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28 de março de 2018

Apontamentos sobre a formação de oficiais de Artilharia no Algarve da década de 1790


A Aula Regimental do Regimento de Infantaria de Faro oferece-nos duas curiosidades. A primeira, e que pode causar mais confusões é que se localizava em Tavira, 40 quilómetros a leste de Faro, a capital política do reino dos Algarves dessa época. Na verdade, fácil de explicar, dado que o regimento de infantaria (que virá em 1806 a ser o n.º 14) se havia mudado em localização, em meados do século, mas não ainda, em 1793, em nome.
Dos quatro regimentos de artilharia que existiam nesta altura, Lisboa, Estremoz e Porto, apenas o da Guarnição do Algarve não tinha a aula junto ao regimento.

Descentralização do RAGA

Na verdade, é por isto que Carlos Frederico, decidindo-se alistar, obteve um posto em Tavira ou perto, de forma a frequentar as aulas do Coronel José de Sande Vasconcelos. Entrou como Soldado Pé de Castelo no Forte de São João do Registo da Barra de Tavira, em Cabanas de Tavira. Durante os seis meses que Lecor prestou serviço no Forte, tendo atingido o posto de sargento, também frequentava a aula regimental, de forma a preparar-se para exames de acesso ao oficialiato. 

Carlos Frederico assentou praça de voluntário e jurou bandeiras, perante um oficial do Forte de S. João, (guarnição), e o capelão, a 13 de Outubro de 1793, exatamente quando se iniciava o período letivo na aula do Coronel Sande de Vasconcelos, a poucos quilómetros. 

Quatro dias por semana, com descanso à quarta-feira, Carlos e os seus camaradas do regimento e de outros fortes das redondezas, aprendiam, numa sala da vários níveis de desenvolvimento, os princípios matemáticos teóricos e retirar, como dizia o Conde de Lippe, vinte anos antes, aprender “a arte de tirar de um pequeno número de factos conhecidos consequencias geraes para os factos incognitos”. No Inverno, as aulas eram das 9 ao meio-dia, no Verão, das 8 às 11 horas. Com alguma preparação matemática que a sua educação burguesa lhe ofereceu, principalmente sendo filho de um pedagogo, e criado no seio de famílias de homens de negócios, comerciantes de grosso, é certo que a primeira matéria do curso, a Matemática, não deve ter oferecido ao jovem soldado grande dificuldade.

Adicionar legenda
O Novo curso de Mathematica para uso dos officiaes Engenheiros, e Artilheria foi originalmente escrito em 1725 por Bernard Forest de Bélidor (1698-1761), tendo sido atualizado, se não em outras ocasiões anteriores, em 1757, quatro anos antes de Mr. Bellidor falecer, em 8 de setembro de 1761. 
Mais do que simplesmente um manual de Matemática, era feito especificamente para artilheiros e engenheiros, com aplicação militar direta. A sua tradução em português, feita pelo capitão Manuel de Sousa, veio em 1764, um ano após o decreto que regulamentou as aulas regimentais, assim como os exames de acesso. Nas aulas regimentais, o ‘curso mathematico de Belidoro’ é constantemente citado como a base da instrução de um oficial de artilharia do início de 1790, que poderia depois, completado ‘o estudo dos dezasseis livros de Bellidor’, especializar-se em fortificação, minas, arquitetura, engenharia.

Aos sábados, em período letivo, os cadetes, de todas as patentes, conforme o tempo de serviço – anspeçadas, cabos de esquadra, sargentos –, iam para o campo realizar exercícios de campo, onde as teorias da semana eram explicadas e experimentadas.


* * *

Contactem-me nos comentários, para bibliografia, que a tenho presente em qualquer altura.

Leia também
- O APELO D'ARMAS, OU UMA FAMÍLIA DE PORTUGUESES NO INÍCIO DAS GUERRAS REVOLUCIONÁRIAS
- Lecor aluno universitário na Real Academia de Marinha (1794-1795)

Imagem ao topo
Pormenor da fortaleza de S. João da Barra de Tavira, em Cabanas de Tavira.

2 de julho de 2017

Lecor aluno universitário na Real Academia de Marinha (1794-1795)


Este blogue chama-se Em Busca de Lecor por uma razão. Sou frequentemente lembrado do porquê. Desde 2005, sensivelmente, que busco constantemente este militar e periodicamente encontro nova informação. Que não nasceu em Faro, como se pensava, mas em Lisboa. Que começou a carreira como Soldado pé-de-castelo em Tavira, de forma a frequentar a aula regimental do tenente coronel Sande de Vasconcelos (um requisito para a promoção a oficial de patente), e mais algumas coisas.

Carlos Frederico Lecor, como ajudante em Portimão e depois como 1.º tenente da Artilharia de Faro, foi admitido e completou o 1.º Ano do Curso de Oficial de Marinha, na Real Academia de Marinha, em Lisboa, no ano lectivo de 1794/1795.

Encontrei a informação disponibilizada em-linha junto do Arquivos Histórico de Itamarati, do Ministério das relações Exteriores da República Federativa do Brasil, através do Rede Memória da Biblioteca Nacional. 
A pasta consiste de variados comprovativos, alvarás e cartas patentes relacionadas a Lecor, que o mesmo fez chegar ao ministério, com toda a certeza para processos relacionados com o cargo de Capitão General da Banda Oriental. Ainda não entrada no futuro Império, como Província Cisplatina, era de jure uma província espanhola ocupada.

Através desta fonte, os primeiros dois postos de Lecor como oficial são inequivocamente nomeados, tendo ele iniciado a frequência da Real Academia já com patente, com o patrocínio do Capitão General do Algarve. Na verdade, Carlos Frederico é o quarto irmão Lecor que D. Nuno Jose Fulgêncio de Mendonça e Moura, 6.º conde de Val de Reis, patrocina.

(Já indiciei no passado que muitos familiares próximos, incluindo o padrinho e tio, eram fornecedores de munição de boca, já desde a Guerra Fantástica, Carlos Frederico Krusse a certa altura responsável pelos fornecimento das tropas nos governos d'Armas do Douro e de Trás os Montes. Outras histórias para outra postagem).

“Atestados de Serviços e Nomeações”
Arquivo Histórico do Itamaraty (cota: AHI REE 00351)

Original (em-linha) [abre janela]
http://acervo.redememoria.bn.br/redeMemoria/handle/123456789/302675


De 5.10.1794 a circa 16.7.1795, frequenta o primeiro ano do curso de Marinha da Real Academia de Marinha, tendo feito exame de Aritmética, “no qual ficou plenamente approvado, para continuar na Aula”. Conclui o ano sendo aprovado em exame, estando habilitado “para passar a ouvir as Liçoens do segundo anno”. Não parece que o venha a fazer, pois em dezembro embarca na Esquadra do Brasil como 1.º tenente de artilharia, destacado do regimento na nau Príncipe Real. 

O Currículo do 1.º ano era constituído pelas seguintes disciplinas: Aritmética, Geometria, Trigonometria plana, o seu uso prático, e os princípios elementares da Álgebra até às equações de 2.º grau inclusivamente.

O curso era equivalente ao ensino universitário, mas por uma razão de exclusividade a Real Academia de Marinha não se podia chamar Universidade (facto que só cessa em 1911, quando as escolas politécnicas de Lisboa e Porto, e outras instituições, se tornam universidade de nome, se já há muito de facto). Será desta altura que Academia se consolida como o termo para as instituições militares universitárias portuguesas, até hoje - Excepção curiosa para a Escola Naval que é uma herdeira direta da real Academia.

[Documento n.º 2] 19 de Janeiro de 1795

Custodio Gomes de Villas boas, Ten.te Coronel do Regimen.to de Art.ª do Porto, com exercicio de lente efectivo da Cadeira do primeiro ano na Real Academia de Marinha

Attesto que Carlos Frederico Lecor, Ajudante de Infantaria, com exercicio na Praça de Villa Nova de Portimão, frequentou com muito zelo, e approveitamento a Aula do primeiro anno, de 5 de Outubro passado até o presente, com duas faltas com justa cauza e que fes o seu exame de Arithmetica, no qual ficou plenamente approvado, para continuar na Aula do primeiro anno do Curso da Marinha. E por assim ser verdade, lhe mandei passar a prezente, que vai por mim assignada, e firmada o sêllo desta Real Academia. Lisboa, 19 de Janeiro de 1795.

[Documento n.º 1] 16 de Julho de 1795

Custodio Gomes de Villas boas, Ten.te Coronel do Regimen.to de Art.ª do Porto, com exercicio de lente efectivo da Cadeira do primeiro ano na Real Academia de Marinha


Attesto que Carlos Frederico Lecor, Primeiro Tenente do Regimento de Artilharia do Algarve, e Discipulo da primeira Aula desta Real Academia de Marinha, tendo frequentado a mesma Aula com duas faltas com justa cauza, fes ultimamente o seu exame, no qual mereceo ser approvado para passar a ouvir as Liçoens do segundo anno. E por assim ser verdade, lhe mandei passar a prezente, que vai por mim assignada, e firmada o sêllo desta Real Academia. Lisboa, 16 de Julho de 1795.


13 de janeiro de 2016

Do nascimento e família



Vista da Rua das Trinas, Lisboa, à entrada 
da actual (então rua) do Pé de Ferro
Lecor


ORAÇÃO 
‘Deos Mestre das sciencias, que as escondestes aos grandes do mundo, 
e que as revelastes aos pequenos, fazei-nos a graça de que tomemos o estudo 
por penitencia, a fim que o que aprendermos seja sem erro, e sem vaidade.’
Luiz Pedro Lecor, Lição XL, das obrigações de hum menino Cristão. Educação de Meninos, 1746

Carlos Frederico Lecor, mais propriamente Carolus, como escrito no seu assento de batismo, nasce a 6 de Outubro do ano de 1764, na rua Pé de Ferro (hoje travessa), no bairro de Santos-o-Velho, na zona ocidental de Lisboa. A sua mãe é D. Quitéria Luísa Marina Krusse Lecor, 20 anos, de Vila Nova de Portimão. O pai é Luiz Pedro Lecor, de Paris, próximo dos quarenta anos de idade.

Nascida a paróquia de Santos-o-Velho da Praia ribeirinha, todas as suas casas e ruas descem sobre o rio Tejo; a paróquia não dista 50 passos de um lado ao outro. Em 1758, apenas seis anos antes de Carlos nascer, e três após o grande terremoto de 55, Santos-o-Velho tinha 1836 fogos, e 8403 pessoas de confissão, além de mais de mil, os hereges e não constados do rol de confissões. Este número era em 1758 já superior, apenas três anos após a catástrofe.

Carlos foi batizado nessa mesma igreja paroquial, catorze dias após o seu nascimento. O seu padrinho e também seu tio materno, Carlos Frederico Krusse, deu-lhe os nomes próprios. A sua tia, D. Vitória Berarda Marciana Krusse, de 19 anos, foi a madrinha.

Nos anos seguintes, ainda em Santos, nascem os irmãos de Carlos. João Pedro nasce dois anos depois, a 7 de Outubro de 1766, a pequena família agora residindo na rua São João da Matta, a um pequeníssimo quarteirão da rua Pé de Ferro. António Pedro, a 6 de Setembro de 1768, Jorge Frederico e Maria Leocádia Leonor, muito possivelmente em 1770 e 1772.

Carlos Frederico e os seus quatro irmãos  nascem numa família alargada de comerciantes e homens de negócios, de múltiplas origens europeias, como os Buys, de Hoorn, na Holanda, os Krusse, de Hamburgo, ou os Lecor, de Paris e Marselha. A própria natureza dos negócios destas famílias os fazia estar frequentemente nesses portos europeus, embora tivessem escolhido Portugal para assentar e criar família.

Os Krusse

Hamburgo (1)
A profícua prole de Nikolaus Krusse e D. Catarina Maria Buys, os avós maternos de Carlos, nasceu entre 1733 e 1750 em Portimão. Tiveram sete filhos. Nikolaus, ou Nicolao, era um negociante proveniente de Hamburgo que assenta raízes familiares em Portimão, casando-se com D. Catarina Maria.
Nikolaus passou primeiro por Pernambuco, nos anos 20 do século, no El Dorado brasileiro, onde era sócio de um Pedro Graaf, holandês, mas num processo iniciado em 1726, motivado por alguns comerciantes portugueses descontentes, foram ambos chamados a Lisboa. Ficou definido que em razão das nacionalidades e respetivas implicações diplomáticas, Pedro Graaf poderia ficar, mas já Nikolaus Krusse deveria abandonar a praça. Fê-lo, a contragosto, no início de 1730, montando loja em Portimão.
Tiveram nessa cidade algarvia em 1733 o seu primogénito, Carlos Frederico Krusse, tio-padrinho de Lecor, e mais seis filhos, incluíndo a mãe de Carlos, D. Quitéria Marina, em 1744, e a madrinha, D. Vitória Berarda, um ano depois.

Carlos Frederico Krusse assume o negócio de seu pai, desde que este falece, em 1758, em Santos-o-Velho. É bastante provável que a família tenha vindo para Lisboa, após o Terremoto de 1755 ter destruído boa parte de Portimão, assim como provocado estragos substanciais na maior parte das terras litorais do Algarve. A Igreja paroquial da Nossa Senhora da Conceição, no centro de Portimão – onde pelos menos seis  Krusse foram batizados, era no final de 1755, apenas ruínas.
Ainda assim, o Algarve manteve sempre a sua importância nos negócios da família, nomeadamente a exportação de alfarroba e alecrim para o Norte da Europa e o envio de trigo alentejano pelo Guadiana para Lisboa. Forma, pelo menos desde a década de 1770, a Costa, Krusse e Companhia, com Manuel José Gomes da Costa, importante negociante da praça de Faro. Esta sociedade, para lá da exportação de produtos algarvios, emprestava dinheiro, estabelecendo com força a identidade social de homens de negócio, que trabalham a grosso, e já longe do simples retalho. Carlos Frederico Krusse é também cônsul da Holanda em Faro.

Os Buys

Hoorn, Holanda
A avó materna de Carlos, D. Catarina Maria Buys Krusse, era filha de Jan Pieter Buys, holandês, e de D. Maria Teresa, espanhola  de Huelva (Guelba, dir-se-ia então), em Espanha.  Jan Pieter, grafado João Pedro nos documentos, veio da cidade holandesa de Hoorn (a norte de Amsterdão) para Portugal, assentando raízes em Faro, no reino do Algarve.
António Pedro Buys, irmão de D. Catarina e tio de Carlos, teve, com D. Teresa Maria cinco filhos, todos sensivelmente da mesma geração de Carlos, e que convivendo em Faro, partilharam as brincadeiras com os primos Lecor. João Pedro, primogénito e herdando o nome do avô, nasce em março de 1765, sendo apenas cinco meses mais novo que Carlos Frederico. Vitória Teresa nasce em 1769 e Germana Máxima Guilhermina em 1771.

O mais velho, João Pedro Buys, assume mais tarde os negócios da família, em 1794, após o falecimento do seu pai, constituindo sociedade com Carlos Frederico Krusse. Ambos eram donos de uma frota de caíques  que leva  trigo dos portos alentejanos do Guadiana para Lisboa. Ainda antes, em 1791, é cônsul de França no Algarve, facilitando a comunicação entre mercadores. João será também tenente-coronel do Regimento de Milícias de Faro. O seu compromisso com a sociedade farense é claro, não só pelo referido acima, mas pelas inúmeras ocasiões em que João é padrinho de batismo, tanto na Sé, como em S. Pedro. É ele que representa a Junta de Faro na revolta de 1808, juntos dos barcos ingleses, em virtude de ter bom domínio da língua inglesa.

(1) Aquarell "Prospekt der Kaiserlich Französischen Stadt Hamburg" von Johann Marcus David, 1811

12 de janeiro de 2016

O Apelo d'Armas, ou uma família de Portugueses no início das Guerras Revolucionárias

P: Como se chamão aquelles, q trazem espada para o serviço do Estado? 
R: Chamão-lhes gente de guerra, ou soldados.
Luiz Pedro Lecor, Lição XXX, das Leys Humanas. Educação de Meninos, 1746

Faro, Novembro de 1793.

Por esta altura, finais da década de 1780, uma mudança começava a fazer-se notar na sociedade portuguesa, fruto das convulsões políticas europeias, produto da onda de choque que foi a Revolução Americana, na década anterior.


É assim que, em 1787, mais por causa dos piratas do Norte de África do que propriamente da situação europeia, o Conde de Vale dos Reis, capitão-general dos Algarves, escreve uma carta à rainha D. Maria pedindo a construção de quartéis para o regimento de artilharia de Faro, ainda na sua maioria aboletado nas casas de cidadãos, desde que fora formado em 1776. Se esta carta é escrita a 27 de Novembro, logo a 1 de Dezembro, a vereação de Faro dá início a uma petição, recolhendo as assinaturas de quem estava nas Casas da Câmara, e depois indo às ruas chamar os que cidadãos que lá se achassem a assinar a importante petição. Entre as várias assinaturas, temos Carlos Frederico Krusse, ao topo, e Carlos Frederico Lecor e João Pedro Buys, mais para baixo.


O apelo do uniforme foi, porém, mais forte. O desejo de ser mais na vida que um comerciante, viajar pelo império, conhecer a India, o Brasil, Angola, ao invés de ficar preso a um escritório, contando metal e fazendo balanços. O espírito da época, romântico, idealista, liberal, a tudo isso encarreirava na alma do jovem Carlos e o inspirou a seguir a vida militar. 
Em menino, ficara-lhe a memória do rio Tejo e a vista da saída e chegada das naus. Em Faro, ao ir nadar à Ria, próximo ao Poço das Naus, o espírito inquisitivo de Carlos o fazia ficar observando as peças de artilharia de variados calibres armazenadas ali próximo, pondo à prática os cálculos aprendidos com os seus professores. No bom tempo, muito frequente no Algarve, as peças ficam cá fora, para que os artífices nelas pudessem trabalhar.

Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve

No ambiente de pequena cidade litoral de Faro, o regimento de Artilharia era uma absoluta novidade, tendo apenas sido formado em 1774. Começou por ser constituído por três companhias que vieram, desde logo, do extinto regimento de Artilharia de Lagos, a escassos 80 quilómetros de Faro. Depois vieram as restantes companhias do Porto e de outras guarnições, assim como o seu primeiro comandante, Diogo Ferrier. Não havia, nem nunca chegou a haver um quartel propriamente dito, mas edifícios alugados por toda a cidade, onde se tinha o material, os oficiais e artilheiros.

Na volta para casa, passando pela Praça da Rainha (Jardim Manuel Bívar, hoje), Carlos veria também com alguma frequência o Regimento de Milícias de Faro, treinando a marcha, com a banda tocando, marcando o passo. Com ele, os irmãos João, António, Jorge e o primo João Pedro, todos aproximando-se ansiosamente da idade militar, de correr e conhecer mundo, defender o império e a santa religião.


Os Sargentos Cadetes de Artilharia

Na cavalaria e infantaria, desde 1757 que se aceitavam cadetes nos regimentos, tendo que fazer prova de nobreza. Na artilharia, porém, não havia este sistema, até porque era muito raro ter nobres portugueses a desejar servir nela. A artilharia, assim como a engenharia, era uma arma técnica que só teve, aliás, direito a uniforme, em meados do século. Apesar disso, o alvará de 16 de março de 1757, que criava os cadetes apenas para a infantaria e cavalaria era usado, por analogia, pela artilharia, confirmado oficialmente em 1767. A única diferença estava em que a artilharia não requeria prova de nobreza, mas, geralmente, jovens com boa formação e de famílias burguesas de algum respeito e envolvimento social, além do que estes cadetes tinham de estar nos números, ou quadros, das companhias.

Para a artilharia iam então muitos jovens filhos da burguesia mercantil urbana e a pequena nobreza rural de Lisboa, Porto, Faro e Estremoz, arautos castrenses do crescimento da classe média que apenas desta forma poderia obter o oficialato militar, a patente d’el-Rei. O seu percurso normal era assentar praça como soldado, e passar a cabo de esquadra, furriel e, finalmente, a sargento. Estivessem então em que unidade estivessem, pediam a passagem ao regimento de artilharia local e o reconhecimento como cadetes; nas folhas hoje guardadas pelo Arquivo Histórico Militar, aparecem designações como ‘sargento-cadete’ ou ‘cadete-sargento’, indicando-nos também que era fundamentalmente um termo oficioso. Sendo sargentos-cadetes, era apenas questão de esperar por uma vaga de 2.º tenente, o primeiro posto da carreira de oficial de artilharia. Mesmo assim, em situação de campanha, como no Roussilhão e Catalunha de 1794, cadetes chegaram a comandar batarias, como veremos mais adiante.



Irmãos de Armas

Oficial subalterno, 1793
Regimento de Artilharia do Algarve
(ilust.: Bill Younghusband)

António Pedro e Jorge Frederico

Os dois irmãos mais novos, António Pedro, com 20 anos, e Jorge Frederico, com 18, assentam praça como voluntários e juram bandeiras primeiro, logo em 1788, no Regimento de Infantaria de Tavira, a trinta quilómetros de Faro. Com a sua educação, logo se vêem como sargentos-cadetes na artilharia de Faro, uma característica da artilharia portuguesa, não mais de um ano depois: Jorge a (10 de março de 1788), António a (10 de maio de 1788).


João Pedro

É já quando toda a França muda, mudando com ela a Europa, que os dois irmãos mais velhos decidem se alistar. João Pedro (1766-1844), nascido na rua de S. João da Matta, em Santos-o-Velho, foi primeiro. João, ao contrário dos dois irmãos mais novos, assentou praça diretamente em Faro, onde morava, no regimento de Artilharia do Algarve. Fê-lo a dezembro de 1792 ou janeiro de 1793. Menos de quatro meses depois, embarcavam os três para a Catalunha, apenas Carlos Frederico ficou, assentando praça de voluntário na Fortaleza da São João da Barra de Tavira, apenas um mês após os seus irmãos estarem já embarcados rumo à guerra.

9 de maio de 2014

O Assento de Baptismo

«Aos vinte dias do mes de Outubro de mil settecentos e secenta e quatro nesta Parochial Igr.ª de Santoa baptizei, e pus os Santos Oleos a Carolus, que nasceo aos seis dias do prezente mes filho legitimo de Luis Pedro Lecor baptizado na freg.ª de S. Eustaquio da Cidade de Paris, e de Quiteria Luiza Marina Le Cor baptizada na freg.ª de N. Senhora da Conceiçam de Villa Nova de Portimam Reyno do Algarve, e recebidos nesta freg.ª de Santos, e nella moradores na rua do Pe de Ferro desta freg.ª. foi padrinho Carolus Fredirico Crusse morador na rua direita dos Pardais, e Madrinha por procuraçam D. Littoria Berarda Marianna Crusse [D. Victória Berarda de que fis esse assento que assignei dia, era ut supra.
O Cura Manuel dos Santos Leal»

Fonte: Arquivo Distrital de Lisboa, cota PT/ADLSB/PRQ/LSB37/001/B22 - f. 138

2 de maio de 2014

Aqui Nasceu Lecor.

Bairro de Santos-o-Velho (será o novo no Brasil?). Então Rua, hoje Travessa, Pé de Ferro. Aqui nasceu, em 6 de Outubro de 1764, Carlos Frederico Lecor, filho de Louis Pierre Lecor e de D. Quitéria Luísa Marina, afilhado do seu tio Carlos Frederico Krusse (que lhe deu os dois nomes próprios) e da sua tia D. Vitória Berarda Marciana Krusse.

Aqui vos deixo três fotos que tirei há umas semanas:


foto 1: um das duas secções da actual travessa,
a mais afastada da Rua de Trinas (de Mocambo)

foto 2: Entrada na travessa pela Rua de Trinas

foto 3: Vista do Tejo, na Rua de Trinas, mesmo à entrada da Travessa onde Lecor nasceu.

24 de maio de 2011

Mais acerca do Pai de Lecor

Descobri agorinha mesmo, anúncio publicado na Gazeta de Lisboa, n.º 2 de 9 de Janeiro de 1748 [ver em GoogleLivros]. Já escrevi sobre o livro de Luiz Pedro Lecor anteriormente.

Um dos nomes referidos, João Francisco Lecor, aparece-me pela segunda vez. Já José Acúrsio das Neves se refere a ele nas Noções Históricas, Económicas e Administrativas (1827), como tendo feito um pedido à Junta de Comércio para fundar uma fábrica de botões de metal, isto em 1760. Particularmente interessante é que Acúrsio das Neves aponta-o como português de nascimento, o que poderá indicar que a família Lecor já tinha membros em Portugal há algum tempo. Pista fresquinha, portanto.

18 de novembro de 2010

Trilho de Papel: Infância e Juventude

Agora que me preparo para escrever a biografia de Carlos Frederico Lecor, não posso deixar de escrever aqui algumas linhas ao caro leitor acerca da verdades que não possuo ainda. A bem dizer, duvido muito que as consiga ainda descobrir, mas tentarei.

Quero-me debruçar, nesta entrada, acerca do trilho de papel nesses arquivos e que dizem respeito à infância e juventude do menino Carlos Frederico, até ao momento em que o perco.

Louis Pierre Lecor, o pai

Acerca do pai de Carlos, julgo que até terei bastante sorte em ter dados. Terá nascido em 1729, na paróquia de Saint Eustache (1er Arrondissement, em Paris). Coloco-o em Portugal apenas porque traduziu uma obra de pedagogia em 1746 (que se encontra na Biblioteca Nacional). Em 25.6.1759, casa-se, em Alfama, com Joana Francisco de Castro, mas infelizmente Louis enviúva logo 3 meses depois, a 25 de Setembro.
A 3.2.1761, Louis casa com Quitéria Luísa Marina Krusse, em Santos-o-Velho, dando início à história que eu busco.

A Família Lecor em Lisboa

Fruto do casamento de Louis e Quitéria, nasce, primeiro, o nosso herói Carlos Frederico, a 6.10.1764. No assento de baptismo, de 20 desse mesmo mês, a Rua de Pé de Ferro é indicada como a residência da família.
Dois anos depois, a 7.10.1766, nasce João Pedro. Por esta altura, a família reside na Rua de S. João da Mata. Este irmão será em 1815 o 1.º Ajudante d'Ordens de Carlos na Divisão de Voluntários que parte para o Brasil e tem a dúbia honra de estar a comandar uma formação em parada, aquando um dos ataques de epilepsia do Príncipe D. Pedro, futuro Imperador do Brasil.

Ora, em 1768, o trilho de papel começa a ficar esbatido e tortuoso. A 6.9.1768, nasce António Pedro Lecor, sendo baptizado na paróquia de Alcântara. No entanto, a residência da família é ainda Santos-o-Velho. Não faço ideia porque terão baptizado o 3.º filho numa outra paróquia, mais ainda porque a paróquia de Santos nunca cessou o seu labor.

Por esta altura, perco o trilho de papel. Os dois filhos mais novos de Louis e Quitéria - Jorge Frederico e Maria Leocádia Leonor - não os consigo encontrar. Nem em Santos, nem em Alcântara, nem na Lapa, S. Paulo, Mártires, etc. Só sei que nasceram e foram baptizados em Lisboa, porque tal é indicado nos seus casamentos, mas o trilho ficará ainda por descobrir.

A Família em Faro

Só recupero o trilho de papel exactamente no dia 7 de Janeiro de 1781, pois é nesse dia que Carlos Frederico, com pouco mais de dezasseis anos, assiste ao baptismo de Carlos Fernandes, tocando-o sob procuração da madrinha (sua tia), Basília Máxima Benedita Krusse, na Sé de Faro.

Como em todas as situações que em se recupera um trilho de papel, uma década depois, só se pode adivinhar, palpitar. Ainda assim, só perguntas permanecem e poucas respostas.

Algumas das pessoas que conviveram com os Lecor em Lisboa, aparecem em Faro antes de 1781, dando alguma ajuda.
A madrinha (e tia) de Carlos Frederico, por exemplo, Vitória Berarda Marciana Krusse, casada com o Dr. Salvador Pereira da Costa, baptiza a filha Catarina em Faro, em 25.11.1772.
Em 13.10.1778, é baptizada Clara, filha de Carlos Frederico Krusse (padrinho e tio de Carlos) e Teresa do Nascimento.

Mas quando, então, passaram a Faro os Lecor? E porque razão o fizeram?
A primeira questão pode ainda ter resposta; à segunda só se pode conjecturar quando se responder à primeira.

Concluo, pedindo desde já perdão ao caro Leitor pela pertinência duvidosa desta entrada no blogue, mas esperando cativar alguma empatia para esta minha busca de Lecor.

18 de fevereiro de 2010

Unidades de Lecor III - Legião de Tropas Ligeiras

Hum corpo de Tropas que guarda o Exercito - que aplana as dificuldades diárias que espreita os momentos favoráveis - e que até descobre muitas vezes as tençoens do inimigo, parece que deve ser ligeiro, tomado este termo no sentido fizico; e tãobem no moral, não deixando ao Estado mais trabalho, do que o da simples despeza para a sua mantença, nem ao General outro cuidado se não o de empregar onde preciza, sem nenhuym embaraço sobre a sua subsistência. (Setembro 1796, 3.º Marquês de Alorna [na foto, em baixo, em 1805, com a esposa e os dois filhos, fardados à Legião])

De acordo com as fontes disponíveis, em 1 de Março de 1797, Carlos Frederico Lecor entra como Capitão na Legião de Tropas Ligeiras. É incerto em quais cargos e sub-unidades o nosso herói terá servido. Em 1801, durante o período anterior e mesmo durante a Guerra das Laranjas, Lecor estava na Zebreira (muitos diriam Zibreira na altura), a comandar cerca de 200 homens. Estes homens eram de 2 ou 3 companhias diferentes de infantaria da Legião.

Zebreira resultava, como resulta ainda hoje, na ligação das duas estradas que vão para Espanha, uma em Segura, outra em Salvaterra do Extremo. Lecor estaria, pois, no comando de um posto da 2.ª linha de defesa da Divisão da Beira, comandada primeiro pelo Marquês de Alorna, chefe da Legião, e depois pelo idoso General João Dordaz e Queirós.

Em 1803, no relatório de uma inspecção à Legião de Tropas Ligeiras, é referido esse serviço de Lecor, mormente na queixa dos soldados em terem sido pagos abaixo dos trabalhadores civis. Aparte as coisas do dia-a-dia da unidade, nem sempre suficiente claras para o inspector (Marechal de Campo Rodrigo de Lencastre), na demonstração de manobras, a Legião é elogiada, na medida em que havia tido que improvisar regulamentos desde o seu início; decerto desde que Alorna e os seus colaboradores haviam traduzido manuais de infantaria ligeira e utilização coordenada das 3 armas, em Francês. Deduzo que Lecor, filho de um tradutor francês, Louis Pierre, tenha tido o seu uso nesta demanda para além da relação pessoal com Alorna.

Apesar de se apontar 1796 como data da origem da Legião, só em 1798 é que a unidade se activa, de acordo com a sua 1.ª Ordem, a 11 de Março de 1798, em Estremoz.

O seu papel foi fundamental, no Exército Português, para a experimentação do uso de tropas ligeiras permanentes, especialmente no uso coordenado da infantaria, cavalaria e artilharia a cavalo. Provou-o eficazmente na Beira, em 1801, mas todo o combate aconteceu em outros lados.

No início de 1806, Lecor comanda interinamente a Legião, até que o novo comandante, Barão de Wiederhold, tome posse. Já em Junho desse mesmo ano, está de novo com Alorna, novo Governador de Armas do Alentejo.

21 de outubro de 2008

Viagem de Campo - Forte de S. João do Registo da Barra de Tavira

Em posts anteriores, acerca das unidades de Carlos Frederico Lecor, referi-me ao Regimento de Artilharia do Algarve (o n.º 2, a partir de 1806) como a sua primeira unidade. De facto, tal não é inteiramente verdade. Lecor, antes de ingressar, nos finais de 1794, como 1.º Tenente da 9.ª Companhia, no Regimento sediado em Faro, ainda cumpriu serviço em duas unidades entre 1793 e 1794 - o Forte de S. João do Registo da Barra de Tavira e a Praça da Vila Nova de Portimão. No primeiro, foi soldado, cabo-de-esquadra e sargento de artilharia pé-de-castelo (de guarnição); no segundo foi ajudante do Governador, presumivelmente já como oficial.

Antes de prosseguir, devo referir que entre os militares oriundos da burguesia era vulgar acessarem à classe de oficiais a partir de praça, na medida em que não podiam acessar a cadetes. No entanto, a sua categoria era em tudo semelhante à de cadetes, pois estudavam activamente para serem oficiais. Em muitos documentos oficiais, encontramos mesmo a designação sargento-cadete.

Ora, tendo isto tudo em vista, decidi fazer uma viagem para visitar a primeiríssima de todas as unidades deste grande oficial. Como o Forte de S. João é hoje um hotel, em Cabanas de Tavira, não visitei o interior, ficando isso para outra altura, presumivelmente pagando 100 euros em época baixa para poder dormir nos, hoje, luxuosos quartos onde dormiram há 200 anos os oficiais inferiores (actualmente dir-se-iam sargentos).

O Forte de S. João do Registo da Barra de Tavira, também designado por Forte da Conceição, Forte de S. João Baptista ou simplesmente Forte de S. João, foi mandado construir em 1670 pelo então Conde de Val de Reys, Capitão General do Reino dos Algarves para proteger a passagem da barra de Tavira para a Ria Formosa, assim como tomar o registo de todas as embarcações que entravam e saiam. O Forte é basicamente uma estrela de 4 pontas, com baluartes nos ângulos, dois deles virados à Ria. A porta principal está virada para terra e tem placas indicando a construção inicial e a posterior reedificação por outro Conde de Val de Reys, D. Nuno de Mendonça e Moura, trineto do primeiro.

Como nos informa a ficha deste forte no sítio do IPPAR [aqui], com "o açoreamento da ria e o desvio da barra para nascente, a fortaleza da Conceição perdeu as suas funções militares", acabando o imóvel por cair em mãos privadas no primeiro quartel do século XX. Segundo apurei, o hotel que está lá hoje aproveitou bastante bem o espaço, não o descaracterizando por aí além, sendo avaliado por alguns turistas como um excelente Bed & Breakfast - já agora, deixo aqui a ligação.



Não vi o hotel por dentro, embora me roa a curiosidade. A porta estava ciosamente fechada, guardada e filmada. Quem sabe alguma alma caridosa me deixasse penetrar o reduto, mas confesso que o exterior me deixou satisfeito. Embora um viçoso arvoredo vista as muralhas viradas a terra, para Norte e Leste, as muralhas estão bastante visíveis nos outros lados, permitindo ver um forte extremamente bem preservado e bastante bonito, no seu estilo sóbrio do século XVII.

Este forte honra a belíssima zona que o envolve, junto a Cabanas de Tavira, à direita de Tavira, com a sempre fantástica Ria Formosa em frente. Antes de ir ao forte propriamente dito, não hesitei em passear à beira-Ria que estava a encher, num dia que, se nublado, não nega ao Algarve a sua luz de sempre, mais ainda reflectida pelo azul atlântico do mar salgado que se estende, parece, ao infinito.

Sem dúvida, um belo passeio que só me puxa a passear por todo santíssimo forte e fortaleza da costa algarvia. Deixo-vos com uma foto que tirei mesmo em frente à muralha sul, mostrando o cenário que Lecor veria todos os dias quando pegava ao serviço, durante o relativo curto espaço de tempo em que lá esteve, de Outubro de 1793 a Março de 1794.

25 de junho de 2008

Unidades de Lecor II - Esquadra da Bahia (1795/1796)


O comércio do Brasil sempre foi de enorme importância para Portugal, e a carreira atlântica precisava de ser protegida, principalmente após a aliança de Espanha com a França, no final da campanha do Roussilhão (1793-1795), aliança essa, feita pelos espanhois à margem dos seus aliados portugueses. Os barcos franceses e espanhois representavam uma ameaça constante aos navios de comércio. A Armada portuguesa tinha então a responsabilidade de proteger a rota comercial.

Assim, a 25 de Dezembro de 1795, parte de Lisboa com rumo à Bahia uma frota com a missão de proteger cerca de 23 navios de comércio. O comando, sediado na Nau Capitânea ‘Príncipe Real’ [na imagem, quadro do Museu da Marinha], estava a cargo do tenente-general Bernardo Ramires de Esquível. Entre os navios desta frota, contavam-se os seguintes:

Naus:
Príncipe Real (90 peças – guarnição: 904)
Infante D. Pedro (64 peças – guarnição: 557)
Vasco da Gama (74 peças – guarnição: 652)
D. Maria I (74 peças – guarnição: 616)
Princesa da Beira (74 peças – guarnição: 544)

Fragatas:
Minerva, Princesa, Ulisses, Tritão, Vénus, Thétis

Bergantins:
Serpente e Falcão

Apesar de haver sido criado um Regimento de Artilharia da Marinha, em finais de 1791, os 4 regimentos de artilharia continuavam a fornecer destacamentos para servir embarcados. É assim que do Regimento de Artilharia do Algarve parte um destacamento de 130 homens, onde se incluía o 1.º Tenente Carlos Frederico Lecor, da 9.ª companhia de artilheiros. Dois meses antes, o tenente-general Bernardo Esquível pedia, com urgência, ao Secretário de Estado da Marinha tal destacamento para a nau ‘Príncipe Real’ que lhe assegurava ter dado já as ordens. Os preparativos desta enorme força estavam já a decorrer em força.

Com uma data de partida para 28 de Novembro, que acaba por não ser cumprida como já referi em cima, uma carta do Conde de S. Vicente indica claramente qual a missão:


“3. A obrigação desta esquadra será de dar comboio a todos os navios de comércio nacional, que acharem prontos a partir até ao dito dia, levando-os sempre em sua conserva athe aquella altura que o Comandante julgar conveniente, e os reputtar livres de todo o risco de enemigos”.

O Secretário de Estado recomenda expressamente que a frota não se retenha por nenhum objecto, “qualquer que elle seja”, e que se dirija em direitura para a Bahia.



Assim, no dia de Natal de 1795, a Esquadra do Brasil parte, sob o comando do tenente general Bernardo Ramires de Esquível, a bordo da Nau ‘Príncipe Real’, em comboio com todos os navios de comércio que estavam prontos a partir nesse dia.

A Nau ‘Príncipe Real’ foi construída em 1771, sob o nome de ‘Nossa Senhora da Conceição’. Depois de 1794, após obras de beneficiação, toma o nome de ‘Príncipe Real’. Com uma guarnição de 950 homens, esta que era a maior nau portuguesa do seu tempo, era constituída por uma equipa de artilharia de entre 114 e 130 homens, assim distribuídos no seu complemento máximo:
Forte de S. Diogo, Salvador (fonte: wiki)

1 Capitão
2 1.º Tenentes
2 2.º Tenentes
125 Sargentos, soldados e tambores

Além destes, havia 150 homens de infantaria e um complemento de 670, entre marinheiros e outro pessoal embarcado.

A artilharia embarcada estava dividida em 2 baterias, cada um com cerca de 30 peças de 24. Além destas haveria mais 8 peças de 12, 6 carronadas de 36 e 6 obuzes de 24 no tombadilho.

A viagem de Lisboa à Bahia é feita em 46 dias, e segundo o tenente general Bernardo de Esquível, em carta que dirige ao Conde de S. Vicente, é a ‘mais feliz que se pode fazer’. O único problema foi uma epidemia que o tenente general não especifica a causa, mas informa ter-lhe custado a morte de 8 homens e duzentos doentes em terra.
A esquadra chega, pois, à Bahia a 9 de Fevereiro de 1796, com a intenção de fazer a viagem de regresso o mais depressa possível, mas a cidade de Salvador, afectada por uma seca generalizada tinha poucos víveres, o que os encarecia e dificultava a compra, assim como os doentes que demoravam a recuperar.
Diz Bernado Esquível que “não há farinha de guerra, não há carne, não há legumes, não há arroz”.

A viagem de volta a Lisboa, que se inicia a 1 de Abril, é mais complicada que a ida. Segundo carta-relatório do comandante, a 25 de Julho (já em Lisboa), a viagem é “dilatada e trabalhosa” por duas razões:

Primeira, maus ventos e calmas, os piores inimigos da navegação atlântica;

Segunda, a má qualidade dos navios que compunham o comboio, e que obriga a esquadra a dar fundo na ilha do Faial (Açores) para mantimentos e aguada. Alguns dos navios mercantes já pedeciam de sede e fome.

É nessa paragem no Faial, que dura 5 dias, que Bernardo Esquível toma conhecimento que uma esquadra inglesa, comandada pelo Lord Hugh Seymour, tinha por missão encontrar a esquadra portuguesa e escoltá-la a Lisboa, no qual faria grande gosto.

Cabo da Roca (fonte: wiki)
A 60 léguas do cabo da Roca, dá-se o acontecimento de maior tensão de toda a campanha. Dois navios de guerra não identificados aproximaram-se da esquadra. O mais próximo aproximou-se mais ainda e largou a bandeira francesa. O comandante português deu ordem de caça, também sem bandeira largada.
Entretanto, a dita fragata desconhecida, aproximando-se mais ainda, arreiou a bandeira francesa e larga a inglesa, disparando um tiro de saudação. Nessa altura a esquadra do Brasil largou a bandeira portuguesa e respondeu à saudação.

Anulando a ordem da caça, a esquadra do Brasil junta-se a outra esquadra para juntos entrarem no porto de Lisboa. Ao todo, eram 12 navios de guerra, 7 naus da Índia, 3 particulares e 23 de praça com carga do Brasil.

As doenças que afectaram apenas a nau ‘Príncipe Real’ na viagem para a Bahia, afectaram toda a esquadra na volta para Lisboa. O Capitão-de-Mar-e-Guerra João Gomes da Silva Telles, comandante da fragata Ulisses, falece devido a doença, sendo substituído pelo Capitão de Fragata Daniel Thompson. O próprio comandante da esquadra, Bernado Ramires de Esquível, adoece.

Chegam a 25 de Julho de 1796, escoltando carga no valor de 2,152,798$451.

Não sabemos se Carlos Frederico Lecor terá sido afectado pela epidemia, mas sabemos que esta missão marca o final da sua carreira como oficial de artilharia. No ano de 1797, ele entrará na Legião de Tropas Ligeiras, sob o comando do Marquês de Alorna, D. Pedro José de Almeida Portugal, com quem ficará até 1807.

15 de junho de 2008

Início da Carreira

Hey por bem fazer merce a Carlos Licor, Sargento de Artelharia que guarnece a fortaleza de São João do Registro da Barra de Tavira; do posto de Ajudante da Praça de Villa nova de Portimão, que vaga pela reforma de Joaquim Jozé de Sequeira: O Conselho de Guerra o tenha assim entendido, e lhe mande expedir os despachos necessários. Palácio da Nossa Senhora da Ajuda em desessete de Março de mil setecentos noventa e quatro.

In: Arquivo do Conselho da Guerra.


Este é o registro mais antigo [17.3.1794] que se pode encontrar nos arquivos do Conselho da Guerra acerca de Carlos Frederico Lecor e que parece demonstrar a tese que ele assentou praça como soldado pé-de-castelo em Tavira a 15.10.1793, e não como cadete no Regimento de Artilharia do Algarve.

Em 12 de Dezembro desse mesmo ano, passará a ocupar o cargo de 1.ª tenente de uma das companhias (a 9.ª) do regimento, passando de Portimão a Faro.

Faz, pois, sentido aquilo que o general Teixeira Botelho diz da carreira desta artilheiro, que "não teve a regularidade habitual do seu tempo".

29 de maio de 2008

Unidades de Lecor I - Regimento de Artilharia do Algarve

Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve

Apesar de alguns autores indicarem que Carlos Frederico Lecor terá iniciado a sua carreira militar como soldado pé-de-castelo (artilharia miliciana de guarnição) na praça de Tavira, tendo progredido como cabo e sargento, e outros que terá assentado praça no regimento algarvio de artilharia como cadete, a verdade é que só há notícia certa dele como Ajudante da praça de Villa Nova de Portimão em 1794, um ou dois anos (conforme as fontes) após assentar praça. Servia como oficial adjunto ao governador da praça algarvia.

Em 2.12.1794, é superiormente sancionada a troca de Carlos, em Portimão, com um 1.º Tenente da 9.ª companhia de artilheiros do Regimento de Artilharia do Algarve, António Pimentel Vabo. Só podemos pensar que Lecor era 1.º Tenente ou equivalente à altura da troca. Seja como for, começou ele então a servir neste regimento ininterruptamente até que passou à Legião de Tropas Ligeiras, em 1797 (que analisaremos no 3.º post desta série).

Acontece que os regimentos de artilharia da altura, quatro (o da Côrte - Lisboa, o do Porto, o de Estremoz e o de Faro) não eram regimentos no sentido em que o eram os de infantaria e cavalaria, mas mais unidades administrativas que geriam os recursos artilheiros conforme as necessidades. As necessidades passavam pela guarnição dos fortes e praças, assim como o fornecimento de equipas de artilheiros às naus da nossa Armada.

O Regimento de Artilharia do Algarve começou a ser organizado em Setembro de 1774. Incumbido da organização estava o Coronel Diogo Ferrer, do Regimento do Porto, que veio para Faro, e que concluiu a tarefa nos inícios de 1775. Este regimento, como os outros de artilharia, de acordo com o alvará de 1766, era constituido por 12 companhias, 9 de artilheiros, uma de bombeiros, uma de mineiros e uma de artífices e pontoneiros. Como nos regimentos de infantaria a 1.ª, 2.ª e 3.ª companhias eram respectivamente comandadas pelo Coronel, Tenente-Coronel e pelo Sargento-Mor (isto até 1796).

O regimento nunca teve um quartel, ficando os seus integrantes alojados pela cidade de Faro. Sobre a sua constituição em 1791, diz o Conde de Val de Reys o seguinte: “... naquele regimento se acham 141 praças incapazes de continuar o real serviço, comprehendo nelas 54 por serem viciosos, debeis e mal figurados, e 87 por terem moléstias reputadas incuráveis”. Falamos de um quarto da força total de cerca de 643.

A situação deste regimento deteriou-se ao ponto de do Brigadeiro Bernardim Freire, numa inspecção em 1803, indicar que a aula regimental não funcionava desde que o Coronel Costa Cardoso tomara o comando, em 1793, entre variadíssimos outros problemas. O maior problema porém, que afectava a disciplina e qualquer espírito de corpo, era que grande parte do regimento era destacado para fora da cidade de Faro, por vezes por anos a fio, muitos embarcados nas esquadras portuguesas dessa altura. Num mapa de 1801, verifica-se que andavam embarcados desde Setembro de 1796 nos corsários Tigre e Onça, destacamentos do regimento; e no Milhafre e canhoneira Lobo, outros desde Maio de 1798.

O próprio Lecor é destacado para servir como oficial artilheiro na Nau Príncipe Real (com 90 peças, a maior nau portuguesa da altura) na chamada ‘Esquadra da Bahia’ formada em 1795, comandada pelo tenente general Bernardo Ramires Esquível para proteger um comboio comercial vindo do Brasil para Portugal. Será o seu último acto como oficial de artilharia, e como Napoleão (comparação algo inédita, mas pronto) parte para outros voos. Falarei do pouco que sei desta aventura no próximo post desta série – a Esquadra da Bahia.

Sobre os comandantes deste regimento, há que referir os dois que dizem mais respeito ao nosso jovem Carlos Frederico Lecor: primeiro, o Brigadeiro Teodósio da Silva Reboxo, que comandou o regimento de 1783 até 1793, muito conceituado dentro da artilharia e que contribuiu fortemente para uma certa fama da aula regimental. Pelas datas, é pouco provável que Lecor tenha servido debaixo das suas ordens e mesmo assim terá já sido numa fase de declínio. Segundo, o Coronel Costa Cardoso, que terá encontrado o regimento bastante desorganizado, o quartel-mestre demente fazia um ano, os livros em desordem.

Assim era o estado da artilharia portuguesa na década de 1790, e em geral apenas representativo do geral estado do Exército Português antes dos desastres de 1801 e 1807.