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13 de outubro de 2019

Casamento com D. Rosa, 3 de Dezembro de 1818, Montevideu


A 3 de Dezembro de 1818, já mais de meio ano após ser feito barão da Laguna, o capitão general Carlos Frederico Lecor casa-se com Dona Rosa María Josefa Deogracias de Herrera y Basavilbaso, uma jovem montevidenha nascida a 22 de Março de 1800. 

Apesar da diferença de idades - Lecor tinha 54 anos de idade e Rosa 18 -, o tipo de casamento não era incomum e inseria-se também na política geral de incentivo a que oficiais portugueses se casassem com meninas de Montevideu, com vista a estreitar os laços. 

Como em 1816, em Lisboa, quando se fez vacinar em frente aos soldados, também agora se casava para que outros lhe sigam as pisadas.

Em seguida, o assento de casamento:

"En tres de Deciembre de mil ochocientos diez i ocho; El Dr. D.n Damaso Antonio Larrañaga Cura Vicario. Juez Eclesiastico de la Iglesia Matriz de Montevideo, Delegado general por el S.r Governador del Obispado en todo este Estado Cisplatino, Comendador de la Orden de Christo, &, &. Certifico en cuanto puedo i ha lugar en derecho que en el día tres de Deciembre del mil ochocientos diez i ocho, desposé i casé por palabras de presente según rito de Nuestra Madre la Iglesia Catholica Romana al Ilmo i Exmo Señor Capitan General i Baron de la Laguna D.n Carlos Federico Lecor, con la Ilma y Excm.a D.a Rosa de Herrera, natural de esta Ciudad, hija de legítimo matrimonio del Sr. D.n Luis Herrera i de la S.ra D.a Gervasia Basavilbaso: Siendo testigos dicha D.a Gervasia i D.n Franco Muñoz i es para los fines que les convenga les doi á su solicitud este Certificado: Montevideo. Febrero once de mil ochocientos veinte i dos. DAMASO ANTONIO LARRAÑAGA. 
- Esta copia concuerda en todo con el Original que el referido Sr.Vizconde i Baron de la Laguna me presentó por manos de su Capellán el P. D.n Buenav.ª Borras Lector en Sagrada Theologia del Orden Cister.. en el dia trece de Febrero de mil ochocientos veinte i seis i por verdad: Con indisposicion i comision del S.r Cura i Vicario D.n Damaso Antonio Larrañaga lo firmo como Theniente de Cura de esta Iglesia Matriz de la r eferida Ciudad de Montevideo. Fecha ut supra. - Fermín Bouquete Azuan".(Archivo de la iglesia Matriz, "Libro 1.º/de/Matrimonios/empieza/en Mayo de 1819": Montevideo).



A Igreja Matriz de Montevideu (Catedral Metropolitana de Montevideu) foi construída a partir de 1790, tendo por base a igreja mais antiga que havia ruido parcialmente em 1788. Localiza-se em frente ao Cabildo, na área mais nobre e central de Montevideu.

As fontes indicam que a nova D. Rosa foi uma das primeiras noivas montevidenhas a ir de carro para a igreja, um novo hábito introduzido nesta altura.

Muitos outros oficiais vêm a casa com damas de Montevideu, incluíndo um primo de Lecor, Vicente António Buys, assim como muitos outros, alguns dos quais se tornam oficiais uruguaios, quando da independência em 1830.

Dona Rosa Lecor

Há muito pouca informação sobre a noiva, D. Rosa, exceto a sua geneologia, e uma carta que escreveu em 1836, quatro meses depois do falecimento do marechal Lecor, visconde da Laguna, que vos deixo em seguida e que é a única vez ue se ouve a voz de D. Rosa Maria, a viscondessa da Laguna:

"Rio Janeiro 6 de Diciembre de 1936 [sic]. 
Mi querida hermana 
Mucho te agradezco el interés q.e tomas en mi desgracia. El estado en q.e ha quedado mi corazón és ciertamente digno de lástima mi cara Inés, yo quería mucho al Visconde y era por el idolatrada, ¿que mas podía apetecer ni q.e me podrá hoy consolar? Mas en fin, querida Amiga, esto mismo me alivia, porq.e nunca puede ser una Muger tan querida sin merecerlo; así pues, la idea de haber hecho su felicidad, me conforta, y el cariño de ustedes me hará pasar el resto de mi vida conforme y tranquila. 
Estimo mucho el estado de buena salud de mis sobrinitos, (Juan José, Luis Pedro, María, y Alfredo de Herrera y Perez) así como el cariño q.e has sabido infundirles hácia mi. Los hijos de mi hermano (Luis) siempre serían muy caros a mi corazón querida Inés, mas siendo estos tambien tuyos, tienen mucho mas derechos a mi cariño, y te aseguro, q.e siento por ellos un afecto q.e no te puedo explicar, así como el deseo de conocerlos y abrazarlos. 
Entre tanto que no llega ese dia, dispon como gustes dela verdadera amistad q.e te profesa tu Hermana y antigua Amiga, ROSA"
(Archivo particular de la señora Manuela de Herrera de Salterain, Montevideo)


* * *

Imagens
Fachada da Igreja Matriz de Montevideu (ver) e interior (ver)

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Fontes
- Boulevar[d] Sarandí: 250 años de Montevideo : anécdotas, gentes, sucesos, Volume 2, Ediciones de la Banda Oriental, 1977
Milton Schinca, Mujeres desconocidas del pasado montevideano, Ediciones de la Banda Oriental, 1999
Milton Schinca, Boulevard Sarandí: memoria anecdótica de Montevideo, Ediciones de la Banda Oriental, 2003

4 de janeiro de 2019

4.º invasão Francesa na Beira Beixa: Carta de 14 de abril de 1812


A carta transcrita em seguida é o relatório de ação do brigadeiro Carlos Frederico Lecor, ao secretário de estado dos negócios da guerra, D. Miguel Pereira Forjaz, a 14 de Abril de 1812, em que reporta o que aconteceu no âmbito do que costuma chamar a 4.º Invasão Francesa, na verdade, uma grande incursão de forragem, nas Beiras, liderada por Ney ?. Enquanto Ney atacou Guarda, provocando a debandadas das forças portuguesas de milícias aí, Marmont avançou para sul em direção a Castelo Branco.
As notícias da tomada de Badajoz chega aos franceses, e estes decidem sabiamente o retorno à segurança relativa de Espanha, mais propriamente Ciudad Rodrigo, que era o próximo objetivo de Arthur Wellesley.

«Illmo. e Exmo. Senhor

Tenho a honra de participar a V. Ex.ca. para por na prezença de S. A. Real que tendo o inimigo entrado em Alpedrinha no dia 10, como participei a V. Ex.ca. no meu ultimo officio, no dia immediato ás 2 horas da tarde avistei duas Columnas, que se dirigião a esta cidade pella estrada de Alcains, cobrindo a sua vanguarda com 6 esquadrões de Cavallaria.

As forças disponiveis das Millicias, com que me achava, não excedião os 1600=homens: era pois d’absoluta necessidade o retirar-me: a voz de marcha foi dada dipois da Guarda avançada inimiga ter entrado na cidade, e a Divisão de Millicias do meu commando cobrindo todo o trem dos Hospitais, alguns generos, e duentes, marchárão na milhor ordem para Villa Velha ahonde premaneci athe pella manhãa seguinte em quanto desfilou pella ponte os combois, gados, e toda a gente que por aquelle ponto pertendeu salvarse, e dipois combinando-me com o 1.º Regimento de Hussares que passou do sul do Tejo, fui occupar o Passo da Milhariça para me por ao alcance de poder executar as ordens superiores de que estava munido. //

A boa vontade e dispozição que observei em geral nos Millicianos, e a boa ordem com que executárão a retirada á vista do inimigo com o vagar que exigia a marcha de hum comboi de carros, faz o elogio desta tropa, e dá bem a conhecer do quanto são suceptiveis.

O inimigo logo que se me reunio alguma Cavallaria do 1.º de Hussares, não se atreveu a avançar. Hontem pella manhãa se retirou desta cidade em direcção a Penamacor com alguma precipitação [1].

DGVE muitos anos.
Castello Branco, 14 de Abril de 1812
Illmo. e Exmo. Snr. Dom Miguel Pereira Forjaz

Carlos Frederico Lecor
Brigadeiro»

[1] As forças francesas tinham tido, nesta altura, a informação que Badajoz havia sido tomada a 7 de abril, pela força principal anglo-portuguesa.


Fonte
Arquivo Histórico-Militar, AHM/DIV/1/14/097/42 [ff 21-22])

18 de maio de 2011

Propostas para as Milícias (1811)

Illmo. Senhor,
Tenho a honra de remeter a V. S.ª incluso o projecto sobre o augmento do Soldo da Officialidade dos regimentos de Millicias que S. Ex.ª o Illmo. e Exmo. Sr. Marechal [de Campo Maior, Beresford] deseja vêr, o qual estimarei seja da aprovação de S. Ex.ª para que se possa remediar os meios de subsistencia tão necessarios á Officialidade de Millicias, para que sirvão de mais boa vontade, e se possa tirar destes Corpos a maior vantagem possivel.

Deus Guarde a V. S.ª
Castelo Branco, 31 de Julho de 1811

Illmo. Sr. Manoel de Brito Mozinho

Carlos Frederico Lecor
Brigadeiro

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Os Corpos de Millicias compoem-se de 8 companhias havendo em cada huma dellas 12 soldados aggregados, os quaes se ajuntão quando o Regimento se reune para formar huma 9.ª Companhia, que se chama de Granadeiros, para o commando da qual há um Capitão, e mais officiaes e officiaes inferiores correspondentes.
Os Regimentos devidem-se em 2 Batalhões, dando-se a cada hum 1 Tenente Coronel, e 1 Ajudante: formando-se a Companhia de Granadeiros na direita do 1.º Batalhão.
Numero impar de Pelotões cauza grande desarranjo nas manobras e inconveniente que sabiamente foi remediado nos Batalhões de Cassadores pelo Ilmo. e Exmo. Senhor Marechal.
A formação de 2 Batalhões não he menos dificultoza principalmente para os officiaes de Millicias, que em geral são tirados de suas cazas sem nunca terem servido e como passam a maior parte do tempo licenciados jamais se poderá esperar dos Officiaes superiores de Milicias grandes conhecimentos tacticos acrescendo que até ao prezente ainda não pude fazer trabalhar aos Regimentos com 2 Batalhões por haver nos Corpos de Millicias 1 proporsão guardada e maiores descontos no seu estado completo do que nos Corpos de Linha.
A officialidade de Millicias em geral não he tão abastada quanto se pença: Eu vivo entre elles vai para tres annos, e conheço que passão necessidades reaes, por não poderemja ser socorridos de suas arruinadas cazas, e dispersas familias; razão porque vivem em grande descontentamento, e desejão as suas Demissões, de que talvez dependa toda a falta que se encontra nos Corpos de Millicias.
Contemplar a sorte desta classe de Defensores he de absoluta necessidade, assim como a de dar organização aos Corpos de Millicias, que seja analoga aos conhecimentos de que he susceptivel a sua Officialidade.
Estes dois importantes objectos podem se remediar fazendo as duas alterações seguintes; com as quaes a forsa dos Corpos não diminue.

Primeira = Abulir a Companhia de Granadeiros.
Segunda = Reduzir a formação a hum só Batalhão.

Da primeira conseguese a vantagem de trabalhar com numero par de Pelotões = O ficarem os soldados aggregados servindo nas suas companhias respectivas, o que fazem com repognancia na de Granadeiros = O pouparse o Soldo dos Officiaes, Officiaes inferiores, e Tambor da mesma Companhia.
Da segunda = Tirase a vantagem de se facilitar a execução das manobras a Officialidade Superior das Millicias, não faltando ao que determina o Regulamento, podendose poupar os Soldos, Cavalgaduras de hum Tenente Coronel, e de hum Ajudante, cujo importe junto ao que se pode economizar na Companhia superflua de Granadeiros offerece o meio de se augmentar o Soldo à Officialidade sem despeza da Real Fazenda, como se vê na Conta Corrente junta.

Castello Branco, 31 de Julho de 1811
Carlos Frederico Lecor
Brigadeiro

in: Arquivo Histórico Militar, AHM-DIV-1-14-175-66 [imagens 1-3]

10 de dezembro de 2010

Problemas Financeiros de Carlos Frederico Lecor



José Ferreira Pestana (1795-1885),
procurador de Lecor após a morte deste.
Tive a dúvida de colocar ou não esta entrada, na medida em que a ilustro com uma carta privada.
Mas, relendo o general Paulo de Queiroz Duarte, no seu Lecor e a Cisplatina, de 1984, e mais para trás, Wanderley Pinho em 1936, a questão financeira é uma elemento importante para compreender o ilustre general, sujeito deste blogue. Os soldos, gratificações e presas estavam sempre atrasados nos exércitos do primeiro quartel do século XIX, por vezes quase chegando a vários meses.

Além disso, encontrei uma edição do Grande Dictionaire du XIX siècle, 1873, de Pierre Larousse, onde se afirma que Lecor morreu "riche d'une fortune colossale", o que é falso, acreditem de quem vê os seus bens em 1836. Em Dezembro de 1836, José Ferreira Pestana (NA FOTO EM CIMA), seu sobrinho por casamento, reclamava as presas da Guerra Peninsular que lhe haviam sido retidas pelo governo 'usurpador' (D. Miguel).

A carta que gostaria de transcrever aqui é de 11 de Outubro de 1812, ao início dos últimos seis meses como comandante militar da Beira Baixa (na verdade, algo mais próximo de Divisão da Beira Baixa, mas o cargo é referido de várias formas conforme quem escreve). É endereçada a um antigo camarada da Legião de Tropas Ligeiras, Marechal-de-Campo (major-general, hoje) António Lemos Pereira de Lacerda, secretário militar do Marechal Beresford. Em Março de 1797, quando foram nomeados os primeiros majores, capitães e oficiais subalternos, Lecor era Capitão da 8.ª companhia da Legião, e António de Lacerda era um dos Sargentos-Mor nessa unidade (Major, dir-se-ia hoje).

O texto fala por si, e ainda mais sendo uma carta pessoal a um amigo, mas importa compreender que durante todo este tempo na Beira Baixa, com pequeníssimas interrupções (excepção aos seis meses nas Linhas de Outubro.1810 a Abril.1811), Lecor em altura alguma faltou com o seu dever e missão. Se Lecor for, então, um daqueles oficiais vindos da burguesia, classe média, a chegarem a postos importantes pela primeira vez, esta carta ajuda-nos a perceber, ao pormenor, uma mudança fundamental no Exército Português:

Ill.ª Senr. Ant.º de Lemos Perr.ª de Lacerda

Meu amigo e S.r (?) do meu particular respeito, confiado no favor com que V. S.ª me honra tômo a liberdade de rogar a V. S.ª me queira dar francamente alguma ideia do estado em q se acha a mª pretenção sobre a grateficação mensal que requeri ao Illmo. e Ex.º Sen.r. Marchal Conde de Trancozo (a exemplo do Brig.do. Loubo, Marechal Victoria, Ten. Gen. Bacellar, &&) cujo requeremento tive a honra de entregar ao cuidado de V. S.ª no mez de Abril passado, por quanto quando venha a ser negativo o seu rezultado ser-me-á absolutamente nessessario procurar meios para conseguir de S. E.ª o tirar-me deste comando pois cada vez me vou empenhando mais.

Prezentemente em lugar de 5 foragens recebo só 4 por me contemplarem de Estada, ao mesmo tempo que tenho de vezitar frequentemente Capitanias-Mores, e Regimentos de Mellicias acresendo actualmente as vezitas que a Praça de Monsanto me offerece (?) aonde só no mez paçado tive de hir 7 vezes para decedir duvidas e promover os trabalhos.

Sinto entanto não ter rendas proprias para poder servir o Estado sem lhe cauzar pezo; porem quiz o Diabo que viese ao mundo este Ente dependente para andar sempre com a sella na bariga emportunando os amigos, no entanto perdoe V. S.ª a empertenencia, e queira me dar occaziões em que possa mostrar a m.ª gratidão, e a alta consideração com que sou

De V. S.ª
Am.º (...)

Carlos Frederico Lecor

Castello B.co
11 de Outubro de 1812

In: AHM-DIV-1-14-225-24 [imagens 20 a 22], Arquivo Histórico-Militar (online)

"De/com a sela na barriga"
1 Pop. Na miséria, em estado ou situação de penúria.
(iDicionário Aulete - aqui)

7 de março de 2009

'Arvorado em general', Divisão de Observação de Beira Baixa, o primeiro comando de Lecor (Fevereiro de 1809)





A 20 de Novembro de 1808, quase 3 meses após ter retornado de Plymouth integrado na Leal Legião Lusitana, Carlos Frederico é nomeado Coronel do Regimento de Infantaria n.º 23, de Almeida.
No adro ainda ia o seu trabalho nesse regimento - buscando pô-lo em condições - quando se vê nomeado comandante da Beira Baixa, em 25 de Janeiro de 1809, mais precisamente Comandante da Divisão d'Observação da Beira Baixa, integrada no maior Exército d'Entre Tejo e Mondego (Tenente General António José de Miranda Henriques), juntamente com a formação-irmã, a Divisão d'Observação da Beira Alta (Marechal de Campo [hoje seria Major General] Bacelar).

Após ter sido nomeado para comandar a Beira Baixa, por Ofício de 25 de Janeiro, assinado por D. Miguel Pereira Forjaz. o Coronel Carlos Frederico Lecor deslocou-se, no início de Fevereiro, de Almeida (onde comandou brevemente o Infantaria 23) para a Idanha. Lecor iria substituir o brigadeiro Francisco da Silveira Pinto da Fonseca, nomeado para o governo de armas do Minho, onde iria ter um papel importante durante a segunda invasão francesa sobre o norte de Portugal.

[na foto, ao topo, o Rio Pônsul, junto a Idanha-a-Velha].

A província era de extrema importância, na medida em que o Coronel Lecor se via encarregado da defesa do teatro onde apenas há cerca de 14 meses, Junot havia entrado em Portugal. Como o próprio Lecor refere, na sua carta de aceitação e agradecimento a D. Miguel Pereira Forjaz, datada de 2 de Fevereiro, "Lembre-se V. Ex.ª que me arvora em General e que as minhas circunstâncias não são para isso".

Com pouco menos de um mês nesse comando, Lecor enviou uma carta ao Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, D. Miguel Pereira Forjaz, apresentando os problemas e prescrevendo uma terapeutica (curiosamente, ou não, a mesma que Arthur Wellesley prescreverá, com sucesso, para a defesa de Portugal em 1810): a negação de sustento às tropas francesas.
Entre outros elementos, é notório o desfazamento entre os militares e os civis, problema principal que Lecor enumera. Com o benefício, no entanto, de uma linguagem elegante e clara, Lecor apresenta em pleno o potencial que o levará a mais altos voos e consistentemente a deter comandos nesta área, talvez a principal entrada de acesso a Lisboa, paralela ao Tejo.

Aqui fica, pois, a carta que amanhã fará 200 anos de idade, reportando a situação da Beira Baixa e, concerteza, a disposição geral dos Portugueses:

Illmo e Exmo. Senhor,

A presunção em que acham os Povos da Beira Baixa, aonde tenho a honra de comandar, que o perigo está passado, e que o Inimigo não tornará a invadir esta Província, faz com que o patriotismo e actividade se desenvolva mui pouco nestas Povoações, lembrando-se de Privilégios, e fugindo a darem transportes aos accentos, e escondendo o pão supérfluo que ainda têm: faz-se muito necessário ordens positivas sobre tão importante objecto, determinando S.A.R. = 1.º Que cessem na actual situação todos os Privilégios em todas as classes de cidadãos principiando pela Tropa de Linha, e Milícias = 2.º Que todas as Autoridades Constituídas Eclesiásticas, Civis e Militares, aproximando-se o Inimigo se devem retirar às Montanhas, sem o que é dificultoso fazer mover os Povos, valendo-se o Inimigo as mesmas Autoridades para lhe fazerem aprontar os Mantimentos que lhe são necessários como fizeram em Portugal e estão praticando em Espanha = 3.º Que se obrigue a todas as famílias a depositarem o pão, que conservam para o seu sustento, e os seus gados nas Montanhas, ou terras que lhes são vizinhas desde Alpedrinha até a Serra do Muradal, e desta até Vila Velha, para onde os Povos se devem recolher logo que o Inimigo pretenda entrar com maiores forças, porque de outra sorte acharão em cada Povo assão (?) nos Depósitos particulares de cada família pão suficiente para sustentarem as suas Colunas umas poucas semanas = 4.º Todo o pão dos celeiros e sobras dos particulares se deve reunir em um Depósito geral para fornecimento da Tropa, fora do alcance de um golpe de mão, parecendo-me o mais conveniente a Sobreira Formosa.
Todas estas disposições merecem a atenção de S.A.R., pois marchando o Inimigo sem Armazéns, o meio mais forte de resistência que lhe poderemos opor será embaraçando que lhe encontre subsistência.
Tenho calculado que na Beira Baixa se podem sustentar 20 mil homens dois meses com provimentos particulares, por consequência é de primeira necessidade obrigar que se façam os Depósitos particulares e gerais nos Pontos que a Natureza defende, e que a Tropa e ordenanças podem guardar.
Acabo de receber um Ofício do general Costa [Cuesta] pelo oficial que mandei àquele Exército tomar conhecimento das disposições dos Espanhóis, e Franceses. O mesmo Costa me dá a conhecer o pouco contente que está do Exército Português o não auxiliar. À presença de V.Exª mando o mesmo oficial, o qual pode informar a V.Exª das miudezas [meudezas] e particulares que ali presenciou. O Exército do dito General Costa vai-se reforçando, e assegura-me o dito oficial que já tem 5 mil homens de Cavalaria bem armados, e vestidos.
Espero que S.A.R. determine com toda a brevidade se executem as providências que pondero para bem da defesa desta Província, a fim de que haja tempo de poder executar todos estes arranjos, sem os quais toda a Resistência Militar não bastará para suster a entrada do Inimigo.

Deus Guarde a V. Exª (...)

Idanha, 3 de Março de 1809

Illmo e Exmo Sr. D. Miguel Pereira Forjaz

Carlos Frederico Lecor(Transcrição da carta disponível no Arquivo Histórico Militar, AHM-DIV-1-14-095-54, com adaptação ao Português contemporâneo)


* * *

Ordem de Batalha
Em finais de Março, a Divisão da Beira Baixa, como era tratada à guisa de diminutivo, tinha as seguintes forças, em duas linhas:


1.ª LINHA [Margem do rio Erges, a fronteira com Espanha]
Constituído inteiramente por 6 Companhias de Caçadores do Monte, com o complemento de 102 homens cada, totalizando 612. Este tipo de companhias eram formadas por Ordenanças voluntários ou escolhidos pelo excelente conhecimento do terreno da Raia.
Estando baseados em aldeias e vilas, formavam então a 1.ª linha, com a seguinte distribuição de efectivos, de Sul para Norte:

Malpica (50), Monforte (52), Rosmaninhal (102), Segura (102), Salvaterra do Extremo (102), Penagarcia (30) Aranhas (72) Guadrazães (102)

As Companhias de Caçadores do Monte eram formadas apenas em tempo de guerra, a partir de voluntários, sendo as patentes dos seus oficiais assinadas pelo comandante militar da região. A sua utilização em 1809 teve um precedente, em 1801, na Guerra das Laranjas, não só na Beira Baixa (que não viu acção), mas na Beira Alta e em Trás-os-Montes. Em 1801, Lecor era aliás Capitão Ajudante d'Ordens do Marquês de Alorna, na Legião de Tropas Ligeiras que guarneceu também este mesmíssimo teatro de operações.

2.ª LINHA [Margem do rio Pônsul]
Constituído pela Infantaria de linha, Caçadores e Regimentos de Milícia locais, perfazia 4,284 homens, distribuidos assim, também de Sul para Norte:

Cebolaes - Batalhão de Caçadores n.º 4 [486]
Castelo Branco - Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 1 [194 efectivos]
& Regimento de Milícias de Castelo Branco [308]
Escalos de Baixo - Batalhão de Caçadores n.º 5 [227]
Idanha-a-Nova - Batalhão de Caçadores n.º 2 [366]
Idanha-a-Velha - Batalhão de Caçadores n.º 1 [552]
& Regimento de Milícias da Idanha-a-Nova [1,101]
Penamacor - Regimento de Milícias da Covilhã [1,050]

Cavalaria
3 Esquadrões, em Zibreira, Alcafozes e Idanha-a-Nova, cada um destes com pequenos destacamentos em 11 aldeias e vilas [370]

Artilharia
Uma Companhia de Caçadores do Monte, mais a sul, em Vila Velha do Ródão, com 102 homens, defendia uma linha de postos constituída por 58 artilheiros em quatro áreas, de Sul para Norte, Vila Velha, Perdigão, Talhadas & Muradal.


Esta Divisão estava posicionada essencialmente de forma defensiva, com os Caçadores do Monte servindo de piquetes altamente móveis, reconhecendo activamente. Mais para dentro, em torno do Quartel-General de Lecor em Idanha-a-Nova, estavam as unidades de linha e as Milícias, o grosso das forças.

12 de setembro de 2008

Teatro de Operações de Castelo Branco

O caro leitor pode chamar-me de sensacionalista precoce, eu penso em mim como precavido. Assim sendo, e desde já coloco aqui um mapa do que eu chamo o "teatro de operações de Castelo Branco".


Não digo muito mais sobre ele, apenas que nos vai ser bastante útil. E útil porquê?

Pois bem, o nosso amigo Carlos Frederico Lecor foi o comandante militar desta zona (ou literalmente "commandante da Divizão da Beira Baixa") durante 32 meses, em três períodos diferentes entre Fevereiro de 1809 e Abril de 1813, nomeadamente em 1812, durante a que alguns autores chamam a 4.ª Invasão Francesa (Abril de 1812), da qual o autor britânico Napier diz que apenas o general Lecor manteve um atitude marcial. Sobre a mesma ocasião, Wellington diz o seguinte, numa sua carta:

I cannot sufficiently applaud the firmness and good conduct of Brigadier-General Lecor. He remained in Castello Branco till he saw a superior enemy advancing upon him; and he then retired in good order, no farther than was necessary (16.4.1812).

(M.Trad.: Não posso aplaudir suficientemente a firmeza e boa conduta do Brigadeiro Lecor. Ele manteve-se em Castelo Branco até que avistou um inimigo superior avançando sobre ele; e depois retirou em boa ordem, não mais do que era necessário.)

Em boa verdade, Lecor só saiu desta área em 2 ocasiões, e ambas de enorme importância. A primeira, para integrar o Exército Português na sua breve incursão a Espanha em 1809, em apoio a Wellesley na sua campanha de Talavera. E a segunda, aquando da 3.ª Invasão Francesa, para tomar posição no flanco direito das forças anglo-portuguesas na batalha do Buçaco e depois na 1.ª linha de Torres Vedras.

O mapa que incluo aqui vai ser bastante útil para perceber o comando de Lecor na Beira Baixa, na medida em que o que ele fez aqui é a chave para o seu sucesso militar futuro, assim como é também o culminar de uma carreira militar inicial, nomeadamente ter feito nesta área a Guerra de 1801, com a Legião de Tropas Ligeiras, sob o comando de Alorna.

O mapa, esse, é uma secção de um mapa de Portugal, de 1805, que pode ser encontrado em http://purl.pt/6302, de 1808 e autoria do gravador Romão Eloy de Almeida (à escala 1:470000). Ao contrário da normal visualização de Portugal nos mapas, este mapa tem o norte à esquerda e o Algarve à direita.

Fica, pois, em arquivo, este post, para mais tarde recordar...