28 de junho de 2020

Alguns Documentos Primários acerca da Tomada de Caiena (14 de Janeiro 1809)


No dia 14 de Janeiro de 1809, forças portuguesas e britânicas tomaram posse oficialmente de Caiena, dois dias após o assentamento dos termos de rendição. Do dia 5 a 14, as operações desenrolaram-se em território francês.

D. João havia declarado guerra a França em Junho do ano anterior, a tomada de Caiena foi uma primeira oportunidade de causar dano aos franceses a partir da nova base de poder no Rio de Janeiro.
Tendo sido ordenado ao capitão general do Pará, tenente general Jozé Narciso de Magalhães de Menezes, que tomasse Caiena e a Guiana Francesa, este ordenou ao tenente coronel Manuel Marques, comandante da Artilharia do Pará que comandasse um destacamento que operaria em conjunto com as forças navais britânicas e algumas portuguesas.

Apresento as duas partes oficiais, do comandante português, tenente coronel Manuel Marques e o comandante britânico, Captain James Yeo, do que ocorreu entre os dias 5 e 14 de Janeiro.

Carta do Tenente Coronel Manuel Marques (Corpo de Artilharia do Pará) ao Capitão General do Pará, Cayenne, 21.1.1809 [de 5 de Janeiro a 14 de Janeiro, pelo menos]


Ill.mo e Ex.mo Senhor = A minha ultima Carta dattada a 5 de Janeiro de 1809 annuncia a V. Ex.ª a minha sahida do Aproague, e o projecto do attaque de Cayenna combinado entre mim, e o Capitão Yeo [James Lucas Yeo, Royal Navy, 1782-1818]: Resta-me agora relatar a V. Ex.ª a concluzão dos nossos successos na Guyanna, e o inteiro cumprimento das Respeitaveis Ordens de que V. Ex.ª foi servido encarregar-me.

[5JAN1809] No dia 5 de Janeiro embarcou a Tropa do meu Commando, ficando no Aproague [rio Aproak] settenta homens, tanto sãos, como enfermos, commandados pelo Capitão Luiz Antonio Jozé Salgado, pelo Tenente Francisco Antonio Pinto / encarregado das muniçoens de Guerra, e bocas e pelo Alferes Florentino Jozé da Costa,

[6JAN1809] No dia 6 ancoramos ao largo da embocadura do Rio, e d'ali marchou o Capitão Yeo com trezentos homens (duzentos Granadeiros e Cassadores do meu Commando, e um das guarnições da Fragata e Brigues) e huma das nossas Peças de Campanha Commandada pelo Capitão Azedo [Joaquim Pedro Azedo], em pequenas Embarcaçoens, com o projecto de dezembarcar no Rio Mayori [rio Mahuri] da parte da Ilha, isto se effectuou da meia noite para o dia 7 n'huma Batteria denominada o Diamante [hoje Fort du Diamant] de duas Peças de 24 de Ferro, e huma de 8 de Bronze; n'esta Batteria forão mortos dos Francezes o capitão Commandante, e trez soldados, e prizioneiros dezasseis, incluzos trez feridos, tendo fugido o resto: da nossa parte foi ferido mortalmente o Commandante da Tropa Ingleza [tenente John Read, Royal Marines], que morreu no dia 9, e trez soldados tambem Inglezes: O Capitão Joaquim Manuel [Joaquim Manuel Pinto, 1.º RegInf Pará] com 140 homens marchou immediatamente por terra a attacar o Degrá de Canne [Degrad-de-Cannes], outra Batteria de duas Peças de 8 de Bronze, distante desta pouco mais, ou menos huma lêgoa, e guarnecida por trinta e sette homens, dos quaes morreu o Commandante, e hum soldado, prizioneiros quatro, e os mais em fuga.

[7JAN1809] Na manhãa do referido dia 7 dezembarquei eu com o resto da Tropa no Diamante, o tempo que chegava huma parte do Capitão Joaquim Manuel [Pinto, ver acima], dizendo, que era precizo reforçar o Posto do Degrá de Canne onde se achava, porque o Inimigo trabalhava em formar Batterias da parte opposta, e já tinha duas estabelecidas: marchei logo com huma pequena Guarda a reconhecer os pontos por onde podia ser attacado, e ordenei ao Major Palmeirim [José Xavier Palmeirim, 3.º RegInf Pará] que conduzisse a Tropa para aquelle Posto em que eu me estabeleci, porque elle protege hum dos caminhos de Cayenna: ali se ajuntou comigo o Capitão Yeo, e assentando de mandar // encravar a Artilheria de Ferro, e destruir a Batteria do Diamante, o que foi logo executado.

Ainda nos restava de mesma margem do Rio hum Posto de duas peças denominado o Triô, e da margem opposta as referidas duas Batterias que deffendião a habitação, ou fazenda de Mr. Hugues [Victor Hughes, governador francês de Caiena], para as destruir mandamos entrar as Embarcaçoens no Rio: principiou o fogo às quatro horas e meia da tarde pela Batteria em que já me achava postado, pelo Cuter Vingança Commandado pelo Patrão Mor [Manuel Correia], Chalupa Leão pelos Sargentos Jozé Antonio de Barros, de Pedestres, e Ignacio Pereira, d'Artilheria, Goleta Invencivel Menezes pelo Tenente Mikilles [José Bernardo Miquilles], Barcas N.º 1 pelo Furriel Bernardo António, e N.º 2 pelo Sargento João Gonçalvez Correia Guimaraens: as seis horas vendo eu que deminuia o fogo inimigo mandei cento e cinquenta homens de dezembarque em Montarias para se senhorearem dos Postos; forão recebidos com Fuzilaria, e Metralha; conseguirão porem pôr os inimigos em fuga total, desmontarem as Peças, e destruir os Reparos.

[7JAN1809, 1900H] As sette horas, quando tudo se achava em movimento, e a Tropa quazi toda dividida pelos differentes postos; fui attacado n'aquelle em que me achava pela rectaguarda da parte da Ilha: As Guardas avançadas, compostas, a principal de 80 homens Commandada pelo Tenente Jozé Leitão Fernandes, e huma Peça de Campanha pelo Tenente Chateauneuf sustentarão o primeiro fogo: marchei logo em seu socorro com a gente que me restava, e outra Peça Commandada pelo Tenente Francisco Marques: a Tropa que havia passado à outra parte pensando não haver mais inimigos, voltou com velocidade, e tendo-se feito hum fogo vivissimo tanto d'Artilheria, como de Mosquetaria pelo espaço de quazi duas horas, foi derrotado, e posto em fuga o inimigo, deixando seis mortos sobre o Campo, e levando trinta feridos.

Eu vi n'esta acção com prazer, que a nossa Tropa se portou com hum vallor extraordinario: cada hum de persi dezejava assignalar-se,e eu não devo omittir a V. Ex.ª que vindo a faltar os Cartuxos dos Soldados, por se terem consumido os que tinhão nas Patronas, o Reverendo Padre Capellão poz hum cunhete d'elles sobre as costas, e foi levar-lho pelo meio do fogo.

[8JAN1809] No dia 8 reaparecerão ainda sobre as Batterias que deffendião a habitação de M.r Hugues os inimigos: Mr. Maclester [William Howe Mulcaster, Royal Navy, 1785-1837] foi enviado como Parlamentário ao Commandante d'ellas, sendo porem (contra todas as Leys da Guerra) recebido com Fuzilaria, o Commandante Yeo em consequencia d'este attentado marchou sobre ellas com toda a sua gente, cincoenta homens nossos, e huma Peça de Campanha: levou as Batterias a golpes de sabre, poz em fuga os inimigos, e querendo perseguillos por h~ua grande Estrada, encontrou n'ella trez cortaduras deffendidas por duas Peças de Campanha, venceu ainda estes obstaculos, e tomou as Peças: a este tempo enviei-lhe mais cincoenta homens com o Alferes Morada [Manuel José da Morada, 1.º RegInf Pará], bravo official que cumpriu valerozamente e decidio: Mr. Yeo // fez pôr fogo a toda a habitação de M.r Hugues, assim como áo Posto do Triô em razão da reiterada rezistencia que fizerão.
N'esta acção foi ferido gravemente o Patrão Mor [Manuel Correia, ver acima] por huma Balla de Metralha que lhe atraveçou o beiço inferior, acha-se porem melhor, e dá esperança de um prompto restabelecimento.
Na Rellação incluza N.º 1 verá V. Ex.ª os Individuos debaixo do meu Commando que forão feridos, nestas differentes acçoens, assim como d'aquelles que mais se destinguirão, posto que geralmente não se pode taxar de Cobardia a nenhum delles.

Eu não tenho termos assáz expressivos, e fortes com que possa exprimir a V. Ex.ª o quanto incessantemente nos tem ajudado, e os serviços importantes que tem rendido ào Nosso Soberano a Guarnição da Fragata Ingleza; a intrepidez, o valor o mais distincto os guia em todas as occazioens, e seus dignos officiais infatigaveis, não se poupando a trabalho algum, se tem achado sempre à teste d'elles nos mais perigozos encontros.

[9JAN1809] Achando-nos pois senhores de todos os Pontos Fortificados que defendião o dezembarque na Ilha de Cayenna, de 11 Canhoens tomados em dous dias, e não nos restando mais inimigos a combater n'esta parte, rezolvemos eu, e Mr. Yeo hir tomar no interior huma pozição vantajoza, e por isso marchei com a Minha Tropa no dia 9 a postar-me na habitação de Bourgarde situada sobre huma altura d'onde podia interceptar toda a communicação com Cayenna, tendo segura retirada no cazo de ser attacado superiormente: N'esta marcha de quazi duas Legoas feita debaixo de hum sol ardentissimo; eu me enchi de prazer, e ternura vendo o valor, a constancia, e a obediencia da nossa Tropa levada áo ultimo gráo: o Soldado atenuado de fadia, coberto de suor, carregado com a sua Espingarda, e com 50 Cartuxos embalados, trazia ainda às costas as Munições da Artilheria, e puxava as Peças; isto admira tanto mais que elles não tinhão largado as Armas, e cessado de trabalhar os dias antecedentes, tomando sempre à pressa a nutrição necessaria.

[10-11JAN1809] Estando estabelecidos na refrida pozição enviamos, como Parlamentarios a Cayenna no dia 10, M.r Maclester [Mulcaster, ver acima], e o Tenente Mikilles com a sommação ào Governador que por Copia N.º 2 remeto incluza a V. Ex.ª respondeu com a Carta aqui tambem junta N.º 3: Em consequencia d'ella tivemos huma conferencia no dia 11 em que se tratou da Capitulação, e pedindo-nos pela Carta N.º 4 lhe dicessemos se o systema de libertar os Escravos era em conformidade das nossas Instrucçoens; lhe respondemos com a Carta N.º 5:

[12JAN1809] Em 12 de Janeiro foi feita, e assignada a Capitulação no Posto avançado de Bordá, e n'ella verá V. Ex.ª que eu me cingi literalmente as Instrucçoens que V. Ex.ª foi servido dar-me, e que não exigi outras vantagens que as de segurar a pocessão d'esta Colonia a Sua Alteza Real o Principe Regente Nosso Senhor.

[14JAN1809] O Artigo 1.º foi exactamente cumprido no dia 14 em que eu entrei com a minha Tropa n'esta Cidade, e fiz arvorar a nossa Bandeira solemnizando este acto com huma salva de 21 tiros: a Tropa Franceza embarcou logo para bordo das nossas pequenas Embarcaçoens, que são ao todo 593 homens; e para se dar o devido cumprimento aos Artigos 2.º, e 3.º, faz-se precizo que V. Ex.ª envie aqui as Embarcaçoens competentes, tendo V. Ex.ª em consideração que não há viveres para a sustentação d'esta gente longo tempo: O Capitão Yeo já escreveo ao Governador de Suriname para o mesmo fim; mas hé outra couza incerta, e esta Tropa, torno a dizer, faz aqui muito pezo.

Em consequencia do Artigo 6.º forão enviados para bordo da Fragata e Brigues os Pretos a quem era devida a liberdade, pelos seus serviços: estes sujeitos que até aqui nos forão favoraveis, agora se inquietão sobre maneira: elles se tem sublevado em quazi toda a Colonia, tem pilhado algumas habitaçoens, e até mesmo a Gabriella que faz o Assumpto do Artigo 14.º, a qual pertencia ao Imperador, e hé hum objecto muito preciozo para o Nosso Soberano, não só pelo seu splendor, e magnificencia, como pela prodigioza quantidade de Cravo que produz. Para remediar efficázmente à propagação d'este mal, fiz publicar na Cidade a Proclama incluzo N.º 6, que felizmente vai produzindo o effeito dezejado.

A Barca N.º 3, cuja falta tento me tem mortificado, acha-se em Suriname: soube aqui depois de ter deixado a Fragata entre Coanany, e Cacipure, amarou-se bastante para poder montar em segurança este ultimo Cabo; as correntezas porem a trouxerão para sotavento de Cayenna, e achando-se sem agoa mandou a terra o Sargento João da Costa Roza d'Artilheria, e cinco Soldados para fazerem provizão d'ella; os quaes sendo aqui feitos prizioneiros; ella fez-se à vella, e se acolheu a aquelle Porto d'onde já a mandei buscar.

Achou-se n'esta Praça muita Artilheria; porem quazi toda desmontada, e muito poucas Muniçoens de Guerra: Os inventarios de tudo isto, assim como das Muniçoens de boca, hirão no Brigue Avoador que está a partir para essa Capital, porque achando-se os objectos em varias repartiçoens hé precizo tempo para se fazerem com exactidão os ditos Inventarios.
Sendo necessario, e indispensavel vella na segurança interior, Policia, e tranquilidade da Colonia, e não tendo a quem incarregar destas importantes Commissoens; organizei huma Junta Provizoria composta de oito dos mais conspicuos habitantes; cuja constituição, deveres e condiçoens, verá V. Ex.ª na Ordenança N.º 7, pela qual a institui, e criei.
As sabias Ordens, e Determinaçoens de V. Ex.ª que anciozamente espero me esclarecerão sobre a marcha que devo seguir no Governo d'esta Colonia; em quanto V. Ex.ª // for servido que eu o ocupe; devendo asseverar a V. Ex.ª que pelo genio activo, e industriozo dos Habitantes, e pela sua assiduidade na Agricultura, ella hé huma acquizição importante para o Nosso Soberano, e igualará em opulencia; se não exceder; às outras Colonias da America, se a liberdade do Commercio, e huma Paz duravel, a deixarem restabelecer dos choques destructores que tem soffrido.

Deus Guarde a V. Ex. Cayenna, 21 de Janeiro de 1809
Ill.mo e Ex.mo Senhor Tenente General Jozé Narcizo de Magalhaens de Menezes, Governador e Capitão General do estado do Pará, e da Guyanna 
O Tenente Coronel Manoel Marques.

Está conforme ao original
O Secretario interino do Governo

Giraldo Jozé d'Abreu (...)


* * *


Pormenores da Tomada de Caiena, a dia 4

Foi assignada a Capitulação de Cayenna a 12 de Janeiro deste anno de 1S09 por Victor Hugues, General Francez , e pelos Commandantes acima nomeados Yeo, , e Marques.

Éffectuou-se a entrada das nossas Tropas em Cayenna a 14 de Janeiro. Conduzia no centro dellas o triunfante Estandarte Real José de Figueiredo Aragão e Vasconcellos, Cadete Granadeiro do 1. ° Regimento de Linha do Pará , o qual teve a distincta honra de o arvorar no Castello da Cidade; acto que foi applaudido com repetidos vivas a S. A. R , e vinte e hum tiros d'Artilheria. Espera-se que alli por largos séculos tremule a mesma Real Bandeira, para honra de DEOS, gloria permanente do PRINCIPE REGENTE N. S., e grandíssimas utilidades da Nação Portugueza.

In: José Eugénio de Aragão e Lima, À Tomada da Cayenna pelas Tropas do Pará - Ode, Rio de Janeiro, imprensda Régia, 1810


* * *



Parte Oficial do Captain James Lucas Yeo, em carta de 15 de Janeiro, um dia após a entrada oficial em Cayenna


APRIL 15. Captain James Lucas Yea, of his Majesty's ship the Confiance, has, with his letter dated at Cayenne, the 9th February last, transmittedto the Hon. William Wellesley Pole. copies of his letters to Rear-Admiral Sir William Sidney Smith, detailing his proceedings in the expedition against the above settlement.
Having, in conjunction with the Portuguese land forces, under the command of Lieutenant-colonel Manuel Marques, taken possession, on the 8th December last, of the district of Oyapok, and on the 15th of the same month, with the Confiance and a Portuguese sloop and cutter, reduced that of Approaque; Captain Yeo, together with the lieutenant-colonel, proceeded to the attack of the island of Cayenne with the Confiance, two Portuguese sloops, and some smaller vessels, having on board five hundred and fifty Portuguese troops. 
The following is a copy of Captain Yetes letter on this subject. 

His Majesty's Ship Confiance, Cayenne Harbour, 
15th January, 1809. 

My last letters to you of the 26th ult. informed you of the arrival of the Portuguese troops at Approaque.
[4JAN1809] On the 4th inst. it was determined by Lieutenant-colonel Mattoel Marques and myself, to make a descent on the east side of the island of Cayenne. Accordingly all the troops were embarked on board the small vessels, amounting to 560, and 80 seamen and marines from the Confiance, and a party of marines from the Voador and Infante brigs. 
[6JAN1809] On the morning of the 6th all dropt into the mouth of the river. In the evening I proceeded with ten Canoes and about 250 men, to endeavour to gain possession of two batteries: the one Fort Diamant, which commands the entrance of the river Mahuree [Mahury], the other Grand Cane [Degrad-de-Cannes], commanding the great road to the town of Cayenne. The vessels, with the remainder of the troops, I entrusted to Captain Salgado [Luís António José Salgado ?], of the Voador, with orders to follow me after dusk, to anchor in the mouth of the river Mahuree, and wait until I gained the before-mentioned batteries; when, on my making the signal agreed on, he was to enter the river and disembark with all possible despatch.
[7JAN1809, 0300H] I reached Point Mahuree at three o'clock next morning, with five canoes; the others being heavy could not keep up. We then landedin a bay half way between the two batteries. The surge was so great, that our boats soon went to pieces. I ordered Major Joaquim Manoel Pinto, with a detachment of Portuguese troops, to proceed to the left, and take Grand Cane; while myself, accompanied by Lieutenants Mulcaster, Blyth, and [John] Read (of the royal marines); Messrs. Savory, William Taylor, Forder, and Irwin, proceeded to the right with a party of the Confiance, to take Fort Diamant, which was soon in our possession, mounting two twenty-four and one brass nine-pounder, and fifty men.

I am sorry to add, that Lieutenant John Read, of the royal marines, a meritorious young officer, was mortally wounded, as also one sesman and five marines badly. The French captain and commandant, with three soldiers, killed, and four wounded. The major had the same success: the fort mounting two brass nine-pounders and forty men ; two of the enemy were killed. The entrance of the river being in our possession, the signal agreed on was made, and by noon all were disembarked. At the same time I received information of General Victor Hugues having quitted Cayenne, at the head of a thousand troops, to dispossess us of our posts. 
Our force bring too small to be divided, and the distance between the two posts being great, and only twelve miles from Cayenne, it was determined to dismantle Fort Diarnant, and collect all our forces at Grand Cane. I therefore left my first lieutenant, Mr. Mulcaster, with a party of the Confiance, to perform that service, and then join me. 

On arriving at Grand Cane [Degrad-de-Cannes], I perceived two other batteries about a mile up the river, on opposite sides, and within half gun-shot of each other: the one on the right bank called Treo, on an eminence commanding the creek leading to Cayenne; the other, at the opposite side, at the entrance of the creek leading to the house and plantation of General Victor Hugues, and evidently erected (or no other purpose than its defence. At three o'clock I anchored the Lion and Vinganza cutters abreast of them, when a smart action commenced on both sides for an hour; when finding the enemy's metal and position so superior to ours, the cutters having only four-pounders, and many of our men tolling from the incessant shower of grape-shot.
I determined to storm them, and therefore directed Mr. Savory (the purser,) to accompany a party of Portuguese to land at General Hugues' battery; at the same time proceeding my-self, accompanied by Lieutenant Myth, my gig's crew, and a party of Portuguere troops, to that of Treo; and though both parties had to land at the very muzzles of the guns keeping up a continual fire of grape and musketry, the cool bravery of the men soon carried them, and put the enemy to flight: each fort mounted two brass nine-pounders and fifty men. 
This service was scarcely accomplished, before the French troops from Cayenne attacked the colonel at Grand Cane. Our force then much dispersed, I therefore, without waiting an instant, ordered everybody to the boats, and proceeded to the aid of the colonel, who, with his small force, had withstood the enemy ; and after a smart action of three hours, they retreated to Cayenne.
At the same time, 250 of the enemy appeared before Fort Diamant; but perceiving Lieutenant Mulcaster prepared to receive them, and imagining his force much greater than it was, they, on hearing the defeat of their general, followed his example.
There vas yet the strongest post of the enemy to be taken, which was the private house of General Victor Hugues: he had, besides the fort above mentioned, planted before his house a field-piece and a swivel, with an hundred of his best troops. It is situated on the main, between two and three miles in the interior, at the end of an avenue the same length from the rivet; on the right of which is a thick wood, and on the left the creek Fouille. I have also to remark, that there is nothing near appertaining to government, or for the defence of the colony. 

[8JAN1809]On the morning of the 8th I proceeded, accompanied by Lieutenant Mulcaster, Messrs. Savory and Forder, with some seamen and marines of the Confiance, and a party of Portuguese troops, with a field-piece, to take the said post; but as my only object. was to take the troops prisoners, by which the garrison of Cayenne would be much weakened.
I despatched Lieutenant Mulcaster in my gig, with a flag of truce, to acquaint the officer commanding, that my only object was to take the post, for which I had force sufficient; and though I might lose some men in taking it, there could be no doubt as to the result:

I therefore requested, for the sake of humanity, be would not attempt to defend a place not tenable; but that I was determined, if he made a useless resistance in defending a private habitation, against which I gave him my honour no harm was intended. I should consider it as a fortress, and would level it to the ground. The enemy's advanced guard allowed the flag of truce to approach them within boats length; then tired two vollies at them, and retreated. I then landed; but reflecting it was possible this outrage was committed from the  ignorance of an inferior officer, I sent Lieutenant Mulcaster a second time, when on his approaching the house, they fired the field-piece at him. 

Finding all communication the, way ineffectual, yet wishing to preserve the private property of a general officer, who was perhaps ignorant and innocent of his officer's conduct, i sent one of the general's slaves to the officer with the same message, who returned with an answer that anything I had to communicate must be in writing; at the same instant he fired his field-piece as a signal to his troops, who were in ambush on our right in the wood, to fire, keeping up a steady and well-directed fire from his fieldpiece at the house.

It was my intention to have advanced with my fieldpiece; but finding he had made several fosses in the road, and the wood being lined with musketry, not a mini of whom we could see, and the field-piece in front, I ordered ours to be thrown into a fosse, when our men, with cheers, advanced with pike and bayonet, took the enemy's gun:
They retreated in the house, and kept up a smart fire from the windows; but on our entering they flew through the back premises into the wood, firing as they retreated. Every thing was levelled with the ground, except the habitations of the slaves. 

As we received information that about 400 of the enemy were about to take possession of Beauregard Plain, on an eminence which commands the several roads to and from Cayenne, it was determined. between the lieutenant-colonel and myself to be before hand with the enemy, and march our whole force there direct.

[9-10JAN1809] We gained the situation on the enemy on the 9th, and on the 10th lieutenant Mulcaster and a Portuguese officer, (Lieutenant Bernardo Mikillis,) were sent into the town with a summons (No. 1.) to the general.
In the evening these officers returned, accompanied by Victor Hugues's aid-de-camp, requesting on armistice for twenty-four hours, to arrange the articles of capitulation. This being granted, and hostages exchanged, on the 11th the lieutenant-colonel and myself met the general, and partly arranged the articles.

[12-14JAN1809] A second meeting on the morning of the 12th totally fixed them, (No. 11.) and on the morning of the 14th, the Portuguese troops and British seamen and marines marched into Cayenne, and took possession of the town.
The enemy, amounting to 400, laid down their arms on the parade, and were immediately embarked on board the several vessels belonging to the expedition; at the same time the militia, amounting to 600, together with 200 blacks, who had been incorporated with the regular troops, delivered in their arms.

It is with pleasure I observe, that throughout the expedition the utmost unanimity has prevailed between the Portuguese and British, and I have myself experienced the most friendly intercourse with Lieutenant-colonel Manoel Marques.

The conduct of Captain Salgado of the Voader in the post I assigned him was that of a zealous and energetic officer, and I feel I should do him an injustice were I to withhold my testimony of his merit. I must also acknowledge with satisfaction the services of Lieutenant Joze Pedro Schultz, who landed the Voador's marines, and indeed every individual belonging to the Portuguese squadron.

It has always been with the highest gratification to my feelings, that I have had to mention the good conduct of the officers, seamen, and marines of the ship I have the honour to command, but during the whole course of any service I loan never witnessed such persevering resolution as they have displayed from the commencement of the campaign to the reduction of Cayenne. 

To my first lieutenant, Mr. William Howe Mulcaster I feel myself principally indebted for the very aisle support I have received from bins throughout, though it was no inure than I expected from an officer of Isis known merit in the ben ice. 
[…]


In: James Clarke & John MacArthur (ed.), The Naval Chronicle, Volume 21, Janeiro-Junho 1809, Camdrige University Press, pp. 337-339


Fontes
- Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, manuscrito:  http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_manuscritos/mss1233593/mss1233593.pdf
- James Clarke & John MacArthur (ed.), The Naval Chronicle, Volume 21, Janeiro-Junho 1809, Camdrige University Press, pp. 337-339
- José Eugénio de Aragão e Lima, À Tomada da Cayenna pelas Tropas do Pará - Ode, Rio de Janeiro, imprensda Régia, 1810


13 de outubro de 2019

Casamento com D. Rosa, 3 de Dezembro de 1818, Montevideu


A 3 de Dezembro de 1818, já mais de meio ano após ser feito barão da Laguna, o capitão general Carlos Frederico Lecor casa-se com Dona Rosa María Josefa Deogracias de Herrera y Basavilbaso, uma jovem montevidenha nascida a 22 de Março de 1800. 

Apesar da diferença de idades - Lecor tinha 54 anos de idade e Rosa 18 -, o tipo de casamento não era incomum e inseria-se também na política geral de incentivo a que oficiais portugueses se casassem com meninas de Montevideu, com vista a estreitar os laços. 

Como em 1816, em Lisboa, quando se fez vacinar em frente aos soldados, também agora se casava para que outros lhe sigam as pisadas.

Em seguida, o assento de casamento:

"En tres de Deciembre de mil ochocientos diez i ocho; El Dr. D.n Damaso Antonio Larrañaga Cura Vicario. Juez Eclesiastico de la Iglesia Matriz de Montevideo, Delegado general por el S.r Governador del Obispado en todo este Estado Cisplatino, Comendador de la Orden de Christo, &, &. Certifico en cuanto puedo i ha lugar en derecho que en el día tres de Deciembre del mil ochocientos diez i ocho, desposé i casé por palabras de presente según rito de Nuestra Madre la Iglesia Catholica Romana al Ilmo i Exmo Señor Capitan General i Baron de la Laguna D.n Carlos Federico Lecor, con la Ilma y Excm.a D.a Rosa de Herrera, natural de esta Ciudad, hija de legítimo matrimonio del Sr. D.n Luis Herrera i de la S.ra D.a Gervasia Basavilbaso: Siendo testigos dicha D.a Gervasia i D.n Franco Muñoz i es para los fines que les convenga les doi á su solicitud este Certificado: Montevideo. Febrero once de mil ochocientos veinte i dos. DAMASO ANTONIO LARRAÑAGA. 
- Esta copia concuerda en todo con el Original que el referido Sr.Vizconde i Baron de la Laguna me presentó por manos de su Capellán el P. D.n Buenav.ª Borras Lector en Sagrada Theologia del Orden Cister.. en el dia trece de Febrero de mil ochocientos veinte i seis i por verdad: Con indisposicion i comision del S.r Cura i Vicario D.n Damaso Antonio Larrañaga lo firmo como Theniente de Cura de esta Iglesia Matriz de la r eferida Ciudad de Montevideo. Fecha ut supra. - Fermín Bouquete Azuan".(Archivo de la iglesia Matriz, "Libro 1.º/de/Matrimonios/empieza/en Mayo de 1819": Montevideo).



A Igreja Matriz de Montevideu (Catedral Metropolitana de Montevideu) foi construída a partir de 1790, tendo por base a igreja mais antiga que havia ruido parcialmente em 1788. Localiza-se em frente ao Cabildo, na área mais nobre e central de Montevideu.

As fontes indicam que a nova D. Rosa foi uma das primeiras noivas montevidenhas a ir de carro para a igreja, um novo hábito introduzido nesta altura.

Muitos outros oficiais vêm a casa com damas de Montevideu, incluíndo um primo de Lecor, Vicente António Buys, assim como muitos outros, alguns dos quais se tornam oficiais uruguaios, quando da independência em 1830.

Dona Rosa Lecor

Há muito pouca informação sobre a noiva, D. Rosa, exceto a sua geneologia, e uma carta que escreveu em 1836, quatro meses depois do falecimento do marechal Lecor, visconde da Laguna, que vos deixo em seguida e que é a única vez ue se ouve a voz de D. Rosa Maria, a viscondessa da Laguna:

"Rio Janeiro 6 de Diciembre de 1936 [sic]. 
Mi querida hermana 
Mucho te agradezco el interés q.e tomas en mi desgracia. El estado en q.e ha quedado mi corazón és ciertamente digno de lástima mi cara Inés, yo quería mucho al Visconde y era por el idolatrada, ¿que mas podía apetecer ni q.e me podrá hoy consolar? Mas en fin, querida Amiga, esto mismo me alivia, porq.e nunca puede ser una Muger tan querida sin merecerlo; así pues, la idea de haber hecho su felicidad, me conforta, y el cariño de ustedes me hará pasar el resto de mi vida conforme y tranquila. 
Estimo mucho el estado de buena salud de mis sobrinitos, (Juan José, Luis Pedro, María, y Alfredo de Herrera y Perez) así como el cariño q.e has sabido infundirles hácia mi. Los hijos de mi hermano (Luis) siempre serían muy caros a mi corazón querida Inés, mas siendo estos tambien tuyos, tienen mucho mas derechos a mi cariño, y te aseguro, q.e siento por ellos un afecto q.e no te puedo explicar, así como el deseo de conocerlos y abrazarlos. 
Entre tanto que no llega ese dia, dispon como gustes dela verdadera amistad q.e te profesa tu Hermana y antigua Amiga, ROSA"
(Archivo particular de la señora Manuela de Herrera de Salterain, Montevideo)


* * *

Imagens
Fachada da Igreja Matriz de Montevideu (ver) e interior (ver)

* * *

Fontes
- Boulevar[d] Sarandí: 250 años de Montevideo : anécdotas, gentes, sucesos, Volume 2, Ediciones de la Banda Oriental, 1977
Milton Schinca, Mujeres desconocidas del pasado montevideano, Ediciones de la Banda Oriental, 1999
Milton Schinca, Boulevard Sarandí: memoria anecdótica de Montevideo, Ediciones de la Banda Oriental, 2003

25 de junho de 2019

Elogio ao Marechal Lecor (2019)


ELOGIO AO MARECHAL DO EXÉRCITO CARLOS FREDERICO LECOR, VISCONDE DA LAGUNA E GRANDE DO IMPÉRIO

(Lido por Jorge Quinta-Nova, a 24 de Junho de 2019, na Sessão Académica da Delegação de Portugal – D. João VI da Federação de Academias de História Militar Terrestre do Brasil)


Boa tarde

Em 1936, por ocasião de uma sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro evocativa do primeiro centenário da morte do Visconde da Laguna, o académico baiano José Wanderley de Araújo Pinho, após uma brilhante exposição, e humildemente penitenciando-se pelo que considerou uma análise superficial da figura histórica, convocou os académicos do futuro a que, "mais felizes, com todos os documentos à mão", fizessem o que ele faria se pudesse à altura.
Em 1984, quase cinquenta anos depois, o general brasileiro Paulo de Queiroz Duarte, ainda que não com todos os documentos – na verdade, a quimera do historiador, o ideal impossível, respondeu em grande estilo a essa convocação, com os três volumes de Lecor e a Cisplatina, publicados pela Biblioteca do Exército, uma obra seminal na compreensão não só do marechal Lecor, mas da intervenção portuguesa de 1816 no Rio da Prata.


Hoje, humildemente aqui perante vós, espero poder também de forma digna, mas resoluta, responder ao apelo de há 83 anos, adicionando a minha contribuição, portuguesa e europeia, para o conhecimento da figura histórica daquele que é patrono da cadeira que humildemente ocupo, o marechal Carlos Frederico Lecor, Visconde da Laguna e Grande do Império do Brasil. Muito há que dizer, mas tendo em atenção a vossa paciência e o meu tempo, tentarei ser breve e conciso.

*


Carlos Frederico Lecor nasceu a 6 de Outubro de 1764, em Santos-o-Velho, Lisboa, na rua do Pé de Ferro, onde a sua família então vivia. É o primeiro filho de Quitéria Luísa Marina Krusse e de Luiz Pedro Lecor, ambos provenientes de famílias mercantis recentemente imigradas em Portugal. 
D. Quitéria Marina Luísa, por parte do pai, uma Krusse, e por parte da mãe, uma Buys. Ambas estas famílias adotaram Portugal como o seu país e operavam negócios em Lisboa e no Algarve, assim como na provisão de munição de boca ao Exército Português em várias ocasiões.
Luiz Pedro, nascido Louis Pierre, era um imigrado francês, como tantos durante a época de D. João V, e como tantos também vinha com um ofício em mente, acabando por se dedicar ao comércio por necessidade. Luiz Pedro publicou alias, em 1747, um livro sobre a educação de meninos, que era ainda leitura recomendada e popular no início de oitocentos.

Lecor. Krusse. Buys. Os 3 apelidos têm todos assim origens internacionais: os Krusse de Hamburgo, os Buys da Hoorn, na Holanda, e os Lecor de Paris, França. Curioso será notar que dos 4 avós de Carlos Frederico, não há um único nacional português, senão Catarina Maria Buys, portuguesa de 1.ª geração, filha por sua vez de um holandês e de uma espanhola.

A ascendência quase toda ela não portuguesa de Carlos Frederico Lecor é algo que o marca em toda a sua vida e carreira, não só pelo seu aspeto físico, de traços exóticos – alto, loiro e de olhos azuis, mas também pelo tipo de educação que providencia, não só inspirada perfeitamente nos ideais iluministas do século XVIII, mas também na forte tradição protestante de alfabetização, combinada com um tipo de formação fortemente ancorada nas necessidades da atividade comercial da sua família.

*

Por volta da década de 1770, a família muda-se para Faro, onde aliás os Buys já tinham negócios. É aliás desta mudança que nasce a perceção geral, ainda que errada, que Lecor nasceu em Faro. Esta cidade é aliás a única cidade portuguesa que deu o seu nome a uma rua devido a esse mesmo facto. A justiça aqui foi fruto de equívoco, mas é ainda assim, justiça. Se a cidade onde Lecor nasceu de facto, ainda que com tantas ruas, não lhe presta essa homenagem, pois então que o equívoco se preste a que a cidade de adoção o tenha feito.

Enquanto os seus irmãos, João Pedro, António Pedro e Jorge Frederico, combatiam no Roussilhão, Lecor iniciava a sua vida militar como Pé de Castelo na fortaleza de S. António da Barra de Tavira. Aos 29 anos, muito mais velho do que era então norma, Lecor assenta praça de voluntário e jura bandeiras, perante um oficial e o capelão, a 13 de Outubro de 1793, exatamente quando se iniciava a aula regimental do coronel Sande de Vasconcelos, em Tavira, logo ao lado. O general Teixeira Botelho, que traçou subsídios para a história da Artilharia portuguesa, refere muito acertadamente que a carreira dele "não teve a regularidade habitual do seu tempo". Para um jovem vindo das classes mercantis, sem ascendência nobre, a Artilharia era a única opção que permitia o acesso ao oficialato. 

Apenas cinco meses depois, já sargento, Lecor ascende finalmente ao oficialato, sendo nomeado em Março de 1794 ajudante da Praça de Portimão, sendo posteriormente admitido ao 1.º Ano do Curso de Marinha, na Real Academia de Marinha, em Lisboa, que completa com mérito, então já 1.º tenente do regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve. 
De notar a propósito que, mais de 200 anos depois, em 2014, o Marechal Lecor foi o patrono do 43.º Curso de Formação de Sargentos, uma das poucas homenagens que em Portugal se lhe deu, e a única que o Exército Português lhe dispensou.

A rápida ascensão de Lecor nas fileiras é já manifesta desde o seu início, tendo por base a sua competência académica, ainda que não devemos esquecer a ligação a 'pessoas de qualidade', como era normal na 'sociedade de favores' do Antigo Regime.

Em finais de 1795, Carlos Frederico embarca na Nau Príncipe Real, no âmbito de um destacamento de artilharia do Algarve, e viaja para o Brasil pela primeira vez. É Salvador a primeira terra brasileira que conhece, e onde permanece brevemente até a esquadra retornar a Lisboa em Abril de 1796.

*

Fossem quais fossem os objetivos de Lecor, parece que estes já não passavam pela Marinha quando em 1797 é escolhido para capitão de infantaria da recém criada Legião de Tropas Ligeiras, comandada pelo marquês de Alorna. A Legião de Alorna, como também era conhecida, era uma unidade ligeira com o uso combinado das três armas, resultado prático dos ensinamentos da Campanha do Roussilhão. Se não era algo inteiramente novo no Exército Português, era todo um conceito inovador a esta altura e que causou grande resistência na instituição.

O marquês de Alorna, D. Pedro Portugal, é vital para compreender Lecor, pois é na alçada dele, e sob a sua mentoria, que o ainda relativamente jovem oficial começa a despontar. Sendo capitão da 8.º companhia, Lecor serve na Guerra das Laranjas, na área de Castelo Branco, sendo depois promovido a sargento mor em 1802.
Em 1806, quando Alorna é nomeado governador de Armas do Alentejo (e Lecor, aliás, seu ajudante de ordens, já como tenente coronel), fica a comandar interinamente a Legião até que o barão de Wiederhold toma o comando. Nesta altura, já Lecor é um relativamente experimentado oficial superior, ainda que as suas maiores provas se aproximem ainda no horizonte.

*

A 21 de Novembro de 1807, Lecor aparece pela primeira vez no radar da História, quando avista tropas francesas em Vila Velha de Ródão, junto ao Tejo. Sem ordens diretas do seu general, mas agindo de sua própria vontade, ainda que decerto em concertação com António de Araújo de Azevedo, parte imediatamente para Lisboa a avisar que os franceses vêm aí. Em Punhete, hoje Constância, aconselha as autoridades locais a desmontar a ponte de barcas sobre o rio Zêzere, o que vem a atrasar Junot por dois dias.
O que Lecor fez nestes dias foi fundamental para que o embarque da corte se pudesse fazer com mais tempo e mais segurança. É de apontar que apesar de o poder fazer, Lecor nunca desmentiu a versão popular de que terá agido sob as ordens de Alorna (“Vá, Sr. Lecor, até ao inferno, se for necessario, porque quero saber onde estão os Franceses: marcham, e não quero que nos surpreendam.”). Teve decerto o palanque, mas sendo um verdadeiro amigo do seu general, e tendo em vista a fama que este obteve de traidor, a partir de 1810, nunca o abandonou, a sua memória e a sua família.

Lecor demonstra estas características de lealdade com frequência durante a sua vida.

Em meados de 1809, já coronel e no comando de uma brigada de caçadores na área de Tomar e sendo convocado pelo general Beresford para Almeida, assim como quase todas as unidades de linha, é o único comandante que se digna a escrever ao general Miranda Henriques a avisá-lo. É o próprio general português que o refere em carta. Não me compete aqui aprofundar as questões políticas da altura, mas o dever de respeito e lealdade de um subordinado a um comandante, apenas Lecor, nessa ocasião, o levou a peito.

Em 1810, quando o Armée de Portugal, comandado por Massena, 'l'enfant cheri de la victorie', monta cerco a Almeida, Lecor, em observação sob o comando de Hill, tenta o contacto com Alorna, que acompanhava os franceses, propondo a Beresford que o deixasse tentar o velho amigo a retornar ao serviço português. O rigor britânico de Wellington e a séria ameaça da III invasão impediram esta tentativa. Lecor tentou, no entanto. Acreditava ainda na redenção do seu amigo.

*

Os breves meses que Lecor passou em Castelo Branco em 1801, defronte das forças de Leclerc, no tempo da Legião das Tropas Ligeiras, foram decerto vitais para a ação que levou a cabo como comandante militar da Beira Baixa, em três períodos distintos, entre 1809 e 1812. As relações com a população civil e as milícias nem sempre foram as melhores, mas Lecor destacou-se de tal forma, que no ano posterior à sua saída para o Exército de Operações, 1813, era publicamente recomendado na Gazeta de Lisboa que o novo comandante militar seguisse o modelo fixado por Lecor.

A retirada em Abril de 1812 de Castelo Branco face à aproximação da 2.ª Divisão de Clausel, foi feita sem mácula e na estrita obediência às ordens de Beresford, por oposição ao desastre da Guarda, em que as milícias fugiram em pânico, chegando a perder as bandeiras. É com esta ação que Lecor, já um estrela em ascensão há algum tempo, garante a definitiva passagem ao Exército que marcharia em 1813 sobre Espanha e França.

Ainda que Lecor tenha sido chamado a comandar a brigada portuguesa da recém criada 7.ª Divisão em 1811, conhecida como a divisão dos rafeiros, pelas suas muitas nacionalidades e cores de uniforme, foi logo nomeado novamente comandante militar da Beira Baixa. Em 1813, porém, de novo recebe este comando e desta feita para iniciar a campanha ofensiva luso-britânica sobre o norte de Espanha.

Muitos saberão, pois é bem conhecido, mas digo-o aqui, Lecor foi o único general português que teve o privilégio de comandar uma divisão anglo-portuguesa em combate. Fê-lo na batalha de Nivelle, em Novembro de 1813, quando o exército assaltou as fortificações de Soult a norte do rio. Era comandante interino, a mais ténue das posições, mas cumpriu, de novo, sem mácula, a sua missão. Começava já a trilhar áreas novas e desconhecidas.

Em dezembro de 1813, Lecor é o comandante da Divisão Portuguesa e o oficial português mais graduado no Exército de Operações, já em França. É nesta qualidade que comanda tropas na batalha do S. Pierre, a 13 de dezembro, alguns dirão a mais portuguesa das batalhas desta campanha, e ajuda a manter a linha nos altos de Mouguerre. Acompanhando a brigada do Algarve, ordena uma carga de infantaria de Infantaria 14, e ao fim desse duro dia é ferido ligeiramente.

Quando o Exército Português em Operações retorna a Portugal a partir de Junho de 1814, finda a guerra e deposto Napoleão, é Lecor que comanda todas as unidades, apresentando-se nas paradas em Lisboa com o seu estado maior. 

Quem afirmasse, 21 anos antes, que isto iria acontecer, seria decerto apodado de louco.  Filho de mercadores, ainda que de grosso e bem relacionados, formado na artilharia, agora o general mais graduado de um exército português vitorioso.
As guerras revolucionárias, que duraram duas longas décadas, mandaram abaixo muitos dos paradigmas e inauguraram de forma dramática toda uma nova era. O elemento social não foi diferente.

*

Já por duas vezes, o destino de Lecor se havia relacionado com o Brasil: em 1796, quando foi na esquadra do Brasil, mero tenente, a Salvador da Bahia, e em 1808, quando, em Plymouth, Inglaterra, já coronel, fugido da ocupação francesa de Junot, tencionava embarcar para junto da Corte, no Rio de Janeiro. Não viajou nesta altura, tendo retornado a Portugal em Agosto com a Leal Legião Lusitana.

Tangencialmente também devo fazer nota que em 1805, quando foi originalmente nomeado ajudante de ordens do marquês de Alorna, era a intenção que o seu general ocupasse o importante cargo de Vice Rei do Brasil, o que por razões políticas acabou por não acontecer.

O seu destino ficou definitivamente selado com o do Brasil  em 1815, quando foi nomeado Comandante em Chefe da Divisão de Voluntarios Reaes, uma força de quase 5 mil homens, que para aí foi enviada em 1816 com o fim último de invadir a Banda Oriental. Nunca mais abandonou o Brasil e aí viria a falecer.

Antes de partir, fez vacinar os seus homens contra a varíola, ou as bexigas, tomando-a ele próprio primeiro em frente de todos. Por esse ato, foi feito correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa, quando já navegava para o Brasil.

*


Para um português, habituado à sua terra, o Brasil era todo um novo mundo com 'aves das cores mais fantasticas' e 'planícies sem limites'. Como o futuro conde de Samodães, comandante do 2.º regimento, o pôs, “tudo n’este paiz é grande e maravilhoso”.

Desembarcado na corte, no Rio de Janeiro, pouco tempo lá ficou e dois meses depois, em Junho de 1816, partiu para cumprir a sua missão. 

Aliás, uma das maiores críticas que costuma ser feita ao general Lecor é a de desembarcar o grosso das suas forças na ilha de Santa Catarina e fazer o duro percurso por terra desde aí até à Banda Oriental. Falamos de 800 quilómetros por terra arenosa e erma. Muitos historiadores criticam-no por esse excesso de cautela e/ou falta de habilidade com tão fortes forças, mas recentemente encontrei uma nota do próprio rei, ainda no Rio, dizendo-lhe que não arriscasse os seus soldados no oceano. O inverno austral, as traiçoeiras águas do Rio da Prata e os perigosos ventos pampeiros aconselhavam cautela.
Seja como for, a cautela era preferível, até porque não havia concorrência. A expedição espanhola de Pablo Morrillo, que se destinava a Montevideu, havia sido desviada para a Venezuela e isso soube-se em meados do ano.
Não será de esquecer a importância da logística – uma lição que os oficiais portugueses aprenderam bem com os britânicos durante a Guerra Peninsular, que aconselhava Lecor a tomar o seu tempo.

Não me ocuparei dos heróicos eventos da Segunda Invasión Portuguesa, até porque a maioria deles ocorreram no teatro leste, no interior, onde as forças da capitania do Rio Grande combatiam o grosso oriental de Artigas, mas da lenta e segura aproximação a Montevideu que culmina na tomada da cidade a 20 de Janeiro de 1817. 
Apesar de usar o título de capitão general da Banda Oriental quando entra no território em finais de Novembro, é nesta altura que o passa a ser de facto. Nem toda a Banda Oriental se submete (tarefa que só será completada em 1810), mas o importantíssimo porto de Montevideu passa a estar em mãos portuguesas. Lecor não o saberá, mas ele é o responsável pela última aquisição de território do Império Português, ainda que isso apenas se torne oficial em 1821, com a anexação do território sob o nome de Cisplatina.

Nesse dia inicia ele aquilo que Falcão Espalter denominou de Vigia Lecor. 

O início do governo português em Montevideu marcou o fim de 6 anos de revolução e lutas intestinas, em que não só os independentistas lutaram contra os espanhois, mas entre si, divididos entre centralistas e federalistas. Ainda que não tenha sido imediato, o novo governador trás de novo a paz e prosperidade ao importante porto. A maioria da população de Montevideu, principalmente os que beneficiam do comércio (e em Montevideu eram quase todos, em diferentes níveis), recebeu Lecor com alívio, ainda que com alguma apreensão.
Mesmo Buenos Aires, que partilhava algum ideário com Artigas, acabou por não intervir e manteve o tratado que tinha com Portugal desde 1812.

O general Lecor, no entanto, revelou ser tudo aquilo que os orientais poderiam esperar. Toda a sua conduta desde que havia entrado na Banda Oriental era conciliatória. Alguns militares seus subordinados queixam-se da sua falta de agressividade, como Saldanha, mas de facto Lecor cumpria as ordens que tinha recebido. Não seria um conquistador só por ser um conquistador, mas tentaria ser um libertador, ou tanto quanto possível.

Tomás de Iriarte, um oficial argentino que o conheceu, diz dele que “no fué el idolo del pueblo, tampoco puede aseverarse que alimentasen contra él sentimientos de odio y reprobacion personal”.
Quem o conheceu nesta altura revela bem qual a postura política de Lecor. A historiografia uruguaia acompanha até hoje esta visão e não o alça a um tirano estrangeiro, mas no pior dos casos, um mal necessário. Muitos vêm nele mais vantagens que desvantagens, apesar de ser um invasor.

A sua figura física não negava o soldado endurecido nas campanhas europeias, mas não lhe faltava urbanidade ou cortesia. Sem manifestar um afetação de maneirismos, era afável e complacente, sem que perdesse o respeito de quem lidava com ele. Lecor conseguia complementar o seu semblante sério e marcial com a compostura de um homem culto e habituado à alta sociedade.

*

Em 1822, veio a independência do Brasil e, decerto, a decisão mais monumental que Lecor tomou na sua vida: a de a apoiar na pessoa do Principe D. Pedro, então regente do Brasil. Lecor teve a plena noção do significado da sua decisão, e tomada essa decisão, assumiu-a como sua. Pesem embora outra fatores, como ter casado em 1818 com D. Rosa, uma dama montevidenha, sentiu claramente uma forte afinidade com o projeto brasileiro.
Associado a isso, e como escreveu em carta a José Bonifácio, reagiu aos “planos evasivos do partido Espanhol, dominante nas Cortes, porque no duro cativeiro de S.M.F. nada me parecia mais digno do que obedecer a Seu Augusto Filho”.

O capitão general da Cisplatina não esqueceu também decerto a luta intestina de muitos dos seus subordinados enquadrado no famigerado “Conselho Militar”, e que levava a Divisão de Voluntarios Reaes a um ponto de insubordinação intolerável.

Como Lecor refere, essa decisão foi daquelas que um homem como ele só poderia tomar uma vez na vida. Nesse mês de Setembro de 1822, o seu compromisso com o Brasil foi assumido de corpo inteiro. O general passava a ser um dos “heróis da brasileia liberdade”, conforme nos dita um poema épico escrito anos depois.

*

Em Abril de 1826, é nomeado Comandante em Chefe do Exército do Sul, no âmbito da Guerra da Cisplatina. Chega ao Rio Grande em Agosto, onde é recebido como um herói pelo povo gaúcho, como já o havia sido em 1816.
Não tem tempo de fazer obra, pois D. Pedro exonera-o apenas um mês depois, substituindo-o por Barbacena. A fria receção que recebe do imperador em Porto Alegre é decerto um dos pontos mais baixos da sua carreira.

Os argentinos, porém, ganham ímpeto no conflito e as forças brasileiras sofrem uma derrota no Passo do Rosário, em Fevereiro do ano seguinte. Em Agosto de 1827, o visconde da Laguna, no Rio de Janeiro, é de novo nomeado Comandante em Chefe e retorna ao Rio Grande. Encontra um exército desorganizado e desmoralizado e propõe-se, desde logo, a reformar o contacto com os negociantes locais, de forma a garantir o sustento e transporte. O seu crédito e reputação política é ainda enorme no Rio Grande e todos nutrem por ele uma enorme simpatia.
Durante o ano seguinte, Laguna mantém o Exército do Sul intacto, novamente acusado de inação ou até covardia. Os seus subordinados apelidam-no de Cuntactor Segundo, o adiador (como o romano Fábio Máximo Cuntactor que evitava combater Aníbal na II Guerra Púnica). O epíteto se não é, em termos marciais, o mais elogioso, não é também o mais ofensivo. Era o requerido para a defesa do Rio Grande, de forma a deter quaisquer incursões argentinas.

Quando a paz vem em 1828, o Visconde da Laguna já não é um homem novo, tem 64 anos, mais de 30 passados no Real Serviço, muitos deles em campanhas. É claramente o fim da sua carreira. Retorna de vez ao Rio de Janeiro e reforma-se como Marechal do Exército.
O seu último comando revela mais um pouco do homem. Em 1835 , a regência nomeia-o comandante superior da Guarda Nacional do Rio de Janeiro; um cargo simbólico, mas demonstrativo de que mantinha a confiança do Brasil, mesmo após a abdicação de D. Pedro.

Carlos Frederico Lecor, Visconde da Laguna e Grande do Império, fecha os olhos pela última vez a 2 de Agosto de 1836, na sua casa junto à ponte do Aterrado, no Rio de Janeiro. É enterrado nas catacumbas da Igreja de S. Francisco de Paula.

*

Concluo aqui o meu elogio a esta extraordinária figura histórica, algo extenso e espero que não muito maçudo, com a esperança de lhe ter honrado a memória de soldado, que pertence tanto a Portugal quanto ao Brasil. Espero ter também ajudado ao conhecimento de um homem assaz desconhecido, quase criminalmente, num e noutro lado do Atlântico, mas daqueles que sem grande alarido, mas com grande competência, lealdade e devoção, ajudou à grandeza dos nossos dois países. 

Muito obrigado pela vossa atenção.