12 de janeiro de 2016

O Apelo d'Armas, ou uma família de Portugueses no início das Guerras Revolucionárias

P: Como se chamão aquelles, q trazem espada para o serviço do Estado? 
R: Chamão-lhes gente de guerra, ou soldados.
Luiz Pedro Lecor, Lição XXX, das Leys Humanas. Educação de Meninos, 1746

Faro, Novembro de 1793.

Por esta altura, finais da década de 1780, uma mudança começava a fazer-se notar na sociedade portuguesa, fruto das convulsões políticas europeias, produto da onda de choque que foi a Revolução Americana, na década anterior.

É assim que, em 1787, mais por causa dos piratas do Norte de África do que propriamente da situação europeia, o Conde de Vale dos Reis, capitão-general dos Algarves, escreve uma carta à rainha D. Maria pedindo a construção de quartéis para o regimento de artilharia de Faro, ainda na sua maioria aboletado nas casas de cidadãos, desde que fora formado em 1776. Se esta carta é escrita a 27 de Novembro, logo a 1 de Dezembro, a vereação de Faro dá início a uma petição, recolhendo as assinaturas de quem estava nas Casas da Câmara, e depois indo às ruas chamar os que cidadãos que lá se achassem a assinar a importante petição. Entre as várias assinaturas, temos Carlos Frederico Krusse, ao topo, e Carlos Frederico Lecor e João Pedro Buys, mais para baixo.

O apelo do uniforme foi, porém, mais forte. O desejo de ser mais na vida que um comerciante, viajar pelo império, conhecer a India, o Brasil, Angola, ao invés de ficar preso a um escritório, contando metal e fazendo balanços. O espírito da época, romântico, idealista, liberal, a tudo isso encarreirava na alma do jovem Carlos e o inspirou a seguir a vida militar. 
Em menino, ficara-lhe a memória do rio Tejo e a vista da saída e chegada das naus. Em Faro, ao ir nadar à Ria, próximo ao Poço das Naus, o espírito inquisitivo de Carlos o fazia ficar observando as peças de artilharia de variados calibres armazenadas ali próximo, pondo à prática os cálculos aprendidos com os seus professores. No bom tempo, muito frequente no Algarve, as peças ficam cá fora, para que os artífices nelas pudessem trabalhar.

Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve

No ambiente de pequena cidade litoral de Faro, o regimento de Artilharia era uma absoluta novidade, tendo apenas sido formado em 1774. Começou por ser constituído por três companhias que vieram, desde logo, do extinto regimento de Artilharia de Lagos, a escassos 80 quilómetros de Faro. Depois vieram as restantes companhias do Porto e de outras guarnições, assim como o seu primeiro comandante, Diogo Ferrier. Não havia, nem nunca chegou a haver um quartel propriamente dito, mas edifícios alugados por toda a cidade, onde se tinha o material, os oficiais e artilheiros.

Na volta para casa, passando pela Praça da Rainha (Jardim Manuel Bívar, hoje), Carlos veria também com alguma frequência o Regimento de Milícias de Faro, treinando a marcha, com a banda tocando, marcando o passo. Com ele, os irmãos João, António, Jorge e o primo João Pedro, todos aproximando-se ansiosamente da idade militar, de correr e conhecer mundo, defender o império e a santa religião.


Os Sargentos Cadetes de Artilharia

Na cavalaria e infantaria, desde 1757 que se aceitavam cadetes nos regimentos, tendo que fazer prova de nobreza. Na artilharia, porém, não havia este sistema, até porque era muito raro ter nobres portugueses a desejar servir nela. A artilharia, assim como a engenharia, era uma arma técnica que só teve, aliás, direito a uniforme, em meados do século. Apesar disso, o alvará de 16 de março de 1757, que criava os cadetes apenas para a infantaria e cavalaria era usado, por analogia, pela artilharia, confirmado oficialmente em 1767. A única diferença estava em que a artilharia não requeria prova de nobreza, mas, geralmente, jovens com boa formação e de famílias burguesas de algum respeito e envolvimento social, além do que estes cadetes tinham de estar nos números, ou quadros, das companhias.

Para a artilharia iam então muitos jovens filhos da burguesia mercantil urbana e a pequena nobreza rural de Lisboa, Porto, Faro e Estremoz, arautos castrenses do crescimento da classe média que apenas desta forma poderia obter o oficialato militar, a patente d’el-Rei. O seu percurso normal era assentar praça como soldado, e passar a cabo de esquadra, furriel e, finalmente, a sargento. Estivessem então em que unidade estivessem, pediam a passagem ao regimento de artilharia local e o reconhecimento como cadetes; nas folhas hoje guardadas pelo Arquivo Histórico Militar, aparecem designações como ‘sargento-cadete’ ou ‘cadete-sargento’, indicando-nos também que era fundamentalmente um termo oficioso. Sendo sargentos-cadetes, era apenas questão de esperar por uma vaga de 2.º tenente, o primeiro posto da carreira de oficial de artilharia. Mesmo assim, em situação de campanha, como no Roussilhão e Catalunha de 1794, cadetes chegaram a comandar batarias, como veremos mais adiante.



Irmãos de Armas

Oficial subalterno, 1793
Regimento de Artilharia do Algarve
(ilust.: Bill Younghusband)

António Pedro e Jorge Frederico

Os dois irmãos mais novos, António Pedro, com 20 anos, e Jorge Frederico, com 18, assentam praça como voluntários e juram bandeiras primeiro, logo em 1788, no Regimento de Infantaria de Tavira, a trinta quilómetros de Faro. Com a sua educação, logo se vêem como sargentos-cadetes na artilharia de Faro, uma característica da artilharia portuguesa, não mais de um ano depois: Jorge a (10 de março de 1788), António a (10 de maio de 1788).


João Pedro

É já quando toda a França muda, mudando com ela a Europa, que os dois irmãos mais velhos decidem se alistar. João Pedro (1766-1844), nascido na rua de S. João da Matta, em Santos-o-Velho, foi primeiro. João, ao contrário dos dois irmãos mais novos, assentou praça diretamente em Faro, onde morava, no regimento de Artilharia do Algarve. Fê-lo a dezembro de 1792 ou janeiro de 1793. Menos de quatro meses depois, embarcavam os três para a Catalunha, apenas Carlos Frederico ficou, assentando praça de voluntário na Fortaleza da São João da Barra de Tavira, apenas um mês após os seus irmãos estarem já embarcados rumo à guerra.

7 comentários:

Moisés Gaudêncio disse...

Jorge, respondendo ao seu pedido e apenas como leitor parece-me que os primeiros 3 parágrafos estão um pouco confusos, começa com a artilharia de faro passando para as motivações do lecor e voltando depois ao regimento. Penso que reformulando um pouco ficaria mais claro. De resto parece-me bem embora se fosse eu teria cuidado com as motivações atribuidas ao homem. Espero que estes pequenos considerandos o ajudem.

Moisés Gaudêncio disse...

Jorge, respondendo ao seu pedido e apenas como leitor parece-me que os primeiros 3 parágrafos estão um pouco confusos, começa com a revolução passa para artilharia de faro passando para as motivações do lecor e voltando depois ao regimento. Penso que reformulando um pouco ficaria mais claro. De resto parece-me bem embora se fosse eu teria cuidado com as motivações atribuidas ao homem. Espero que estes pequenos considerandos o ajudem.

Jorge Quinta-Nova disse...

Ajudam claro, Moisés. Aliás, são fundamentais. Este extrato é do capítulo 2, tem mais antes e mais depois. O meu problema é que os 4 irmãos vão entrando no exército a conta gotas, 1788, 1792 e 1793 e cobrem logo isto 5 anos. Dado que é a biografia de um militar queria misturar um pouco a vida civil em Faro pré 1793 e militar pós 1793.

Moisés Gaudêncio disse...


Realmente as considerações sobre o RA de Faro, tal como o comando das milicias por familiares são muito interessantes e caracterizam o ambiente farense onde cresceu Lecor e lançam pistas para perceber a sua opção de vida. Muito boa a parte dos cadetes, desconhecia o processo.Posso perguntar qual foi a primeira data em que detetou a presença de Lecor em Faro?

Jorge Quinta-Nova disse...

A primeira vez que eu apanho o CF Lecor em Faro é em 1781, como procurador de uma tia que era madrinha num baptismo na Sé. Tinha 16 anos e meio e é provavelmente a primeira aparição no espaço público. A última info que tenho dele em Lisboa é de c. 1772, data em que o irmão ou irmã mais nova nasceu (só descobri os assentos de batismo dos 3 mais velhos, embora saiba que os mais novos nasceram em Lisboa ainda).

Jorge Quinta-Nova disse...

Alvará de 4.6.1766. Pelo qual S. Majestade há por bem declarar e ampliar o outro Alvará de 15 de Julho de 1763, que estabeleceu a formatura dos Regimentos de Artilharia do seu Exército, ordenando que o plano que com ele baixou, se observe inviolavelmente:

“(…) 10. Sendo informado de que algumas pessoas distinctas tem procurado exercitar-se nestes Regimentos como Cadetes: Declaro que não he da minha Real intenção excluillos da data deste em diante; com tanto que as suas praças sejão comprehendidas no numero dos Soldados, que acima tenho determinado para cada huma das Companhias dos ditos Regimentos: E isto não obstante, que não fossem permittidos no Plano, que baixou com o sobredito Alvará de quinze de Julho de mil setecentos sessenta e tres.”

Drum Major disse...

Por curiosidade sobre uniformes da Artilharia um dos documentos mais antigos (31 de Março de 1754) que eu conheço, diz respeito ao Regimento de Artilharia do Alentejo e é sobre a alteração da farda da cor branca (alvadio) para verde. Vide em: Arquivo Histórico Militar 3.ª Divisão 26.ª Secção Caixa N.º 2 o número do documento não tenho.
Manuel A. Ribeiro Rodrigues