13 de outubro de 2019

Casamento com D. Rosa, 3 de Dezembro de 1818, Montevideu


A 3 de Dezembro de 1818, já mais de meio ano após ser feito barão da Laguna, o capitão general Carlos Frederico Lecor casa-se com Dona Rosa María Josefa Deogracias de Herrera y Basavilbaso, uma jovem montevidenha nascida a 22 de Março de 1800. 

Apesar da diferença de idades - Lecor tinha 54 anos de idade e Rosa 18 -, o tipo de casamento não era incomum e inseria-se também na política geral de incentivo a que oficiais portugueses se casassem com meninas de Montevideu, com vista a estreitar os laços. 

Como em 1816, em Lisboa, quando se fez vacinar em frente aos soldados, também agora se casava para que outros lhe sigam as pisadas.

Em seguida, o assento de casamento:

"En tres de Deciembre de mil ochocientos diez i ocho; El Dr. D.n Damaso Antonio Larrañaga Cura Vicario. Juez Eclesiastico de la Iglesia Matriz de Montevideo, Delegado general por el S.r Governador del Obispado en todo este Estado Cisplatino, Comendador de la Orden de Christo, &, &. Certifico en cuanto puedo i ha lugar en derecho que en el día tres de Deciembre del mil ochocientos diez i ocho, desposé i casé por palabras de presente según rito de Nuestra Madre la Iglesia Catholica Romana al Ilmo i Exmo Señor Capitan General i Baron de la Laguna D.n Carlos Federico Lecor, con la Ilma y Excm.a D.a Rosa de Herrera, natural de esta Ciudad, hija de legítimo matrimonio del Sr. D.n Luis Herrera i de la S.ra D.a Gervasia Basavilbaso: Siendo testigos dicha D.a Gervasia i D.n Franco Muñoz i es para los fines que les convenga les doi á su solicitud este Certificado: Montevideo. Febrero once de mil ochocientos veinte i dos. DAMASO ANTONIO LARRAÑAGA. 
- Esta copia concuerda en todo con el Original que el referido Sr.Vizconde i Baron de la Laguna me presentó por manos de su Capellán el P. D.n Buenav.ª Borras Lector en Sagrada Theologia del Orden Cister.. en el dia trece de Febrero de mil ochocientos veinte i seis i por verdad: Con indisposicion i comision del S.r Cura i Vicario D.n Damaso Antonio Larrañaga lo firmo como Theniente de Cura de esta Iglesia Matriz de la r eferida Ciudad de Montevideo. Fecha ut supra. - Fermín Bouquete Azuan".(Archivo de la iglesia Matriz, "Libro 1.º/de/Matrimonios/empieza/en Mayo de 1819": Montevideo).



A Igreja Matriz de Montevideu (Catedral Metropolitana de Montevideu) foi construída a partir de 1790, tendo por base a igreja mais antiga que havia ruido parcialmente em 1788. Localiza-se em frente ao Cabildo, na área mais nobre e central de Montevideu.

As fontes indicam que a nova D. Rosa foi uma das primeiras noivas montevidenhas a ir de carro para a igreja, um novo hábito introduzido nesta altura.

Muitos outros oficiais vêm a casa com damas de Montevideu, incluíndo um primo de Lecor, Vicente António Buys, assim como muitos outros, alguns dos quais se tornam oficiais uruguaios, quando da independência em 1830.

Dona Rosa Lecor

Há muito pouca informação sobre a noiva, D. Rosa, exceto a sua geneologia, e uma carta que escreveu em 1836, quatro meses depois do falecimento do marechal Lecor, visconde da Laguna, que vos deixo em seguida e que é a única vez ue se ouve a voz de D. Rosa Maria, a viscondessa da Laguna:

"Rio Janeiro 6 de Diciembre de 1936 [sic]. 
Mi querida hermana 
Mucho te agradezco el interés q.e tomas en mi desgracia. El estado en q.e ha quedado mi corazón és ciertamente digno de lástima mi cara Inés, yo quería mucho al Visconde y era por el idolatrada, ¿que mas podía apetecer ni q.e me podrá hoy consolar? Mas en fin, querida Amiga, esto mismo me alivia, porq.e nunca puede ser una Muger tan querida sin merecerlo; así pues, la idea de haber hecho su felicidad, me conforta, y el cariño de ustedes me hará pasar el resto de mi vida conforme y tranquila. 
Estimo mucho el estado de buena salud de mis sobrinitos, (Juan José, Luis Pedro, María, y Alfredo de Herrera y Perez) así como el cariño q.e has sabido infundirles hácia mi. Los hijos de mi hermano (Luis) siempre serían muy caros a mi corazón querida Inés, mas siendo estos tambien tuyos, tienen mucho mas derechos a mi cariño, y te aseguro, q.e siento por ellos un afecto q.e no te puedo explicar, así como el deseo de conocerlos y abrazarlos. 
Entre tanto que no llega ese dia, dispon como gustes dela verdadera amistad q.e te profesa tu Hermana y antigua Amiga, ROSA"
(Archivo particular de la señora Manuela de Herrera de Salterain, Montevideo)


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Imagens
Fachada da Igreja Matriz de Montevideu (ver) e interior (ver)

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Fontes
- Boulevar[d] Sarandí: 250 años de Montevideo : anécdotas, gentes, sucesos, Volume 2, Ediciones de la Banda Oriental, 1977
Milton Schinca, Mujeres desconocidas del pasado montevideano, Ediciones de la Banda Oriental, 1999
Milton Schinca, Boulevard Sarandí: memoria anecdótica de Montevideo, Ediciones de la Banda Oriental, 2003

25 de junho de 2019

Elogio ao Marechal Lecor (2019)


ELOGIO AO MARECHAL DO EXÉRCITO CARLOS FREDERICO LECOR, VISCONDE DA LAGUNA E GRANDE DO IMPÉRIO

(Lido por Jorge Quinta-Nova, a 24 de Junho de 2019, na Sessão Académica da Delegação de Portugal – D. João VI da Federação de Academias de História Militar Terrestre do Brasil)


Boa tarde

Em 1936, por ocasião de uma sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro evocativa do primeiro centenário da morte do Visconde da Laguna, o académico baiano José Wanderley de Araújo Pinho, após uma brilhante exposição, e humildemente penitenciando-se pelo que considerou uma análise superficial da figura histórica, convocou os académicos do futuro a que, "mais felizes, com todos os documentos à mão", fizessem o que ele faria se pudesse à altura.
Em 1984, quase cinquenta anos depois, o general brasileiro Paulo de Queiroz Duarte, ainda que não com todos os documentos – na verdade, a quimera do historiador, o ideal impossível, respondeu em grande estilo a essa convocação, com os três volumes de Lecor e a Cisplatina, publicados pela Biblioteca do Exército, uma obra seminal na compreensão não só do marechal Lecor, mas da intervenção portuguesa de 1816 no Rio da Prata.


Hoje, humildemente aqui perante vós, espero poder também de forma digna, mas resoluta, responder ao apelo de há 83 anos, adicionando a minha contribuição, portuguesa e europeia, para o conhecimento da figura histórica daquele que é patrono da cadeira que humildemente ocupo, o marechal Carlos Frederico Lecor, Visconde da Laguna e Grande do Império do Brasil. Muito há que dizer, mas tendo em atenção a vossa paciência e o meu tempo, tentarei ser breve e conciso.

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Carlos Frederico Lecor nasceu a 6 de Outubro de 1764, em Santos-o-Velho, Lisboa, na rua do Pé de Ferro, onde a sua família então vivia. É o primeiro filho de Quitéria Luísa Marina Krusse e de Luiz Pedro Lecor, ambos provenientes de famílias mercantis recentemente imigradas em Portugal. 
D. Quitéria Marina Luísa, por parte do pai, uma Krusse, e por parte da mãe, uma Buys. Ambas estas famílias adotaram Portugal como o seu país e operavam negócios em Lisboa e no Algarve, assim como na provisão de munição de boca ao Exército Português em várias ocasiões.
Luiz Pedro, nascido Louis Pierre, era um imigrado francês, como tantos durante a época de D. João V, e como tantos também vinha com um ofício em mente, acabando por se dedicar ao comércio por necessidade. Luiz Pedro publicou alias, em 1747, um livro sobre a educação de meninos, que era ainda leitura recomendada e popular no início de oitocentos.

Lecor. Krusse. Buys. Os 3 apelidos têm todos assim origens internacionais: os Krusse de Hamburgo, os Buys da Hoorn, na Holanda, e os Lecor de Paris, França. Curioso será notar que dos 4 avós de Carlos Frederico, não há um único nacional português, senão Catarina Maria Buys, portuguesa de 1.ª geração, filha por sua vez de um holandês e de uma espanhola.

A ascendência quase toda ela não portuguesa de Carlos Frederico Lecor é algo que o marca em toda a sua vida e carreira, não só pelo seu aspeto físico, de traços exóticos – alto, loiro e de olhos azuis, mas também pelo tipo de educação que providencia, não só inspirada perfeitamente nos ideais iluministas do século XVIII, mas também na forte tradição protestante de alfabetização, combinada com um tipo de formação fortemente ancorada nas necessidades da atividade comercial da sua família.

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Por volta da década de 1770, a família muda-se para Faro, onde aliás os Buys já tinham negócios. É aliás desta mudança que nasce a perceção geral, ainda que errada, que Lecor nasceu em Faro. Esta cidade é aliás a única cidade portuguesa que deu o seu nome a uma rua devido a esse mesmo facto. A justiça aqui foi fruto de equívoco, mas é ainda assim, justiça. Se a cidade onde Lecor nasceu de facto, ainda que com tantas ruas, não lhe presta essa homenagem, pois então que o equívoco se preste a que a cidade de adoção o tenha feito.

Enquanto os seus irmãos, João Pedro, António Pedro e Jorge Frederico, combatiam no Roussilhão, Lecor iniciava a sua vida militar como Pé de Castelo na fortaleza de S. António da Barra de Tavira. Aos 29 anos, muito mais velho do que era então norma, Lecor assenta praça de voluntário e jura bandeiras, perante um oficial e o capelão, a 13 de Outubro de 1793, exatamente quando se iniciava a aula regimental do coronel Sande de Vasconcelos, em Tavira, logo ao lado. O general Teixeira Botelho, que traçou subsídios para a história da Artilharia portuguesa, refere muito acertadamente que a carreira dele "não teve a regularidade habitual do seu tempo". Para um jovem vindo das classes mercantis, sem ascendência nobre, a Artilharia era a única opção que permitia o acesso ao oficialato. 

Apenas cinco meses depois, já sargento, Lecor ascende finalmente ao oficialato, sendo nomeado em Março de 1794 ajudante da Praça de Portimão, sendo posteriormente admitido ao 1.º Ano do Curso de Marinha, na Real Academia de Marinha, em Lisboa, que completa com mérito, então já 1.º tenente do regimento de Artilharia da Guarnição do Algarve. 
De notar a propósito que, mais de 200 anos depois, em 2014, o Marechal Lecor foi o patrono do 43.º Curso de Formação de Sargentos, uma das poucas homenagens que em Portugal se lhe deu, e a única que o Exército Português lhe dispensou.

A rápida ascensão de Lecor nas fileiras é já manifesta desde o seu início, tendo por base a sua competência académica, ainda que não devemos esquecer a ligação a 'pessoas de qualidade', como era normal na 'sociedade de favores' do Antigo Regime.

Em finais de 1795, Carlos Frederico embarca na Nau Príncipe Real, no âmbito de um destacamento de artilharia do Algarve, e viaja para o Brasil pela primeira vez. É Salvador a primeira terra brasileira que conhece, e onde permanece brevemente até a esquadra retornar a Lisboa em Abril de 1796.

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Fossem quais fossem os objetivos de Lecor, parece que estes já não passavam pela Marinha quando em 1797 é escolhido para capitão de infantaria da recém criada Legião de Tropas Ligeiras, comandada pelo marquês de Alorna. A Legião de Alorna, como também era conhecida, era uma unidade ligeira com o uso combinado das três armas, resultado prático dos ensinamentos da Campanha do Roussilhão. Se não era algo inteiramente novo no Exército Português, era todo um conceito inovador a esta altura e que causou grande resistência na instituição.

O marquês de Alorna, D. Pedro Portugal, é vital para compreender Lecor, pois é na alçada dele, e sob a sua mentoria, que o ainda relativamente jovem oficial começa a despontar. Sendo capitão da 8.º companhia, Lecor serve na Guerra das Laranjas, na área de Castelo Branco, sendo depois promovido a sargento mor em 1802.
Em 1806, quando Alorna é nomeado governador de Armas do Alentejo (e Lecor, aliás, seu ajudante de ordens, já como tenente coronel), fica a comandar interinamente a Legião até que o barão de Wiederhold toma o comando. Nesta altura, já Lecor é um relativamente experimentado oficial superior, ainda que as suas maiores provas se aproximem ainda no horizonte.

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A 21 de Novembro de 1807, Lecor aparece pela primeira vez no radar da História, quando avista tropas francesas em Vila Velha de Ródão, junto ao Tejo. Sem ordens diretas do seu general, mas agindo de sua própria vontade, ainda que decerto em concertação com António de Araújo de Azevedo, parte imediatamente para Lisboa a avisar que os franceses vêm aí. Em Punhete, hoje Constância, aconselha as autoridades locais a desmontar a ponte de barcas sobre o rio Zêzere, o que vem a atrasar Junot por dois dias.
O que Lecor fez nestes dias foi fundamental para que o embarque da corte se pudesse fazer com mais tempo e mais segurança. É de apontar que apesar de o poder fazer, Lecor nunca desmentiu a versão popular de que terá agido sob as ordens de Alorna (“Vá, Sr. Lecor, até ao inferno, se for necessario, porque quero saber onde estão os Franceses: marcham, e não quero que nos surpreendam.”). Teve decerto o palanque, mas sendo um verdadeiro amigo do seu general, e tendo em vista a fama que este obteve de traidor, a partir de 1810, nunca o abandonou, a sua memória e a sua família.

Lecor demonstra estas características de lealdade com frequência durante a sua vida.

Em meados de 1809, já coronel e no comando de uma brigada de caçadores na área de Tomar e sendo convocado pelo general Beresford para Almeida, assim como quase todas as unidades de linha, é o único comandante que se digna a escrever ao general Miranda Henriques a avisá-lo. É o próprio general português que o refere em carta. Não me compete aqui aprofundar as questões políticas da altura, mas o dever de respeito e lealdade de um subordinado a um comandante, apenas Lecor, nessa ocasião, o levou a peito.

Em 1810, quando o Armée de Portugal, comandado por Massena, 'l'enfant cheri de la victorie', monta cerco a Almeida, Lecor, em observação sob o comando de Hill, tenta o contacto com Alorna, que acompanhava os franceses, propondo a Beresford que o deixasse tentar o velho amigo a retornar ao serviço português. O rigor britânico de Wellington e a séria ameaça da III invasão impediram esta tentativa. Lecor tentou, no entanto. Acreditava ainda na redenção do seu amigo.

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Os breves meses que Lecor passou em Castelo Branco em 1801, defronte das forças de Leclerc, no tempo da Legião das Tropas Ligeiras, foram decerto vitais para a ação que levou a cabo como comandante militar da Beira Baixa, em três períodos distintos, entre 1809 e 1812. As relações com a população civil e as milícias nem sempre foram as melhores, mas Lecor destacou-se de tal forma, que no ano posterior à sua saída para o Exército de Operações, 1813, era publicamente recomendado na Gazeta de Lisboa que o novo comandante militar seguisse o modelo fixado por Lecor.

A retirada em Abril de 1812 de Castelo Branco face à aproximação da 2.ª Divisão de Clausel, foi feita sem mácula e na estrita obediência às ordens de Beresford, por oposição ao desastre da Guarda, em que as milícias fugiram em pânico, chegando a perder as bandeiras. É com esta ação que Lecor, já um estrela em ascensão há algum tempo, garante a definitiva passagem ao Exército que marcharia em 1813 sobre Espanha e França.

Ainda que Lecor tenha sido chamado a comandar a brigada portuguesa da recém criada 7.ª Divisão em 1811, conhecida como a divisão dos rafeiros, pelas suas muitas nacionalidades e cores de uniforme, foi logo nomeado novamente comandante militar da Beira Baixa. Em 1813, porém, de novo recebe este comando e desta feita para iniciar a campanha ofensiva luso-britânica sobre o norte de Espanha.

Muitos saberão, pois é bem conhecido, mas digo-o aqui, Lecor foi o único general português que teve o privilégio de comandar uma divisão anglo-portuguesa em combate. Fê-lo na batalha de Nivelle, em Novembro de 1813, quando o exército assaltou as fortificações de Soult a norte do rio. Era comandante interino, a mais ténue das posições, mas cumpriu, de novo, sem mácula, a sua missão. Começava já a trilhar áreas novas e desconhecidas.

Em dezembro de 1813, Lecor é o comandante da Divisão Portuguesa e o oficial português mais graduado no Exército de Operações, já em França. É nesta qualidade que comanda tropas na batalha do S. Pierre, a 13 de dezembro, alguns dirão a mais portuguesa das batalhas desta campanha, e ajuda a manter a linha nos altos de Mouguerre. Acompanhando a brigada do Algarve, ordena uma carga de infantaria de Infantaria 14, e ao fim desse duro dia é ferido ligeiramente.

Quando o Exército Português em Operações retorna a Portugal a partir de Junho de 1814, finda a guerra e deposto Napoleão, é Lecor que comanda todas as unidades, apresentando-se nas paradas em Lisboa com o seu estado maior. 

Quem afirmasse, 21 anos antes, que isto iria acontecer, seria decerto apodado de louco.  Filho de mercadores, ainda que de grosso e bem relacionados, formado na artilharia, agora o general mais graduado de um exército português vitorioso.
As guerras revolucionárias, que duraram duas longas décadas, mandaram abaixo muitos dos paradigmas e inauguraram de forma dramática toda uma nova era. O elemento social não foi diferente.

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Já por duas vezes, o destino de Lecor se havia relacionado com o Brasil: em 1796, quando foi na esquadra do Brasil, mero tenente, a Salvador da Bahia, e em 1808, quando, em Plymouth, Inglaterra, já coronel, fugido da ocupação francesa de Junot, tencionava embarcar para junto da Corte, no Rio de Janeiro. Não viajou nesta altura, tendo retornado a Portugal em Agosto com a Leal Legião Lusitana.

Tangencialmente também devo fazer nota que em 1805, quando foi originalmente nomeado ajudante de ordens do marquês de Alorna, era a intenção que o seu general ocupasse o importante cargo de Vice Rei do Brasil, o que por razões políticas acabou por não acontecer.

O seu destino ficou definitivamente selado com o do Brasil  em 1815, quando foi nomeado Comandante em Chefe da Divisão de Voluntarios Reaes, uma força de quase 5 mil homens, que para aí foi enviada em 1816 com o fim último de invadir a Banda Oriental. Nunca mais abandonou o Brasil e aí viria a falecer.

Antes de partir, fez vacinar os seus homens contra a varíola, ou as bexigas, tomando-a ele próprio primeiro em frente de todos. Por esse ato, foi feito correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa, quando já navegava para o Brasil.

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Para um português, habituado à sua terra, o Brasil era todo um novo mundo com 'aves das cores mais fantasticas' e 'planícies sem limites'. Como o futuro conde de Samodães, comandante do 2.º regimento, o pôs, “tudo n’este paiz é grande e maravilhoso”.

Desembarcado na corte, no Rio de Janeiro, pouco tempo lá ficou e dois meses depois, em Junho de 1816, partiu para cumprir a sua missão. 

Aliás, uma das maiores críticas que costuma ser feita ao general Lecor é a de desembarcar o grosso das suas forças na ilha de Santa Catarina e fazer o duro percurso por terra desde aí até à Banda Oriental. Falamos de 800 quilómetros por terra arenosa e erma. Muitos historiadores criticam-no por esse excesso de cautela e/ou falta de habilidade com tão fortes forças, mas recentemente encontrei uma nota do próprio rei, ainda no Rio, dizendo-lhe que não arriscasse os seus soldados no oceano. O inverno austral, as traiçoeiras águas do Rio da Prata e os perigosos ventos pampeiros aconselhavam cautela.
Seja como for, a cautela era preferível, até porque não havia concorrência. A expedição espanhola de Pablo Morrillo, que se destinava a Montevideu, havia sido desviada para a Venezuela e isso soube-se em meados do ano.
Não será de esquecer a importância da logística – uma lição que os oficiais portugueses aprenderam bem com os britânicos durante a Guerra Peninsular, que aconselhava Lecor a tomar o seu tempo.

Não me ocuparei dos heróicos eventos da Segunda Invasión Portuguesa, até porque a maioria deles ocorreram no teatro leste, no interior, onde as forças da capitania do Rio Grande combatiam o grosso oriental de Artigas, mas da lenta e segura aproximação a Montevideu que culmina na tomada da cidade a 20 de Janeiro de 1817. 
Apesar de usar o título de capitão general da Banda Oriental quando entra no território em finais de Novembro, é nesta altura que o passa a ser de facto. Nem toda a Banda Oriental se submete (tarefa que só será completada em 1810), mas o importantíssimo porto de Montevideu passa a estar em mãos portuguesas. Lecor não o saberá, mas ele é o responsável pela última aquisição de território do Império Português, ainda que isso apenas se torne oficial em 1821, com a anexação do território sob o nome de Cisplatina.

Nesse dia inicia ele aquilo que Falcão Espalter denominou de Vigia Lecor. 

O início do governo português em Montevideu marcou o fim de 6 anos de revolução e lutas intestinas, em que não só os independentistas lutaram contra os espanhois, mas entre si, divididos entre centralistas e federalistas. Ainda que não tenha sido imediato, o novo governador trás de novo a paz e prosperidade ao importante porto. A maioria da população de Montevideu, principalmente os que beneficiam do comércio (e em Montevideu eram quase todos, em diferentes níveis), recebeu Lecor com alívio, ainda que com alguma apreensão.
Mesmo Buenos Aires, que partilhava algum ideário com Artigas, acabou por não intervir e manteve o tratado que tinha com Portugal desde 1812.

O general Lecor, no entanto, revelou ser tudo aquilo que os orientais poderiam esperar. Toda a sua conduta desde que havia entrado na Banda Oriental era conciliatória. Alguns militares seus subordinados queixam-se da sua falta de agressividade, como Saldanha, mas de facto Lecor cumpria as ordens que tinha recebido. Não seria um conquistador só por ser um conquistador, mas tentaria ser um libertador, ou tanto quanto possível.

Tomás de Iriarte, um oficial argentino que o conheceu, diz dele que “no fué el idolo del pueblo, tampoco puede aseverarse que alimentasen contra él sentimientos de odio y reprobacion personal”.
Quem o conheceu nesta altura revela bem qual a postura política de Lecor. A historiografia uruguaia acompanha até hoje esta visão e não o alça a um tirano estrangeiro, mas no pior dos casos, um mal necessário. Muitos vêm nele mais vantagens que desvantagens, apesar de ser um invasor.

A sua figura física não negava o soldado endurecido nas campanhas europeias, mas não lhe faltava urbanidade ou cortesia. Sem manifestar um afetação de maneirismos, era afável e complacente, sem que perdesse o respeito de quem lidava com ele. Lecor conseguia complementar o seu semblante sério e marcial com a compostura de um homem culto e habituado à alta sociedade.

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Em 1822, veio a independência do Brasil e, decerto, a decisão mais monumental que Lecor tomou na sua vida: a de a apoiar na pessoa do Principe D. Pedro, então regente do Brasil. Lecor teve a plena noção do significado da sua decisão, e tomada essa decisão, assumiu-a como sua. Pesem embora outra fatores, como ter casado em 1818 com D. Rosa, uma dama montevidenha, sentiu claramente uma forte afinidade com o projeto brasileiro.
Associado a isso, e como escreveu em carta a José Bonifácio, reagiu aos “planos evasivos do partido Espanhol, dominante nas Cortes, porque no duro cativeiro de S.M.F. nada me parecia mais digno do que obedecer a Seu Augusto Filho”.

O capitão general da Cisplatina não esqueceu também decerto a luta intestina de muitos dos seus subordinados enquadrado no famigerado “Conselho Militar”, e que levava a Divisão de Voluntarios Reaes a um ponto de insubordinação intolerável.

Como Lecor refere, essa decisão foi daquelas que um homem como ele só poderia tomar uma vez na vida. Nesse mês de Setembro de 1822, o seu compromisso com o Brasil foi assumido de corpo inteiro. O general passava a ser um dos “heróis da brasileia liberdade”, conforme nos dita um poema épico escrito anos depois.

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Em Abril de 1826, é nomeado Comandante em Chefe do Exército do Sul, no âmbito da Guerra da Cisplatina. Chega ao Rio Grande em Agosto, onde é recebido como um herói pelo povo gaúcho, como já o havia sido em 1816.
Não tem tempo de fazer obra, pois D. Pedro exonera-o apenas um mês depois, substituindo-o por Barbacena. A fria receção que recebe do imperador em Porto Alegre é decerto um dos pontos mais baixos da sua carreira.

Os argentinos, porém, ganham ímpeto no conflito e as forças brasileiras sofrem uma derrota no Passo do Rosário, em Fevereiro do ano seguinte. Em Agosto de 1827, o visconde da Laguna, no Rio de Janeiro, é de novo nomeado Comandante em Chefe e retorna ao Rio Grande. Encontra um exército desorganizado e desmoralizado e propõe-se, desde logo, a reformar o contacto com os negociantes locais, de forma a garantir o sustento e transporte. O seu crédito e reputação política é ainda enorme no Rio Grande e todos nutrem por ele uma enorme simpatia.
Durante o ano seguinte, Laguna mantém o Exército do Sul intacto, novamente acusado de inação ou até covardia. Os seus subordinados apelidam-no de Cuntactor Segundo, o adiador (como o romano Fábio Máximo Cuntactor que evitava combater Aníbal na II Guerra Púnica). O epíteto se não é, em termos marciais, o mais elogioso, não é também o mais ofensivo. Era o requerido para a defesa do Rio Grande, de forma a deter quaisquer incursões argentinas.

Quando a paz vem em 1828, o Visconde da Laguna já não é um homem novo, tem 64 anos, mais de 30 passados no Real Serviço, muitos deles em campanhas. É claramente o fim da sua carreira. Retorna de vez ao Rio de Janeiro e reforma-se como Marechal do Exército.
O seu último comando revela mais um pouco do homem. Em 1835 , a regência nomeia-o comandante superior da Guarda Nacional do Rio de Janeiro; um cargo simbólico, mas demonstrativo de que mantinha a confiança do Brasil, mesmo após a abdicação de D. Pedro.

Carlos Frederico Lecor, Visconde da Laguna e Grande do Império, fecha os olhos pela última vez a 2 de Agosto de 1836, na sua casa junto à ponte do Aterrado, no Rio de Janeiro. É enterrado nas catacumbas da Igreja de S. Francisco de Paula.

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Concluo aqui o meu elogio a esta extraordinária figura histórica, algo extenso e espero que não muito maçudo, com a esperança de lhe ter honrado a memória de soldado, que pertence tanto a Portugal quanto ao Brasil. Espero ter também ajudado ao conhecimento de um homem assaz desconhecido, quase criminalmente, num e noutro lado do Atlântico, mas daqueles que sem grande alarido, mas com grande competência, lealdade e devoção, ajudou à grandeza dos nossos dois países. 

Muito obrigado pela vossa atenção.

2 de junho de 2019

Iconografia Lecoriana

Aqui apresento um pequeno historial da iconografia relativa ao marechal Carlos Frederico Lecor, que tenho encontrado na rede mundial de computadores, com algumas observações acerca das suas origens.

(1) Brigadeiro Carlos Frederico Lecor (Desenho original de Francisco Bartolozzi da Col. de A.P.) Publicado em : Ângelo Pereira, D. João VI Principe e Rei, Volume III: A independência do Brasil, Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1956. p. 112


(2) Gravura de autor desconhecido, representando Lecor no Rio de Janeiro, muito possivelmente em 1816. Publicado em: DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 vv.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.

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..:: Retrato (1821-1823) ::..

(3) Retrato a óleo, autor desconhecido, Museu Histórico Nacional (Montevideu). Dato a partir de 1821 o retrato, pois o militar usa a banda da Grã Cruz da Ordem da Torre e Espada, que recebeu por decreto de 15 de Novembro de 1820.
Apesar de o general Paulo de Queiroz Duarte aventar que o autor fosse o pinto Miguel Benzo, parece difícil ser esse o caso, tendo outras fontes apontado o pintor Joseph Guth, sueco, que estava na região por esta altura.

(4) Gravura de A. Samson, 1976, com base no retrato a óleo do MHN. Publicado em: DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 vv.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.

(5) Gravura de Ivan Wasth Rodrigues, c. 1984, com base no retrato a óleo do MHN. 
Publicado em: DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 vv.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.

(6) Gravura de autor desconhecido, de uma miniatura existente no Museu Historico Nacional de Montevideu. 
O uniforme (e condecorações) portuguesas indicam que tenha sido feito antes de 1824. Publicado em: Hermano Damasceno, Ensayo de Historia Patria (10.ª Ed.), Barreiro y Ramos, Montevideu, 1955. p. 387

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..:: Retrato (Época "brasileira") ::..


(7) Visconde da Laguna (Gen.l Lecór), Carlos Frederico Lecor. 
Parece ser a representação fotográfica de um quadro a óleo, com o general em uniforme brasileiro, cuja localização e autor desconheço (tendo já sido aventada algures a possibilidade do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro). Foi pintado após 1824. 
Publicado em: Anais da Biblioteca Nacional, Volume 88, 1968, Divisão de Publicações e Divulgação, Rio de Janeiro, 1970, entre as páginas 64 e 65, sem qualquer informação de origem.

As ordens e condecorações no retrato, predominantemente portuguesas, datam o retrato de entre 1820 e 1823. O uniforme parece ser também o português, pelo que foi pintado antes da independência do Brasil, ou nos meses posteriores em 1822.

(8) Carlos Frederico Lecor, General Visconde da Laguna
Desenho de José Wasth Rodrigues (1891-1957) segundo fotografia de quadro a óleo cedida pelo Comte. Luís (?) Alexandre Mateus [a (7)]. 

Publicação desconhecida. Parece baseada no quadro a óleo anterior, mas tens ordens diferentes representadas: ao pescoço em gravata, a Medalha de Distinção do Sul, do Império do Brasil, criada em 1823, e a placa de oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro, criada em Dezembro de 1822.

(9) Gravura de autor e proveniência desconhecida, mas decerto baseada no mesmo quadro a óleo referido para a gravura anterior.


(10) Gravura de autor e proveniência desconhecida, mas decerto baseada no mesmo quadro a óleo referido para as gravuras anteriores.

É de notar que nas três reproduções do retrato da época "brasileira", todos os artistas desenham incorrectamente a medalha no peito direito, que é de facto, e como se pode ver na representação fotográfica inicial, a Medalha de Comando portuguesa relativa a quatro ações da Guerra Peninsular. Tendo a mesma base (o retrato (7)), mas atualizado para incluir medalhas brasileiras que Lecor recebeu posteriormente.

Não será de excluir porém que haja um terceiro retrato a óleo em vida de Carlos Frederico Lecor, mas as semelhanças e posição do retratado parecem-me evidentes.

4 de janeiro de 2019

4.º invasão Francesa na Beira Beixa: Carta de 14 de abril de 1812


A carta transcrita em seguida é o relatório de ação do brigadeiro Carlos Frederico Lecor, ao secretário de estado dos negócios da guerra, D. Miguel Pereira Forjaz, a 14 de Abril de 1812, em que reporta o que aconteceu no âmbito do que costuma chamar a 4.º Invasão Francesa, na verdade, uma grande incursão de forragem, nas Beiras, liderada por Ney ?. Enquanto Ney atacou Guarda, provocando a debandadas das forças portuguesas de milícias aí, Marmont avançou para sul em direção a Castelo Branco.
As notícias da tomada de Badajoz chega aos franceses, e estes decidem sabiamente o retorno à segurança relativa de Espanha, mais propriamente Ciudad Rodrigo, que era o próximo objetivo de Arthur Wellesley.

«Illmo. e Exmo. Senhor

Tenho a honra de participar a V. Ex.ca. para por na prezença de S. A. Real que tendo o inimigo entrado em Alpedrinha no dia 10, como participei a V. Ex.ca. no meu ultimo officio, no dia immediato ás 2 horas da tarde avistei duas Columnas, que se dirigião a esta cidade pella estrada de Alcains, cobrindo a sua vanguarda com 6 esquadrões de Cavallaria.

As forças disponiveis das Millicias, com que me achava, não excedião os 1600=homens: era pois d’absoluta necessidade o retirar-me: a voz de marcha foi dada dipois da Guarda avançada inimiga ter entrado na cidade, e a Divisão de Millicias do meu commando cobrindo todo o trem dos Hospitais, alguns generos, e duentes, marchárão na milhor ordem para Villa Velha ahonde premaneci athe pella manhãa seguinte em quanto desfilou pella ponte os combois, gados, e toda a gente que por aquelle ponto pertendeu salvarse, e dipois combinando-me com o 1.º Regimento de Hussares que passou do sul do Tejo, fui occupar o Passo da Milhariça para me por ao alcance de poder executar as ordens superiores de que estava munido. //

A boa vontade e dispozição que observei em geral nos Millicianos, e a boa ordem com que executárão a retirada á vista do inimigo com o vagar que exigia a marcha de hum comboi de carros, faz o elogio desta tropa, e dá bem a conhecer do quanto são suceptiveis.

O inimigo logo que se me reunio alguma Cavallaria do 1.º de Hussares, não se atreveu a avançar. Hontem pella manhãa se retirou desta cidade em direcção a Penamacor com alguma precipitação [1].

DGVE muitos anos.
Castello Branco, 14 de Abril de 1812
Illmo. e Exmo. Snr. Dom Miguel Pereira Forjaz

Carlos Frederico Lecor
Brigadeiro»

[1] As forças francesas tinham tido, nesta altura, a informação que Badajoz havia sido tomada a 7 de abril, pela força principal anglo-portuguesa.


Fonte
Arquivo Histórico-Militar, AHM/DIV/1/14/097/42 [ff 21-22])

12 de dezembro de 2018

Transcripto: Conferência sobre Lecor (Wanderley Pinho, IHGB, 1936)

"Se esta minha iniciativa chegar a se converter em realidade poderei tranquillisar a minha consciencia inquieta da ousadia que aqui estou commettendo, pois terei contribuido para que outros, mais felizes, com todos os documentos á mão, façam o que eu faria agora, se pudesse." (Wanderley Pinho; na foto)

[Transcrição de uma conferência acerca do marechal Carlos Frederico Lecor, dada pelo Wanderley de Pinho, por ocasião do centenário da sua morte, em sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro]


INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRASILEIRO — QUINTA SESSÃO ORDINÁRIA (SESSAO 1.620), EM 3 DE AGOSTO DE 1936. COMEMORANDO O CENTENARIO DA MORTE DO GENERAL CARLOS FREDERICO LECOR, VISCONDE DA LAGUNA — PRESIDENCIA DO SR. CONDE DE AFFONSO CELSO (Presidente Perpetuo).

Às 17 horas, abriu-se a sessão, com a presença dos seguintes socios: Conde de Affonso Celso,- Benjamin Franklin Ramiz Galvão, Max Fleiuss, Luiz Felippe Vieira Souto, Manuel Cicero Peregrino da Silva, Augusto Tavares de Lyra, Itamon J. Cárcano, Affonso de Escragnolle Taunay, Thiers Fleming, Fernando Luis Vieira Ferreira, José Wanderley de Araújo Pinho, Helio Lobo, José Mattoso Maia Forte. Theodoro Sampaio. Lucas Boiteux, Manuel Tavares Cavalcanti, Emílio Fernandes de Souza Docca, Virgílio Corrêa Filho, Henrique Carneiro Leão Teixeira Filho, Rodrigo Octavio Filho, Hermenegildo do Amaral, Monsenhor Federico Lunardi e Alfredo Ferreira Lage.

[…]

O Sr. CONDE DE AFFONSO CELSO (Presidente Perpetuo) abrindo a sessão disse que a ordem do dia era a apreciação da vida e da obra do Tenente General Carlos Frederico Lecor, Visconde da Laguna, figura egregia do ultimo periodo do regime colonial e nos primeiros decennnios do Imperio, e de cujo obito passou hontem o centenario. Nascido em Portugal, naturalizou-se brasileiro, jurou a constituição do 1824, serviu prestantemente ao nosso paiz. Conselheiro de D. João VI, Barão portuguez, os seus titulos de baronato e viscondado da Laguna, recebeu-os do Brasil como justa recompensa de preciosos trabalhos. Acceitou gentilmente a inccumbencia do versar o assumpto, um dos mais jovens e prestimosos socios do Instituto, e que já se tem recommendando ao coficeit0 publico por brilhante operosidade na politica e nas letras. Para definil-o é sufficiente lembrar que representa galhardamente tres grandes tradições: a de Araujo Pinho, a de Cotegipe. e as dos Calmons. Com indubitavel aprazimento geral transmittia a palavra ao Sr. Wanderley Pinho. 
Applaudidas as palavras do Sr. CONDE DE AFFONSO CELSO, leu o Sr. WANDERLEY PINHO a seguinte conferencia.

CARLOS FREDERICO LECOR
[José Wanderley de Araújo Pinho (1890-1967)]

O nobre presidente deste Instituto — o illustre Sr. Conde de Affonso Celso — é desses homens felizes que mandam e imperam sobre quantas um dia delle se appromixam [sic]. A sua gentileza generosa vence e captiva as vontades mais rebeldes. Rarissimos terão sido aquelles a quem sobrou animo para lhe dizer não.
Só essa Submissão, essa impossibilidade de contrariar a quem tanto me merece, dar-me-ia nesta tribuna — cuias responsabilidades não desconheço — a improvisar quasi uma conferencia sobre um homem, a respeito do qual tanto há que estudar e dizer.

Surprehendido com a minha designação para fallar no centenario da morte de Carlos Frederico Lecor, tendo apenas pouco mais de duas semanas para pesquizar-lhe vida e acção, tempo, sem tempo sequer, da manusear todas as fontes archivaes em que poderia abeberar a informacção desta palestra —0 que vos vou dizer não é senão um bosquejo, um esboço de estudo.
 Naquelle curtissimo prazo pude tão só medir o que ha a esclarecer, criticar, narrar; apenas pude folhear pequena parte da grande quantidade de documentos que nossos arquivos guardam; relancear pouquissimos livros patrios, uruguayos e argentinos.
Palpei filões de metal de lei: — informação, verdade, razões e motivos; senti o que aquelles papeis guardavam: —  certeza, encanto da realidade dramatica, curiosidade de um caracter forte e subtil. Entretanto — minhas senhoras e meus senhores — trago-vos unicamente algumas pepitas, e ainda envoltas na canga impura da minha linguagem !...
Livros e documentos deixavam-me entrever um largo e bello panorama de onde se destacava uma grande e majestosa figura. Que linda téla! Que magnifico retrato — se me sobrasse, alem de tempo, engenho e arte !... Só me foi dado travar com pesada mão, grossos tratos de incompleto contorno.
Tende paciencia; tende-a igual ao meu tormento; que nem o que eu pudera de melhor, e que sendo meu seria pessimo, vos hei de aqui agora, dizer, por paga á tão generosa attenção de me ouvirdes.

*

A 30 de Março de 1816 entravam barra a dentro desta bahia do Rio do Janeiro naus de alto bordo, comboio de vulto em velas de porte. Chegavam de Portugal os Voluntarios Reaes do Príncipe, divisão numerosa de mais de 4.800 homens, portadores de glorias e nomes. Commandavam-nos officiaes orgulhosos de antiga prosapia, ou nobilitados por serviços de coragem e sangue na guerra peninsular. Veem todos ainda esbrazeados dos ultimos clarões da recem-extincta fogueira napoleonica, — á sua frente Carlos Frederico Lecor, depois Barão e Visconde de Laguna, e que na data de hoje, ha precisamente cem annos, quasi septuagenario, fechava os olhos para o mundo.
Tendo culminado nos postos da carreira militar — tenente general — aureolava-o já naquellça occasião, em pleno vigor dos seus 49 annos, o prestigio das lendas, entre as quase era lembrado o serviço util de desmanchar uma ponte, com o que atrazara o avanço de Junot, dando tempo a D. João VI embarcar para o Brasil. 
Quem tanto seria reparado por adiar e contemporizar poderia responder com ironia que adiando, permittira acontecimento do tamanhas resultados sobretudo para este grande paiz a que vinha servir e amar.
Não era o Brasil para elle novidade. Revia céos e terras da America que conhecera na Bahia. como tenente da guarniçaão da nau “Príncipe Real", em 1795. Mas não teve tempo do embriagar-se das bellezas da Córte descansando da travessia. Ia partir para playas platinas em commisão delicada e operações de guerra.

*

Debret nos deixou, num de seus desenhos a lembrança daquella revista e parada de 12 de maio de 1816 na Praia Grande, quando a divisão, que embarcaria nove dias depois, desfilou deante de D. João VI, da real familia, de Beresford e de Lecor.
Faziam aquellas tropas contraste com as locaes, pelo desgarre. pela disciplina, pelos uniformes, pelo manobrar perito de soldados experimentados. Essa observação não escapou ao Príncipe Maximillano de Neuwied que lhes gabou o desembaraço e o garbo, a “tournure tout a fait militaire” emquanto a outros contemporaneos irritava "certo ar do chibantaria" com que portavam suas fardas tafues.
As victorias succesivas que iam colher, porém, na campanha contra Artigas, não as lograriam aquelles veteranos, certamente, desajudados dos cavallarianos do Rio Grande e dos milicianos de São Paulo e Santa Catharina.
Não repitamos; já é tempo de não mais repetirmos, o que proclamam a sensibilidade pouco critica o os exageros de fraternidade americana á custa da exactidão historica, ao lembrar dessa campanha da Cisplatina, que se pinta como empreitada de cubiça desaçaimada, descabellada conquista e desrespeito á independencia e liberdade de uma nação irmã.
Tempo faltaria agora, comquanto sobrassem argumentos, factos, documentos, para desmentir o que nem mesmo sustentam escriptores orientaes e argentinos dos de melhor quilate e de mais ponderada isenção.
Basta lembrar o que era então a politica sul americana, a situação de anarchia das antigas colónias hespanholas da America, ainda em luta para se libertarem da metropole, quasi todas pasto de combates reciprocos de caudilhos que alli semeavam, com a guerra, a divisão e o cahos.
Basta recordar o que escreveram: entre nós, Oliveira Lima e Rio Branco o Souza Docca; entre os do Prata, Berra e Mitre. Uruguay e Argentina mandaram ao Rio de Janeiro embaixadas solicitando a intervenção; orientaes e argentinos ajudaram-na; entre os designios de organização monarchica dos que dirigiam Buenos Aires não repugnava a annexação disfarçada das Provindas Unidas, sob o sceptro de um principe bragantino; entre as aspirações de paz o a reacção aos horrores da caudilhagern de Artigas, não se opuseram, antes pugnaram muitos e muitos orientaes como uma salvação, acolherem sob a protecção luso-brasileira a sua provincia. 
A politica exterior de D. João VI e seus ministros, todos sabemos, era hesitante e imprecisa, aliás como pediam, além ao caracter do rei, os tempos e as circurnstancias. A Côrte do Rio de Janeiro temia pôr-se ao lado dos rebeldes americanos, receiando uma luta na Europa com a Hespanha; e temia alliar-se á Hespanha, com receio de lutar, na America, com os rebeldes. Havia de marombar, trapacear, negacear. 
Mas sem esquecer as antigas aspirações de limites, a velha politica do expansão até o Prata, não podia a Côrte soffrer os desmandos de Artigas tão na nossa vizinhança e até dentro das fronteiras do Rio Grande. Da Banda Oriental vinham pedidos de intervençao; do Buenos Aires não menos. O emissario Garcia insistia e a situação diplomatica veio como que a obrigar. 
Pois se o congresso de Vienna tratara os interesses portugueses de sémenos? Pois se não indemnizara a Portugal dos gastos da guerra peninsular, dos prejuízos soffridos? E se nem ao menos lhe restituia a praça de Olivença retida pela Hespanha?
Só, portanto. no ambiente da America, era possivel mostrar decisão, fortaleza, espirito de represalia e reter, como um refem una província de Hespanha e. ao mesmo tempo, levar a paz a povos que a pediam, exterminando um caudilho que era uma continua ameaça à tranquilidade do continente e do Brasil. porque não realizar o grande golpe?
Foi Lecor o incumbido, e partiu, com escala em Santa Catharina para desembarcar em Maldonado ou outro porto da costa do Rio da Prata, a occupar Montevidéo. fortalecer-se na Colonia do Sacramento, “bater o despota Artigas, reduzil-o a ultima extremidade, sem necessidade de lhe dar quartel”, expellindo-o para além do Rio Uruguay; proteger e pacificar os povos, respeitando-lhes usos e costumes. 
Ia occupar um territorio, formar ahi uma capitania com governo proprio e interino, emquanto conviesse à segurança das fronteiras do Brasil, mas de modo que tirasse á operação politico-militar toda e qualquer antipathia: evitasse o saque; concedesse condições do capitulação as mais liberaes; conservasse patentes e soldos; não apresasse gado, mas o comprasse e pagasse; respeitasse a organização politica do cabildos e alcaides; adquirisse por todos os meios possiveis os animss dos pavos para o serviço de S. M.; não investigasse os princípios políticos seguidos até então por estes ou aquelles orientaes; protegesse os parochos e os chamasse ao partido da côrte portugueza: admittisse como cadêtes os moços pertencentes as familias do Montevideo que estivessem no caso de ser admittidos; conservasse os corpos de milícias da provinda com seus privilegios. não esmerando muito na disciplina dellas para não mortificar os homens. E, ainda que fosse combater Artigas com aquelles rigores, não excluisse a hypothese de com elle pactuar, se elle se conformasse em dissolver suas partidas, viesse residir no Rio de Janeiro ou onde S. M. permittisse, com o soldo de coronel de infantaria que se lhe daria e a faculdade de vender seus legitimos bens. 
Lecor seria ainda mais brando do que taes instrucções aconselhavam.

*

Sabeis que estas não poderam ser obedecidas quanto ao seu desembarque em Maldonado ou outro porto do Prata. O mau tempo e os ventos contrarios levaram Lecor a marchar por terra e pelo litoral de Santa Catharina ao Rio Grande e ao Estado Oriental.
Nos limites de uma palestra não caberia a critica ás operações militares da expedição, louvadas unanimemente pelo acerto dos planos e pela perfeição e felicidade da execução. As forças entraram por columnas destacadas e, onde quer que encontraram as de Artigas, as derrotaram. 
Artigas tinha o orgulho indomavel do homem que obedece aos instinctos e o primarismo da bravura que não raciona. Os seus successos. o habito das victerias animavam-lhe a confiança e a certeza do que a sua arte guerreira era infallivel. Manda ao seu Andresito (aquelle indio que era todo o seu desvelo) invadir as Missões; dispõe de forças de socorro em Mandisovi: elle proprio se vae collocar perto de Santa Maria; destaca Otorguez até Santa Tecla, emquanto Rivera ocupava com as milícias de Maldonado a campanha de Santa Thereza. Pensava em attrahir ás Missões uma parta do exercito luso-brasileiro para envolvel-o com seus contingentes de Santa Maria e Santa Tecla, e ao mesmo tempo Rivera e Otorguez se Incumbiriam de rechassar a coluna que viesse realizar a invasão pelo littoral.
Mitre que, além de historiador sereno, era um perito na arte militar, faz o elogio do plano de Artigos, comparando-o ao de Scipião, o Africano, ao buscar a salvação de Roma em Carthago. Faria honra a qualquer general: — "não só atrevido no sentido de offensiva, senão tambem prudente no sentido de defensiva". Mas, diz Mitre: era um plano superior á intelligencia de Artigas e seus tenentes. e. carecendo de base segura, que era a conservação de Montevideo, havia de fracassar. Berra, o historiador oriental, attribue a derrota das columnas de Artigas á ignorancia dos chefes, á indisciplina dos soldados e á maneira barbara do fazer a guerra. 
No desenvolvimento das batalhas Artigas e seus companheiros usavam de uma tactica que reputavam indiscutivel mas que resultou desastrosa: a do estender as forças em ardem aberta sobre um grande terreno para cercar o inimigo — expediente de pouca sabedoria, que permitiu, por exemplo. a 900 luso-brasileiros vencerem em India Muerta a 1.400 homens de Rivera. O certo é que, em S. Borja. Abreu desbarata as forças de Andresito: Berdun é batido em Ibiracoahy por Menna Barreto e chega a vez do proprio Artigas amargar a derrota em Carumbé pelos que commandava Oliveira Alvarez. E Lecor penetrando no territorio uruguayo, vae de São Miguel a Santa Thereza e a Maldonado e, depois de vêr Rivera destroçado em India Muerta, chega a Montevidéo, recebido debaixo do pallio, com te-deums e honras. Com elle vinham orientaes que aconselhavam a invasão, vinham milícias que iam adherindo.
Vencia nas batalhas a bôa arte da guerra e a disciplina: vencia na "campanha" e nos "pueblos" a persuasão. a idea da paz, a protecção da ordem. 

*

Atravessando campinas orientaes Lecor augmentava as disposições de seu espirito para a pacificação e sentia crescer-lhe a sympathia por aquelles povos e por aquelle paiz. Encantavam-no os panoramas que se lhe desdobravam na marcha. Vinha da Europa, das labutas de outra guerra. Tudo aqui era differente. Não via tapadas e quintas de Portugal, nem mirava, melancolico, o verde escuro de bronze dos olivaes andaluzos, manchando com sombras a terra vermelha. sem relva, dos campos ibericos. Terras do Uruguay tinham outra belleza, mais desaffectada, menos cuidada pelo homem podia dizer — mais paradisíaca; eram como um affago da natureza, que parecia estender tapetes para recebel-o, com aquellas fôfas hervas que o cavallo pisava, esse encanto do campo uruguayo que Zorilla de San Martin celebra com um enthusiasmo de vaqueano: "alfombra dc vegetacion herbacea, formada de más de quinientas especies de gramineas que abriga el cuerpo de la tierra, como la piel de un animal, sob la que pasam estremecimientos vitales". Atravessando a Banda Oriental Lecor devaneava na poesia da "vida carminosa" das aguas de rios, arroios e banhados. E cedia ao abraço ambiente. Desde aquelles longínquos fingimentos de serra, esgueirando falsas alturas, á custa da humildade modesta das cochillas, até aos tufos de florestas escassas e esparsas. interrompendo em hiatos a extensão ondulosa dos campos que os umbús salteam para orientação do viandante. A maravilha do homem europeu crescia ao descortino daquellas "lombadas elasticas que se reproduzem sem cessar... sobem e baixam, ondulam no espaço como enormes turgescencias de seios nubeis que respicam dormentes" (Zorilla de San Martin). E o general aspirava embriagado aquella "atmosphera de alegria' que ali respirou Saint Hilaire, e cuja lembrança guardou em seus escriptos. 
Desde então Lecor foi um namorado daquelle pais. 
E ainda amou aquella gente por sentil-a em desventura batida e rebatida pelas guerrilhas, correrias e montoneras. É de 7 de março de 1817 um officio seu em que narra ao conde da Barca: "desde que sahi da capitania do Rio Grande como tambem em toda a digressão que tenho acabado de fazer pela campanha recebi continuadas representações de familias desvalidas que se achavam na ultima indigencia e que, receando ser victimas do estado em que esta provincia está, me requereram lhes permittisse o abrigo das tropas, não só para haverem alguns meios de subsistencia, mas não correrem o victo dos partidos". Ainda que, como general, bem visse os inconvenientes de augmentar a retaguarda da columna com essa cauda do necessitados, sentiu a impossibilidade de o negar aos que por tanta necessidade aquillo lhe pediam. E consentiu; suggerindo apenas que áquelles desgraçados se dessem terra e trabalho nas cochilhas do Rio Grande. 

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As instrucções que trouxera, a sympathia que a terra e os povos orientaes logo lhe inspiraram correspondiam á maravilha, á indole e ao caracter de Lecor.
É desse caracter que vos quero falar. Não me ocuparei da general. mas do politico, do conciliador paciente, do diplomata da traças finas, de sua finura tantas vezes exquisita e paradoxal, de sua intelligencia culta servida de uma fórma não raro tomada de rythmo. O que, sobretudo, desejo salientar são os rumos constantes da sua acção no Prata: — elle sempre pensou e agiu no sentido humano e americano. 
É percorrer-lhe a correspondencia e sentir a sympathia pelo seu semelhante: o desprezo pelas violencias preferindo contemporizar a vencer; a indulgencia amnistiadora; a bôa fé que, se o engana, testemunha franqueza e lealdade; a benignidade pelos que soffriam; a fé nas soluções pacificas da habilidade tenaz. E é ler-lhe as cartas e officios e sentir, sem falha ou destallecimento a sua preferencia pelos americanos. pelos nativos, revoltados contra a metropole hespanhola, sentimento dominante que o ajudaria mais tarde a não hesitar e decidir-se a ser brasileiro, contra o Portugal onde nascera. 
E, como o rei a quem servia, “preferia os enredos ás pelejas”. Estava sempre prompto a separar os adversarios em dissidios, sabia como poucos manejar a espionagem, tinha vivo o dom de enganar; e usava a seducção paciente para captar, sendo habil em apreçar os que tinham que vir pelo interesse.
E dourava a tudo com o optimismo de quem tinha a certeza do pacificar e melhorar, crente de poder, sob a protecção luso-brasileira, fazer daquelle paiz um paraíso. 

*

Não perdia tempo em levar áquellas regiões beneficios. Mal chega pensa em installar na ilha das Flores um grande pharol, que adquire em Inglaterra (30 de dezembro de 1817 e 1 de maio de 1819). E, quando (outubro de 1819) se accentua o receio da Banda Oriental voltar ás mãos dos hespanhoes, lamenta pudessem estes retirar aquillo de que tanto se orgulhava: "para que nestes mares não fique á posteridade aquelle glorioso padrão que, apesar delles, conserve o nome portuguez no Rio da Prata (1 de outubro de 1819).
Na "campanha" regularizava a propriedade e incentivava a cultura e creação, com seu bando de 7 de novembro da 1821 sobre terras realengas e sua venda e regularização dos titulos de propriedade rural.
Cuidava das estradas (5 de maio de 1819); favorecia com uma loteria a fundação de uma casa de expostos (officio de 27 de julho do 1819 a Villa Nova Portugal); encaminhava com louvores e interesse um memorial de Mr. Drapper que pretendia trazer colonos seus compatriotas — suissos — para a agricultura do Uruguay (11 de setembro do 1824) ; e diligenciava junto a José Clemente Pereira para ali Introduzir plantas e sementes “tanto uteis como agradaveis” como laranjeiras, fruta-pão, goiabeiras, ananazes, jasmins do cabo. trombetas, chorões, — e aquellas rozeiras de S. Francisco "que são uma arvore que a flor primeiro é branca, depois cor de rosa e morre roxa" (12 de abril de 1822). 

*

Tinha Lecor opiniões e soluções imprevistas. 
Andava elle carecido do trigo em Montevidéo. E Buenos Aires impunha aos que o exportavam, de maneira nenhuma o vendessem no porto dominado por Lecor. Pois este achou meio de obter o trigo, tranquilizando o vendedor de que assim não quebraria a fiança a que se obrigara com aquella condição, mandando baldear para a fragata "Tenaz" surta ao Largo da bahia de Montevidéo, o grão adquirido (24 de abril de 1817).
Certa vez chega a Montevidéo, um navio com passageiros francezes que se destinavam a Buenos Aires a servirem no exercito desta provincia. Devia Lecor impedir ou difficultar a ida desses futuros combatentes para onde se transformariam provavelmente, em futuros inimigos. Entretanto, muita ao contraria o Visconde de Laguna facilitou-lhes a viagem até Buenos Aires. E assim justificou o seu procedimento: “o governo de Buenos Aires se verá mais apurado á proporção do maior numero de estrangeiros que entram no seu seryiço, principalmente francezes sem fortuna e desvalidos, não só pelo gravame que lhe faz o pagar-lhes os seus estipendios e ajuda de custo, no máo estado das suas finanças, que os tem obrigado a suspender soldo aos mesmas nacionaes, nas pela encommoda collisão em que o põem as murmurações dos filhos do Paiz, que não podem tolerar a collocação dos estranhos" (28 de agosto de 1817). 
Em maio de 1825 as tropas de Lavalleja e Rivera separavam as de Lecor das de Barreto e Abreu. O general em chefe anciava por communicações com aquellas columnas, mas não achava meios. Nisto chega á praça o prisioneiro brasileiro Ferrara com uma proposta dos rebeldes orientaes, a Lecor para a suspensão das hostilidades afim de que “los pueblos” se manifestassem pacificamente a respeito de suas vontades e futuro políticos. Era um expediente protelatorio. Lecor não responde. Manda que o faça Ferrara por um official, dizendo que por este mandava communicar a proposta a Barreto e Abreu para poder resolver. E desse modo conseguiu que o inimigo deixasse passar por suas linhas o agente de communicações. O official levava instrucções a Barreto para que respondesse a Lavalleja por palavras escapatorias e sem maior compromisso, e um pedaço de tafetá branco no qual devia por escripto responder a elle Lecor.
Doutra feita Lavalleja lhe dirije um officio e põe na sobrecarta a declarado de procedencia: “Do Governador e Capitão General da Provincia Oriental". Ao parlamentar portador declara Lecor com altivez: não recebia aquelle papel pois só havia um governador e capitão general da provincia que era elle, nomeado pelo seu soberano... mas, informava para o Rio — "fiz comtudo abrir subtilmente o mesmo officio de que mandei extrahir copia que incluso remetto á V. Ex." (28 de setembro de 1823). E restituiu a sobrecarta, como se a não tivera aberto, naturalmente com a mesma altivez da inicial recusa.

*

São de notar em Lecor certos meneios de linguagem com alguma pretenção literaria. Não se contentava de dizer e escrever bem e claro. preoccupava-o a arrumação artistica com preciosismo amaneirado. E não lhe faltava, ás vezes, um certo rythmo que ainda nos sôa bem ao ouvido. 
Aqui está um exemplo neste parecer que elle manda ao ministerio, quando foi dos fundados receios da Côrte do Rio de Janeiro de que a Hespanha, abandonando medeiações e diplomacias, se aprestava a mandar, em fróta numerosa, uma divisão militar de forte poder para atacar Montevidéo e Santa Catharin.
Para começar perguntava Lecor: que será melhor —"retirar para as fronteiras e vir cobrir Santa Catharina, ou defender Santa Catharina e Montevidéo?" E passou a responder, com penna aparada, conceituoso e guindado. com reminiscencias classicas na forma castigada: "nas differentes idades dos imperios tem influencia varia os achaques politicos a que eles estão sujeitos. O mesmo mal na sua infancia não os deixará continuar; no seu augmento os atrasará; no seu estado os fará decahir e na sua decadencia os levará rapidamente ao precipicio. Devem pois os remedios ter aquellas épocas em vista, e ser, na infancia, brandos; no augmento. decisivos; enérgicos no estado; e na decadencia, palliativos”.
Teriamos muito o que dizer dessas noções de estadistica a therapeutica politica, mas vê-se que os officios de Lecor, com certa inspiração na "Summa Politica" de Sebastião Cesar de Menezes, não ficariam mal entre os de Villa Nova Portugal e os do Palmella. 
Continuava o general letrado: "quando as nações estão ameaçadas do um mal extremo, o seu unico e melhor recurso costuma encontrar-se nas resoluções extremas e na celeridade com que depois de ponderadas maduramente, passam a executar-se. Longo tempo e em vão têm muitos povos chorado o pernicioso effeito que lhes produzirão as meias medidas, com que pretenderão sahir de collisões extremadas, e o vagar com que tratarão o que só com pressa aproveitaria; e muitas vezes têm pelo contrario, os grandes perigos respeitado o animo generoso que denodadamente arrasta, e surprehende com a rapidez das suas operações". 
Aqui o contemporizador, o cuntactor, o adiador, parece querer ter golpes de Alexandre, sem paciencia, sequer, para desatar a adversidade. 
Depois desse proemio entra elle na apreciação dos factos: “eu considero o Imperio do Brasil na segunda época da sua idade, no seu augmento: e julgo que é extremo o mal que dizem o ameaça. Cumpre, portanto, ser heroico e prompto o remedio; muito principalmente havendo todas as probabilidades a favor do resultado e não podendo nunca o peior evento ser tão mau, como a falta de diligencia para o arredar". 
Bem vemos sempre uma construcção de phrase elegante, certo torneio de linguagem tersa.
Não havia da parte do rei da Hespanha apenas o empenho do sustentar um direito, mas espirito de vingança: "azedado publicamente pela nossa occupação e ferido em particular pelos rumores que andarão na Côrte do Rio do Janeiro sobre a morte da rainha sua augusta esposa, e que o haviam de chocar, sendo falsos: — porque forão inventados, e sendo verdadeiros: — porque foram descobertos". Ora a vingança e a tenacidade eram os "affectos mais dominantes do caracter de Fernando 7.º, era pois de receiar muito que invadisse Santa Catharina a titulo de refrescar", "fazendo-lhe reconvenções a titulo de represalia" e, quando o incidente terminasse por alguma negociação, a Hespanha receberia Montevidéo "florescente, rica, adornada", emquanto seria restituida Santa Catharina — "ermo e devastado aquelle bello sitio em que apenas se veriam vestígios confusos do que houvera sido e uma ou outra lamentavel recordação da crueldade hespanhola. 
Este parecer caracteriza bem, além da fórma de escrever, a perspicacia politica e o gosto diplomatico de Lecor, nas previsões e supposições que alvitra, nas soluções e medidas que aconselha.
Restituída a Banda Oriental aos hespanhoes lá viriam de novo as questões de limites, obrigando o Brasil a continuados esforços “para repellir as demasiadas pretensões de semelhante vizinho que talvez nunca julgue bastante emquanto puder adiantar”. Tudo era de receiar da paixão exaltada de “um rei em momentos de poder” se o Brasil pudesse fazer presumir debilidade.
Não lhe escapa o louvor enthusiastico a D. João VI. Estava o Brasil, dizia Lecor, em uma daquellas crises “em que S. M. costuma tomar aquellas maravilhosas deliberações que tão justamente lhe merecem o nome de Mestre dos Reis em Politica”. E presumindo que se não pudesse, ou que não fosse conveniente oppor força á força, expõe seus conselhos politicos com uma argucia e logica que não são para menosprezar, nem menos louvar. As operações politicas que sugere são em primeiro logar intrigar para demorar por alguns mezes em Cadiz a sabida da expedição. O tempo decorreria favoravel ao Brasil que melhor se armaria e seria sempre funesto á Hespanha: — 2augmentar-se-hão os fretes dos transportes alugados ao estrangeiro e o desgosto dos donos nacionaes, que, desconfiando da paga, mais perderão quanto mais esperarem; as tropas comerão os viveres que se houveram acapeado para a viagem, e quem sabe como se poderão acapear outros; o dinheiro que se destina exclusivamente para a expedição talvez seja applicado a outro objecto urgente, que que em uma nação empobrecida não será raro apparecer; a falta de soldos descontentará os soldados, levando-os á deserção; e outros inconvenientes paralisarão ou de todo ou por muito tempo os planos hespanhoes”.

Os argumentos são de uma seducção a que nenhum espirito resiste. E foi de facto, o adiamento da partida da expedição que a veio obstar e impossibilitar: — a peste e a rebellião evitaram, afinal, que a temerosa e temida frota se fizesse á vela em sua missão de reconquista da America rebellada, talvez de vingança á corta portuguesa.
Essa expedição hespanhola que sa aprestava em Cadiz foi um “papão” da época. Todos a temiam; os do Rio de Janeiro, Lecor e os de Montevidéo, os de Buenos Aires. Contando com ella Lecor definia outro dilema: "ou este paiz se entrega amigavelmente á Hespanha ou pretende conservar-se para nós”. E formulava sua opinião: “no primeiro caso  julgaria eu que deve ter-se em vista não só ficarmos bem com a Hespanha e airosos com as outras nações, mas o consultar o nossos interesses e nossa propria segurança”. 
Mas como ficar bem com a Hespanha se se havia occupado a província, demonstrado grande favor aos americanos; se elle Lecor exilara hespanhoes por serem fieis á Hespanha e até frades por aconselharem essa fidelidade? 
Ouçamol-o: “ficaremos bem com a Hespanha mostrando com singeleza e muito naturalmente que a occupação deste territorio teve com effeito por fundamento os motivos que diz a proclamação ministerial com que entraram as tropas; que só tratamos de estabelecer aqui um governo interino e com elle a ordem até que a Hespanha enviasse forças capazes de segurar o pais: que em beneficio della so compuzeram as fortificações antigas, se fizeram outras novas, e se emprehenderam calçadas, molhes, hospitaes. aquartelamento e outras obras publicas em que tanto se tem trabalhado e finalmente que para melhor illudir os orientaes que suspeitavam a nossa conducta, e desconfiavam de intelligencia com a Hespanha até se tomaram algumas medidas que pareciam oppostas aos interesses daquella nação, como fôra o estabelecer os actos do governo em nome de S. M. El Rey Nosso Senhor” e mais deportar frades hespanhoes, admittir na administração americanos, etc. 
Tudo isso que elle Lecor fizera contra a Hespanha opinava agora se pintasse como disfarces para melhor reter a provincia para a Hespanha! Bem elle sabia que não enganava a ninguem, mas, se era preciso, seriam taes allegações expediente diplomatico, porventura util. Se Portugal assim se explicasse satisfaria ás nacões “que não tem mais remedio que dar credito publico ás nossas exposições, ainda que, particularmente, estejam persuadidas do contrario, e livrar-nos do ridiculo e impertinencia dos relatores.” 
Essa mentira teria por fim facilitar a defesa dos interessses luzo-brasileiros que então seriam “conseguir da Hespanha alguma cousa que nos faça conta na Europa ou na America ou bem em ambos os hemispherios e para cuidar da nossa segurança é necessario presumir que a Hespanha debaixo de todos os calculos não pode pacificar absolutamente a Banda Oriental, e por muitos motivos e que daqui nos resultarão males que devemos precaver.”
Esses males, os successos que se desenrolariam com a retomada da Banda Oriental pelas Hespanhoes, Lecor define e prevê com aquella sua acuidade e viveza: “os hespanhoes são teimosos e vingativos, e tanto os que residem nesta cidade e campanha como os que virão só vivem da consideração complacente das crueldades e castigos que darão aos americanos. Cartas de Hespanha e do Rio de Janeiro e algumas do mesmo embaixador hespanhol confirmam esta opinião; assim estes (os americanos) preferindo a miseria e trabalho ao governo hespanhol hão de continuar na insurreição, é provavel que se ajudem mutuamente e feita a paz entre Artigas e o governo do Buenos Aires, que é de esperar, virão os americanos, com o auxilio que, apesar de tudo, obrepticia ou declaradamenle lhes darão os de Norte America por systema ou por conveniencia, a renovar com o novo Capitão General hespanhol de Montevideu o caso Vigodet.”
Nessa conflagração, tão bem prevista, como ficariam Portugal e o Brasil que se teriam, ainda que fingidamente, manifestado a favor da Hespanha; se haveriam definido, ainda que falsamente, como solicitos gestores da negocios, expontaneos e operosos, da Hespanha na Banda Oriental? 
Lecor não havia de, em suas previsões, despresar esse lado dos successos provaveis: “como, porém, a nossa conducta ha de attrahir a execração e odio irreconciliaveis dos americanos, deve presumir-se que elles não se descuidarão de nos fazer o mal possivel por todos os modos imaginaveis contando desde já com a ajuda de muitos mercantis nossos que aprazarão os corsarios com patente de Buenos Aires, que subrepticiamente hão de armar-se em toda parte — porque o imperia do Brasil grande e ordenado, como elle pode ser, não convem a nenhuma nação maritima — devemos recear que elles invadam as nossas fronteiras e insinuando-se com os negros e alguns mal intencionados brancos das nossas capitanias, que desgraçadamente não faltarão, qualquer dia venham a levar os seus principios revolucionarios e aquellas quimericas, porém seductoras, idéas de liberdade natural e de igualdade a nossos dominios.” 
Contra isso só a segurança das fronteiras e Lecor entendia que que da transacção devia resultar que ficassemos com a posse dos fortes de Santa Thereza e São Miguel, além de conservarmos na fronteira do Rio Grande “uma força que tenha os nossos visinhos em respeito.”
Com que magoa Lecor dava essas opiniões. O seu sonho de incorporação pacifica e cordial — povos mansos e brandos e confiantes, sob a protecção e amizade de Portugal e Brasil — o seu grande sonho de concordia e progresso de um paiz que já amava como se ama a um filho que se creou e viu desenvolver — lá se ia, e com elle esforços e guerras o accordos e paz, tudo para entregar ao hespanhol odioso aquella provincia que elle com tanto cuidado e fadiga pacificara! 
Havia, felizmente, a outra alternativa—conservarmos para nós aquelle paiz. Se fosse esta a deliberação da Côrte: ou seria “declaradamente ou com pretextos e dissimulações”. 
No primeiro caso era a guerra.
Que diria della Lecor? Nada! — Sem dizer palavra sobre planos que suggerisse, forças com que contasse, estrategias que aconselhasse, declina de toda responsabilidade, num silencio fechado: — “o ministerio saberá se lhe convém". O segundo caso, o dos pretextos e dissimulações. era o que encantava ao Visconde de Laguna, e o gosto dos labirintos, das argumentações quasi paradoxais o exaltava nas opiniões que mandava ao ministerio. Para elle a retensão da Cisplatina só se podia dar emquanto não chegasse uma expedição hespanhola ao Rio da Prata, e esta devia ser evitada pelos meios da intriga adiadora que suggerira. Mas emquanto ella não viesse e dada a resolução de guardarmos para, nós aquella provincia, eis o que aconselhava: "bem longe de julgar que as nossas forças davam aqui augmeutar-se o acabar com Artigas, pacificando absolutamente a Banda Oriental. acho, pelo contrario, manejar-se deve, prudentemente a existencia daquelle chefe, por dois notaveis motivos, primeiro porque a Hespanha ha de instar pela entrega da Banda Oriental, tanto mais quanto maior for a facilidade de a pacificar e possuir, e por isso muito mais se ella estiver absolutamente pacificada; segundo porque se a razão justificativa da nossa entrada e presença neste lerritorio é a existencia do chefe Artigas, e dos males que elle fomentava. não existindo elle e pacificado o paiz não pudemos airosamente conservar-nos aqui vindo os hespanhoes, e fica a estes, e até ao Cabildo desta Cidade simplesmente o direito fundado, por diminutas que sejam as suas forças, para exigir que nos retiremos, pois que o nosso fim está conseguido”. 
Entreter a luta contra Artigas como meio de adiar os [...] da politica reannexadora da Hespanha! 
E se viesse a província a ser entregue aos hespanhoes com a cooperação de Portugal e Brasil, não se esquecessem os monstros e o rei dos effeitos de uma tão escandalosa considerada a situação da “monarchia do Brasil no meio dos povos constitucionais e quasi democraticos”, que nos execrariam por entregarmos a provincia á Hespanha depois de tantas esperanças em contrario. 
O politico, o diplomata, considerando as circumstancias. recommendava soluções nem sempre condizentes com seus dezejos e seu proprio caracter. Mas o homem de honra, cioso de sua palavra, queria tambem resguardar seus empenhos e cumprir suas promessas. Quando elle chegara coita sua divizão as portas de Montavidéo,  veiu-lhe em face o Cabildo e lhe entregou as chaves da praça, com uma condição a de que as restituiria ao mesma Cabildo se algum dia tivesse de evacuar a cidade que ia occupar. Lecor aceitou a clausula e queria por tudo cumpril-a: “não ma parece decente, nem digno. que eu entregue a outrem que não seja aquella corporação as ditas chaves. Se, porém, é necessario que se faça o contrario, rogo a V. Ex. que, dando-se-me anteriormente outro destino, me poupe este dissabor, que me attrahirá as justas imprecações e clamores destes infelizes habitantes, até pela triste figura que eu faria, depois de ter chegado o general hespanhol”. 

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Esses trechos de communicações e cartas de Lecor nos dão alguns aspectos curiosas da sua personalidade e do seu caracter, dignos, por certo, do um estudo a que não faltaria interesse psychologo e historico. 
Outros confirmam que as duas grandes forças dominantes de sua acção na Cisplatina foram uma larga inspiração de human idade e uma intensa sympathia pelos americanos. 
Era politico ser brando, ser e parecer bom. Mas era tambem inclinação de seu natural benevolo e indulgente. Um dia teve que justificar porque dava em Montevidéo asylo a tantos emigrados de Buenos Aires. 
Ali acolhera D. José Miguel Carretas que “tem pedido dinheiro emprestado para sustentar a familia” e a D. Carlos Alvear que tem “vendido algumas alfaias suas e quasi todas joias de sua mulher muito abaixo do valor para manter as suas precisões domesticas”. Carreras, escapado de Buenos Aires, fugitivo de seu paiz e buscando um asylo, mal poderia sel-o negado quando era “americano, chefe de um tal ou qual partido tambem americano”; Alvear, que viera da Côrte com passporte em forma, aborrecia, como Carreras aos hespanhoes. Ora, se pudesse faria elle, Lecor, de Montevidéo um asylo desses americanos. E tambem de europeus em desgraça. Se o general Brayer, receiando perseguições em Buenos Aires, consta se o receberia, e se lhe permittiria passar ao Rio de Janeiro, logo Lecor lhe offerece asylo, não vendo porque expulsasse de Montevidéo “um desgraçado que nenhum facto criminoso ainda praticara”. E informava: ”tambem [...] tem aportado alguns outros estrangeiros que ou perseguidos da fortuna ou buscando melhor sorte implorando a protecção de S. M., e como os necessitados nunca a invocam debalde, julguei que a não devia negar, principalmente não resultando daqui damno algum”. 
O general Brayer. com seu filho, que não passa de um jovem nenhuma supposição, esperam entre os desaires da penuria e dos papeis publicos de Buenos Aires contra elle, que Luiz XVIII lhes perdoe, como tem feito a outros infelizes postos em caso identico. Os outros miseraveis, francezes livres, á força de experiencia e padecimentos da illusão que os trouxe á America, onde esperavam fazer um papel brilhante, ou tem tomado officios que os livrem da fome ou tem ido levar a outra parte os seus desejos e a sua superficialidade — mas, no meio della, a saudosa recordação do bem que passarão em Montevidéo á sombra da bandeira da S. M. (6 de agosto de 1819).

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Estendia assim o trabalho do seducção que exerceu até onde podia e por todos os modos por que podia. Era uma obstinação tenaz essa de consolidar pela confiança e pela paz e occupação que realizara pelas armas. E cada dia captava uma grande personalidade. A Herrara, que trouxera comsigo, junta-se Thomaz Garcia de Zuniga e mais Santiago Vasquez e Rivera e Lavalleja — a flor da sociedade e da bravura orientaes. Com subtileza procurava maneiras do render e conjugar — aqui o agrado, além o interesse. la dos magnatas aos camponezes. Não é sendo possivel occupar com força, simultaneamente toda a provincia de modo a não restar a menor esperança de successo ao inimigop, o que afinal faria a província “erma e devastada” com sacrifico doloroso de vida e notavel despesa, achava que somente poderia tirar-se proveito verdadeiro de “um systema politica e de meios que, atacando de frente as idéas geralmente recebidas nestes povos, lhes fizessem conhecer, á custa da persuasão e da sua propria experiencia” — o inccomodo de sua situação e os benefícios que lhes promettia. 
E minava e terreno inimigo, obtinha deserções, como a de Bausá.

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Manobrava Lecor essa sua politica de pacificação com força á vista, e mais a de neutralidade sympathica, contemporizaçao e observação com Buenos Aires. Mas as difficuldades e os contratempos lhe surgiam em barda. 
Mal passara o receio dos hespanhóes, mal a pacificação consolidando-se, se extendia, eis que surge a dessidencia em suas tropas divididas, por occasião da independencia do Brasil em tropas de Portugal, ao mando de D. Alvaro da Costa, e tropas brasileiras, que elle Lecor commandava. 
Este episodio custaria duplamente ao espirito e coração do Visconde de Laguna. Era a Divisão” que se scindia; eram antigos companheiros de armas e de combates feitos inimigos. E retirou-se de Montevidéo para assedial-o depois, obrigando a tropa lusa a embarcar-se rumo de Portugal. 
Amargou então desconfianças e intrigas, elle que fôra e era leal ao Brasil; e lêo asperas palavras du impetuoso imperador que o não comprehendia. a elle que, como disse, tomara uma “resolução que os homens de sua tempera tomam uma só vez na vida”, 'renunciando aos interesses de um paiz que vira nascer e o enchera de honras, e onde outras o esperavam, ligando-se ao vasto imparia do Brasil pela justiça da causa que abraçava”. 

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Venceo essa grande crise, que, entretanto, o desprestegiou. Retomou a pacificação e o trabalho da incorporação em que insistiu, crente de a conseguir. 
Não cuidava que os fieis que imaginava o abandonassem pela campanha que Lavalleja, os trinta e tres, emprehendiam com a mesma felicidade triumphal da nossa guerra contra Artigas. 
Veiu a guerra com a Argentina, confiadas as tropas a outro general. Surgiu a paz e a independeneia do Uruguay. Em breve o Visconde de Laguna deixava para compra o Estado Oriental que amara como um Criador. 

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A impressão que deixou Lecor no Prata foi a de fidalguia. Os testemunhos dos escriptores argentinos ou uruguayos accentuam-lhe os dons de seducção. Alberto Palomeque delle disso que tinha qualidades negativas para conquistador, guerreiro, mas em compensação era um “conquistador social, cavalheiro cultissimo, amante dos homens de trato affavel, attento ás damas, que aspirava a seduzir as filhos da terra incustrando-se no seio das familias por meio do seu astuto salina e da vinculação das hierarchias officiaes... buscando os homens de valor para attrahil-os á sua causa ou para tranquilisal-os detendo-os nos seus lares”. 
Berra, ao accentuar que o objectivo politico do Visconde de Laguna era accommodar-se quanto pudesse aos sentimentos e costumes do povo, como meio da se fazer tolerado e sympathico, affirma que elle isso procurou alcançar, fazendo observar ás suas tropas uma ordem que contrastava com “a barbara licencia” dos soldados que o haviam precedido, diligenciando para que os aras carreassem-Ihe a opinião dos parochianos, e fazendo os chefes e officiaes cultivarem relações com as familias montevideanas, com ellas contrahindo vinculos estreitos. 
E Zorilia de San Martin, cujo trabalho sobre Ortigas soffre dos enthusiasmos, nem sempre justos, do panegyristas exaltados em patriotismo, fala de Lecor como um “grão senhor”, um principe, um verdadeiro principe... um cortesão galante com as damas, mui apurado no vestir, olympico no olhar, uma sumptuosa pessoa”. 
Essas qualidades de distincção pessoal, de galanteria, e até de belleza ou dignidade physica ajudaram-no num expediente de conciliação e pacificação que, dizem aconselhava a seus officiaes, aos quaes ainda quis dar, elle proprio, um grande e gracioso exemplo, fazendo-se capitão do uma nova “ala dos namorados”.
Contam que eatimulava a seus commandados a que se unissem ás familias locaes, a que escolhessem esposas entre aquellas tantas o tão lindas raparigas orientaes, e ahi, em 1824, como me dá a certeza Escragnole Doria, desposava Lecor a D. Rosa Maria Josepha Herrera de Basevilbaso, jovem de apenas 18 annos, que vinha florae e perfumar a vida. tão asperamente vivida daquele militar que beirava os 60. 
Na meia idade dos homens, é commum tental-os o demonio encarnado em mulher. A Lecor, já passado do meio dia da existencia, tentou e venceu-o, não o diabo, mas um anjo que era quasi uma criança. 

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Não podemos julgar um homem e o que elle fez sem investigar as difficuldades e embaraços que lhe perturbaram a acção, e impediram ou retardaram a obtenção dos seus objectivos. 
A Lecor, desde o primeiro momento, sobraram estorvos. 
Começara a campanha militar sem cavallos e cartuchos; mantivera em disciplina forças muitas vezes sem roupa em sempre em grandes atrasos de soldo; em marco de 1825 tinha 4.314 praças sem fardamento a a 4,844 homens se daviam 375;000$000 da prets. soldos e gratificações; havia ter tacto e diligencia com facções locaes e com as das provincias vizinhas, e vigiar e conter as que se podiam formar em tropas, ou de tropas indisciplinadas e revoltas que lhe mandavam de Pernambuco ou da bahia, a despeito de seus miuusiosos e francos informes, nunca lhe enviaram, ou senão tarde e ás más horas, reforços que solicitava; não tinha dinheiro e algumas vezes lhe desmoralisavam o credito não aceitando as letras que emittia para alimentar a tropa, e sustentar o governo; era obrigado a lutar com militares de alto posto, que não comprehendiam ou não collaboravam na sua politica, irritando os locaes, mostrando preferencia por hespanhóes, como os marechaes Avilez, Pizarro e Silveira; era forçado a transigir com os do “conselho militar”, especie de governo collectivo de quarteis, que em Montevidéo se erigiu e a que se submetteu a principio por impossibilidade de resistir, e que foi enfraquecendo, desmoralizando, vencendo pela diuturna habilidade com que restaurava o perdido prestigio da hierachia militar. 
Quando chegou a grande crise da independencia brasileira e D. Alvaro da Costa chefiou as tropas lusas, chamava Lecor sobre si desconfianças e reprimendas, magoadoras de D. Pedro I, trabalhado por intrigas que achavam alimento em factos mal interpretados. Naquella dura occasião, fiel á independencia; que abraçara, elle poderia descrever as miseras contingencias em que se encontrava: – em campo e fazendo a serra áquellas mesmas forças que commandei, que conduzi á victoria e que me grangearam honras e considerações; necessitado de dividir-lhe a força, porque, de outro modo, se as minhas ainda agora são pequenas, muito menos seriam se aquellas chegassem a reunir-se; obrigado a guardar uma provncia incitada por mil brilhantes apparencias e poderosos alliciantes a repellir o nosso governo, e tudo isso quanto mais escassos eram os meios que eu tinha para o fazer; quand0 as tropas do meu commando contavam trinta e oito mezes de divida:, quando a sua longa estada neste paiz, contra os seus engajamentos, as trazia descontentes: sem polvora.
Venceu muitas destas difficuldades: a outras illudiu.
Sob o seu governo, brando e habil, a Cisplatina se conservou brasileira, e elle poude ser, como querias, um occupante que se fazia querido e obter a adhesâo dos espiritos e corações á incorporação definitiva que era o seu sonho. 
Outro faria melhor?
Ou só aquellas qualidades. que aqui estivemos vislumbrando podiam tanto conseguir?
Tudo é estudar aquella época e este homem. E por certo os que tiverem tempo de que não pude dispor, dirão maior numero de. coisas agradáveis que censuras que como humano. não lhe faltarão.

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Voltando ao Rio em principios de 1829 vinha repousar. Retornava cançado e com um sonho desfeit0. Não trazia á Corte a seguranç da união que promovera, a annexação por que pugnara. Sentia que a nova nação independente ia ser presa; ainda, por longo periodo da desordem e da violencia das facções. 
Tanto tempo perdido: tanto esforço em vão!...
Sempre ficara alguma coisa: que não é possivel que dez annos de tolerancia, sympathia humana, indulgencia, espirito de concordia nos dirigentes, não deixassem naquelle povo culto vestigios beneficios. 
O emissario-embaixador dc Buenos Aires — Garcia — encarando, pouco antes da partida de Lecor do Rio de Janeiro, a intervenção portuguesa no Prata, como salutar e nacessaria, dizia – “necessitamos la fuerza de un poder extrño no solo para terminar nuestra contenda, senon para formarmos un centro comun de autoridad, capaz de organisar el caos en que estn convertidas nuestras provincias” e pugnando por ella como meio de acabar com os males que causava o “caudillo de los anarquistas” media bem o que era a missão politico-militar de Lecor: – “esta es maniobra complicadissima y se necessita de la circumspeccion del mundo para salir sin disgracia”. 
Lecor teve essa circumspecção; e não soffreu essa desgraça. 

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E voltou á Côrte para descança[r]. 
Ao lado da esposa fiel viu crescer melancolias a velhice dois inactivos, e afinal chegou-lhe a morte, infallivel; na data de hoje, há um seculo. 
Os serviços que prestara mereciam premios grandes, mas os governos daquelles tempos, se em honras e titulos eram, ás vezes, liberaes mostravam-se avaros em pagas a que, entretanto, estavam obrigados. 
Lec0r recebera reiterados avisos (18 e 20 de dezembro de 1828) para se recolher á Côrte. Não havia, no porto do Rio Grande, onde estava, embarcação do guerra. Fretara a galera “Gentil Americana” e nella regressara com 11 officiaes, 22 cadetes, inferiores e soldados de diversos corpos. Vira-se forçado a pagar o afretamento desse barco; e ainda em 1833, não o havia o thesouro embolsado da divida que contrahira pelo governo. E recolhera- se á Côrte com uma fortuna de soldos a receber; nada medos que oitenta e cinco contos de réis.

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Commemorando esta ephemeride o Instituto quiz chamar a postos os estudiosos, estimular-lhes a attenção curiosa para a vida desse homem – cheia de factos e ensinamentos, o não raro tocada de bellesa e emotividade; e para a época em que servia elle ao nosso  paiz, periodo historico em que os actos de politica interna se cruzam com as intrigas da diplomacia, e os successos militares casam-se aos fastos agitados dos Povos vizinhos e irmãos.
Pude apenas sacudir a poeira que cobria os documentos; não me foi dado sequer lel-os — mas entrevi o que continham, e como uma homenagem a Lecor, que a merece, e como um serviço á verdade historica, desejaria aproveitar a opportunidade para pedir ao Instituto fizesse publicar na sua Revista os documentos que possue sobre o Visconde de Laguna e a campanha Cisplatina, assim como appellasse para os directores da Bibliotheca Nacional e do Archivo Nacional no sentido de o mesmo fazerem. 
Se esta minha iniciativa chegar a se converter em realidade poderei tranquillisar a minha consciencia inquieta da ousadia que aqui estou commettendo, pois terei contribuido para que outros, mais felizes, com todos os documentos á mão, façam o que eu faria agora, se pudesse (grandes e prolongados applausos).

Nada mais havendo a tratar o SR. CONDE DE AFFONSO CELSO (Presidente perpetuo), apresentando novamente seus cumprimentos ao Sr. Wanderley do Pinho pela brilhante conferencia e agradecendo a presença do selectissimo auditorio, levantou a sessão.

Levantou-se a sessão às 18 e meia horas.

LUIZ FELIPPE VIEIRA SOUTO
Segundo secretario.

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Fonte
- Fotocópias do Diario Official, n.º 200, 28 de Agosto de 1936, pp. 19020-19026, incluso na ficha do oficial Carlos Frederico Lecor, no Arquivo Histórico Militar.