dar-se importância, facilitam as coisas mais difíceis, porque têm o suficiente descaramento para não se envergonharem, quando o resultado é contra elas e as desmascara.

(continua)

Carta: 1.6.1823 - A José Bonifácio Andrada e Silva - Parte 3 (Ultima)

O meu fim é acertar, nem a outras fortunas eu aspiro, e par dar a V.Exa. disto prova mais convincente, fiz o que nenhum General deve fazer; consultei os meus subalternos em matérias de que o Comandante-Chefe nunca lhes deve dar satisfações, e sobre que, se ouve alguém direta, e positivamente, ou não tem plano, e obra ao acaso, ou arrisca tudo, porque franqueia o segredo das suas operações; e pela cópia, cujo original levo à Soberana Presença de S.M.I., pela Secretaria d'Estado dos Negócio da Guerra, verá V.Exa. qual é, sobre o procedimento que deve aqui haver, a opinião das pessoas que têm responsabilidade, que estão sobre os acontecimentos, que hão de trabalhar, e que têm toda a honra, meios e vontade para bem o fazer, e poderá V.Exa. compará-Ia com a charlatanaria das que só esperam tirar lucro da vitória, e não participar dos riscos e perigos dela.

Para concluir, só me resta dizer a V.Exa. que assim como assegurei a Sua Majestade Fidelíssima que havia de conseguir mais breve do que pensava, e sem grandes males, a Pacificação, que me estava encarregada, quando toda a gente, que enganava o Ministério, criticava a torto e a direita as minhas disposições, assim também espero, e não sem fundamento positivo, ver-me livre da Divisão de Voluntários Reais e restabelecer a boa ordem nesta Província, apesar da Comissão, dentro de pouco tempo, e sem grande efusão de sangue.

As reflexões que V.Exa. se serviu enviar-me não me são novas, como outras que a V.Exa. terei a honra de elevar; mas V.Exa. sabe que, nas circunstâncias em que eu me tenho achado, não pode, sem milagre, fazer-se tudo o que é preciso, e de que me ocuparei quanto caiba nas minhas forças e nos meios que estiverem à minha disposição.