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18 de setembro de 2017

Lecor, pelo capitão Seweloh, do 27.º de Caçadores (1827)


Nas suas Reminiscências da Campanha de 1827, o coronel Anton Adolph Friedrich von Seweloh, do 27.º Batalhão de Caçadores, Alemães, refere-se a Carlos Frederico Lecor colocando-o num estatuto quasi divino.  Não o faz com um propósito satírico, mas mostra a enorme reputação e influência do então já visconde da Laguna, não só nas Cisplatina, onde esteve quase 10 anos, como no Rio Grande. 

Lecor era uma espécie de caudilho, já se tem escrito muito sobre isso; Era, mas com a diferença que servia o imperador do Brasil, e, antes, o rei de Portugal. Ao ver-se afastado do cargo de comandante em chefe do Exército do Sul, como nos conta Seweloh, Lecor afasta-se e não instiga ações políticas, o que o distingue bastante dos caudilhos republicanos da antiga América espanhola.

Daí por dois anos, finalmente o visconde da Laguna se reforma e fixa residência no Rio de Janeiro, após 37 anos de carreira militar, sendo promovido a Marechal do Exército. O capitão von Seweloh faz de Lecor uma excelente impressão, quiçá exagerada em momentos, mas que reflete sobre a popularidade de Lecor no Rio Grande que é notada noutras fontes.

O marquês de Barbacena recebeu o comando em chefe do exercito das mãos do visconde da Laguna [finais de 1826], sendo este, sem duvida, um dos mais dignos, mais talentosos, mais instruídos, mais distintos comandantes do Brasil; julgo até não dizer de mais, colocando-o pelo menos no primeiro lugar entre os generais brasileiros, porque na Europa ou em qualquer outra parte do mundo poderia exercer seu elevado cargo com distinção, gloria e louros. Em toda a minha vida não encontrei homem tão geralmente estimado e venerado, a quem tanto poupasse a inveja, o espírito de censura.  

A província de Montevideu, por ele antes conquistada, o honrava como um pai venerando; a província do Rio Grande tinha nele uma confiança ilimitada; desde muito o esperava como um redentor; os homens ricos lhe entregavam seus cabedais e todos os dias lhe diziam que deles dispusesse como quisesse. Em poucos dias estavam centenas de carretas à sua disposição, e as tropas esfaimadas receberam dele em Santana [do Livramento] as primeiras provisões. 

O exercito o endeusava; ele era o objecto de suas preces, o objecto de seus votos, desejos e esperanças; não e possível pintar fiel e claramente tudo, a não ser que falemos dele como de um Deus. Abalava-me a presença daquele tipo, tão raro e cheio de comoção: recordo-me daquele tempo em que vi os habitantes da província de S. Pedro [do Rio Grande] se afadigarem por demonstrar seu amor ilimitado para com o mais digno guerreiro do Brasil. 

Já era um velho de 60 anos [62, mais concretamente]; tinha a nobre figura de um herói; em torno de sua bela cabeça, o céu colocara uma coroa de prata, como tão raras vezes é dada aos mortais; mas também não lhe faltava a energia nem a força; era um homem robusto, com a experiência e sabedoria de um ancião, o que é muito raro no Brasil, onde se vê muitos velhos de vigor juvenil e sem prudência alguma. 

Tal era o homem de quem o marquês de Barbacena tirou o comando. A este ultimo general precederam boatos muito desfavoráveis, unânimes e do lodos os lados repetidos, sendo necessária toda a prudência do visconde da Laguna, que recusou inclinar-se para qualquer dos muitos partidos dispostos a defende-lo e talvez muito perigosos; mas o digno general, servindo lealmente a um governo que tanto o maltratou, e por duas vezes o humilhou aos olhos de todos, não quis resistir; preferiu empregar a persuasão, a bondade, a amizade, o rigor, para debelar tudo quanto pudesse ser nocivo aos interesses de seu Imperador. 
Soldado, 27.º Batalhão de Caçadores (Ivan Wasth Rodrigues)

Fonte
SEWELOH, A. A. F., “Reminiscências da  Campanha de 1827 contra Buenos-Ayres”, Revista Trimestral do Instituto Historico, Geographico e Ethnographico do Brasil. Tomo XXXVII, Parte Primeira, Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1874. pp.399-462. Excerto adaptado e com ortografia modernizada. [LER]

7 de setembro de 2013

Herói da Brasileia Liberdade


Antes de mais, um pouco de poesia celebrando Lecor, Heroi da Brasilea Liberdade:

O anjo do Brasil então havia
Para as partes do Sul seu vôo erguido
Onde as tropas de Lisia ora regia
O portuguez Lecor, varão subido:
O Anjo em suas visceras ascendia
Seu fogo, e nelle já todo encendido
Se-dedicava, em sua intensidade,
Em favor da Brasilea Liberdade.

Mas prevendo este effeito o negro Abysmo,
Para as parte do Sul tambem voava
Com apressado vôo o Despostismo
Onde p’ra si desgraças encarava!
Voa com ele o mis’ro Servilismo,
Que neste empenho tanto o-ajudava!
E mal que nesse ponto ambos chegaram,
No esp’rito de Dom Alv’ro penetraram.

Tenta Lecor os seus ver dedicados
Ao Brasil onde, crê toda a justiça:
Mas aos lusos, por Alv’ro já ganhados,
Contra o Brasil o Servilismo atiça!
De Lecor os esforços são baldados,
Tanto póde de Alvaro a cobiça!
Deixou então Lecor seus companheiros,
Se-votando aos valentes Brasileiros!

Embora, ó luso, general honrado,
Com venturoso, e radiante effeito
Não fosse o teu esforço coroado,
O que tu viste com mortal despeito!
Tu serás no Brasil sempre lembrado
Por esse eterno, e glorioso feito!
Um nome te-concede a Eternidade
No templo da suprema Liberdade! 

in: Canto XI.
António Gonçalves Teixeira e Sousa, A Independência do Brasil – Poema Épico em 12 Cantos, 1855 (2.º Volume), RJ: Tip. 2 de Dezembro do P. Brito

28 de abril de 2012

O Último Comando de Lecor


A 18 de agosto de 1835, a meros 11 meses e meio da sua morte e contando quase 71 anos de idade, Carlos Frederico Lecor é nomeado Comandante Superior da Guarda Nacional do Município do Rio de Janeiro. Este é o seu último comando, sendo incerto se chegou a assumir as suas funções.

A Guarda Nacional, constituída pelas antigas 2.ª e 3.ª linhas (as Milícias e as Ordenanças), é fundada pela Regência a 15.8.1831, após a abdicação do Imperador D. Pedro I. Nesse contexto, a Guarda Nacional, tendo nas suas fileiras as classes mais abastadas, apareceu como uma forma de contrabalançar os possíveis ímpetos restauracionistas do Exército, constituído pelas classes mais baixas. Funcionava como uma força militarizada ao serviço dos órgãos do poder judiciário, desde o Ministério da Justiça aos juízes da paz e apenas assumia um caráter mais operacional, do ponto de vista militar, quando a 1.ª linha (o Imperial Exército) se encontrava em campanha.

Quatro anos após a fundação, é interessante que o Marechal Lecor se veja nomeado Comandante Supremo da Guarda Nacional na capital do império, pois demonstra claramente que apesar de ser nascido em Lisboa, e não ser brasileiro nato, era bastante considerado pelos poderes estabelecidos após a abdicação de D. Pedro para que um posto de tal confiança lhe fosse atribuído. 

Falamos de uma época histórica onde o partido brasileiro e o português (ou 'caramurú', ou restaurador), para além dos radicais, se degladiavam pelo poder. Apenas três anos antes, pela residência de Lecor e Rosa, sua esposa, junto à ponte do Aterrado, km e meio a oeste do que é hoje a Central do Brasil, passaram excitados, dando vivas a D. Pedro I, e voltaram derrotados e feridos uma partida de 100 homens liderados por um hanoveriano dito Barão de Bulow, tendo sido de permeio derrotados por 200 guardas municipais e outras forças, no Rossio (hoje Pç. Tiradentes).

Não sei se Lecor chegou a assumir este comando importante, pois as fontes indicam que ele faleceu após doença prolongada. Ainda assim, é de crer que sendo o cargo de relevância mais cerimonial que operacional, o velho soldado o tenha assumido nas oportunidades que a doença lhe terão aberto. Assim foi o último comando do nosso amigo Carlos Frederico.

Imagem
- Fuzileiros, Guarda Nacional (1840-1845), Ofic. Brito & Braga (fonte: wikicommons)

9 de maio de 2009

As Razões da 'Traição', ou porque Lecor passou a servir o novo Império do Brasil


Quem tem acompanhado este blogue, decerto já se terá deparado com uma das questões mais quentes acerca do homem Carlos Frederico Lecor:


Porque razão, em 1822, Lecor deixou de servir Portugal e passou a servir o novo Império Brasileiro?

Avancei, desde logo, algumas hipóteses, mas nada será melhor do que ler as próprias palavras do homem por trás da decisão.

A 1 de Junho de 1823, em Canelones, enquanto liderava o cerco a Montevidéu e aos remanescentes da Divisão de Voluntários Reais (então liderados por D. Álvaro da Costa), Carlos Frederico escreveu uma carta ao Ministro José Bonifácio Andrada e Silva.
Esta carta é um verdadeiro desabafo de alma, razão pela qual a transcrevo integralmente, pese embora a sua grande extensão, para que o caro leitor possa aferir e responder por si mesmo à pergunta.

Ela é transcrita a partir da obra Lecor e a Cisplatina do General Paulo Queirós Duarte, publicada pela Biblioteca do Exército. Está no volume II e vai das páginas 507 a 510. O 2.º e 3.º parágrafos são particularmente elucidativos à questão em mãos, mas toda a carta merece uma leitura.



Tive a honra de receber a muito lisongeira e polida Carta que V.Exa. se dignou distinguir-me, fazendo o favor, que devidamente preso, de se me dirigir particularmente e em confidência, e tratando-me com expressões que até, se eu as merecesse, seriam boas, para me encherem de vãs glórias, e a que não tenho outro direito, senão o que se funda no mais ardente desejo de que me venham bem; e como V.Exa. quando assim me fala tem por objeto principal a Glória das Armas de Sua Majestade Imperial, e a Dignidade e Independência do Grande Brasil, contemplando-me sobremaneira, mas com muita justiça, em me julgar empenhado intimamente, e com todas as minhas potências, em tão Grandiosa Empresa, não haverá para estranhar que seja eu tão franco e leal com V.Exa., como V.Exa. tão nobremente o foi comigo: no quadro que V.Exa. vai ver, achará o que eu sou, e quando me pintarem a V.Exa. com outras cores, poderá V.Exa. conhecer a diferença que há do original.


Quando eu renunciei aos interesses de um País, que me viu nascer, que me enchera de Honras, e onde outras me esperavam, e me liguei aos do Vasto Império do Brasil, tive em vista não só a justiça da Causa Sagrada que abraçava, mas o convencimento de que assim defendia os legítimos direitos do Herdeiro do Trono Português contra os planos evasivos do partido Espanhol, dominante nas Cortes de Lisboa, e porque no duro cativeiro de S.M.F. nada me parecia mais digno do que obedecer a Seu Augusto Filho, cujas virtudes e sublimes qualidades eu admirava: toda esta resolução, que é das que os homens da minha têmpera tomam uma só vez na vida, estava decidida a minha sorte, e quaisquer que fossem as alternativas da Política, elas já nada tinham comigo.


Então principiei para mim uma nova época na Carreira Política, e quase que me esqueci de todos os serviços que tinha rendido em mais de trinta anos de trabalho efetivo para, também, me esquecer dos sensabores e amarguras que eles me custaram, e se alguma vez recordava as contradições, que na minha complicada Comissão havia encontrado da parte de meus Subalternos, que me embaraçavam com uma Política oposta à minha; da parte do inimigo, que era necessário bater, e contemplar para que esta Província não ficasse um ermo, e nós todos por Canibais; da parte do passado Ministério pela impaciência com que ele, muito de longe do teatro da ação, queria forçar acontecimentos, que só tempo e paciência podiam fazer favoráveis, e porque alguma vez deu mais por vozes vagas, e acaso filhas de interesse particulares, do que pelas minhas informações oficiais; e da parte de vários outros agentes, que tiveram a influência de me mortificarem, era só para ter a consolação de dizer "bem, já tudo isto se acabou".


Esta não era a minha única satisfação, eu também cheguei a lisonjear-me, e V.Exa. me perdoará a presunção, de que sabida por S.M.I., e pelo seu Ilustrado Ministério a minha dedicação, e boa vontade, haviam os meus desvelos de procurar-me contentamentos na estação derradeira da minha existência, e não deixavam de me confirmar nesta persuasão documentos autênticos em Nome do Nosso Amável Imperador.


É verdade que várias Providências tomadas pela Repartição de V .Exa., e entre elas a da Comissão, que devia cuidar dos negócios deste País, ao passo que muito as respeitava, me causavam a maior penalidade; porque tinham um lado, que desgraçadamente foi o do maior e único efeito prejudicial aos Interesses do Império e de S.M., enquanto autorizam os outros, que me deviam respeitar, ou em mim deviam confiar, a faltar-me, e a pensarem, que eu era suspeito ao Ministério, e que ele desconfiava, ou fazia triste idéia das minhas operações; e sobre a Comissão, já que nada deverei ocultar a V.Exa., vem a propósito dizer que se ela não tem feito quanto mal podia, é porque eu o conheci em tempo, e o tenho, e continuarei a impedir.


O Síndico Procurador estava pelo seu lugar nas circunstâncias em que o considera a Comissão, e tudo o que ele me propusesse a bem do Império e desta Província seria por mim feito, como se fazia antes da Comissão; mas nem por isso aparecia a minha autoridade cerceada e vulnerável, nem estava ninguém fundado para julgar que S.M.I. tinha receios de mim.


O Brigadeiro Manoel Marques de Souza sempre manteve comigo a melhor inteligência, e se como Militar obedecia as minhas ordens, nunca por ele me foi proposta coisa que eu não aprovasse, em tudo isto porém era; conservada a ordem militar.


É bem certo que depois da Comissão, salva a minha quebra na opinião pública, se tem continuado o necessário equilíbrio entre mim, o Síndico Procurador e o Brigadeiro Marques; mas Exmo.Sr., há quem perdeu a cabeça na Comissão, porque esta o tirou da sua esfera, e desejarei que algum lance de firmeza da minha parte, e que opiniões absurdas me arrancaram, basta para acalmar a vertigem e assim me veja eu dispensado de desabonar, perante V.Exa., indivíduos que tanto devem à Nação, e que parece preferirem aos interesses dela os seus particulares: tudo isto porém eu ainda combinava, conhecendo, que em Política, posto que seja injusto, é prudente viver desconfiando em casos arriscados, e tomar providências de cautela, que o risco autorize, e por tanto naquelas circunstâncias do Brasil, eu me resignava a que se desconfiasse de um General europeu, que se achava à testa da Força européia, atacada de opiniões exaltadas, e peninsulares; quando porém chegou à minha mão a respeitável Carta Imperial, datada de vinte e oito de janeiro p.p., publicada no Diário do Governo n.º 53, fiquei aniquilado, e confesso a V.Exa. que naquele momento me julguei o homem mais infeliz do Universo; porque não podia evitar que o desagrado que S.M.I. me intimava fosse transcendente aos negócios públicos, a mim confiados, e ao melhor proveito do Seu Imperial Serviço, como já sucede, havendo-se aqui desenvolvido, desde aquela ocasião, um dispersível conciliábulo, cujos incansáveis trabalhos e diligências têm por fim declamar contra quantos eu faço, levar as Tropas à insubordinação e ao levantamento, exagerando-lhes a sua paciência e sofrimentos, e compadecendo-se farisaicamente das suas poucas comodidades, e forcejando por continuar a insurreição da gente da Campanha, louvando e detalhando os muitos melhoramentos de que esta Província é capaz, como são Universidades, Fábricas, Pontes, Canais e outras Grandezas e Estabelecimentos, que há na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos!!! e carregando a mim e ao Síndico Procurador a falta deles, como provam aos seus prosélitos, com o frisante contexto da veneranda citada Carta Imperial: V.Exa. diz bem que só com grandeza de alma e sacrifícios se levam ao cabo grandes projetos; porém, Exmo.Sr., o meu espírito não é tão forte, nem tão elevadas as minhas faculdades, que me não causassem o mais vivo sentimento as veementes reconvenções de S.M.I., mais ainda porque a minha consciência as não deixava recear; para ela é que eu apelei na minha angústia, e a direitura do meu procedimento me tem dado forças para esperar que o tempo e a mesma ordem dos acontecimentos convençam a S.M.I. e a V.Exa. de que, se eu não mereço elogios, é tão crítica a minha posição, que deve escusar-me de reprimenda. Em campo, e fazendo a Guerra àquelas mesmas Tropas, que comandei, que conduzi à Vitória, e que me granjeariam honras e considerações; necessitado a dividir-lhes as forças, porque de outro modo, se as minhas ainda agora são pequenas, muito menores seriam, se àquelas chegassem a reunir-se; obrigado a guardar uma Providência, incitada por mil brilhantes aparências, e poderosos aliciantes a repelir o nosso Governo. e tudo isto quando mais escassos eram os meios que eu tinha para o fazer; quando a sua longa estada neste País contra os seus engajamentos as trazia descontentes; sem pólvora; sem cartuchame; sem barracas; sem armamentos de reserva; porque a precipitação, com que saí de Montevidéu, para cumprir as ordens de S.M.I., nada disto me deixou tirar, e que por certo tiraria, como naquela ocasião disse ao Síndico Procurador, e ao Brigadeiro Manoel Marques, se não tivesse que satisfazer as desconfianças que de mim havia, e que a minha Carta a S.M.I., ainda Príncipe Regente, devia ter desvanecido, e sacrificar assim o tempo, que precisava para salvar os dois Batalhões de Libertos; para extrair da Praça quanto conviesse às minhas Tropas, e quanto cumpria subtrair-se às da Divisão, e para tomar várias outras providências, cuja falta cada dia ha de ir sendo mais sensível, e rodeado de outros mil embaraços, que talvez ainda me veja no caso particularizara V.Exa., quando acabe de me decidira não tomar sobre mim faltas alheias; e por cúmulo de males suspendido o aceite das minhas letras, de que ainda a nudez das Tropas se está ressentindo, e que maiores males teria causado a não serem os sacrifícios crédito de D.Tomás Garcia: são circunstâncias que se clamam para quem está no meio delas, ao menos aquele favor, que é indispensável para que ele desempenhe a Comissão que lhe está incumbida: a obsequiosa Carta de V.Exa. e a muito fiel informação, que o Coronel Flangini me tem dado dos esforços incansáveis de V.Exa. pelo Grande Brasil, e pelo Esplendor do Império e a segurança da generosa vontade com que V.Exa. deseja que lhe fale com franqueza, me tem animado a ser tão sincero com V.Exa. que não hei de deixar mal posta a confiança cavalheira com que V.Exa. me abona, eque serei muito feliz se a continuara merecer de V.Exa. para mim, e para as minhas informações, no que me empenha, não minha pessoal reputação, mas sim a das Armas de S.M.I., que tanto quero, e me interessa promover, e que não devo expor, nem exporei, sempre que esteja convencido de que elas podem sofrer um desar, que nas atuais circunstâncias do Brasil e deste Estado é prudente e até necessário evitar; embora me fosse aqui dito oficialmente "que a S.M.I. no es doloroso ningún sacrificio de Ias fuerzas que el Poderoso ha depositado en Sus Reales Manos", asserção que de qualquer modo tomada é para mim absolutamente falsa, e nada conforme ao conhecimento que tenho do Caráter Paternal de S.M.I., que se muito zela os interesses de seus súditos, e muito mais preza o sangue deles, e seguramente me demandaria a mais pequena gota vertida, se outro arbítrio a pudesse poupar; esta é a minha resolução, quais quer que sejam as opiniões das pessoas que por aqui pensem de outro modo: porque estão livres da responsabilidade que sobre mim pesa e, que se pesasse sobre elas, seriam menos pianistas e mais comedidas em criticar as minhas operações, até invocando o Nome de S.M.I. e do Ministério, para semearem nesta Província a divisão e o descontentamento, e acaso a reduzirem ao estado de desordem em que, para seus fins, a desejam, e que para desautorizarem o que os outros fazem, e dar-se importância, facilitam as coisas mais difíceis, porque têm o suficiente descaramento para não se envergonharem, quando o resultado é contra elas e as desmascara.


O meu fim é acertar, nem a outras fortunas eu aspiro, e par dar a V.Exa. disto prova mais convincente, fiz o que nenhum General deve fazer; consultei os meus subalternos em matérias de que o Comandante-Chefe nunca lhes deve dar satisfações, e sobre que, se ouve alguém direta, e positivamente, ou não tem plano, e obra ao acaso, ou arrisca tudo, porque franqueia o segredo das suas operações; e pela cópia, cujo original levo à Soberana Presença de S.M.I., pela Secretaria d'Estado dos Negócio da Guerra, verá V.Exa. qual é, sobre o procedimento que deve aqui haver, a opinião das pessoas que têm responsabilidade, que estão sobre os acontecimentos, que hão de trabalhar, e que têm toda a honra, meios e vontade para bem o fazer, e poderá V.Exa. compará-Ia com a charlatanaria das que só esperam tirar lucro da vitória, e não participar dos riscos e perigos dela.


Para concluir, só me resta dizer a V.Exa. que assim como assegurei a Sua Majestade Fidelíssima que havia de conseguir mais breve do que pensava, e sem grandes males, a Pacificação, que me estava encarregada, quando toda a gente, que enganava o Ministério, criticava a torto e a direita as minhas disposições, assim também espero, e não sem fundamento positivo, ver-me livre da Divisão de Voluntários Reais e restabelecer a boa ordem nesta Província, apesar da Comissão, dentro de pouco tempo, e sem grande efusão de sangue.



As reflexões que V.Exa. se serviu enviar-me não me são novas, como outras que a V.Exa. terei a honra de elevar; mas V.Exa. sabe que, nas circunstâncias em que eu me tenho achado, não pode, sem milagre, fazer-se tudo o que é preciso, e de que me ocuparei quanto caiba nas minhas forças e nos meios que estiverem à minha disposição.

16 de março de 2009

Leituras Cibernáuticas IV - História da Campanha do Sul de 1827

Qualquer historiador amador e sem dinheiro (os profissionais e endinheirados também, na verdade, mas não é o meu caso) deverão estar sempre com o olho nas novidades do Google Livros e do Archive.org.

Ora, anteontem, encontrei a mais fresca novidade em torno de Lecor, uma preciosidade acerca da Guerra da Cisplatina (Esp.: Guerra del Brasil) de 1825-1828, escrita por Eunápio Deiró (o autor não consta da ficha do livro, mas identifiquei-o facilmente). Fundamentalmente, o livro versa sobre os acontecimentos de 1827 e sobre a batalha do Passo do Rosário (ou Ituizangó),em 27 de Fevereiro de 1827, uma pequena grande derrota.

Interessante mesmo é que este livro foi escrito por um Barbacenista, isto é, claramente um apoiante do Marquês de Barbacena, Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta. (1772-1842) Não portanto um dos meus, pois eu sou, e o leitor já claramente percebeu, um Lecoriano. Defeitos pessoais e públicos à parte, ao menos Lecor era um soldado verdadeiro, enquanto o Barbacena era um bom diplomata, favorito da amante do Imperador, mas não, de facto, um soldado no verdadeiro sentido da palavra, muito menos um comandante.

Ora, na História Brasileira retunda ainda o frio encontro entre as duas personagens a 26 de Novembro de 1826, na Vila do Rio Grande, quando Lecor rendeu o comando do Exército do Sul a Barbacena, assim como a recusa posterior de D. Pedro I em receber Lecor.

Passaram 14 meses até que Lecor, que havia humildemente aguentado todo o desprezo que a Côrte lhe havia oferecido, torna ao comando do Exército do Sul, para gáudio, diga-se, da população gaúcha, que ao contrário da capital sabia agradecer.

Ora, o caríssimo leitor queira perdoar as minhas palavras, acaso seja barbacenista, ou até mesmo se não for, mas as ondas desta polémica chegam a este ano de 2009 e pela pena deste que vos escreve, não cessarão senão pela atribuição da verdadeira importância de Carlos Frederico Lecor, que, apesar de ter nascido em Portugal, serviu distintamente o Brasil quando o Brasil mais dele precisou.

História da Campanha do Sul em 1827 (Separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 3.º Trimestre, 1886)
Eunápio Deiró [visite aqui]

9 de setembro de 2008

A Polémica da Traição

Uma das problemáticas em qualquer esforço biográfico acerca de Carlos Frederico Lecor é quando se chega aos acontecimentos de 1822 e 1823, na Cisplatina, e que envolvem a deserção de bastantes portugueses e tomada do serviço ao nóvel Império Brasileiro. Para os portugueses, uma traição; para os brasileiros, uma tomada de posição heroica, um dos seus pais fundadores.

Aproveito estarmos em Setembro, mês da independência brasileira, para falar disto, um pouco apenas, pensando em voz alta (no passo dia 7, o Brasil cumpriu 186 anos de independência).

Não estando na cabeça de Lecor nesses anos, apenas poderei especular educadamente a razão pela qual ele deixou o serviço português e abraçou a causa independentista brasileira. É óbvio também que não foram apenas acontecimentos isolados, mas toda a sua vivência, que o levaram a abraçar o novo país.

Alguns autores apontam para uma pretensão por parte do governo português de trocar a Cisplatina por Olivença, negócio a fazer com Espanha e que resultaria na volta da potência colonizadora ibérica à Banda Oriental, em revolta desde, pelo menos, 1811. Este rumor terá inicialmente destinado Lecor a desligar-se do seu país.

A minha questão, no entanto, é saber até que ponto o pensamento político de Lecor não será a chave desta questão. A independência do Brasil está intimamente ligada à burguesia mercantil brasileira, à sua relação com a Inglaterra e, fundamentalmente, com o espírito liberal da época.

Poderemos também especular que a classe a que Lecor pertencia não lhe oferecia uma ligação forte à terra, acumulando isso com uma carreira militar errante, sem domicílio fixo. Também é de notar que Lecor vinha de uma família de imigrantes, mercadores estrangeiros que se haviam fixado em Portugal há menos de um século.

Por outro lado, há que tomar em conta uma veia conservadora em Lecor, que o terá feito, de certa forma, hostil às Cortes de Lisboa, as mesmas que planeavam a troca da Cisplatina. Muitos encontram no Brasil um refúgio do liberalismo selvagem da burguesia lisboeta e portuense. Muitos viram ainda em D. Pedro um líder forte, ao contrário do temeroso D. João VI, agora refém de Lisboa.

De notar que a presença das Cortes não se manifestava apenas em cartas e pressões do outro lado do Atlântico, mas das mais próximas pressões dos seus próprios subordinados da Divisão de Voluntários Reais, que frequentemente se amotinavam aos mais variados níveis, mesmo um dos seus coroneis, Claudino Pimentel, comandante do 1.º Regimento de Infantaria, em 1821, e que culminou na criação do Conselho Militar - que Lecor, a contra gosto, aceitou.

Pedindo desde já desculpa ao caro Leitor pela caoticidade destas minhas linhas, prometo em breve lançar-me mais consistentemente à descoberta deste período, armando uma interpretação mais coerente.

28 de abril de 2008

Gravura

Esta gravura, da autoria de José Wasth Rodrigues, com base numa fotografia de um quadro a óleo de colecção privada, mostra um Carlos Frederico Lecor mais velho, provavelmente no final da década de 1820, inícios da de 1830.

Apesar disso, claras são a grande maioria das condecorações e ordens que leva ao peito, se bem que abro espaço de discussão aqui:

Suspensas do pescoço:
- (por cima) Medalha de distinção da Cisplatina (ou do Exército do Sul) (também chamada Medalha do Barão de Laguna);
- (por baixo) Ordem Militar de Aviz

No peito esquerdo:
- Ordem do Cruzeiro (Império do Brasil);
- Ordem de Aviz (presumo que a versão brasileira);
- Ordem da Torre e Espada (Portugal).
- (suspensa) Cruz da Guerra Peninsular.

No peito esquerdo:
- Desconhecida (muito provavelmente uma medalha espanhola com relação a alguma das batalhas em que Lecor participou).

De qualquer forma, aqui fica mais uma imgem do militar com uma pose mais intimista, onde se nota uma espécie de sorriso.