29 de maio de 2008

Unidades de Lecor I - Regimento de Artilharia do Algarve

Regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve

Apesar de alguns autores indicarem que Carlos Frederico Lecor terá iniciado a sua carreira militar como soldado pé-de-castelo (artilharia miliciana de guarnição) na praça de Tavira, tendo progredido como cabo e sargento, e outros que terá assentado praça no regimento algarvio de artilharia como cadete, a verdade é que só há notícia certa dele como Ajudante da praça de Villa Nova de Portimão em 1794, um ou dois anos (conforme as fontes) após assentar praça. Servia como oficial adjunto ao governador da praça algarvia.

Em 2.12.1794, é superiormente sancionada a troca de Carlos, em Portimão, com um 1.º Tenente da 9.ª companhia de artilheiros do Regimento de Artilharia do Algarve, António Pimentel Vabo. Só podemos pensar que Lecor era 1.º Tenente ou equivalente à altura da troca. Seja como for, começou ele então a servir neste regimento ininterruptamente até que passou à Legião de Tropas Ligeiras, em 1797 (que analisaremos no 3.º post desta série).

Acontece que os regimentos de artilharia da altura, quatro (o da Côrte - Lisboa, o do Porto, o de Estremoz e o de Faro) não eram regimentos no sentido em que o eram os de infantaria e cavalaria, mas mais unidades administrativas que geriam os recursos artilheiros conforme as necessidades. As necessidades passavam pela guarnição dos fortes e praças, assim como o fornecimento de equipas de artilheiros às naus da nossa Armada.

O Regimento de Artilharia do Algarve começou a ser organizado em Setembro de 1774. Incumbido da organização estava o Coronel Diogo Ferrer, do Regimento do Porto, que veio para Faro, e que concluiu a tarefa nos inícios de 1775. Este regimento, como os outros de artilharia, de acordo com o alvará de 1766, era constituido por 12 companhias, 9 de artilheiros, uma de bombeiros, uma de mineiros e uma de artífices e pontoneiros. Como nos regimentos de infantaria a 1.ª, 2.ª e 3.ª companhias eram respectivamente comandadas pelo Coronel, Tenente-Coronel e pelo Sargento-Mor (isto até 1796).

O regimento nunca teve um quartel, ficando os seus integrantes alojados pela cidade de Faro. Sobre a sua constituição em 1791, diz o Conde de Val de Reys o seguinte: “... naquele regimento se acham 141 praças incapazes de continuar o real serviço, comprehendo nelas 54 por serem viciosos, debeis e mal figurados, e 87 por terem moléstias reputadas incuráveis”. Falamos de um quarto da força total de cerca de 643.

A situação deste regimento deteriou-se ao ponto de do Brigadeiro Bernardim Freire, numa inspecção em 1803, indicar que a aula regimental não funcionava desde que o Coronel Costa Cardoso tomara o comando, em 1793, entre variadíssimos outros problemas. O maior problema porém, que afectava a disciplina e qualquer espírito de corpo, era que grande parte do regimento era destacado para fora da cidade de Faro, por vezes por anos a fio, muitos embarcados nas esquadras portuguesas dessa altura. Num mapa de 1801, verifica-se que andavam embarcados desde Setembro de 1796 nos corsários Tigre e Onça, destacamentos do regimento; e no Milhafre e canhoneira Lobo, outros desde Maio de 1798.

O próprio Lecor é destacado para servir como oficial artilheiro na Nau Príncipe Real (com 90 peças, a maior nau portuguesa da altura) na chamada ‘Esquadra da Bahia’ formada em 1795, comandada pelo tenente general Bernardo Ramires Esquível para proteger um comboio comercial vindo do Brasil para Portugal. Será o seu último acto como oficial de artilharia, e como Napoleão (comparação algo inédita, mas pronto) parte para outros voos. Falarei do pouco que sei desta aventura no próximo post desta série – a Esquadra da Bahia.

Sobre os comandantes deste regimento, há que referir os dois que dizem mais respeito ao nosso jovem Carlos Frederico Lecor: primeiro, o Brigadeiro Teodósio da Silva Reboxo, que comandou o regimento de 1783 até 1793, muito conceituado dentro da artilharia e que contribuiu fortemente para uma certa fama da aula regimental. Pelas datas, é pouco provável que Lecor tenha servido debaixo das suas ordens e mesmo assim terá já sido numa fase de declínio. Segundo, o Coronel Costa Cardoso, que terá encontrado o regimento bastante desorganizado, o quartel-mestre demente fazia um ano, os livros em desordem.

Assim era o estado da artilharia portuguesa na década de 1790, e em geral apenas representativo do geral estado do Exército Português antes dos desastres de 1801 e 1807.

18 de maio de 2008

Onde está o Lecor?

Revista das Tropas Destinadas a Montevidéu na Praia Grande (7 de Junho de 1816)
autor: Jean-Baptiste Debret

A minha questão toma a forma de um desafio:

Onde está o Lecor?

A Lenda da Ponte sobre o Zêzere (II)


O caro leitor, permitindo-me que retome a questão da ponte de barcas sobre o rio Zezere, sabe decerto que toda a lenda tem o seu fundo de verdade, ou como se costuma dizer, onde há fumo, há fogo. Já verificámos que Lecor estava presente na área, mas com ordens que não passavam pela destruição de coisa alguma, mas o reconhecimento em busca da vanguarda de Junot. Ao descobrir essa vanguarda, pôs-se em marcha para Lisboa.

Mas de facto, onde há lenda, é porque há elementos, pelo menos dois, que coincidem no espaço e no tempo, convergindo e fundindo-se numa história.

Ora o exército de Junot, que virá a tomar o título de Exército de Portugal daí por um mês, já em Lisboa, teve realmente uma oposição feroz aquando da invasão - o Tempo. Passando por dificuldades até Abrantes e Punhete, principalmente a artilharia, mas em geral todas as armas, vem a vanguarda francesa descobrir que a célebre ponte de barcas sobre o Zêzere estava destruída, não pelo tenente-coronel Lecor, mas pelo próprio rio.

A ponte de barcas havia sido levantada aquando da Guerra das Laranjas, em 1801, e frequentemente acabava destruída pelo rio no pleno das chuvas de inverno. Várias vezes, de 1801 a 1807, a engenharia militar portuguesa apresenta os seus orçamentos para uma nova reconstrução. Lá se reconstruia e logo as chuvas retomavam a ofensiva anual.

Os Franceses, ao detectarem a ponte destruída, encarregaram o capitão Mezeur, um grupo de sapadores e mineiros catalães e também um destacamento francês, para que a reparassem. Tanto Maximilien Foy como Acúrsio das Neves indicam que as operações de reparação duraram a maior parte desse dia, atrasando de facto as forças franco-castelhanas. A força do rio Zêzere, assim como a subidas das suas águas, tornou a misssão extremamente difícil, causando algumas baixas entre os trabalhadores. A reparação da ponte só se dá por finda, após já metade das forças invasoras terem passado o rio de barco.

Acúrcio das Neves, dando-nos o benefício de o ler desde 1811, tão próximo dos acontecimentos, desmente uma versão circulada em que muitos franceses haviam morrido afogados durante as operações de reparação. Serve isto para nos mostrar o poder da lenda, ou do boato, consoante estamos longe ou perto no tempo. De facto, poucos invasores terão morrido afogados, mas do pouco a imaginação faz muitos.

Pela mesma altura em que a ponte era reparada, Lecor, o nosso heroi, estava em novo reconhecimento, já após ter avisado o governo. Tinha por missão continuar a avaliação do exército inimigo. Do Cartaxo, após ter ido à Golegã, relatou que o inimigo se encontrava ainda em Punhete e não é provável que chegue a Santarém antes do próximo dia. Acrescenta que os campos da Golegã estavam impraticáveis.

Esta mensagem será já recebida pelo Governo, embarcado no Tejo, esperando ventos para o Brasil.

Parte I em http://lecor.blogspot.pt/2008/05/o-mito-da-ponte-sobre-o-zzere.html

A Lenda da Ponte sobre o Zêzere



Corriam os últimos dias de Novembro de 1807, mais especificamente o 23, quando Carlos Frederico Lecor, nosso heroi, topou a vanguarda do Exército Francês na zona do Sardoal, a caminho de Abrantes. Como lhe fora ordenado pelo General Marquês de Alorna, a sua missão era clara, correr a avisar o governo e o Príncipe Regente. Fê-lo, de Abrantes a Lisboa (ao palácio real da Ajuda, diz-nos Luz Soriano), em 30 horas.

Aparece-nos, já havia dito noutro post, o tenente-coronel Lecor pela primeira vez na história, e de forma bombástica. Não só disse "Vêm aí os Franceses!", como todos diziam, mas disse especificamente aonde eles estavam e em quanto tempo chegariam a Lisboa.

Esta cavalgada foi uma de esforço, feita por um homem que sabia bem o valor da informação que tinha. O 5.º Marquês de Fronteira lembra-se, nas suas memórias, da noite em que Lecor parou no palácio em Benfica, sujo, cansado e trazendo cartas do tio Alorna. Impressões fortes num moço de 6 anos, então já Marquês.

Mas heis que numa história de competência e devoção ao serviço aparece o mito, do nada, escorreito e nas brumas da tradição oral. Ou isso ou erro crasso, prefiro o mito do heróico filho da Pátria:

«
Cette nouvelle fut apportée à Lisbonne par le lieutenant-colonel Lecor (Charles-Frédéric), qui avait fait détruire le pont sur le Zezere, ce qui retarda de deux jours la marche de Junot». Benjamin Mossé, Dom Pedro II – Empereur du Brésil, 1889 - p. 4

Lecor, vendo a gravidade da situação e para preservar a Rainha e a Santa Religião, destruiu a ponte de barcas sobre o Zezere, junto a Punhete (hoje Constância). É imaginá-lo, na margem oposta, luminoso, passando a sua espada nas últimas cordas e empurrando as barcas para que se juntassem ao Tejo, um pouco mais a jusante.

A verdade é que se Lecor fizesse isso, seria um mau oficial, não só actuando sem ordens, como eliminando uma passagem estratégica tão importante para franceses como para uma eventual defesa portuguesa; ainda que ele próprio já soubesse não haver planos nem força para uma defesa. A missão dele era clara e cumpriu-a.

No entanto, o desejo e necessidade de herois no Portugal daquele momento era grande. Era importante ter homens que sozinhos conseguissem parar os franceses, pela sua inteligência e coragem.

Fica pois esta imagem de Lecor destruidor de pontes, atrasador de invasores, Heroi com H grande. O único que resistiu aos franceses, que ignorou ordens e simplesmente resistiu.

Mas não é assim Lecor; Lecor obedeceu às ordens e, meus amigos, era disto que Portugal, apesar de tudo, precisava e que finalmente em 1809 e até 1814 veio a dar muito jeito.

Parte II em http://lecor.blogspot.pt/2008/05/lenda-da-ponte-sobre-o-zzere-ii.html

Vide Post sobre o mesmo assunto aqui.

17 de maio de 2008

Tenente-coronel Santo António


"Imagem de Sto. António, que acompanhou o Reg. Inf. 19 na Batalha de Vitória, como em todas as acções em que esta unidade tomou parte. D. João, Príncipe Regente, conferiu-lhe o posto de tenente-coronel, tem ao peito a medalha da guerra peninsular. (Do Museu Militar) (Cliché V. Rodrigues)" - Gen. Ferreira Martins, História do Exército Português, p. 290.

No meio disto tudo, o menos importante é o facto da medalha ser a Cruz para sargentos e praças, quando o santo é suposto ser oficial...

Saiba mais em no blogue "Lagos Militar" [1] [2]

14 de maio de 2008

1816-1971


Aqui temos duas condecorações militares portuguesas. Uma, a da esquerda, foi criada em 1816; a outra, em 1971. A primeira, depois de uma guerra, a segunda, durante uma guerra. Entre as duas existem 155 anos, durante os quais Portugal se alterou drasticamente; muito mais do que se pode até inicialmente pensar.

A primeira é a Cruz da Guerra Peninsular, que tanto podia ser em ouro como em prata; a segunda é a 2.ª mais alta condecoração actual que se pode ganhar por feitos em campanha - a Medalha de Valor Militar. Esta segunda condecoração existe desde 1863, mas em 1971 assumiu esta nova forma. De acordo com os novos cânones sociais, esta medalha já vem em ouro, em prata e em cobre.

O propósito deste post é mostrar simplesmente a ligação, não só falerística, pois não conheço nada sobre a razão de ser, nem tampouco o nome do artista que ilustrou a reforma de 1971 das medalhas militares portuguesas (ou, já agora, do artista que fez o desenho de 1816). Assim, resta-me mostrar esta imagem que eu montei e especular um pouco sobre as raízes do moderno Exército Português que se vê reflectido de uma forma simbólica, num pastiche homenagem de sabor pós-modernista, nos gloriosos momentos que teve de 1808 a 1814; de reencontro com si mesmo num novo espaço social, onde não mais a nobreza teria o seu espaço assegurado, mas em que um simples camponês poderia fazer a diferença pelo seu país, nas serras tempestuosamente ondulantes de Trás-os-Montes.

Seja um grupo de camponeses de chuços bramindo liberdade, seja a saga dos burgueses Lecor ou dos pequenos proprietários Azeredos, Saldanhas ou Avillez, a medalha de Valor Militar, ainda em efectividade, serve para nos lembrar da importância da Guerra Peninsular, naquilo que ela transporta de glória e valor, mas fundamentalmente do nascimento do Portugal contemporâneo, em que vivemos e que foi pago em sangue há 200 anos.

A de 1971 lembra-nos os mesmo jovens, 155 anos depois, lutando noutros cenários, sobre outras circunstâncias, mas os mesmos portugueses, os mesmos camponeses, os mesmos burgueses, todos nobres, com a cruz pátea, a abelheira no topo, os mesmos louros frutados, o mesmo brasão nacional...

12 de maio de 2008

Um dia a lembrar...

No final da Guerra Peninsular o Exército Português de Operações retornou a Portugal, tendo cá chegado em finais de Agosto de 1814 (provavelmente no dia 25). Uma testemunha, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, 5.º Marquês de Fronteira, então com 12 anos de idade, deixou escrito o seguinte:

"A entrada dos corpos foi brilhantissima. Recordo-me de vêr entrar os Regimentos de Cavallaria n.º 1 e n.º 4, commandado este pelo bravo Conde de Penafiel que, apesar da sua grande fortuna e independencia, fez todas as campanhas da Guerra peninsular, os Regimentos de Infanteria n.ºs 1, 4, 13 e 16, sendo o 13 commandado pelo jovem João Carlos de Saldanha, hoje Duque de Saldanha, que apenas tinha vinte e quatro annos, e um numeroso parque de artilharia. Á frente d'esta brilhante columna vinha o General Lecor seguido d'um bello Estado Maior e de muitos officiaes superiores que, tendo feito a Guerra peninsular, mas não estando nos seus corpos, se agregaram ao Estado Maior para gozarem, e com justiça, das honras d'aquelle dia.
Foi por esta occasião que vi, pela primeira vez, o General Luiz do Rego que tanta gloria adquiriu durante a guerra. Estava na força da edade e tinha o ar marcial que sempre o caracterizou. Foi saudado pelos habitantes de Lisboa com grande enthusiasmo.
Os corpos mal tinham espaço para desfilar por secções, porque o povo era tanto que, a todos os momentos, interrompia a marcha. Vi os porta-machados do Regimento 4 e uma parte da companhia de granadeiros, levados em triumpho nos braços do povo, quando passavam pela frente do palacio onde estavam os Governadores do Reino, numa das varandas".

fonte: Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto (v. 1), Coimbra: Imprensa da Universidade, 1926 (1861) - pp.131-132.

Noutro sítio, aqui, levantado pelo Prof. Mendo Castro Henriques, pode-se ler também o testemunho de Manuel José Maria da Costa e Sá, do qual destaco duas pequenas histórias deste ajuntamento, ao mesmo tempo as maiores do mundo para quem as viveu e para quem as lê hoje:

"Uma Velha de maior idade, dirige-se ao Rossio, ali pergunta por dois Filhos, que parece tinha no Regimento N.° l de Infantaria, sabe que são ambos mortos, e com uma energia verdadeiramente expressiva levanta as mãos aos Céus, “Bendito sejais DEOS. Pai meu, (diz), que mos concedeste para acabarem no seu Serviço, e no do meu Príncipe”: e mudança alguma mais se lhe observa: a outra, um Soldado que se apresenta, ao passar o Regimento N.° l de Infantaria, sem uma perna perdida em combate; "este" diz hum Indivíduo dos circunstantes, "mostra ter encarado os Inimigos", “Sim Senhor..”, responde ele, “…mas fiquei impossibilitado de o poder encarar muitas vezes, pois perdi esta perna no principio da Campanha, e fiquei inútil, e não pude colher bastante gloria, paciência”, dizia lacrimejando, “mas ainda encostado a um muro, como tenho os braços sãos, posso mostrar que sou Português” (...)".

9 de maio de 2008

Coisas que nunca mudam...

Illmo. e Exmo. Senhor

As tristes circunstâncias, em que me acho, me obrigão a hir por este modo pedir a V. Exª. a mercê de ouvir meu irmão Carlos Frederico Lecor, a quem tenho encarregado aprezentar a V. Exª. o meu requerimento, e documentos juntos; e igualmente expor a V. Exª. que sendo eu o unico ofecial de Artilharia que pedio a sua demissão para não servir com os Francezes, nem por isso tenho comseguido aumento no Serviço capaz de dar a perciza manutenção. Deus guarde a V. Exª.

Albufeira, 12 de Dezembro de 1814


De V. Ex.ª
Subdito Obediente

João Pedro Lecor

Esta carta é auto evidente e insere-se em inúmeras outras que já li, onde o Estado não paga o que deve aos militares. Há coisas, portanto, que nunca mudam...

Por outro lado, fica claro que João Pedro Lecor era Governador da Praça de Albufeira, e Major, até esta data, e muito provavelmente até rumar a Belém, integrado na nóvel Divisão de Voluntários Reais do Príncipe (vide post anterior "João Pedro Lecor" - Março 2008).

6 de maio de 2008

As Famílias Lecor, Krusse & Buys

O período formativo de Carlos Frederico Lecor passou-se, em maior ou menor medida, no seio de 3 famílias, todas ligadas entre si, pertencentes aquilo que se convenciona chamar de burguesia mercantil. Primeiro, a própria família Lecor, formada por Louis Pierre e D. Quitéria, pais de Carlos. Por parte da D. Quitéria temos a família Krusse (também grafada Kruse ou Cruzi) e a família Buys (grafada também Buiz, Buis ou Buyz).

A mãe de Carlos, D. Quitéria Marina Luísa, era por parte do pai, uma Krusse, e por parte da mãe, uma Buys. Ambas estas famílias operavam negócios em Lisboa, mas fundamentalmente no Algarve, onde entre outras coisas mantinham Caíques (barcos tradicionais do sotavento algarvio, e que deram supostamente origem às caravelas) que transportavam cereais de Mértola para Faro e daí para Lisboa.

Ora, com base nas localizações de nascimentos, casamentos e mortes, consigo estabelecer um triângulo geográfico onde posso localizar o tal período formativo de Carlos Frederico: Lisboa, no ângulo superior, e Portimão e Faro, nos inferiores. Cada cidade está relacionada com uma das famílias;

- Os Krusse originalmente de Portimão, terão ido para Lisboa após o terremoto de 1755; tinham negócios em Faro;
- Os Buys, com negócios e moradia em Faro (juntamente com os Krusse);
- & os Lecor, inicialmente estabelecidos em Lisboa, mas cujos filhos todos acabam em Faro, o que explica o facto de todos se terem alistado no Regimento de Artilharia aí sediado.

Os 3 apelidos têm também origens internacionais, sendo os Krusse de Hamburgo, os Buys da Holanda e os Lecor de Paris. Curioso será notar que dos 4 avós de Carlos Frederico, não há um único nacional português, excepto talvez Catarina Maria Buys, portuguesa de 1.ª geração, filha por sua vez de um holandês e de uma espanhola.

Assim, serve este post de introdução a outras personagens que iremos falar no futuro, tais como o tio-padrinho, Carlos Frederico Krusse; a irmã de Carlos, D. Maria Leocádia Leonor e o seu marido, João Pedro Buys (por sua vez sócio de Carlos Frederico Krusse); ou o jovem alferes Carlos Ernesto Krusse que morre em combate a 19 de Novembro de 1816, na chamada batalha de India Muerta, ao serviço da Divisão de Voluntários Reais, na Banda Oriental.
Não esquecerei também Vicente Antônio Buys, artilheiro, que acompanhou Lecor na escolha do serviço brasileiro (daí o acento circunflexo, à moda americana).

2 de maio de 2008

“Em hum dos dias do mes de Outubro...”


“Em hum dos dias de Outubro” , como se lhe referem as testemunhas, não se lembrando do dia exacto, 1809, o coronel Lecor (ou ‘Licores’, como lhe chama o corregedor Manuel Gomes Ferreira Valente), ao ver recusadas cavalgaduras por parte do mestre-de-portas de Azambuja [na foto, o centro de Azambuja] - puxa “da sua espada, insultando-o ao mesmo tempo de palavras”. De acordo com as informações que o corregedor recolhe das várias testemunhas, “chegou o referido Coronel (Licores) ao excesso de lhe dar huma bofetada”.

Tendo a queixa sido inicialmente feita pelo próprio coronel ‘Licores’, o corregedor Manuel Valente havia-se deslocado à vila de Azambuja, demitira o Mestre-de-Portas, Isidoro José Correia, e ouvira 31 testemunhas. Como resultado da sua inquirição, chegou à conclusão que, de facto, o coronel ‘Licores’ espetou uma 'galheta' ao Sr. Isidoro Correia, não sem antes o ameaçar bradando a espada no ar.
Vale como atenuante ao nosso amigo ‘Licores’ que as testemunhas referiram insistentemente que o Mestre-de-Portas tinha o irritante hábito de não mostrar qualquer respeito pelos vários oficiais do Exército que por ali passavam. Isto é, as poucas que viram algo ou se lembravam efectivamente de ter visto algo acontecer.

Para o coronel ‘Licores’, nosso herói e sujeito do blogue perante vós, o resultado poderia ter sido pior, mas foi mau. Levou, através de D. Miguel Pereira Forjaz, uma piçada real, do Príncipe Regente Dom João, datada de 1 de Fevereiro de 1810:

Constando ao P.R. N. Sr. por Devassa, a que mandara proceder sobre a representação de V. Me. contra o Mestre de Portas da Villa d’Azambuja, que tendo este justamente recusado dar as Cavalgaduras que V. Me. lhe pedira quando por ali transitou em Outubro do ano próximo precedente, visto que se lhe não mostrava titulo que autorizasse huma semelhante requisição, passara V.Me. ao excesso de puxar pela espada em acção de maltratar, insultando-o justamente de palavras injuriosas: He S.A.R. servido mandar estranhar a V.Me. hum tão desagradável e irregular procedimento, esperando que pª o futuro haja de conter-se nos limites da moderação e prudência que sempre devem regular as acções de hum official militar.

Nessa altura, a pressão francesa sobre as fronteiras portuguesas faz-se sentir cada vez mais. O espectro de uma terceira invasão, mais forte que qualquer uma das anteriores está na mente de todos. A batalha de Talavera e consequente retirada para Portugal estava ainda fresca de meses.
O trabalho do Marechal Beresford de reformar o Exército Português e enquadrá-lo nas tácticas e práticas britânicas tinha começado apenas há alguns meses e esse mesmo Exército carecia ainda de confiança e experiência de combate face aos temíveis Franceses que controlavam a Espanha de Sul a Norte.

Apesar do povo português pouco demonstrar no exterior, próprio da raça, o medo estava no ar, ainda que por vezes mascarado de indiferença. “Os Franceses vêm aí!” Os militares sabem-no melhor que ninguém, principalmente os colocados na fronteira, em contacto com cidades e vilas extremenhas.
Passará ainda pouco menos de um ano até uma batalha começar a alterar tudo isso – Buçaco, onde por cada britânico morre um português, nem mais nem menos. Fica assinada em sangue, suor e coragem a mais velha aliança da Europa.

Carlos Frederico Lecor seguiu o seu percurso de sucesso...
Isidoro José Correia foi readmitido ao serviço e pouco admirará que outro oficial tenha também perdido a paciência...
Não sabemos se o Corregedor da Comarca de Santarém, Manuel Gomes Ferreira Valente, alguma vez veio a saber escrever o nome ‘Lecor’, ou se se acomodou ao mais familiar ‘Licores’...