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23 de setembro de 2018

Carta da Viscondessa da Laguna à cunhada, D. Inés (6 de Dezembro de 1836)


Carta da viscondessa da Laguna, Rosa Maria Josefa Deogracias de Herrera y Basavilbaso Lecor, à sua cunhada, Inés Pérez Muñoz, quatro meses após o falecimento do visconde, Carlos Frederico Lecor.

"Rio Janeiro 6 de Diciembre de 1836.

Mi querida hermana

Mucho te agradezco el interés q.e tomas en mi desgracia. El estado en q.e ha quedado mi corazón és ciertamente digno de lástima mi cara Inés, yo quería mucho al Visconde y era por el idolatrada, ¿que mas podía apetecer ni q.e me podrá hoy consolar? 

Mas en fin, querida Amiga, esto mismo me alivia, porq.e nunca puede ser una Muger tan querida sin merecerlo; así pues, la idea de haber hecho su felicidad, me conforta, y el cariño de ustedes me hará pasar el resto de mi vida conforme y tranquila. 

Estimo mucho el estado de buena salud de mis sobrinitos [Juan José, Luis Pedro, María, y Alfredo de Herrera y Perez], así como el cariño q.e has sabido infundirles hácia mi. Los hijos de mi hermano [Luis] siempre serían muy caros a mi corazón querida Inés, mas siendo estos tambien tuyos, tienen mucho mas derechos a mi cariño, y te aseguro, q.e siento por ellos un afecto q.e no te puedo explicar, así como el deseo de conocerlos y abrazarlos. 

Entre tanto que no llega ese dia, dispon como gustes dela verdadera amistad q.e te profesa tu Hermana y antigua Amiga, ROSA"

(Archivo particular de la señora Manuela de Herrera de Salterain, Montevideo).

In: Salterain y Herrera; Eduardo de, "Lavalleja, La Redención Patria" in: Revista Historica, Periodico del Museo Histórico Nacional, Año L - (2.ª época) 1 - Tomo XXV, Montevideo, Marzo de 1956 - Nos 73-75. p. 68

Imagem
Igreja de S. Francisco de Paula, Rio de Janeiro in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Igr_lgo_s_francisco_rj.jpg


26 de janeiro de 2018

Soldados Velhos não Morrem…


‘Quem sois vós? Eu sou um homem. Que cousa é hum homem? He hum animal que discorre.De que he composto o homem? De hum corpo mortal, e de huma alma immortal.’ 
Luiz Pedro Lecor, Lição preliminar. Educação de Meninos, 1746


Rio de Janeiro, 4 de Agosto de 1836

É noite. O cortejo fúnebre move-se lentamente pelas ruas. Por cada igreja onde passa, desde o seu início, na rua do Aterrado, junto à ponte, até à Igreja de S. Francisco de Paula, no centro da cidade, os sinos tocam em reverência ao ilustre defuncto. Entre as pessoas se vai sabendo de quem se trata. O visconde da Laguna – Carlos Frederico Lecor. Licor. Licores. Benzem-se e ajoelham-se. ‘Que belo cortejo, santo homem’, dizem. 

Alguns, mostrando reverência, não deixam de contar menos um português, ainda com os acontecimentos de 1831 frescos na memória, mas também vendo passar um Marechal do Exército Brasileiro, fiel desde o início ao imperador D. Pedro e à Regência depois.

Chegando ao espaço aberto do Campo de Santana e passando entre o poço e a igreja paroquial, mais facilmente se pode observar o conjunto fúnebre. 
Na frente, duas filas paralelas de homens, empunhando tocheiras acesas, marchando vagarosamente; logo atrás, o coche, a dois cavalos, carregando o caixão. Atrás deste, uma carruagem, levada por quatro cavalos; nela, a viúva, D. Rosa, o irmão, Brigadeiro João Pedro, a sua esposa D. Erigida, e o padre cura de Santana, paróquia do falecido.


Rossio, Rio de Janeiro, Jean Batiste Debret

Os dados são escassos quanto ao percurso que foi tomado, mas não é difícil pensar numa passagem pelo Rossio (atual Praça Tiradentes, então Praça da Constituição), de onde, nessa altura, se avistava os imponentes campanários da igreja de S. Francisco, o destino final, ao alto, virados a Norte.

À porta da igreja, no largo, os convidados esperam a chegada do coche transportando o visconde. Esperam-no para a derradeira despedida, o último ato público do marechal. O ambiente de tristeza é emoldurado pelos muitos uniformes imperiais, o desbroados dourados, as condecorações.

Da mesma forma que o seu padrinho, em Faro, também a devoção a S. Francisco levam Carlos Frederico, crente, a ser enterrado na sua última morada das catacumbas da igreja. Também o seu irmão João Pedro, agora vivo e enlutado, será, oito anos depois, ali chorado e sepultado, perto do irmão mais velho.


* * *

Igreja de São Francisco de Paula, Rio de Janeiro (wikicommons

Dies magna et amara valde

Não se percebe claramente nos presentes, mas há em muitos deles, soldados, naquele momento, as memórias do Sul, da Cisplatina e Montevidéu. Em alguns até, memórias mais antigas da fase final da guerra peninsular, dos campos de Saint Pierre de Irube, de Toulose e Zugarramurdi. Em poucos, já, as memórias, apesar de tudo não tão distantes assim, de Castelo Branco, da Ponte de Murcela, de Alhandra, ou até mesmo das guarnições do Algarve, onde foi soldado.

É quando alguém morre que finalmente pensamos no que fez, e no que foi. A morte de alguém impere-nos ao perfeito, à conclusão do ciclo, à possibilidade de concluir. Na conversa entre camaradas, à espera do cortejo fúnebre, a vê-lo chegar às escadarias, essas memórias ganham ainda mais vida, trazendo ao presente esse perfeito que a morte permite. Ao parar o coche, porém, calam-se as vozes e despede-se o homem que cessou. O caixão entra.

A encomenda do corpo é conduzida pelo reverendíssimo Procomissário da Ordem Terceira de S. Francisco, acompanhado de 24 sacerdotes, além do pároco de Santana, e quatro sacristãos. A cerimónia decorre no fausto apropriado, seguida por um Libera Me de música, acompanhado intensamente pelos presentes. 
A peça musical poderia muito bem ser o nono responsório do padre José Maurício Nunes Garcia, seu contemporâneo, muito apreciado na corte, onde também Sigismund Neukomm, mais recente, que se propôs a terminar o Requiem de Mozart, enquanto residia no Rio.

Libera me domine de morte aeterna in die illa tremenda quando caeli movendi sunt et terra dum veneris judicare saeculum per ignem. 
Liberta-me senhor da morte eterna. Quando os céus e a terra se revirarem, então virás julgar os povos através do fogo

Tremens factus sum ego et timeo dum discussio venerit atque ventura ira dies illa. Dies irae calamitatis et miseriae  
Tremo e tenho medo, quando o abalo vier juntamente com a fúria futura. Naquele dia de ira, de calamidade e miséria

Dies magna et amara valde dum veneris judicare saeculum per ignem. 
Dia grande e por demais amargo até que venhas julgar a eternidade pelo fogo

Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis… 
Dá-lhe o descanso eterno, Senhor, e que a luz perpétua o ilumine.
Kyrie eleison.

Requiescat in pace.
Senhor, tem piedade de nós.
Descanse em paz…

Já sem instrumentos, apenas as vozes ecoam, arrastadas, solenes e penumbres pelas paredes do templo. ‘Requiescat in pace’… Descanse em paz.


Catacumbas de Ordem, Jean Batiste Debret

Baixam todos às catacumbas da igreja onde as últimas palavras são enunciadas, o corpo recomendado. Todos os confrades de S. Francisco, mas também antigos camaradas, por ordem de antiguidade na irmandade terceira, abençoam o corpo com água benta. Depois colocaram cal. Fechou-se o caixão. Os assistentes colocam o caixão na sepultura atribuída na catacumba n.º 117.


* * *

Requiescat in pace


Voltemos atrás dois dias. Rio de Janeiro, 2 de Agosto de 1836. Falece, com 72 anos e 10 meses, o Marechal do Exército Carlos Frederico Lecor, Visconde de Laguna, Grande do Império, Grã Cruz honorário da Ordem da Torre e Espada, Comendador da Ordem Militar de Aviz, Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro. Pouco se sabe da sua doença, apenas que terá sido prolongada, pelas contas do médico e do boticário. Reflexos sem dúvida de uma vida de campanhas, desde 1795, 40 anos a cavalo e em tendas, na dura vida castrense. 

21 de fevereiro de 2009

Uma fonte biográfica de 1836: A mais antiga?


Após algum tempo de recesso, volto ao vosso convívio com a mais antiga fonte biográfica de Lecor (que eu saiba), publicada na Biographie Universelle et Portative des Contemporains (tomo III), em 1836, o mesmo ano em que Lecor faleceu:


(decidi apenas colocar uma parte, acerca da parte menos conhecida da vida de Lecor)

LECOR (Charles-Frédéric), général portugais, né en Algarve, reçut sa première éducation en Hollande, d’où son père était originaire [na verdade, o pai, Louis Pierre Lecor, era originário de Paris]. Il sé destina d’abord au commerce, mais il embrassa fort jeune encore l’état militaire, et parvint en peu d’années au rang de capitaine. Il dut son avancement autant à son mérite qu’à la protection du marquis d’Alorna, chef de la légion de troupes légères, qui y admit le jeune Lecor. A l’époque de l’entrée de l’armée française à Lisbonne, en 1807, M. Lecor était major [era, de facto, Tenente Coronel] dans cette légion et aide-de-camp du marquis d’Alorna, alors gouverneur de la province d’Alantejo, qui avait en lui une entière confiance, non seulement pour tout ce qui regardait le service militaire, mais encore pour des affaires personelles et confidentielles. Pendant un court voyage que son chef fit à Estremoz, pour y passer en revue les troupes portugaises destinées par le général Junot à former le corps qui devait se rendre en France, M. Lecor évita adroitement d’accompagner son général, en pretextant des affaires dont celui-ci l’avait chargé et qui n’étaient pas encore terminées. Pendant l’absence du marquis il s’embarqua secrètement pour l’Angleterre. Cette conduite peu franche envers son ami et son protecteur, dont le cáractère était plein de loyauté, fut universellement désapprouvée par ceux-là même qui partageaient la répugnance que cet officier montra pour le service français. Revenu en Portugal par suite de l’evacuation du pays par l’armée française en vertu de la convention de Cintra, M. Lecor servit avec distinction dans l’armée anglo portugaise ; il commandait une brigade à l’affaire du Bussaco, s’y distingua par son courage calme et sa présence d’esprit, et fut un des officiers portugais dont le maréchal Beresford fit le plus de cas, et auxquelles il confia, dès la premiere organisation de l’armée portugaise, les plus importants commandements. (...)Resta saber quais as fontes que o autor usou (entre vários que compuseram o dicionário). Este texto, em alguns dos seus elementos, serve de base a apontamentos biográficos futuros, nomeadamente colocando-o como natural do Algarve, como infantil viajante à Holanda, destinado ao comércio, etc.
A vermelho, uma versão da forma como Lecor se terá separado do seu general (Alorna) em 1808, fugindo depois para Inglaterra. Esta versão não aparece replicada em outras fontes subsequentes.


Atualização [19/4/2013]: Leia o livro no GoogleLivros (p.223)